As Luzes de Leonor
Diário
Passa grande parte das tardes na companhia de Claire Lacombe, de Jacques Delille e dos seus amigos escritores, pintores e poetas, levantando dúvidas, discutindo, falando do que os entusiasma, mas também do que os preocupa ou francamente temem. Depois de Claire subir à tribuna e discursar com entusiasmo republicano, saem dos salões onde se abafa de calor e de odores pesados, a fim de irem sentar-se nos pequenos bistrots do porto de Marselha, a respirarem com prazer o hálito salgado do Mediterrâneo, acabando quase sempre por admitirem o óbvio: apesar de continuarem a estranhar e a temer muito daquilo que vêem e escutam, a filosofia, os princípios subjacentes às atitudes revolucionárias entusiasmam-nos, arrebatam-nos.
No entanto, todos os dias, Leonor demora-se mais no medo.
– Porque não queres partir, Nelly, e tornamos a Portugal? – pergunta-lhe, assustado, Carlos Augusto.
Mas como pode Leonor explicar-lhe que enquanto a metade medrosa dela recua e se inquieta, a outra metade se rebela, se extasia, pretendendo ir mais longe, passando todas as fronteiras, infringindo todas as regras, galgando todas as margens?
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DIÁRIO
Os poemas, que nunca me abandonam, perturbam-me agora os dias, pois tanto me salvam transportando-me nas suas asas de Uriel, permitindo-me subir com elas a ganhar força e altura, como me incendeiam e precipitam do cimo.
Uma coisa é certa, a minha vida perdeu a paz. Nada mais será como dantes. A arte, a escrita, os livros, já não me bastam.
Em mim despertou a mulher política.
Marselha, 1789
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São muitos os relatos que lhe fazem.
Factos que acontecem ou inventam: Leonor nunca sabe, sem conseguir discerni-los, destrinçá-los no emaranhado uns dos outros.
De Caen chega-lhe uma história que a faz estremecer e lhe revolve o estômago: o major Belsunce, que um dia conhecera de passagem, fora morto a tiro quando ia preso e vaiado pelo povo, que desprezava. Bala a dilacerar-lhe o lado esquerdo do peito, farda manchada de sangue vivo e quente do corpo perplexo a tombar inerte para a frente, a encolher-se no final da queda. No rosto quase perfeito, consta ter ficado gravado um pequeno sorriso altivo e ligeiramente surpreso.
Leonor recorda-lhe a beleza híbrida, simultaneamente feminina e máscula, num entrançado ambíguo: os olhos velados de um intenso azul-violeta, a contrastar com as sobrancelhas e as espessas e compridas pestanas nocturnas, de uma escuridade árdua, a sombrear-lhe a face de pele lisa e muito pálida, onde sobressaía a boca ávida, provocadora e impertinente, na qual se adivinhava uma crueldade nefasta.
Depois de ter caído, atingido à queima-roupa, as muitas mulheres que ele violara – diz-se – despiram-no com cuidados de seda e sede; em seguida, deitaram-no sobre as pedras enlameadas da rua, e com a ajuda das unhas afiadas ou partidas, roídas pelo sabugo, com as navalhas, as lâminas frias das facas, os punhais que traziam à cintura ou nas ligas pretas das meias de retrós,
dilaceraram-no.
Devagar, com a exactidão dos cuidados femininos, abriram-lhe o peito de cima a baixo, um traço muito fino onde mal parecia ressumar o sangue, desde o final da alta haste do pescoço até lhe aflorar a mata densa, macia e luxuriosa do púbis que todas elas conheciam. Usando de uma rigorosa precisão cirúrgica, afastaram cada uma dessas duas partes para o lado, como se fosse a corola de uma flor, e trouxeram para fora o coração de rubi intacto ainda quente, a senti-lo palpitar no côncavo das palmas das mãos. Em seguida cortaram-no em pedaços muito pequenos para o dividirem entre elas. E agachadas em círculo, à roda dele, comeram-no.
Devagar, com um extraordinário requinte.
Apetite.
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Carlos Augusto sempre que pode afasta-se dos confrontos.
Prudentemente, foge ao encontro que os deputados de Marselha querem marcar com ele.
Sobretudo teme comprometer-se.
