Mulheres
A voz dela era jovem e sensual.
«Escrevi algumas coisas boas.»
«Eu sei, eu sei. Você teve mesmo todas aquelas ligações com mulheres?»
«Sim.»
«Eu também escrevo. Vi-o em L. A. e gostava de conhecê-lo. Gostava de mostrar-lhe os meus poemas.»
«Não sou editor.»
«Eu sei. Olhe, tenho dezanove anos. Gostava só de poder visitá-lo.»
«Esta noite estou ocupado.»
«Oh, qualquer noite me convém.»
«Não, não posso estar consigo.»
«Você é mesmo Henry Chinaski, o escritor?»
«Com certeza que sou.»
«Sou uma miúda engraçada.»
«Não duvido.»
«O meu nome é Rochelle.»
«Adeus, Rochelle.»
Desliguei. Desta vez consegui.
Fui à cozinha, abri um frasco de vitamina E, 400 VI., e tomei algumas com metade de um copo de água Perrier. Ia ser uma óptima noite para o Chinaski. Os estores venezianos filtravam o pôr-do-sol que desenhava formas familiares sobre o tapete, e o vinho branco estava a gelar no frigorífico.
Abri a porta e fui para a varanda. Estava um gato estranho cá fora. Era uma criatura enorme, com um pêlo preto luzidio e luminosos olhos amarelos. Não teve medo de mim. Aproximou-se a ronronar e esfregou-se contra uma das minhas pernas. Eu era um tipo porreiro e ele sabia-o. Os animais pressentiam coisas destas. Eles têm um instinto. Voltei para dentro de casa e ele seguiu-me.
Abri uma lata de atum branco Star-Kist. Conservado em água de nascente. Peso líquido, 250 gramas.
(fim do livro)
Título original: Women
Tradução: Fernando Luís
© 1978, Charles Bukowski © Tradução 1986 Fernando Luís / Publicações Dom Quixote
Tradução cedida por Publicações Dom Quixote Lda.
© 2003 MEDIASAT / Promoway Portugal Comércio de Produtos Multimedia, Ltda. para esta edição.
Impressão
Printer, Industria Gráfica, S.A. Barcelona
Data de impressão
Fevereiro de 2003
Você terminou Mulheres
Charles Bukowski