Mulheres

Charles Bukowski · Capítulo 39 de 247

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Mulheres

«É aqui que a maior parte dos…

«É aqui que a maior parte dos argumentistas se pavoneiam. E alguns actores secundários.»

Detestei-os logo, com os seus tiques e ares superiores. Eles diminuíam-se uns aos outros. A pior coisa para um escritor é conhecer outro escritor, e pior do que isso, conhecer muitos escritores. São como moscas em cima de merda.

«Vamos arranjar uma mesa», disse eu. Lá estava eu, um escritor de sessenta e cinco dólares por semana, sentado com outros escritores, de mil dólares por semana. Lydia, pensei, continuo a subir. Terás muita inveja. Um dia, hei-de frequentar restaurantes de luxo e ser reconhecido. Terão uma mesa reservada para mim, ao fundo da sala, perto da cozinha.

Tomámos as bebidas e Dee Dee olhou para mim. «Tu lambes muito bem. De todos os homens que conheci, és tu quem melhor sabe fazer minete.»

«Lydia ensinou-me. Depois acrescentei alguns toques pessoais.»

Um jovem rapaz escuro deu um salto e veio para a nossa mesa. Era de Nova Iorque, escrevia para o Village Voice e outros jornais de Nova Iorque. Ele e Dee Dee trocaram algumas direcções e nomes e depois perguntou-lhe: «O que faz o teu marido?».

«Tenho um ginásio», respondi. «De boxeurs. Quatro bons rapazes mexicanos. E um negro, um verdadeiro dançarino. Quanto pesas?»

«Setenta e nove. Foste boxeur? Tens cara de quem levou alguns.»

«Levei, de facto. Posso meter-te na categoria dos 67. Preciso de um peso ligeiro esquerdino.»

«Como sabes que eu era esquerdino?»

«Porque tens o cigarro na mão esquerda. Aparece por lá no ginásio de Main Street. Segunda de manhã. Começamos logo com o teu treino. Nada de cigarros. Deita fora essa merda!»

«Olha, meu, eu sou escritor. Sirvo-me da máquina de escrever. Nunca leste coisas minhas?»

«Só leio jornais regionais - assassínios, violações, resultados dos combates, fraudes, desastres de avião e os conselhos de Ann Landers.»

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«Dee Dee», disse ele, «daqui a meia hora tenho uma entrevista com o Rod Stewart. Tenho de ir.» Partiu.

Dee Dee pediu outra rodada. «Porque é que não és simpático para as pessoas?»

«Medo», respondi.

«Cá estamos», disse ela ao entrarmos de carro no cemitério de Hollywood.

«Bonito», disse eu, «é de facto bonito. Tinha-me esquecido da morte completamente.»

Demos uma volta de carro. A maior parte das sepulturas situavam-se acima do nível do chão. Pareciam pequenas casas com pilares e escadas. Tinham uma porta de ferro. Dee Dee estacionou e saímos. Experimentou uma das portas. Olhei para o seu traseiro a agitar-se enquanto tentava abri-la. Pensei em Nietzsche. Um duo sagrado: um cavalo germânico e uma égua judia. A Alemanha havia de me adorar.

Entrámos para o Mercedes Benz e Dee Dee parou-o frente a um dos maiores sectores. Os mortos estavam todos enfiados nas paredes. Filas e filas deles. Alguns tinham flores em pequenos vasos, mas a maior parte delas estavam secas. A maioria dos nichos não tinha flores. Em alguns casos, marido e mulher repousavam lado a lado. Noutros, estavam vazios, à espera. De qualquer modo, era sempre o marido que estava morto.

Dee Dee agarrou-me na mão e levou-me para mais longe. Quase ao fundo, lá estava ele, Rudolfo Valentino.

Morto em 1926. Não viveu muito tempo. Decidi viver pelo menos até aos oitenta. Imagino-me com 80 anos e a foder uma miúda de dezoito. Se havia alguma maneira de intrujar a morte, era esta.

Dee Dee levantou um dos vasos e meteu-o no seu saco, o truque clássico. Roubar tudo o que não esteja fixo no chão. Tudo pertencia a todos. Saímos e Dee Dee disse: «Quero sentar-me no banco de Tyrone Power. Era o meu preferido. Amei-o!».

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