Aterra-o a exaltação que pressente arrastar consigo o gesto da mudança. Finge ignorar a ameaça a cercá-los, dia após dia, com a sua insídia, e do mesmo modo pretende esquecer a febre e o excesso dos olhos de Leonor de quem está cansado, saudoso de ter perto de si a passividade das mulheres de quem logo se aborrece, mas procura e encontra, em casos amorosos breves e sem história.
Acordam-no de noite os gritos, as palavras de ordem, os cânticos revolucionários daqueles que passam na rua tomados pelo entusiasmo. E quando durante a madrugada tudo finalmente se acalma, volta-se na cama e adormece sem qualquer sobressalto.
Atordoado com tudo o que se passa à sua roda.
Cauteloso, prefere guardar a distância.
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Ao chegar a casa nesse fim de tarde as filhas apercebem-lhe a tristeza, a pele macilenta, os cabelos em desordem, canudos e caracóis desmanchados a escaparem por debaixo do chapéu de fitas desatadas. E quando Leonor entrega a Thèrése a capa preta em que se embrulha, reparam no seu fato vermelho-cereja amachucado, amassado.
Só então as meninas dão conta de que ela parece mais forte; e sem pó nem carmim inúteis, o rosto dela está naturalmente rosado, acusando a pressa com que subira as escadas, ansiosa por chegar aos seus aposentos, onde se tranca para fugir aos remoques de Carlos Augusto, que tem por hábito acusá-la dos atrasos e das omissões, a pedir-lhe contas dos regressos tardios. Mas como desta vez não o encontra, descontrai-se, deixa mesmo entrar as crianças, que ficam silenciosas encostadas à parede a vê-la levar as mãos às têmporas, num gesto de fadiga.
Apercebendo-a tranquila, Frederica agarra Juliana pelo braço e sem ruído recuam, cuidando não tropeçarem em nada, delgadinhas nos vestidos iguais de fazenda inglesa cinzenta, abotoados nas costas com pequenos botões forrados e golas de veludo azul-cobalto. Sem atentar nas meninas, furtivas, que se demoram a espiá-la do vão da porta, meio encobertas já pela sombra espessa do corredor sem luz, Leonor deixa-se enlear nos próprios pensamentos, nas dúvidas e incertezas.
O ar adensa-se com o perfume a gardénia do seu corpo, mas Juliana detecta ainda o odor almiscarado da pequena gota de néctar insidiosa, que a mãe tem por hábito pôr nos pulsos frágeis. E é essa mistura de cremes, de suor e de perfumes, que a seduz.
Sem reparar nas meninas a fitá-la, ocultas e imóveis na penumbra, Leonor começa a despir-se enquanto Thèrése lhe prepara o banho na tina colocada a um canto do quarto, por trás de um biombo japonês de laca, canários e raminhos de marfim incrustados.
Frederica e Juliana não se movem, fascinadas, mas os disparos que inesperadamente rompem a acalmia do crepúsculo fazem-nas sobressaltar e encolher-se de susto, a soltarem um pequeníssimo silvo mal abafado pela língua afilada de uma delas, a denunciá-las. E antes que a mãe impaciente as enxote, Juliana escapa-se, sentindo nas costas os dedos crispados e nervosos da irmã seguindo-a na corrida.
Já mergulhada na água perfumada a cobrir-lhe a nudez, Leonor distende-se; o sabonete de benjoim e baunilha a dissolver-se devagar no fundo da banheira onde se afunda, por entre as suas compridas pernas brancas descuidadamente desunidas.
As pálpebras a tornarem-se pesadas.
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Afinal é a retracção do gesto a traí-la; a pureza da fala demasiado escorreita; a sobriedade a demandar o olhar espantado, com a própria finura.
Espreitam-na em vez de a fitarem de frente, nos olhos, onde a esperança arrepiada assoma durante um pequeníssimo segundo. Não conhece ninguém à sua volta e impacienta-a a ligeireza e a futilidade com que ultimamente a liberdade e a igualdade passaram a ser tratadas em diversos pontos de França; princípios demasiado importantes para se discutirem irracionalmente, com violência e leviandade.
Prudente, Leonor sabe ocultar o entusiasmo quando o sente a ganhar-lhe o rosto, cuidando em guardá-lo inexpressivo, a raiar a indiferença.
Recolhe-se dentro de si mesma.
