As Luzes de Leonor
Diário
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«Princesa – Conta-me o que sabes que sucedeu a José Seabra.
Eu – Dizem que tem ordem para não vir ao Paço.
P – Ainda bem.
Eu – O que me admira é que Vossa Alteza me pergunte uma novidade desta natureza e que não a saiba do Príncipe.
P – Não te admires porque ele não me diz nada, e arrenegava-se muito com o meu cunhado D. José por dizer a minha tia D. Maria Francisca Benedita. Não acha bom que as mulheres se metam nos negócios.
Eu – Deus nos livre que Sua Alteza não tenha sempre a saúde que eu lhe desejo, mas se adoecer quem há-de reger este Reino? Este ofício é muito grande, e não consta que Deus lhe unisse como ao Apostolado a ciência infusa, e a desgraça dos Povos vem sempre da inexperiência dos Príncipes.
P – Isso é certo, não sei porque me desviam do Conselho, parece-me que o Duque não tem vontade que eu lá entre.
Eu – Por essa mesma razão deve Vossa Alteza Real fazer toda a diligência por lá entrar, porque se o Duque é a pessoa imediata ao seu marido, fica Vossa Alteza a terceira, e marido e mulher devem ser metade um do outro.»
Lisboa, 28 de Julho de 1799
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José Seabra da Silva estava consciente dos perigos que corria ao opor-se à decisão de D. João de autonomear-se Príncipe Regente, na sequência do diagnóstico de loucura irreversível da Rainha D. Maria assinado pelos físicos da Corte. Fundamentando-se o ministro do Reino no princípio de que a regência só pode ser assumida em Cortes, que teriam de ser de imediato convocadas.
Portanto nem se admirou ao receber a carta de demissão, juntamente com a ordem de desterro para a sua quinta na Figueira da Foz, o que ele cumpriu escrupulosamente. Tal como já havia feito muito tempo atrás, quando o rei D. José, manobrado pelo seu primeiro-ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, que até aí fora seu protector, o destituiu de todos os cargos que ocupava, exilando-o, para de seguida o mandar prender.
Passados que foram tantos anos, José Seabra da Silva, seguro de ter razão, continuava incapaz de dar o dito por não dito, nem de recuar nas suas posições. Por isso isolara-se de bom grado, embora sabendo-se mais uma vez injustiçado.
Admiradora das pessoas corajosas e honestas, Leonor gosta de quem guarda ideais e princípios, prezando a sua dignidade. E porque também aprecia José Seabra da Silva desde que ele protegera Bocage, ao vê-lo afastado do seu cargo de ministro do Reino e exilado, não esconde que lamenta, por Portugal, a perda de um político honesto, inteligente e culto.
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Há que usar de arte e de sageza.
Num trabalho de argúcia.
Há que jogar com artimanha e inteligência, tentando virar a sorte para o lado necessário, e para isso Leonor não utiliza apenas a linhagem do nome, que aliás durante os primeiros anos de vida lhe trouxera tanta desgraça, mas igualmente o facto de ter sido valida da Rainha D. Maria e a dama preferida de D. Maria Francisca Benedita, a princesa viúva.
Mas Leonor faz sobretudo gosto em trabalhar a seu favor com discernimento e inteligência, sem nunca esquecer o brilho que lhe auferem as Luzes e o raro dom de escrever poesia. Poemas com os quais a Princesa Real gosta de abrilhantar os saraus que promove no Palácio de Queluz, ou levando-a consigo para os recitar e participar com lustro em jogos poéticos, quando vai até à Real Quinta de Caxias, a banhos nas Caldas ou caçar em Salvaterra e na tapada de Mafra.
Onde as damas fúteis e sedutoras brincam à cabra-cega com os fidalgos melancólicos, que gostam de as surpreender prendendo-as pelas cinturas estreitas, e sem lhes desatarem as vendas as arrastam consigo para interiores penumbrosos onde a folhagem se adensa. De onde regressam afogueadas e em desalinho, estonteadas, a querem refrescar-se com limonadas e groselhas, ou tentando prolongar em vão nos lábios escaldantes o travo acidulado dos sorvetes.
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Minha Mãe olha-me nos olhos, a afastar-me dela com o toque da sua mão delgada, tomando-me ao de leve mas com firmeza a curva do braço, nele descendo até me agarrar o pulso e nele formar uma espécie de algema com os dedos firmes; e mais uma vez diante da sua implacável inclemência, estremeço e tremo nos meus alicerces e fundações.
Julgando-me eu conhecedora da causa primeira da sua dureza ou indiferença, agastada a meu respeito sempre que a minha presença desgraciosa lhe é imposta.
Abissal diferença cavada entre nós duas.
Hostilidade que sentimos diante uma da outra, a torná-la a ela cruel e agressiva, e a mim tolhendo-me frente ao que imagino ser o seu julgamento e decepção, espécie de acusação muda diante da minha falta de brilho junto ao seu muito cintilar. Destituída de suficientes qualidades e atributos de beleza para ser sua filha.
A rejeitar-me.
E nem no dia de hoje, em que a minha mão lhe está a ser pedida, me poupa à sua frieza, num sublinhar das nossas divergências cada vez maiores à medida que os anos passam.
Procuro João pela fímbria dos olhos, e encontro-o solitário do outro lado do salão, escudando-se na sombra junto ao piano, a fitar-me ansioso, pressentindo-me a aflição. Atencioso mas distante, encantador na estranheza da sua conduta tão diversa do modo de ser dos outros fidalgos. E não tendo eu dote que se veja, lisonjeia-me saber da sua inclinação por mim, sem embuste nem intenção interesseira.
