Mulheres

Charles Bukowski · Capítulo 50 de 247

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Mulheres

Lydia desceu as escadas a correr, passou…

Lydia desceu as escadas a correr, passou por mim e foi para

a rua.

«Meu Deus, quem era?», perguntou Nicole.

«Era Lydia. Dá-me uma vassoura e um saco de papel.»

Fui para a rua varrer o vidro partido e colocá-lo dentro do saco de papel. Desta vez a puta foi longe de mais, pensei. Irei comprar mais bebidas. Passarei a noite com Nicole, talvez duas noites.

Estava inclinado a apanhar os bocados de vidro quando ouvi um ruído estranho atrás de mim. Voltei-me para trás. Era Lydia com a Coisa. Ela fez a Coisa subir o passeio e dirigiu-se para mim a cinquenta à hora. Desviei-me para o lado e o carro passou a alguns centímetros de mim. O carro continuou até ao fim do quarteirão, ressaltou ao descer o passeio, continuou em frente, virou à direita no cruzamento seguinte e desapareceu.

Pus-me a apanhar os bocados de vidro. Varri e pus tudo no lixo. Após o que deitei a mão ao fundo do saco e descobri uma garrafa intacta. Parecia em perfeito estado. Precisava mesmo dela. Quando estava para tirar a tampa arrancaram-ma das mãos.

Era Lydia de novo. Correu para a porta de Nicole com a garrafa e atirou-a contra o vidro. Atirou-a com tal força que a garrafa atravessou o vidro como uma bala, deixando um buraco redondo, sem o partir por completo.

Lydia foi-se embora a correr e eu subi as escadas. Nicole não se mexeu. «Por amor de Deus, Chinaski, vai procurá-la antes que mate toda a gente!»

Fiz meia volta e desci as escadas. Lydia estava sentada dentro do carro estacionado junto ao passeio, com o motor a trabalhar. Abri a porta e entrei. Ela arrancou. Nenhum de nós falou.

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Comecei a receber cartas duma rapariga que vivia em Nova Iorque. Chamava-se Mindy. Ela adorou dois ou três livros meus, mas o melhor das suas cartas era o facto de ela não fa-

77 lar de literatura excepto para dizer que não era escritora. Falava de tudo e mais alguma coisa, mas sobretudo de homens e sexo. Mindy tinha vinte e cinco anos, a mão fácil e uma escrita regular, razoável e alegre. Eu respondia às suas cartas e ficava sempre contente ao encontrar uma das dela na caixa do correio. A maior parte das pessoas contam muito melhor as suas vidas numa carta do que numa conversa; algumas são capazes de escrever cartas artísticas, inventivas, mas tornam-se pretensiosas quando tentam um poema, uma novela ou um romance.

Mindy enviou depois fotografias. Se elas eram fiéis, Mindy era de facto bela. Escrevemo-nos durante algumas semanas e disse que ia ter duas semanas de férias.

Porque não dás um salto até cá?, sugeri-lhe.

Está bem, respondeu.

Começámos a telefonarmo-nos. Por fim, ela disse-me o dia da sua chegada a L. A.

Lá estarei no aeroporto, disse-lhe eu, nada me impedirá.

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Fixei a data. Já não havia qualquer problema em separar-me de Lydia.

Eu era um solitário por natureza, que se contentava em viver com uma mulher, em comer com ela, dormir com ela e sair à rua com ela. Não queria conversas, nem sair, a não ser para ir às corridas de cavalos ou aos combates de boxe. Não gostava de TV. E achava estúpido gastar dinheiro para me ir sentar numa sala de cinema com outras pessoas e partilhar as suas emoções. As festas punham-me doente. Detestava as falsas aparências, os jogos sujos, os namoricos, os bêbedos amadores e os chatos. Mas as festas, dançar, pequenas conversas, encantavam Lydia. Ela considerava-se muito sexy. Mas dava um pouco nas vistas. Por isso as nossas discussões nasciam da minha posição de ninguém, mesmo ninguém contra a dela, quanto mais pessoas melhor.

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