Força as mãos esguias a permanecerem imóveis na celebração do aplauso com o qual nas assembleias o povo sublinha as ideias revolucionárias. Reparam-lhe no gesto resguardado junto ao corpo, a dissimular-lhe o voo na gentileza do movimento a domar-se a si mesmo; no orgulho do porte, a fazê-la endireitar os ombros e a cabeça de onde os cabelos singelamente descaem na mansa curvatura da nuca.
No meio dos revolucionários Leonor é a excrescência, a excepção, o sublime a fazer a gentileza de onde o encanto brota.
E ali permanece, embora contrafeita.
Inteireza com que se expõe: isso constitui a estranheza em que eles reparam e lhes é impossível ignorar.
Sabem portanto onde ela está sempre.
No dia em que a cercam, empurram-na até à parede.
E aí param.
Chamam-lhe estrangeira e cabra como tratam a Rainha, sentem-na esquiva mas não atemorizada com a rudeza ou a grosseria do trato, a envergonhá-los com a sua delicadeza, com a sua beleza tamanha; embora a desconheçam.
Não lhe tocam, não a travam, nem ela pretende fugir ou justificar a sua presença constante entre eles: na rua, nas assembleias, nas praças. Leonor não cede em nada a fim de lhe ser perdoada a fidalguia, a impedi-la de ser a revolucionária que tem consciência de não ser.
Quando se desenvencilha da imobilidade tolhedora finalmente avança, e eles, silenciosos e inquietantes, abrem alas sem dela desviarem o olhar atento, consentindo-lhe contudo a passagem, um pouco hirta no andar miúdo, recusando-se no susto e no medo.
Nesse exacto momento termina o seu sonho de mudança.
Começa a encarar o regresso a Portugal.
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Delille procura Leonor às primeiras horas da manhã, olhar raiado de sangue de quem varou em branco a noite e a madrugada.
– Em Nîmes corre sangue nas ruas!
Olha-o sem espanto, escutando aquilo que há meses teme.
– Onde está o ideal que deveria alimentar a revolução? – perguntara-lhe na véspera, atordoada com os acontecimentos que se vão multiplicando por toda a França, fazendo-a sentir medo, pois sem ter a seu lado aquelas que lhe haviam emprestado a sua ousadia e coragem, cada vez mais está ficando fraca, frágil e indecisa.
Desconhece-se de novo.
As cartas que Théroigne lhe escreve não lhe bastam, ela falta-lhe; há também os bilhetes apressados de Germaine de Staël, tal como os poemas e os panfletos enviados por Olympe de Gouges, meros alentos que bebe sôfrega, sequiosa dessa água. Então, por umas escassas semanas o entusiasmo visita-a, no entanto depressa se esvaindo. Esgueirando-se sem arte nem dignidade.
Deixando-a vazia.
Tem vergonha de confessá-lo a si própria, mas a verdade é que no Midi o povo ganha e a revolução avança, fazendo-a sentir-se ameaçada.
– E Forment não faz nada? – indaga num arroubo de zanga, desconfiando ter sido ele quem mandara cobardemente disparar sobre o povo desarmado.
Tudo tinha acontecido no domingo, oitavo do Corpo de Deus.
Dia treze.
E ela, que sempre condenara os supersticiosos, instintivamente estremece. Preocupado, Carlos Augusto querendo saber mais pormenores, vai procurar alguns dos deputados de Marselha, e quando regressa está pálido e preocupado.
Entretanto, na companhia inquieta de Jacques Delille, Leonor percorre os habituais lugares de discussão, no Clube e na Assembleia, nas esquinas das ruas e no centro das praças.
Escuta os oradores, de longe, temerosa.
Novamente cindida.
Procurando pela última vez um pretexto para ficar em França, mudando finalmente de vida. Mas, sabendo-a estrangeira e fidalga, à sua chegada eles calam-se, mantendo-a à distância.
– Há uma fragata a zarpar na próxima semana. Se quisermos leva-nos a Lisboa – acaba por lhe dizer Carlos Augusto, durante a insónia que os mantém acordados.
Leonor sobressalta-se e cala-se, sem encontrar argumentos válidos, sólidos, para opor à sua proposta sensata; ciente de que, com o seu silêncio, está a abandonar a França, deixando para trás os ideais em que apesar de tudo acredita. Trocando o prazer da mudança e da fraternidade pela banalidade da segurança de um Portugal, onde o tempo parece ter-se imobilizado para sempre.
Consciente de quanto nele o sonho é limitado.
Apoucado.
Aquietado e acrisolado em torno de si mesmo.
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