Mulheres
Los Angeles. Os foguetes estalavam, as buzinas…
Los Angeles. Os foguetes estalavam, as buzinas tocavam, os bêbedos amadores vomitavam, os maridos namoriscavam com as mulheres dos outros e as mulheres namoriscavam com quem podiam. Toda a gente se beijava e apalpava traseiros nas casas-de-banho e por vezes em público, sobretudo à noite, e no dia seguinte havia discussões familiares terríveis, para não falar no Tournament Roses Para.de e no jogo do Rose Bowl.
Sara chegou cedo na véspera do Ano Novo. Ela adorava coisas como o encanto da montanha, de filmes sobre o espaço sideral, do Star Trek, de alguns grupos de rock, de espinafres cremosos, da dietética, mas tinha muito mais sensatez do que a maioria das mulheres que conheci. Só uma outra, Joanna Dover, podia talvez competir em sensatez e gentileza. Sara era mais bonita e mais leal do que qualquer outra das mulheres, por isso este Ano Novo não ia ser tão mau.
Um locutor idiota da televisão acabava de me desejar um «feliz Ano Novo». Detestava que um estranho me desejasse um «feliz Ano Novo». Como podia ele saber quem eu era? Eu podia ser perfeitamente um tipo que tivesse acabado de amarrar uma miúda de cinco anos e a tivesse pendurado no tecto pelos tornozelos, enquanto a cortava lentamente aos pedaços.
Eu e Sara começámos a celebrar e bebemos, mas era difícil embebedar-nos quando metade do mundo se preparava para se embebedar connosco.
«Bem», disse eu a Sara, «não foi um mau ano. Ninguém me assassinou.»
«E ainda és capaz de te embebedares todas as noites e de te levantares todos os dias ao meio-dia.»
«Se ainda pudesse viver mais um ano.»
«És mesmo um velho alcoólico.»
Bateram à porta. Não acreditei nos meus olhos. Era Dinky Summers, o cantor folk, com a sua namorada, Janis.
«Dinky», gritei. «Merda, meu! O que é que se passa?»
«Não sei, Hank. Tive vontade de passar por aqui.»
«Janis, esta é a Sara. Sara... Janis.»
Sara levantou-se e foi buscar mais dois copos. Eu enchi-os. Não se falou muito.
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«Escrevi cerca de dez novas peças. Acho que estou a melhorar.»
«Também acho», disse Janis, «a sério.»
«Eh, meu, naquela noite em que abri a tua lei... Diz-me, Hank, fui assim tão mau?»
«Escuta, Dinky, não te posso magoar, mas eu bebia mais do que ouvia. Estava a pensar que devia enfrentar o público, estava a preparar-me para isso e isso fez-me vomitar.»
«Mas eu adoro estar frente ao público e quando consigo tocar-lhes e eles gostam do que eu faço entro no paraíso.»
«Com a escrita é diferente. Tu fazes aquilo sozinho, não tem nada a ver com o público.»
«Talvez tenhas razão.»
«Eu estava lá», disse Sara. «Foi preciso que dois tipos ajudassem o Hank a subir para o palco. Ele estava bêbedo e doente.»
«Escuta Sara», perguntou Dinky, «a minha actuação foi assim tão má?»
«Não, não foi. Eles estavam impacientes por causa do Chinaski. Tudo os irritava.»
«Obrigado, Sara.»
vQfolk não me diz grande coisa», disse eu.
«Do que gostas tu?»
«De quase todos os compositores clássicos alemães e de alguns russos.»
«Escrevi cerca de dez peças novas.»
«Talvez pudéssemos escutar algumas delas», disse Sara.
«Mas tu não tens a viola, pois não?», perguntei-lhe.
«Oh, tem sim», disse Janis, «anda sempre com ela!»
Dinky levantou-se para ir buscar a viola ao carro. Ele sentou-se de pernas cruzadas no tapete e começou a afiná-la, íamos ter o prazer de assistir a um espectáculo ao vivo. Começou a tocar. Tinha uma voz segura, forte. Fazia tremer as paredes. A canção falava duma mulher. Era sobre uma separação entre Dinky e uma mulher. De facto não era muito má. Talvez resultasse em cima de um palco e com pessoas a escutar. O que era difícil dizer com o tipo sentado ali no tapete, à nossa frente. Era muito mais pessoal e embaraçoso. Contudo, achei que ele não era tão
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