Mulheres

Charles Bukowski · Capítulo 129 de 247

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Mulheres

Liguei outra vez. «Querida...»

Ela desligou. Quando voltei a ligar, o telefone estava fora do gancho: bzzzz, bzzzz, bzzzz...

Estendi-me na cama. O telefone tocou.

«Tammie...»

«Hank, é a Valerie. Acabo de chegar a casa. Quero prevenir-te de que o teu carro está parado em frente da pizzaria, com a porta aberta.»

«Obrigado, Valerie, mas não consigo fechar a porta. Há uma cadeira cravada no pára-brisas.»

«Oh, não reparei nisso.»

«Obrigado pela tua chamada.»

Adormeci. Tive um sono agitado. Eles iam levar-me o Volks.

Levantei-me às seis e vinte da manhã, vesti-me e fui à pizzaria. O carro ainda estava lá. O sol estava a nascer.

Entrei no carro e puxei a cadeira. Não se mexeu. Eu estava furioso, comecei a puxá-la por todos os lados e blasfemava. Quanto mais difícil parecia, mais louco eu ficava. De repente ouvi a madeira rachar-se. Senti-me com forças e inspirado. Um bocado de madeira partiu-se nas minhas mãos. Olhei para ele, lancei-o para a rua e voltei ao trabalho. Partiu-se um outro bocado. Os dias passados na fábrica, os dias passados a descarregar vagões, a transportar caixas de peixe congelado, a carregar aos ombros gado assassinado, estavam longe. Eu sempre fui forte, mas igualmente preguiçoso. Agora estava a fazer a cadeira em bocados. Consegui por fim tirá-la do carro. Acabei por destruí-la no parque de estacionamento. Parti-a aos bocados, fi-la em pedaços. Apanhei os pedaços e empilhei-os em frente dum jardim.

Entrei para o Volks e encontrei um lugar vazio perto da minha casa. Tudo o que tinha a fazer era procurar uma casa de acessórios, em Santa Fe Avenue, e comprar um novo pára-brisas. Isso podia esperar. Entrei em casa, bebi dois copos de água gelada e fui para a cama.

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Passaram-se quatro ou cinco dias. O telefone tocou. Era Tammie.

«O que queres?», perguntei.

«Escuta, Hank. Conheces aquela pequena ponte que se atravessa para ir para casa da minha mãe?»

«Sim.»

«Bem, mesmo ao lado, há uma loja de leilões. Fui lá e vi uma máquina de escrever. São só vinte notas e está em bom estado. Por favor, compra-ma, Hank.»

«Para que queres uma máquina de escrever?»

«Bom, eu nunca te disse, mas sempre quis ser escritora.»

«Tammie...»

«Por favor, Hank, é a última coisa que te peço. Serei sempre tua amiga.»

«Não.»

«Hank.»

«Oh, merda, bem, está bem.»

«Encontro-te na ponte dentro de quinze minutos. Quero despachar-me antes que alguém a compre. Encontrei um novo apartamento e Filbert e o meu irmão estão a ajudar-me na mudança...»

Tammie não estava na ponte nem em quinze nem em vinte e cinco minutos. Entrei para o carro e fui até a casa da mãe dela. Filbert estava a carregar caixas para o carro de Tammie. Não me viu. Parei um pouco mais à frente.

Tammie saiu de casa e viu o meu Volks. Filbert entrou para o seu carro. Tinha um Volks amarelo. Tammie fez-lhe sinal e disse: «Até logo!».

Desceu a rua ao meu encontro. Quando estava perto do meu carro, estendeu-se no meio da estrada e ali ficou. Depois levantou-se, caminhou até ao meu carro e entrou.

Arranquei. Filbert estava sentado no seu carro. Fiz-lhe adeus quando parti. Não me respondeu. Os seus olhos estavam tristes. Para ele, era o começo.

«Sabes», disse Tammie, «agora estou com o Filbert.»

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