Mulheres
No meu regresso, Lydia estava sentada num…
No meu regresso, Lydia estava sentada num sofá. O seu rosto estava sombrio. «Foste há bastante tempo. Olha para mini. Tufodeste-a, não foi?»
«Não.»
«Foste há uma quantidade de tempo. Olha, arranhou-te a cara.»
«Já te disse, não aconteceu nada.»
«Despe a camisa. Quero ver as tuas costas!»
«Oh, merda, Lydia.»
«Despe a camisa e a camisola interior.» Despi-as. Andou à minha volta.
«Que arranhão é este nas tuas costas?»
«Qual arranhão?»
«Há aqui um enorme... é duma unha de mulher.»
«Se ele está aí, foste tu quem o fez...»
«Está bem. Conheço um modo de descobrir.»
«Como?»
«Vamos para a cama.»
«OK!»
Passei no teste com sucesso, mas de seguida pensei: como pode um homem testar a fidelidade da mulher? Isto parecia-me injusto.
21
Recebia sem descanso cartas de uma senhora que vivia a um ou dois quilómetros de mim. Assinava-as com o nome de Nicole. Dizia ter lido com prazer alguns dos meus livros. Respondi-lhe a uma das cartas e ela convidou-me a visitá-la. Uma tarde, sem dizer nada a Lydia, fui a casa dela, de Volks. Ela vivia num apartamento, por cima duma tinturaria, em Santa Monica Boulevard. A sua porta dava directamente para a rua e eu via uma escada através do vidro. Toquei à campainha. «Quem é?», respondeu-me uma voz de mulher por um pequeno intercomunicador
70 metálico. «Chinaski», respondi. A campainha soou e eu empurrei a porta.
Em pé, no cimo da escada, Nicole olhava-me. Tinha um rosto cultivado, quase trágico, e trazia um longo vestido verde. O seu corpo parecia perfeito. Ela observava-me com os seus enormes olhos castanhos-escuros. Tinha imensas rugas pequenas à volta dos olhos, talvez de muito chorar ou beber.
«Está sozinha?», perguntei.
«Sim, suba», e sorriu.
Subi. Era espaçosa, com dois quartos, e muito pouca mobília. Reparei numa pequena estante e numa arca com discos de música clássica. Sentei-me no sofá. Ela sentou-se perto de mim. «Acabei de ler The Life ofPicasso», disse ela.
Havia imensos exemplares do The New Yorker sobre a mesa de café.
«Deseja uma chávena de chá?», perguntou Nicole.
«Vou comprar qualquer coisa para beber.»
«Não é necessário. Tenho alguma coisa.»
«O quê?»
«Um bom vinho tinto?»
«Aceito.»
Nicole levantou-se para ir à cozinha. Vi-a levantar-se. Sempre tive um fraco por mulheres com vestidos compridos.
Ela deslocava-se graciosamente. Parecia ter muita classe. Regressou com dois copos já cheios e a garrafa. Ofereceu-me um Benson and Hedges. Acendi-o.
«Você lê o New Yorker? Eles publicam boas histórias.»
«Não concordo.»
«O que critica neles?»
«São demasiado educados.»
«Gosto deles.»
«Então merda.»
Ficámos a beber e a fumar.
«Gosta do meu apartamento?»
«Sim, é bonito.»
«Faz-me lembrar alguns sítios que habitei quando estive na Europa. Gosto de espaço, de luz.»
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