Mulheres
Toda a gente se imagina especial, privilegiada,…
Toda a gente se imagina especial, privilegiada, isenta. Mesmo a velha horrível que regava os gerânios na varanda. Eu achei-me excepcional porque abandonei a fábrica aos cinquenta anos para me tornar poeta. Merda. Por isso eu cagava-me para toda a gente, tal como aqueles patrões haviam cagado em mim quando eu estava desamparado. Era a mesma coisa. Eu não passava dum íbdilhão estragado pelo álcool, com muito pouca fama.
A minha análise não me impediu de continuar a sofrer.
O telefone tocou. Era Sara.
«Disseste que telefonavas. O que aconteceu?»
«Ela não estava lá.»
«Não estava lá?»
«Está no tribunal.»
«O que vais fazer?»
«Vou esperar. E contar-lhe tudo.»
«Muito bem.»
«Eu não devia ter-te metido nesta merda.»
«Não faz mal.»
«Quero voltar a ver-te.»
«Quando? Depois da dançarina?»
«Bem, sim.»
«Obrigada, mas não.»
«Eu telefono-te...»
«Está bem. Vou buscar as tuas fraldas à lavandaria para que estejam prontas quando vieres.»
Bebia vinho quente enquanto esperava. Três, quatro, cinco horas. Por fim lembrei-me que tinha de me vestir. Estava sentado, com o copo na mão, quando o carro de Debra estacionou em frente da casa. Ela abriu a porta. Trazia um saco com artigos de mercearia. Estava muito bonita.
«Olá!», disse ela. «Como vai o meu ex-beberrolas?»
Dirigi-me a ela e abracei-a. Comecei a tremer e a chorar.
«Hank, o que se passa?»
Debra deixou cair o saco ao chão. O nosso jantar. Agarrei-a
262