Mulheres
«Sim, a Grécia, Itália... Sobretudo a Grécia.»
«Europa, há?»
«Sim, a Grécia, Itália... Sobretudo a Grécia.»
«E Paris?»
«Oh! sim, adorei Paris. Mas não Londres.»
Depois falou-me dela. A sua família sempre viveu em Nova Iorque. O pai era comunista, a mãe trabalhava como costureira. A sua mãe tinha direito ao trabalho mais difícil, era a melhor de todas, a costureira número um. Amável e dura de roer. Nicole aprendeu à sua custa, cresceu em Nova Iorque, casou-se com um médico célebre, com quem viveu dez anos antes de se divorciar. Agora, recebia apenas quatrocentos dólares por mês de pensão alimentar, e tinha dificuldades em governar-se. O apartamento está acima das suas posses, mas ela gosta muito dele para o deixar.
«A sua escrita é tão crua. E como uma martelada, contudo tem humor e ternura...»
«Sim.»
Pousei o copo e olhei para ela. Agarrei-lhe no queixo e puxei-a para mim. Dei-lhe um pequeno beijo.
Nicole continuou a falar. Contou-me algumas histórias interessantes, algumas das quais decidi utilizar, quer em histórias, quer em poemas. Eu olhava para os seus seios quando se debruçava para encher os copos. É como no cinema, pensei, como num filme pornográfico. Pareceu-me engraçado. Sentia-me como se fosse uma câmara. Gostava. Era melhor que as corridas de cavalos, melhor que os combates de boxe. Continuámos a beber. Nicole abriu outra garrafa. Continuava a falar. Era fácil ouvi-la falar. Havia sabedoria e humor em cada uma das suas histórias. Impressionava-me muito mais do que ela poderia supor. Isso inquietava-me.
Fomos para a varanda com os copos para ver o tráfego da tarde. Ela falava-me de Huxley e de Lawrence em Itália. Que merda. Disse-lhe que Knut Hamsun tinha sido o maior escritor do mundo. Olhou para mim, espantada por eu o conhecer, e concordou. Beijámo-nos na varanda, e sentia o cheiro do fumo dos escapes dos carros que passavam. Era bom ter o seu corpo contra o meu. Eu sabia que não íamos foder
72 imediatamente, mas sabia que havia de voltar. Nicole sabia-o também.
22
Angela veio de Utah para ver a nova casa da sua irmã, Lydia. Lydia tinha comprado uma pequena casa e as mensalidades eram baratas. Foi uma boa compra. O homem que a tinha vendido pensava que ia morrer, e por isso propôs um preço bastante baixo. Havia um quarto no primeiro andar para as crianças e atrás um imenso quintal com árvores e uma pequena mata de bambus.
Angela era a mais velha das irmãs, a mais sensível, com o melhor corpo e era a mais realista. Vendia imóveis. Mas havia o problema de alojar Angela. Não tínhamos lugar. Lydia pensou em Marvin.
«Marvin?», perguntei.
«Sim, Marvin», disse Lydia.
«Está vem, vamos lá.»
Entrámos todos na Coisa cor de laranja de Lydia. Era assim que chamávamos ao carro. Parecia um carro de assalto, muito velho e feio. A noite ia avançada. Telefonámos a Marvin. Ele disse-nos que ficava em casa toda a noite.
Descemos à praia e lá estava a sua pequena casa à beira-mar. «Oh, mas que casa tão gira», disse Angela.
«E ele é rico», disse Lydia.
«E escreve boa poesia», disse eu.
Saímos da Coisa. Marvin vivia lá dentro com os seus reservatórios de água salgada para os peixes e com a sua pintura. Não pintava mal. Para um tipo rico tinha sabido sobreviver, tinha-se safado bem. Fiz as apresentações. Angela andava a ver quadros dele. «Oh! Tão bonito.»
Angela também pintava, mas não era bem dotada.
Eu tinha trazido alguma cerveja e uma garrafa de whisky escondida no bolso do casaco, que beberricava de quando em quando. Marvin trouxe mais algumas garrafas de cerveja e en-
73 tre ele e Angela começou a desenhar-se um engate. Marvin estava muito interessado, mas Angela tinha mais vontade de gozar com ele. Ela gostava dele, mas não o suficiente para foder logo com ele. Bebemos e conversámos. Marvin tinha um bongo, um piano e erva. E uma bela e confortável casa. Numa casa assim, pensei, eu escreveria muito melhor, seria mais feliz. Ouvia-se o mar e não havia vizinhos para se queixarem do barulho da máquina de escrever.
Continuei a beberricar do meu whisky. Ficámos umas duas ou três horas e depois partimos. Lydia apanhou a auto-estrada, no regresso.
«Lydia, fedeste com o Marvin, não é?» «O que estás para aí a dizer?» «Daquela vez que lá estiveste, à noite.» «Raios te partam, não quero ouvir falar nisso.» «Então é verdade, fedeste com ele!» «Olha, não suporto esse género de insinuações!» «Fodeste comigo.»
Angela parecia assustada. Lydia parou o carro na berma da auto-estrada e abriu a porta do meu lado. «Sai!»
Saí. O carro arrancou. Caminhei ao longo da berma. Tirei a garrafa e dei um gole. Andei durante cinco minutos quando a Coisa parou a meu lado. Lydia abriu a porta. «Entra.» Entrei. «Não digas nada.» «Fodeste com ele. Sei que sim.» «Oh! Meu Deus!»
Lydia encostou à berma e abriu de novo a porta. «Sai!» Eu saí. Caminhei ao longo da berma. Depois cheguei a uma espécie de rampa que dava para uma rua deserta. Desci primeiro a rampa e depois a rua. Estava muito escuro. Olhei para as janelas de algumas casas. Aparentemente, eu estava num bairro de negros. Num cruzamento, apercebi-me de que havia luz à minha frente. Era uma loja de cachorros quentes. Aproximei-me. Um negro estava atrás do balcão. Não havia mais ninguém à volta. Pedi um café. «Malditas mulheres», disse eu. «São completamente doidas. A minha miúda largou-me na auto-estrada. Queres um gole?»
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