As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 199 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

Leonor faz-lhe a vontade, dirige-se depressa para a porta do quarto sombrio onde a mãe, erguida nas almofadas, se debruça trémula e acusadora apoiada no ombro magrinho da neta.

Há um brilho de lâmina de faca no olhar materno.

 

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DIÁRIO

 

Como poderei recomeçar aqui a minha vida? – pergunto-me, confusa, sentindo-me desabrida e cindida, presa que continuo do fascínio pela revolução francesa de que me vão chegando notícias perturbadoras através das sobressaltadas cartas de Théroigne, dos bilhetes tranquilos de Sophie de Condorcet e dos especialmente imaginativos relatos de Germaine de Staël. Os mais contidos são os enviados por Suzanne Necker.

Não, não me é fácil trocar o brilho francês pela opacidade nacional, menos ainda me parece justo ter de encarar com naturalidade o absoluto vazio que, equivocamente, vejo avolumar-se no nosso país sem esperança; conhecendo eu, como conheço, a bordadura de um miserável e lusitano destino feminino, continuando as mulheres a terem de usar modos ardilosos para imporem as suas ideias, fazerem vingar os seus pontos de vista.

Por outro lado, tento inutilmente ultrapassar a grosseria portuguesa, contra a qual sempre me insurgi mas que agora me parece intolerável; na quase impossibilidade de quem saiu há pouco do interior da Luz, onde a mudança está a acontecer.

Dou-me conta, por vezes, dos olhos turvados da Rainha D. Maria a mirarem-me, como se tentasse adivinhar nas minhas atitudes falsamente temperadas tudo aquilo de que a vinda de França me priva. Jamais revelando eu, seja a quem for, as febres nocturnas, os versos inacabados, sem que as musas se compadeçam de mim, sem nenhum lenitivo para amenizar o vazio que me consome.

Revolvo-me na cama, noites e noites em claro, coração em sobressalto; o corpo pesado não encontra posição a preparar-se a custo para mais um parto.

Consciente eu de estar a aniquilar o próprio sonho.

Lisboa, 25 de Novembro de 1789

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Pegam na menina acabada de nascer, agarram-na pelos pés minúsculos, cabecinha lisa pendurada perto das pernas que Leonor mantém escancaradas e subidas, camisa enrodilhada na cintura, molhada de suores, de sangues e águas cediças.

Em seguida, mostram-lhe Luiza Joana Carolina.

Tal como acaba de sair de dentro dela: coberta de sucos e de sangues, pequena e frágil, face muito bela parecendo adormecida; cordão umbilical ainda por cortar, elo que as mantém unidas, fio de Ariane entre a própria vida e o interior obscuro do corpo materno.

Ambas em desamparo.

Vagamente oscilantes, no silêncio que teima em tornar-se cada vez mais profundo e ao qual a menina, apaziguada, não se apressa a pôr termo. Percebendo no entanto que ela respira normalmente, Leonor não permite que lhe batam para a fazerem chorar. Coraçãozinho a pulsar tranquilo, Luiza julga-se ainda a vogar nos líquidos uterinos.

Mas logo a desassossegam, a acordam, ao lavarem-na, ao vestirem-na com a sua primeira camisa de cambraia, cueiro cor-de-rosa coberto de rendas de teia e folhos com a macieza de cetim.

Quando a entregam a Leonor, os pequenos dedos fecham-se em torno dos dela, deitada a seu lado nos lençóis da cama entretanto trocados.