Mulheres
«O que estás a fazer?», perguntou. «Estou sentado.»
«Estás sentado a beber, a ouvir uma sinfonia e a brincar com essa maldita lanterna Coleman!» «Isso.»
«Tu voltas?»
«Não.»
«Está bem, bebe, BEBE! MATA-TE! ESTOU-ME CAGANDO!»
Lydia desligou, assim como eu. Algo me dizia que ela estava mais preocupada com a sua próxima foda do que com a minha possível morte. Mas eu precisava de férias. Tinha necessidade de repouso. Lydia gostava de foder pelo menos cinco vezes por semana. Eu preferia três. Levantei-me para ir para a cozinha, onde estava pousada na mesa a minha máquina de escrever. Acendi a luz, sentei-me e dactilografei uma carta de quatro páginas para Lydia. Depois fui procurar à casa-de-banho uma lâmina de barbear, voltei, sentei-me e tomei outra bebida. Agarrei na lâmina e cortei o dedo médio da mão direita. O sangue correu. Assinei o meu nome em letras de sangue.
Fui até à caixa de correio da esquina e enfiei a carta. O telefone tocou várias vezes. Era Lydia. Ela gritava.
«Vou sair e DANÇAR! Não vou ficar sentada enquanto bebes.»
Eu disse-lhe: «Ages como se, ao beber, eu saísse com outra mulher».
«E pior!»
Ela desligou.
Continuei a beber. Não me apetecia dormir. Veio a meia-noite, depois a uma, as duas da manhã. A lanterna continuava a arder...
Às três e meia da manhã o telefone tocou. Lydia outra vez.
«Continuas a beber?»
«Claro.»
«Seu filho da puta!»
«Quando ligaste, eu preparava-me para tirar o celofane duma garrafa de Cutty Sark. É linda. Devias ver!»
Desligou violentamente. Servi outra bebida. Havia boa música na rádio. Instalei-me. Sentia-me bem.
A porta abriu-se violentamente e Lydia entrou de rompante na sala. Ela arfava. A garrafa estava na mesa de café. Ela viu-a e arrebatou-a. Dei um pulo e agarrei Lydia. Quando eu estava bêbedo e ela com a crise ficávamos em pé de igualdade.
Ela mantinha a garrafa no ar, longe de mim, e tentava sair com ela. Agarrei o braço que sustinha a garrafa e tentei arrancar-lha.
«SUA PUTA! NÃO TENS O DIREITO! DÁ-ME A MERDA DA GARRAFA!»
Depois encontrámo-nos na varanda, a lutar. Tropeçámos nas escadas antes de cairmos no chão. A garrafa voou e partiu-se no cimento. Lydia ergueu-se e correu. Ouvi o carro a trabalhar. Eu, estendido no chão, olhava para a garrafa partida. Estava a meio passo de mim. Lydia arrancou. A lua ainda estava alta. No fundo que restava da garrafa vi um trago de whisky. Ainda deitado, estendi o braço e levantei-o à altura da boca. Um grande caco de vidro quase me entrou num dos olhos quando bebia o resto do whisky. Depois levantei-me e entrei em casa. Tinha uma sede terrível. Andei à procura de garrafas de cerveja e bebi os restos. Às tantas, fiquei com a boca cheia de cinza, pois muitas das vezes utilizava as garrafas de cerveja como cinzeiro. Eram quatro e catorze da manhã. Sentei-me a olhar para o relógio. Era como se estivesse de novo a trabalhar nos correios. O tempo era quase imóvel, enquanto a existência se transformava numa insuportável pulsação. Esperava. Esperava. Esperava. Esperava. Por fim, eram seis horas. Dirigi-me para a loja das bebidas da esquina. Um empregado estava a abri-la. Deixou-me entrar. Comprei outra garrafa de Cutty Sark Regressei a casa, fechei a porta à chave e telefonei para Lydia.
«Tenho aqui uma garrafa de Cutty Sark e estou a retirar-lhe o celofane. Vou beber um copo. E a loja de bebidas ficará aberta durante vinte horas.»
Ela desligou. Servi-me dum copo e depois fui para o quarto, estendi-me na cama sem me despir.
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