Mulheres

Charles Bukowski · Capítulo 62 de 247

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Mulheres

Homem, o Verdadeiro Homem com Coragem para Me Levar?».

Bem, ele não está certamente aqui, pensei.

Olhei para Lydia. «Vamos dar uma volta?»

«Não», disse ela, «quero ler este livro.» Chamava-se Loveand OrgasmlA Revolutionary Guide to Sexual Fulfillment.

«Está bem, irei sozinho.»

Subi até à nascente. Agarrei noutra cerveja, abri-a e sentei-me para a beber. Fui apanhado nas montanhas e florestas por duas mulheres malucas. Elas tiveram todo o prazer da foda ao falarem dela durante todo o dia. Eu também gostava de feder, mas não era a minha religião. Havia muitas coisas trágicas e ridículas sobre isso. As pessoas pareciam não saber como lidar e faziam disso um brinquedo. Brinquedo que as destruía. O essencial, decidi, era encontrar a mulher certa.

Mas como? Eu tinha comigo um caderno vermelho e uma caneta.

Rabisquei um poema meditativo. Depois subi até ao lago. Vance Pastures, assim se chamava o lugar. Quase tudo pertencia às irmãs. Tive vontade de cagar. Tirei as calças e acocorei-me nas silvas, no meio de moscas e mosquitos. Em qualquer altura eu podia deixar de usar as retretes da cidade. Tive que me limpar com folhas. Fui até ao lago e pus os pés na água. Era gelo.

Sê homem, meu velho. Entra.

A minha pele era branca como marfim. Senti-me muito velho e débil. Entrei na água gelada. A água subiu-me até à cintura, inspirei profundamente e mergulhei. Assim é que era! A lama redemoinhava vinda do fundo e encheu-me os ouvidos, a boca e os cabelos. Fiquei ali na água lamacenta, a bater os dentes.

Esperei bastante tempo para que a água clareasse. Depois saí. Vesti-me e fiz o caminho ao longo da borda do lago. Quando cheguei ao fim do lago, ouvi um ruído de cascata. Meti-me pela floresta, caminhando em direcção ao som. Tinha que trepar algumas pedras numa ravina. O som tornava-se cada vez mais perto. As moscas eram enormes, ferozes e esfomeadas, muito

90 maiores do que as das cidades, e reconheciam uma refeição quando a viam.

Abri caminho através de um espesso silvado e lá estava: dei com a minha primeira e verdadeira cascata de água. A água corria sobre a montanha e saltava por cima dum rebordo de pedra. Era bonito. Continuava a cair. Aquela água vinha de algum sítio. Havia três ou quatro torrentes que deviam dirigir-se para o lago.

Por fim, fiquei cansado de olhar e decidi voltar, mas tomar um caminho diferente, um atalho. Desci em direcção oposta à da margem do lago e cortei em direcção ao acampamento. Sabia mais ou menos onde era. Ainda tinha o meu caderno encarnado. Parei e escrevi outro poema, menos meditativo, e prossegui. Continuei a andar. O acampamento não aparecia. Andei um pouco mais. Olhei em volta à procura do lago. Não encontrei o lago, não sabia onde era. De repente caí em mim: eu estava PERDIDO. Aquelas duas putas ninfomaníacas fizeram-me perder a cabeça e agora eu estava PERDIDO. Olhei em redor. Havia ao fundo as montanhas e à minha volta árvores e matagal. Não encontrava um centro, um ponto e partida, nada por onde pudesse orientar-me. Senti medo, verdadeiro medo. Porque é que as deixei trazerem-me para longe da minha cidade, da minha Los Angeles? Lá um tipo podia chamar um táxi, podia telefonar. Havia soluções razoáveis para problemas razoáveis.

Vance Pastures estendia-se à minha volta por quilómetros e quilómetros. Deitei fora o meu caderno. Que maneira de morrer para um escritor! Podia já ver a notícia no jornal:

HENRY CHINASKI, POETA MENOR, ENCONTRADO MORTO NUMA FLORESTA DE UTAH

Ontem à tarde, o corpo de Henry Chinaski, carteiro que se tornou escritor, foi encontrado, em estado de avançada decomposição, pelo guarda florestal W. K. Brooks Jr. Ao pé do cadáver foi encontrado um pequeno caderno vermelho, contendo, sem dúvida, os últimos escritos do senhor Chinaski.

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