Mulheres
Lavámo-nos e vestimo-nos. Ela deu-me a sua…
Lavámo-nos e vestimo-nos. Ela deu-me a sua direcção, o número do telefone e eu dei-lhe o meu. Parecia ter gostado de mim. Passados quinze minutos Macintosh bateu à porta. Levámos íris até ao cruzamento, perto do seu lugar de trabalho.
Percebi que ela trabalhava como criada; a dança do ventre era uma ambição. Dei-lhe um beijo de despedida. Saiu do carro.
Voltou-se, fez-me adeus e afastou-se. Eu olhava para aquele corpo que se afastava.
«Chinaski vence outra vez», disse Macintosh, enquanto se dirigia para o aeroporto.
«Não tires nenhuma conclusão daí», disse-lhe eu.
«Eu também tenho alguma sorte», disse ele.
«Ah, sim?»
«Sim. Engatei a tua loira.»
«O quê?»
«Sim», riu-se, «consegui.»
«Leva-me ao aeroporto, meu sacana!»
Tinha chegado a Los Angeles há três dias. Nessa noite eu tinha um encontro com Debra. O telefone tocou. «Hank, é a /m!»
«Oh, íris, que surpresa! Como tens passado?» «Hank, vou para L. A. Vou visitar-te!» «Óptimo! Quando?»
«Chego na quarta-feira, antes do Thanksgiving.» «Thanksgiving?»
«E posso ficar até à segunda-feira!» «OK.» «Tens um lápis? Vou dar-te o número do meu voo.»
Nessa noite eu e Debra jantámos num restaurante à beira-mar. As mesas não estavam chegadas umas às outras e tinham especialidades de mariscos. Pedimos uma garrafa de vinho branco enquanto esperávamos pela comida. Debra estava com mui-
256 to melhor aspecto do que da última vez em que a vi, mas disse-me que o seu trabalho estava a tornar-se insuportável. Tinha que contratar mais uma rapariga. E era difícil encontrar alguém eficiente. As pessoas eram tão medíocres.
«Sim», disse eu.
«Tens tido notícias de Sara?»
«Telefonei-lhe. Tivemos uma discussão. Lá tentei compor as coisas.»
«Já a viste depois de teres vindo do Canadá?»
«Não.»
«Encontrei um peru com 25 libras de peso para o Thanksgiving. Sabes trinchar peru?»
«Com certeza.»
«Não bebas muito hoje à noite. Sabes o que acontece quando bebes demasiado.»
«OK.»
Debra agarrou-me na mão. «Meu querido, velho querido e borrachão!»
Levei só uma garrafa de vinho para depois do jantar. Bebemo-la devagar, sentados na cama dela, a ver televisão. O primeiro programa foi uma porcaria. O segundo foi melhor. Era sobre um pervertido sexual e um rapaz normal que trabalhava numa quinta. Um médico louco transplantara a cabeça do perverso no corpo do rapaz e o corpo escapou-se com as duas cabeças e corria pelo campo, cometendo todas as espécies de crimes. Pôs-me bem disposto.
Depois da garrafa de vinho e do rapaz com duas cabeças, saltei para cima de Debra e a sorte sorriu-me. Ofereci-lhe um grande galope, recheado de inéditas variações antes de disparar dentro dela.
De manhã, Debra pediu-me que ficasse em casa dela e que esperasse por ela. Prometeu-me fazer um bom jantar. «Está bem», disse eu.
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Tentei dormir depois de ela sair, mas não consegui. Estava preocupado com o Thanksgiving, não sabia como dizer-lhe que não podia passá-lo com ela. Isso chateava-me. Levantei-me e percorri a casa. Tomei um banho. Nada ajudou. Talvez íris mudasse de ideias, talvez o seu avião se despenhasse. Deste modo poderia telefonar a Debra e dizer-lhe que ia.
Eu caminhava e sentia-me cada vez pior. Talvez estivesse assim por ter lá ficado e não tivesse ido para minha casa. Era como prolongar a agonia. Que espécie de merda era eu? Podia, sem dúvida, fazer jogos falsos e sórdidos. Eu estava a tentar ganhar alguma coisa? Podia continuar a dizer-me que aquilo era apenas uma questão de procura, um simples estudo do universo feminino? Eu deixava apenas que as coisas acontecessem, sem pensar nelas. Só me interessava o meu pequeno prazer egoísta e barato. Parecia um menino de liceu mimado. Era pior do que uma puta; uma puta leva o nosso dinheiro e nada mais. Eu mexia com vidas e almas como se fossem brinquedos meus. Como é que podia considerar-me um homem? Como é que podia escrever poemas? Eu era feito de quê? Eu era um Marquês de Sade de segunda sem a sua inteligência. Um assassino era mais recto e honesto do que eu. Ou mesmo um violador. Eu não queria que brincassem com a minha alma, que a gozassem, que a ridicularizassem; ao menos disto tinha a certeza. Eu não valia um tostão furado. Pude sentir isso enquanto percorria o tapete de um a outro lado. Nem um centavo. Mas o pior é que eu fazia passar-me por aquilo que não era - um bom homem. Eu entrava na vida das pessoas porque elas confiavam em mim. Fazia o meu trabalho de maneira mais fácil. Andava a escrever The Love Tale ofthe Hyena.
Fiquei de pé no meio da sala, surpreendido com os meus pensamentos. Dei por mim sentado à beira da cama, a chorar. Sentia as lágrimas correrem pelos meus dedos. O meu cérebro andava às voltas, mas não me sentia a enlouquecer. Não percebia o que estava a passar-se comigo.
Agarrei no telefone e marquei o número do restaurante de Sara. «Estás ocupada?», perguntei.
«Não, acabei de abrir. Estás bem? Pareces esquisito.»
«Estou muito em baixo.»
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