As Luzes de Leonor
Memória
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Pudesse ter adivinhado que os anos passados na Áustria iriam ser, em grande parte, marcados por desmanchos e partos, hemorragias e meses de guardar resguardo, e não teria lutado para que fosse entregue a Carlos Augusto o cargo de embaixador em Viena, cidade onde a sorte me pareceu empenhada em atrasar-me a vida, em empurrar-me para o desequilíbrio.
Recusando, porém, a tentação da quietude e da banalidade no aceite de uma maternidade contrita, e lutando para não cair no desânimo e na tristeza que sempre vinham junto com os partos, comecei a sair em busca da transparência da luz matizada pelo Danúbio.
Na descoberta das ruas, tomando gosto ao ar livre cortava um por um os liames que me ligavam à obscuridade da casa – cisterna onde as mulheres se afundam, perdendo o contacto com as diversidades do mundo. E se nas longas noites buscava com entusiasmo nos salões literários o inebriamento do debate e da discussão que me permitiam aguçar o brilho da inteligência,
foi por ter chegado a temer perder-me na alienação e na apatia de um universo unicamente cortado pelo choro e pelos gritos das crianças, por entre o cheiro a azedo dos babetes bolsados, o acre ácido das fezes, da urina das fraldas e dos cueiros sujos.
Distanciava-me assim dos aposentos das crianças, entregando-as aos suspeitos critérios das amas, contrariando os princípios colhidos de Rousseau.
Mas só as grandes caminhadas ao longo do Danúbio aliviavam a minha tensão e a desilusão daqueles dias apagados. Pouco a pouco regressei à pintura, à reflexão, ao estudo, e finalmente à poesia, a salvar-me da depressão,
a encher os dias de conhecimento.
De Luz.
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