Mulheres

Charles Bukowski · Capítulo 40 de 247

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Mulheres

Fomo-nos sentar no banco de Tyrone, ao…

Fomo-nos sentar no banco de Tyrone, ao lado da sua sepultura. Depois levantámo-nos para ir visitar a de Douglas Fairbanks Sénior. Era bonita. Com uma piscina em frente, que reflectia a sepultura. A piscina estava coberta de nenúfares e girinos. Subimos algumas escadas e atrás da sepultura havia um lugar para nos sentarmos. Sentámo-nos. Reparei numa brecha na parede do túmulo com pequenas formigas encarnadas que saíam e entravam. Olhei para elas durante algum tempo e depois abracei-me a Dee Dee e dei-lhe um longo beijo, íamos ser bons amigos.

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Dee Dee tinha de ir esperar o seu filho ao aeroporto. Ele vinha de Inglaterra, de férias. Tinha dezassete anos, disse-me ela, e o pai fora pianista. Mas viciou-se em speed e cocaína, e mais tarde queimou os dedos num acidente. Nunca mais pôde tocar piano. Divorciaram-se há já algum tempo.

O filho chamava-se Renny. Dee Dee tinha-lhe falado de mim aquando de várias conversas transatlânticas ao telefone. Chegámos ao aeroporto no momento em que os passageiros do voo de Renny desembarcavam. Dee Dee e Renny abraçaram-se. Ele era alto, magro e pálido. Uma mecha de cabelo cobria-lhe um dos olhos. Apertámos as mãos.

Fui buscar a bagagem enquanto eles conversavam. Ele chamava-lhe «Mamã». Quando regressámos ao carro, ele sentou-se atrás e disse: «Mamã, compraste-me a bicicleta?».

«Já a encomendei. Vamos buscá-la amanhã.»

«E uma boa bicicleta, mamã? Quero uma com dez velocidades, travão de mão e pedais com correias.»

«É uma óptima bicicleta, Renny.»

«Tens a certeza que ela há-de lá estar?»

Fomos para casa dela. Passei lá a noite. Renny tinha o seu quarto.

Na manhã seguinte, sentámo-nos todos na cozinha à espera que a criada chegasse. Por fim, Dee Dee levantou-se para nos

60 preparar o pequeno-almoço. Renny perguntou: «Mamã, como se parte um ovo?». Dee Dee olhou para mim. Sabia o que eu estava a pensar. Não abri a boca.

«Vem cá, Renny, para eu te mostrar.»

Renny aproximou-se dela. Dee Dee agarrou num ovo.

«Vês, basta partires a casca na borda da frigideira... assim... e deixar cair o ovo na frigideira... assim...»

«Oh...»

«É simples.»

«E como se cozinha?»

«Fritando-o em manteiga.»

«Mamã, eu não quero esse ovo.»

«Porquê?»

«Porque a gema partiu-se.»

Dee Dee virou-se e olhou para mim. Os seus olhos diziam: «Hank, não digas nada, por favor...».

Alguns dias mais tarde encontrámo-nos de novo à mesa do pequeno-almoço. Comíamos enquanto a criada trabalhava. Dee disse a Renny: «Já tens a bicicleta. Quero que vás buscar uma embalagem de Coca-Cola. Quando chegar a casa pode apetecer-me beber uma ou duas».

«Mas, mamã, as Coca-Cola são pesadas! Não podes tu trazê-las?»

«Renny, trabalho todo o dia e fico cansada. Vais tu buscá-las.»

«Mas, mamã, há uma colina. Tenho que pedalar para trepar a colina.»

«Não há colina nenhuma. Qual colina?»

«Não consegues vê-la com os teus olhos, mas existe...»

«Renny, vais buscar as Coca-Cola, entendeste?» Renny levantou-se, foi para o seu quarto e fechou a porta. Dee Dee desviou o olhar. «Ele está a experimentar-me. Quer saber se gosto dele.»

«Vou eu buscá-las», disse eu.

«Não há problema, vou eu buscá-las», respondeu ela.

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