As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 44 de 289

Páginas do PDF

As Luzes de Leonor

Memória

 

Tento respirar fundo o ar quente vindo das janelas escancaradas sobre a tarde a entornar-se no jardim, do qual emanam fragrâncias distintas: o aroma raiado das rosas, o ardente perfume da madressilva, o cheiro intenso da glicínia com os seus longos cachos de flores azul-violáceas temperadas de lilás, o rugoso odor do rosmaninho. Tal como quando transpus finalmente os altos e grossos umbrais da porta do convento de Chelas, passo a língua pelos lábios secos, como se quisesse beber o gosto tamanho da intensidade da natureza que sempre me levou à vertigem.

Perseguindo hoje a memória desses dias inesquecíveis, quando, sôfrega, tentava recuperar a liberdade perdida durante quase dezoito anos, através de tentações e deslumbramentos, na desconhecida alegria de correr pelos caminhos, pelas azinhagas, a cortar caminho pelos atalhos da Quinta dos Nabais em Almeirim.

Jamais senti algo comparável ao prazer que me dava o vento a desprender-me os cabelos dos ganchos de prata, das travessas de tartaruga e marfim, nem o de correr descalça, saias erguidas acima dos joelhos para atravessar os riachos, escorregando nas pedras largas e lisas; e ao chegar a primavera, os banhos tomados às escondidas, quase nua, no rio de transparências facetadas, sol a aquecer-me estendida no xaile de seda rubra, pálpebras de malva descidas, olhos fechados a escutar os pássaros.

Nessa época, que sede tinha de claridade!

Claridade esplendorosa à mistura com o perfume intenso que as rosas dispostas em grandes vasos de porcelana entornavam na penumbra da casa, durante as longas tardes em que preguiçava com um livro entreaberto no colo, escrevendo nos meus cadernos ou sonhando sentada ao piano.

Desobrigada das rezas e do som repetitivo do sino a assinalar as horas canónicas, andava então aturdida pelo esplendor da luz que descobrira do outro lado das grades, longe das obscuridades cediças e das humidades sombrias.

Depois foi o reencontro com Carlos Augusto de Oeynhausen nos serenins do Palácio Real de Almeirim, onde a convite da rainha D. Maria passei o verão de 1777, a tomar o meu lugar na Corte. E o nosso namoro, desde o início contrariado por meu Pai, relutante, feroz, autoritário.

Usando da serenidade à qual a razão me levava, tentei ainda refrear-lhe com habilidade as iras incontidas, desse modo evitando o atropelo das ideias e dos actos impensados no tornear dos obstáculos sentimentais, sabendo utilizar a meu favor o verdadeiro afecto que me dedicava a Rainha.

A minha determinação no sentido de não aceitar as ordens de meu Pai, que me queria casar com quem eu não gostava, salvou-me de ser uma mulher infeliz para o resto da vida como aconteceu com Maria.

Firmeza mantida por mim com especial afinco, e que desde sempre causou raiva e surpresa a quem pretendeu controlar-me o passo, conduzir-me as ideias, dominar-me a vontade, submeter-me o pensamento. Na tentativa de me governarem tanto os sentimentos como a razão.

Mesmo agora, diante da minha inquietude e desassossego, se sobressaltam, se alarmam, se perturbam.

Incrédulos diante dos ideais mantidos intactos, tal como os princípios por mim defendidos como primordiais, determinantes da minha vida, juntamente com o gosto pela liberdade:

o conhecimento, o estudo e a poesia.

As Luzes.

OceanofPDF.com