Mulheres
«Eu detesto festas», respondi.
«Eu faço os convites», disse Sammy.
«Está bem.» E convidei Lydia.
Na noite da festa, Sammy chegou com as folhas já coladas. Era nervoso, tinha tiques e queria ver logo os seus próprios poemas impressos. Tinha sido ele a colar The Laxative Approach e a agrafar as capas. Keneth Mulloch tinha desaparecido - provavelmente estava na cadeia ou para lá fora enviado.
As pessoas iam chegando. Eu conhecia muito poucas. Fui ter com a minha senhoria ao pátio das traseiras. Ela veio à porta.
«Vou dar uma grande festa, Mrs. O’Keefe. Gostaria que a senhora e o seu marido viessem. Cerveja em abundância, pretzels e batatas fritas.»
«Oh, meu Deus, não!»
«Qual é o problema?»
«Vi as pessoas que entraram! Com aquelas barbas, aqueles cabelos e aquela roupa esfarrapada! Com pulseiras e pérolas... mais parecem um bando de comunistas! Como é que você suporta gente assim?»
«Mas eu também não suporto aquela gente, Mrs. O’Keefe. Nós apenas bebemos cerveja e conversamos. Nada mais.»
«Olhe bem para eles. São do género de roubar as canalizações!»
Ela fechou a porta.
Lydia chegou tarde. Entrou pela porta como uma actriz. A primeira coisa em que reparei foi no seu enorme chapéu de cowboy, com uma pena cor de lavanda espetada de lado. Não me falou, mas sentou-se logo ao lado de um jovem empregado de livraria, com quem se pôs a conversar animadamente. Comecei a beber de forma desenfreada, e parte do humor e energia desapareceram da minha conversa.
O empregado de livraria, que tentava tornar-se escritor, não era de todo aborrecido. Chamava-se Randy Evans, e estava de-
17 masiado ligado a Kafka para conseguir escrever algo de interessante.
Bebi a minha cerveja e dei uma volta pela sala. Depois fui para a varanda de trás, sentei-me no jardim e vi um enorme gato preto que tentava saltar para um caixote de lixo. Caminhei ao seu encontro. Quando me aproximei, ele saltou do caixote. Ficou quase a um metro de mim, e olhava-me. Tirei a tampa do caixote. O fedor era horrível. Vomitei para dentro do caixote. Deixei cair a tampa no passeio. O gato saltou, pôs-se com as quatro patas no rebordo do caixote, hesitou ainda e, depois, brilhante sob a meia lua, saltou para dentro.
Lydia ainda falava com Randy e reparei que, sob a mesa, um dos pés dela tocava num dos dele. Abri outra cerveja.
Sammy fazia rir os convidados. Eu era um pouco melhor do que ele quando queria fazer rir as pessoas, mas nessa noite não me sentia bem. Havia quinze ou dezasseis homens e duas mulheres - Lydia e April. April era gorda e estava sob o efeito de ATD. Estava estendida no chão. Ao fim de uma hora ou pouco mais, levantou-se e saiu com Cari, um speedfreak completamente chanfrado. Ficaram então catorze ou quinze homens e Lydia. Encontrei uma garrafa de whisky na cozinha, levei-a para a varanda das traseiras e de quando em quando dava goles.
À medida que a noite avançava os tipos iam partindo. Até mesmo Randy Evans saiu. Por fim ficou apenas Sammy, Lydia e eu. Lydia falava com Sammy. Sammy disse algumas coisas engraçadas. Eu estava com vontade de rir.
Depois ele disse que tinha de se ir embora.
«Por favor não vás, Sammy», disse Lydia.
«Deixa ir o puto», disse eu.
«Pois, tenho de ir», disse Sammy.
Depois de Sammy ter saído, Lydia disse: «Não tinhas nada que o obrigar a sair. O Sammy é engraçado, é de facto engraçado. Tu magoaste-o.»
«Mas eu quero falar contigo a sós, Lydia.»
«Eu gosto dos teus amigos. Não tenho oportunidades como tu de me encontrar com pessoas. Eu gosto das pessoas!»
«Eu, não.»
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