Mulheres

Charles Bukowski · Capítulo 47 de 247

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Mulheres

No meu regresso, Lydia estava sentada num…

No meu regresso, Lydia estava sentada num sofá. O seu rosto estava sombrio. «Foste há bastante tempo. Olha para mini. Tufodeste-a, não foi?»

«Não.»

«Foste há uma quantidade de tempo. Olha, arranhou-te a cara.»

«Já te disse, não aconteceu nada.»

«Despe a camisa. Quero ver as tuas costas!»

«Oh, merda, Lydia.»

«Despe a camisa e a camisola interior.» Despi-as. Andou à minha volta.

«Que arranhão é este nas tuas costas?»

«Qual arranhão?»

«Há aqui um enorme... é duma unha de mulher.»

«Se ele está aí, foste tu quem o fez...»

«Está bem. Conheço um modo de descobrir.»

«Como?»

«Vamos para a cama.»

«OK!»

Passei no teste com sucesso, mas de seguida pensei: como pode um homem testar a fidelidade da mulher? Isto parecia-me injusto.

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Recebia sem descanso cartas de uma senhora que vivia a um ou dois quilómetros de mim. Assinava-as com o nome de Nicole. Dizia ter lido com prazer alguns dos meus livros. Respondi-lhe a uma das cartas e ela convidou-me a visitá-la. Uma tarde, sem dizer nada a Lydia, fui a casa dela, de Volks. Ela vivia num apartamento, por cima duma tinturaria, em Santa Monica Boulevard. A sua porta dava directamente para a rua e eu via uma escada através do vidro. Toquei à campainha. «Quem é?», respondeu-me uma voz de mulher por um pequeno intercomunicador

70 metálico. «Chinaski», respondi. A campainha soou e eu empurrei a porta.

Em pé, no cimo da escada, Nicole olhava-me. Tinha um rosto cultivado, quase trágico, e trazia um longo vestido verde. O seu corpo parecia perfeito. Ela observava-me com os seus enormes olhos castanhos-escuros. Tinha imensas rugas pequenas à volta dos olhos, talvez de muito chorar ou beber.

«Está sozinha?», perguntei.

«Sim, suba», e sorriu.

Subi. Era espaçosa, com dois quartos, e muito pouca mobília. Reparei numa pequena estante e numa arca com discos de música clássica. Sentei-me no sofá. Ela sentou-se perto de mim. «Acabei de ler The Life ofPicasso», disse ela.

Havia imensos exemplares do The New Yorker sobre a mesa de café.

«Deseja uma chávena de chá?», perguntou Nicole.

«Vou comprar qualquer coisa para beber.»

«Não é necessário. Tenho alguma coisa.»

«O quê?»

«Um bom vinho tinto?»

«Aceito.»

Nicole levantou-se para ir à cozinha. Vi-a levantar-se. Sempre tive um fraco por mulheres com vestidos compridos.

Ela deslocava-se graciosamente. Parecia ter muita classe. Regressou com dois copos já cheios e a garrafa. Ofereceu-me um Benson and Hedges. Acendi-o.

«Você lê o New Yorker? Eles publicam boas histórias.»

«Não concordo.»

«O que critica neles?»

«São demasiado educados.»

«Gosto deles.»

«Então merda.»

Ficámos a beber e a fumar.

«Gosta do meu apartamento?»

«Sim, é bonito.»

«Faz-me lembrar alguns sítios que habitei quando estive na Europa. Gosto de espaço, de luz.»

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