As Luzes de Leonor
Raízes
†
São perto das onze e meia do dia 3 de Setembro de 1758, noite cálida e sem ventos que arrefeçam o corpo. Teresa, apoiada no cotovelo nu, vê o Rei subir as calças e ajustá-las sobre o ventre flácido. Sentira-o preocupado durante todo o tempo, ela própria assustada com a ideia de voltar para casa, sabendo-se espiada e ameaçada pelos sogros, enquanto Luís Bernardo seu marido nem lhe dá pela falta, adormecido no leito que os dois ainda partilham apesar da feroz oposição de Leonor de Távora, certa da infidelidade da sua nora e cunhada.
Com as pernas nervosas Teresa atira para trás as cobertas leves e os lençóis a cheirarem a cravo e às folhas secas que mandara espalhar sob a travesseira a fim de disfarçar o mau cheiro das feridas purulentas das pernas do Rei.
– Porque não fica Vossa Majestade mais um pouco junto de mim? – pergunta, langorosa, entornando os longos cabelos no ombro dele, onde encosta a cabeça inclinada fingindo um sentimento que lhe foge. Mas D. José está inquieto. Encontra-se de luto pela morte de sua irmã D. Maria Bárbara, e o protocolo da Corte impõe que em tais circunstâncias a Família Real não saia do Paço. Por isso viera ao encontro da condessa nova de Távora na sege do sargento-mor Pedro Teixeira, homem de sua inteira confiança e braço direito do marquês de Pombal. Aliás, fora sempre ele quem cuidara de manter na sombra as suas aventuras e encontros clandestinos.
Beija Teresa na boca ávida, deslizando os dedos na sua face morena e, enquanto ela cobre a nudez com a coberta macia, D. José parte cheio de estranhos pressentimentos, como se fossem de aviso. Ainda se volta para trás, a tempo de ver no grande espelho o reflexo da coxa morena da marquesa nova a abotoar a saia de sombra do vestido azul-hortênsia, depois de ter calçado as meias de seda, fazendo-as deslizar na lonjura das pernas altas. Ansioso por se voltar, ele baixa a cabeça e afasta-se a custo, encapuzado no seu manto negro.
O boleeiro Custódio da Costa admira-se ao vê-lo sair mais cedo do que é habitual. Logo depois recebe do sargento-mor o sinal de partida, e seguem a caminho do Paço.
«Indo a sege a passo até ao arco que fica junto das casas da Quinta do Meio para o norte, ou Pátio das Vacas, depois de dobrar a esquina vi aparecerem vultos a cavalo» – dirá ele mais tarde ao ser interrogado, temeroso face à desconfiança que sente nascer perante as suas palavras.
Talvez por isso acrescente, tentando uma maior precisão:
«Ao tempo em que a sege ia passar por baixo desse arco saíram-nos ao caminho três homens a cavalo e de cara tapada. Como já se ouviam os tiros, fiz os machos correrem para que não nos acertassem. Deixando para trás o arco onde tudo se encontrava na maior escureza, rumámos para junto das casas da Quinta do Meio, julgando que aí nos salvávamos.»
Mais tarde haverá quem afirme terem sido três as esperas para nessa noite assassinarem o Rei. O cocheiro, no entanto, contrariará esta versão da desgraça acontecida:
«Foram duas as esperas, traiçoeiras, de caso pensado. Muito perigosa a dos cavaleiros que nos seguiram e voltaram a aparecer um pouco mais acima, da parte do muro novo, de onde nos acertaram com dois tiros de clavina, que atravessaram as madeiras do espaldar do carro, nele abrindo dois grandes buracos, indo rasgar as vestes de El-Rei e perfurar-lhe o ombro e o braço, também as costas e o flanco direito. Estando eu já ferido, esperei novas emboscadas, escutando os gemidos de Sua Majestade que eu supunha estar amparado pelo senhor sargento-mor Pedro Teixeira.»
Pára a tomar fôlego, olha à roda a ver o efeito das suas palavras e, apercebendo-se de que persiste a descrença, continua, desalentado:
«Mandou-me o senhor sargento-mor voltar pela Calçada Grande, que está por fora dos quartéis do Regimento de Infantaria e das Reais cavalariças, a caminho da casa do Cirurgião-Mor, para onde guiei já mais à vontade, pois tudo ali me parecia calmo. Era bastante tarde quando as feridas de Sua Majestade foram limpas e tratadas, e já manhã alta quando conduzi o nosso Real Senhor de volta ao Paço, onde entrámos pela porta dos fundos, mas dessa vez escoltados por um corpo de dragões. Ordenou-me Sua Alteza que guardasse forte segredo de tudo o que se passara na véspera, o que eu fiz até à presente data.»
Depois, o boleeiro Custódio da Costa cala-se e fica cabisbaixo diante da expressão ameaçadora de quem o interroga com a maior aspereza, considerando que, apesar dos pormenores, o relato dele se mantém demasiado confuso.
Embora perceba a dúvida com que fora escutado devido à imprecisão do que descrevera, teme inventar mais do que se recorda, e amodorra-se: cabeça encolhida entre os ombros, a magicar na marquesa nova, que na noite do atentado divisara encostada ao vidro da janela de olhos fitos em El-Rei, até este entrar na carro. Prefere apesar de tudo permanecer calado, pois se por um lado receia ser preso caso não adiante nada de importante, por outro lado teme que o matem caso continue falando.
Perguntam-lhe se não teria enxergado entre os assaltantes o marquês de Távora ou alguém da família. Sobressaltado com o rumo do interrogatório, Custódio da Costa teima e repete não ter tido tempo nem tino para alcançar com a vista mais do que já dissera. Fora tudo tão inesperado e rápido que só pensara em fugir, salvando-se e salvando o Rei consigo.
E nenhuma outra fala se lhe solta.
Aterrado.
No entanto, lembra-se de há meses atrás se ter cruzado no pátio do Palácio de Madeira com os marqueses de Távora. D. Leonor, olhos de anil iluminados pela indignação. Erguera ela então a ponta do vestido de seda verde-esmeralda enquanto andava, reafirmando exasperada: «Não me arrependo de nada, Francisco! Não me arrependo de nada do que acabo de dizer a El-Rei!»
Recorda-se bem de como o orgulho lhe incendiava o rosto oval, e de como as suas mãos crispadas erguiam a saia enquanto subia para a carruagem, recusando os dedos entrelaçados do estribeiro para que neles apoiasse o pé calçado de cetim e lantejoulas. Mas tudo isto o boleeiro silencia, sem conseguir destrinçar ele mesmo porque se cala.
Talvez por ter adivinhado uma imensa tristeza sob o incendiado gelo do seu olhar violeta, que durante escassos segundos D. Leonor de Távora
permitira que se cruzasse com o dele.
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