Mulheres
Continuei a andar. Em breve estava numa…
Continuei a andar. Em breve estava numa zona encharcada de água. Aqui e acolá, uma das minhas pernas enterrava-se até ao joelho na terra esponjosa e eu devia sair dali.
Caí numa vedação de arame farpado. Apercebi-me logo de que não devia transpor aquela vedação. Sabia que era errado fazê-lo, mas não havia alternativa. Saltei a vedação e, pondo as mãos em redor da boca, gritei: «LYDIA!».
Não houve resposta.
Tentei outra vez: «LYDIA!».
A minha voz soava tristemente. A voz dum cobarde.
Pus-me a andar. Seria óptimo, pensei, estar lá com as irmãs, ouvi-las rir sobre sexo e homens, sobre dança e festas. Seria tão bom ouvir a voz de Glendoline. Seria tão bom passar a minha mão pelos cabelos de Lydia. Havia sinceramente de a levar a todas as festas da cidade. Hei-de mesmo dançar com todas as mulheres e fazer anedotas de tudo. Hei-de tolerar com um sorriso todos os condutores de merda anormais. Quase podia ouvir-me: «Ei, isto é porreiro para dançar? Quem quer mesmo zr? Quem quer divertir-se?».
Continuei a caminhar no lodaçal. Por fim, alcancei terra seca. Encontrei uma estrada. Um antigo caminho de terra batida, mas que estava em bom estado. Conseguia ver marcas de pneus e de cascos. Por cima da minha cabeça havia mesmo cabos eléctricos que levavam electricidade para algum sítio. Tudo o que tinha a fazer era seguir aqueles cabos. Caminhei pela estrada. O sol estava alto no céu, devia ser meio-dia. Continuei a andar sentindo-me estúpido.
Fui dar com um portão que fechava de lado a lado a rua. O que significava aquilo? Havia uma pequena entrada num dos lados do portão. Evidentemente que o portão era para o gado. Mas onde estava o gado? Onde estava o dono do gado? Talvez ele só viesse de seis em seis meses.
O cimo da cabeça começou a doer-me. Passei com a mão e senti o sítio onde, trinta anos antes, em Filadélfia, levei uma tareia. A cicatriz lá estava. Agora, aquecida pelo sol, a pele da cica-
92 triz estava inchada. Parecia-se com um pequeno corno. Arranquei um bocado e deitei-o fora.
Caminhei mais uma hora e depois decidi voltar para trás. Mesmo que implicasse fazer todo o caminho no sentido contrário, era a única coisa sensata a fazer. Tirei a camisa e amarrei-a à volta da cabeça. Parei uma ou duas vezes para gritar «LYDIA!». Não houve resposta.
Um pouco depois cheguei ao portão. Bastava-me contorná-lo, mas havia qualquer coisa no caminho. Estava em frente do portão, a cerca de cinco metros de mim. Era uma pequena corça, uma cria de corça ou qualquer outra coisa.
Aproximei-me lentamente. Não se mexeu. Ia deixar-me passar? Aparentemente, não tinha medo de mim. Acho que ele sentia a minha confusão, a minha cobardia. Aproximei-me cada vez mais. Ele não queria afastar-se do meu caminho. Tinha grandes e magníficos olhos castanhos, mais belos do que os de todas as mulheres que eu havia visto. Não queria acreditar. Eu estava a menos de um metro, quase a voltar para trás, quando ele saltou. Correu pela estrada e enfiou-se pelo bosque. Tinha uma figura soberba, corria como uma flecha.
Ao avançar pela estrada, ouvi um ruído de água que corria. Eu precisava de água. Não se pode viver muito tempo sem água. Deixei a estrada e encaminhei-me para o ruído da água. Havia uma pequena colina coberta de erva e no alto da colina lá estava: a água corria de várias canalizações em cimento que ligavam a barragem a uma espécie de reservatório. Sentei-me na borda do reservatório, tirei os sapatos e as peúgas, arregacei as calças e enfiei as pernas na água. Depois deitei água por cima da cabeça. E bebi - mas em pequena quantidade e lentamente - exactamente como vi fazerem no cinema.
Depois de recuperar um pouco, reparei num molhe que atravessava o reservatório. Passei o molhe e dei com uma enorme caixa de metal aferrolhada à parede do dique. Estava fechada com um cadeado. Lá dentro havia provavelmente um telefone. Eu poderia pedir socorro.
Encontrei uma pedra grande e comecei a bater contra o ca-
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