As Luzes de Leonor
Raízes
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Brites Fernandes, que cuida da casa desde que os seus senhores foram presos, entra devagar nos aposentos de D. Leonor de Távora, de quem há tantos anos é dama de companhia. A sua marquesa, como encobertamente a trata levada pelo muito tempo de convivência e conivência diárias, pelos interstícios de uma intimidade imbricada de suores e de dores, de risos e de mênstruos amparados por panos que ela recolhera das duas. E mais tarde placentas, mucos sanguinolentos, contracções e dores dos partos a que lhe assistira ao longo dos anos. Ajudada pelas rezas e promessas à Virgem, mistura de ervas colhidas às sextas-feiras dias treze, e em segredo pisadas num pequeno almofariz de prata. Rosa-de-jericó com a raiz mergulhada numa taça de água posta à cabeceira.
Conhece-lhe também os soluços mordidos de raiva contra a fraqueza do choro, a par da violência intacta das iras que desde criança a tomam e atormentam, como se fossem alimento da sua vontade de ferro. Escutara-lhe os gritos mas igualmente os desabafos, confissões de açodamentos e mágoas, de alvoroços e penas, aprendendo sem custo a entrançá-las: tristezas, equívocos e perplexidades. Procurando a cumplicidade e a amizade uma da outra, apesar da distância dos mundos diversos em que o nascimento as colocara, embora tendo crescido juntas.
Ambas passando pelo mesmo ao longo da vida.
Ao aperceber-se do perfume dela enovelado no ar, mistura rara de açucenas e lírios, enchem-se-lhe os olhos de lágrimas contidas a custo por via daquilo que ali fora fazer, no cumprimento da sua última vontade que lhe chegara em forma de demanda, pequeno bilhete que a fidalga conseguira passar para fora da Quinta do Meio onde está sob prisão desde a véspera.
Entreabre só um pouco as portadas de madeira das janelas que dão para a larga varanda de mármore de um branco de leite coalhado, parapeito raiado por finos veios de um tom dormente de camélia desmaiada, a esbater-se mais quando o sol lhe bate ao cair do meio-dia. Vira-se e olha o oratório ao fundo, meio encoberto ao abrigo dos cortinados de brocado entreabertos; dá dois passos inseguros na direcção do pequeno altar diante do qual curva a cabeça, pulso ao de leve apoiado no cimo macio do genuflexório de pau-santo com embutidos e forrado a veludo vermelho escuro. Disposta a satisfazer o pedido da sua ama:
Esconder o Cristo de marfim antes da previsível chegada dos enviados de Sebastião José a saquear os despojos, e guardá-lo até poder, sem levantar suspeitas, entregá-lo à sua neta Leonor de Almeida, prisioneira com a mãe e a irmã no convento de São Félix, no vale de Chelas.
À frente de Brites Fernandes, sobre o pano de seda da Índia bordado a cheio, franja de ouro antigo desfiado, está o grande crucifixo de madeira de tília, tendo nele pregado um Cristo de marfim chorando rubis mínimos ao longo das faces cavadas, sangue que do mesmo modo lhe escorre pela testa larga onde se enterram, por entre os castanhos cabelos lisos, os espinhos aguçados de uma coroa entrançada. Preciosas gotas ressumbrando ainda na fissura estreita de uma chaga aberta, do lado onde se revolve o coração sob o glabro peito liso.
Antes de alongar o braço para o retirar do seu sítio, Brites Fernandes curva de novo a cabeça e persigna-se com os dedos rígidos pela friagem intensa, distraída porém com as velas e os pavios que, numa prolongada preguiça, se movem tão imperceptivelmente que dir-se-iam imóveis no cimo do azeite das lamparinas de prata que, tal como os círios, ela continua a substituir e a manter acesos.
Finalmente adianta a mão indecisa. O suor a perlar-lhe a fronte apesar do frio que se faz sentir por toda a casa, como se um vento glaciar por ela circulasse.
Escuta a madeira que estala, o turbilhão da tempestade lá fora a rolar violenta, os ramos das árvores fustigando as vidraças, o uivo alto dos cães a adivinhar desgraça maior do que aquela que parece já ter tomado posse de tudo.
Sobressalta-se. E desconfiada olha de novo em torno, antes de avançar numa súbita pressa desabrida, esforçando-se por não deixar o corpo tomar o movimento cobarde do recuo. Parece-lhe ouvir nas lajes do corredor os passos cardados dos guardas do marquês de Pombal a virem buscá-la, mulher de confiança da marquesa de Távora.
Encolhe-se mais. Costas curvadas sob o vestido cinzento que, à luz das amareladas chamas trémulas, parece enfunar-se um pouco nas omoplatas, sem contudo suspender o gesto das mãos, que continuam em frente até aflorar o crucifixo que retira do lugar. Ajeitando depois os outros santos, de modo a iludir a falta da imagem que leva consigo apertada aos seios, a coberto do xaile de lã.
Largo e escuro como uma asa.
Num passo vacilante regressa no rasto invisível dos passos que dera até ali: respiração descompassada, lividez acentuando as rugas do rosto magro e a intensificar o bistre das olheiras. Só ganhando alento quando se sabe a salvo no resguardo e aconchego do próprio quarto, indo de imediato colocar o crucifixo no pequeno oratório, ao lado da Nossa Senhora da Conceição de manto azul-celeste de cetim, que ela mesma costurara e lhe vestira. Afastando com cuidado supersticioso a imagem de Santa Catarina de Sena, de quem é devota.
Persigna-se quando se ajoelha, terço com contas de osso, a tropeçarem ásperas por entre os seus dedos crispados, disposta a passar rezando as curtas horas que restam de vida a D. Leonor de Távora. Ambas escutando, em lugares opostos da cidade, a procela em fúria que nas ruas anda solta por entre as trevas da noite, de onde toda e qualquer claridade é arredada pelo eclipse da lua. Brites Fernandes entende ser esse o modo que Deus encontrara para expressar a sua discordância do crime brutal prestes a consumar-se em Belém.
A madrugada, a tomar corpo na chuva cerrada e na ira do rio encrespado, irá encontrá-la desacordada no chão encerado para onde o corpo exausto escorregara.
Ao longo da sua cara lívida as lágrimas ainda não secaram.
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