Mulheres
«Quem são todos aqueles pretos que vivem…
«Quem são todos aqueles pretos que vivem no teu quarteirão?», perguntou ela.
«Não sei quem são.»
«Disseram-me que eu podia fazer dois mil dólares por semana.»
«A fazer o quê?»
«Eles não disseram.»
Elas ficaram mais dois ou três dias.
Continuei a debater-me com a curva à esquerda de Gertrude, mesmo quando estava sóbrio. Hilda disse-me que ela trazia um tampax, por isso ela não era alternativa.
Por fim reuniram as suas coisas e puseram-nas no meu carro. Tinham grandes sacos de tela que traziam aos ombros. Hippies alemãs. Segui as instruções delas. Vira aqui, vira ali. Subíamos cada vez mais em direcção a Hollywood Hills. Estávamos em território rico. Eu tinha-me esquecido que algumas pessoas viviam muito bem, enquanto outras comiam a própria merda ao pequeno-almoço. Quando se vive onde eu vivia, facilmente se pensa que é a mesma merda em toda a parte.
«Cá está», disse Gertrude.
O Volks estava à entrada duma longa e sinuosa álea. Algures, lá em cima, estava a casa, enorme, com todos os apetrechos interiores e exteriores.
«É melhor irmos a pé», disse Gertrude.
«Claro.»
Saíram. Dei meia volta. Ficaram de pé, à entrada, com os sacos ao ombro, e fizeram adeus. Disse-lhes adeus. Parti, pus o carro em ponto morto e desci a montanha, até cá abaixo.
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Pediram-me para fazer uma leitura numa discoteca célebre, The Lancer, em Hollywood Boulevard. Aceitei ler por duas noites. Era a seguir a um grupo de rock, The Big Rape. Come-
21? cei a sentir-me aspirado pelo show biz. Eu tinha algumas entradas de borla e telefonei a Tammie para lhe perguntar se ela queria ir. Aceitou. Levei-a comigo na primeira noite. Eu tinha-os avisado da sua presença. Sentámo-nos no bar, à espera que eu actuasse. As atitudes de Tammie assemelhavam-se às minhas. Ficou logo bêbeda e passeava-se pelo bar a meter conversa com toda a gente.
Na altura em que eu ia entrar em cena, Tammie caía por cima das mesas. Encontrei o irmão dela e disse-lhe: «Por amor de Deus, tira-a daqui, está bem?».
Ele levou-a lá para fora. Como eu estava bêbedo também, esqueci-me de que havia pedido que a levassem dali.
Não dei uma boa leitura. O público só gostava de rock e não perceberam nada. Mas em parte foi também culpa minha. Por vezes tinha sorte com o público do rock, mas naquela noite, não. Acho que estava perturbado com a ausência de Tammie. Quando cheguei a casa, telefonei-lhe. Atendeu a mãe. «A sua filha é uma MERDA!»
«Hank, eu não quero ouvir isso.»
Desligou.
Na noite seguinte, fui sozinho. Sentei-me a beber a uma mesa do bar. Uma mulher já madura, com dignidade, veio à mesa e apresentou-se. Ensinava Literatura Inglesa e estava acompanhada por uma das suas alunas, uma pequena bucha chamada Nancy Freeze. Nancy parecia estar ansiosa. Queriam saber se eu aceitava responder a algumas perguntas.
«Dispare.»
«Qual é o seu autor preferido?»
«Fante. John F-a-n-t-e. Ask the Dust, Watt UntilSpring, Bandini.»
«Onde podemos encontrar os livros dele?»
«Eu encontrei-os na biblioteca municipal; na esquina da Fifth Avenue com a Olive Street, não é?»
«Porque é que gosta dele?»
«E a emoção absoluta. Um homem muito corajoso.»
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«Quem mais?»
«Céline.»
«Porquê?»
«Arrancaram-lhe as tripas e ele riu-se, e fez com que eles se rissem também. Um homem muito corajoso.»
«Você acredita na bravura?»
«Gosto de vê-la em todo o lado, nos animais, nos pássaros, répteis e humanos.»
«Porquê?»
«Porquê? Porque me faz sentir bem. É uma questão de estilo quando não há a mínima sorte.»
«Hemingway?»
«Não.»
«Porquê?»
«Demasiado terno, demasiado sério. Um bom escritor, frases interessantes. Mas para ele a vida foi quase uma guerra total. Nunca saía, nunca dançava.»
Fecharam os cadernos de notas e desapareceram. Pena. Eu queria dizer-lhes que as minhas verdadeiras influências eram Gable, Cagney, Bogart e Errol Flynn.
Vi-me de repente sentado na companhia de três lindas mulheres, Sara, Cassie e Debra. Sara tinha 32 anos, encanto, charme e coração. Tinha cabelo louro avermelhado e escorrido, olhos selvagens, um pouco loucos. Ela transportava uma boa dose de compaixão, que era de facto suficiente e que obviamente lhe custava algo. Debra era judia, com enormes olhos castanhos e uma boca generosa, abundantemente besuntada com bâton vermelho. A sua boca brilhava e acenava-me. Acho que ela devia andar entre os 30 e 35 anos, e lembrava-me a minha mãe em 1935 (apesar de a minha mãe ter sido muito mais bonita). Cassie era alta, com longos cabelos loiros, muito nova, luxuosamente vestida, na moda, informada, in, nervosa, linda. Sentou-se perto de mim, beliscando-me na mão, encostando a sua coxa contra a minha. Enquanto ela me beliscava, apercebi-me de que a sua mão era maior do que a minha. (Como sou corpulento, fico embaraçado com as minhas mãos pequenas. Nas minhas rixas de bar, em Filadélfia, quando era jovem, rapidamente percebi a impor-
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