Ignoro se o que me torna para ele atractiva é o meu alheamento e reserva nimbada de tristeza em que habitualmente mergulho, ou a minha óbvia doçura e sensibilidade esquiva. Inadvertidamente seduzo-o, segundo ele mesmo confessa – desde o primeiro dia em que nos conhecemos numa cavalhada, onde eu fora contrariando as minhas inclinações e gostos, mas no cumprimento da obediência devida a minha Mãe, apesar de na altura me ter atrevido a reclamar:
– Vossa Excelência não me respeita os gostos nem as vontades!
Nessa mesma tarde encontrei João de Mascarenhas e depressa me dei conta de inclinações e atitudes da sua parte no que a mim dizia respeito. Atenção contida mas persistente a construir-se à minha volta como se fosse um cerco urdido com cautela, numa mescla de persistência delicada e entrega recolhida, de melancolia a condizer com aquela que eu mesma sinto.
E foi como num sonho que o escutei a murmurar-me num enleio de apaixonado:
– Não conheço palavras de amor suficientemente fortes, Leonor Benedita, para vos dar conta da minha desmedida paixão!
O anel de pérolas e de diamantes que hoje me deu como penhor da nossa ligação e amor, quer fazer-me acreditar na promessa de felicidade que o nosso casamento, dias antes de eu completar vinte anos, me trará no futuro.
No entanto continuo a duvidar do destino.
Vacilando aturdida, diante do medo da entrega, sem conseguir acreditar na felicidade.
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Está ameno o último outono do século XVIII.
Tentando amainar as desconfianças do Príncipe Regente a seu respeito, e o próprio descontentamento agreste, Carlota Joaquina demora-se pelas tardes quentes de um Outubro ruivo e tão aquietado em docilidade, que mais parece começo de verão amodorrado pelas malaguenhas e as modinhas brasileiras com que se entretêm as jovens fidalgas frequentadoras da Corte, algumas delas validas da Princesa Real.
Nos seus aposentos, a Rainha D. Maria escuta agradada o riso descompassado e alegre que lhe chega pelas janelas entreabertas, a imaginar as infantas, os jovens que se passeiam pelas áleas dos limoeiros doces, gargalhada solta a desencadear os gritos estrídulos dos pássaros aprisionados nas enormes gaiolas douradas. Assim como o esvoaçar aturdido dos periquitos nos aposentos das princesas.
A angústia chega-lhe no rugido inconformado das feras que, de um lado ao outro das jaulas, incessantemente parecem medir o cativeiro com o seu passo de agilidade domada. Espaços exíguos onde se encontram trancadas, e onde àquela hora bate de chapa o impiedoso sol do meio-dia.
A Soberana arrepia-se apesar do calor, e manda que fechem as janelas antes que nela se venha instalar o caos que reconhece no urro impotente, quase gemido enrouquecido da pantera e dos tigres, dos leões enjaulados que ela por vezes escuta nos seus pesadelos.
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No dia do seu casamento Leonor Benedita faz questão de usar a pulseira de diamantes e ametistas deixada em testamento pela avó que a criou. Vestido cor de jasmim cintado, véu longo e translúcido como uma nuvem presa aos seus cabelos soltos por um diadema de pérolas e rubis, que vibram nos caracóis escuros.
«Tão pálida!» –, admira-se Juliana, que começara a arranjá-la logo de manhã bem cedo, ajudada por Thérèse, e que depois de a ver vestida lhe alinda a expressão macerada, a suavizar-lhe os traços da tristeza, a disfarçar-lhe o bistre das olheiras, a amargura dos lábios, enquanto entusiasmada vai fazendo planos para o seu próprio e próximo casamento com José Maria, embora sempre pense nele e o refira aos outros como conde de Ega, galante e sedutor com a sua benevolência e segurança de homem mais velho, de que ela tanto gosta.
Leonor Benedita não sabe explicar-lhes como está feliz.
Nem como equivocamente se sente triste.
E quando o avô a vem buscar, para com ela subir a nave central da igreja e a entregar a D. João de Mascarenhas, chora mansamente no seu ombro, com grande consternação de Leonor, que mais uma vez não entende o comportamento irracional da filha mais velha.
Indiferente à irritação dela, o marquês de Alorna acaricia a neta, que ama e conhece como ninguém mais; ciente dos seus nervos débeis, da necessidade de carinho, da insegurança diante da mãe. E com cuidado desce-lhe ele mesmo o véu diáfano sobre o rosto angustiado, põe-lhe a mão no seu braço, onde ela logo se ampara, ajudando-a depois a entrar na carruagem, a caminho de Benfica.
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Quando Leonor vai à Corte o Príncipe D. João sempre a evita. Nesse dia, porém, parece procurá-la, para lhe dizer com uma vivacidade irónica, brilho malicioso no olhar habitualmente mortiço:
– A senhora Condessa, que já viveu em França, gostará certamente de saber que Napoleão Bonaparte se auto-elegeu Primeiro Cônsul…
Verdadeiramente espantada, Leonor dá conta deste encontro forçado a D. Carlota Joaquina. E esta, soerguendo-se nas almofadas onde se encosta, solta uma gargalhada e explica-lhe:
– O Príncipe estava a comunicar-vos o que desejava poder dizer publicamente, mas sem coragem para tanto. Ao referir-vos o facto de Napoleão se ter auto-elegido Primeiro Cônsul de França, pretendia, a seu modo, justificar a sua autonomeação como Príncipe Regente…
E a Princesa Real, em vez de se exaltar como de costume, parece divertir-se com os embustes e os ardis do marido, encostando-se de novo nas almofadas de seda e cetim em vários tons de fúcsia. Leonor, entretanto, sem motivo aparente, sente o dia ensombrar-se. Lembra-se bem do que acerca de Napoleão lhe tem mandado dizer Germaine de Staël