Mulheres

Charles Bukowski · Capítulo 49 de 247

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Mulheres

Deu uma grande golada e devolveu-me a garrafa.

«Claro», disse ele.

Deu uma grande golada e devolveu-me a garrafa.

«Tens telefone? Eu pago.»

«E uma chamada local?»

«Sim.»

«E de borla.»

Tirou o telefone debaixo do balcão e estendeu-mo. Dei uma golada e passei-lhe a garrafa. Ele deu outra.

Chamei um Yellow Cab Co e disse-lhe onde estava. O meu amigo tinha uma cara amável e inteligente. Às vezes encontra-se a bondade no meio do inferno. A garrafa ia e vinha, enquanto esperava pelo táxi. Quando chegou, fui para trás e dei-lhe a direcção de Nicole.

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Perdi os sentidos depois disto. Acho que bebi muito mais whisky do que pensava. Não me lembro de ter chegado a casa de Nicole. Acordei de manhã, com as costas a tocarem em alguém, numa cama estranha. Olhei para a parede em frente de mim, e estava lá um enorme A^ desenhado. Um N de Nicole. Senti-me mal. Fui à casa-de-banho. Servi-me da escova de dentes dela. Lavei a cara, penteei-me, mijei e caguei, lavei as mãos e bebi litros de água. Depois fui para a cama. Nicole levantou-se para se vestir, mas acabou por vir deitar-se ao meu lado. Beijámo-nos e acariciámo-nos.

Lydia, sou inocente à minha maneira, pensei. Sou-te fiel à minha maneira.

Sentia-me mal do estômago para lhe fazer um minete. Montei a ex-mulher do célebre médico. A culta viajante do mundo tinha as Irmãs Brontè sobre a mesa de cabeceira. Ambos gostávamos de Carson McCullers, The Heart is a Lonely Hunter. Dei-lhe três ou quatro de seguida e ela gemeu. Ela conhecia, finalmente, um escritor em carne e osso. Não um escritor célebre, é evidente, mas lá me arranjava para pagar sempre a renda. Isso surpreendia-me. Um dia ela havia de entrar num dos meus li-

75 vros. Eu estava a foder uma puta culta. Senti aproximar-se o orgasmo. Enfiei a língua na sua boca, beijei-a, e vim-me. Caí para o lado e senti-me estúpido. Ela ficou algum tempo nos meus braços e foi depois para a casa-de-banho. Talvez tenha fodido melhor na Grécia. A América era uma merda para foder.

Depois disto, passei a visitá-la duas ou três vezes por semana, à tarde. Bebíamos vinho, conversávamos e fazíamos amor uma vez por outra. Descobri que ela não me interessava muito, mas ajudava-me a passar o tempo. Lydia e eu reconciliámo-nos no dia seguinte. Ela perguntava-me várias vezes para onde ia eu à tarde. «Fui ao supermercado», dizia-lhe, e era verdade. Ia primeiro ao supermercado.

«Nunca passaste tanto tempo no supermercado.»

Numa noite embebedei-me e disse-lhe que conhecia uma tal Nicole. Dei-lhe a morada, precisando-lhe que «não se passava nada de especial». O motivo que me levou a contar-lhe tudo isto não era muito claro, mas quando se bebe há momentos em que não se é claro...

Uma tarde, vinha eu de uma loja de bebidas e bati à porta de Nicole. Trazia duas embalagens de cerveja e uma garrafa de whisky. Eu e Lydia tínhamos discutido e decidi dormir em casa de Nicole. Andava sozinho, um pouco bêbedo, quando ouvi alguém correr atrás de mim. Voltei-me. Era Lydia. «Ah!», dizia, «ah!»

Arrancou-me os sacos da mão e pôs-se a tirar as cervejas. Lançou-as para o passeio uma a uma. Rebentavam ruidosamente. Santa Monica Boulevard é muito movimentada. O tráfego da tarde começava a aumentar. A cena passou-se mesmo em frente da casa de Nicole. Lydia arrancou-me depois a garrafa de whisky. Levantou-a no ar e gritou-me: «Ah! Ias beber tudo isto e depois ias FODER com ela!». Lançou a garrafa ao chão.

A porta de Nicole estava aberta e Lydia subiu as escadas, quatro a quatro. Nicole estava ao cimo das escadas. Lydia começou a bater nela com o seu enorme saco que tinha correias. Lydia dava socos o mais violentamente possível. «Ele é o meu homem! Ele é o meu homem! Afasta-te do meu homem!»

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