Tratado de Fisiologia Médica
Sistemas Funcionais da Célula
Figura 2-10. Comparação dos tamanhos de organismos pré-celulares com o de uma célula média do corpo humano.
SISTEMAS FUNCIONAIS DA CÉLULA
No restante deste Capítulo, discutiremos diversos sistemas funcionais
representativos da célula que fazem dela um organismo vivo.
INGESTÃO PELA CÉLULA — ENDOCITOSE
Para uma célula viver, crescer e se reproduzir ela tem de obter nutrientes e
outras substâncias dos líquidos ao seu redor. A maioria das substâncias
passa através da membrana celular por difusão e por transporte ativo.
A difusão simples envolve o transporte através da membrana, causado
pelo movimento aleatório das moléculas da substância; as substâncias se
movem pelos poros da membrana celular ou, no caso de substâncias
lipossolúveis, através da matriz lipídica da membrana.
O transporte ativo envolve o carreamento de substância através da
membrana por estrutura proteica física que atravessa a membrana. Esses mecanismos de transporte ativo, tão importantes para a função celular, serão
apresentados detalhadamente no Capítulo 4.
Partículas muito grandes entram na célula por meio de função
especializada da membrana celular, chamada endocitose. As principais
formas de endocitose são a pinocitose e a fagocitose. Pinocitose significa a
ingestão de minúsculas partículas que formam vesículas de líquido
extracelular e por componentes particulados no interior do citoplasma da
célula. Fagocitose significa a ingestão de grandes partículas, tais como
bactérias, células inteiras ou partes de tecido em degeneração.
Pinocitose. A pinocitose ocorre continuamente nas membranas celulares
da maioria das células, mas é especialmente rápida em algumas delas. Por
exemplo, ela ocorre tão rapidamente em macrófagos que cerca de 3% da
membrana total do macrófago são engolfados, na forma de vesículas, a cada
minuto. Mesmo assim, as vesículas pinocitóticas são muito pequenas —
normalmente, apenas 100 a 200 nanômetros de diâmetro — que a maioria
delas só pode ser vista ao microscópio eletrônico.
A pinocitose é o único meio pelo qual a maioria das grandes
macromoléculas, tal como a maior parte das moléculas de proteína, pode
entrar nas células. A velocidade de formação de vesículas pinocitóticas
costuma aumentar quando essas macromoléculas aderem à membrana
celular.
A Figura 2-11 demonstra as etapas sucessivas da pinocitose de três
moléculas de proteína aderidas à membrana. Essas moléculas, em geral, se
ligam a receptores de proteínas especializados, na superfície da membrana,
que são específicas para o tipo de proteína que será absorvido. Os
receptores, na maioria das vezes, estão concentrados em pequenas
concavidades na superfície externa da membrana celular, chamadas
cavidades revestidas. Na face interna da membrana celular, abaixo dessas
cavidades, há uma malha de proteínas fibrilares, chamada clatrina, bem como outras proteínas, incluindo talvez filamentos contráteis de actina e
miosina. Uma vez que as moléculas de proteína se unem aos receptores, as
propriedades da superfície da membrana local se alteram de tal forma que
ocorre invaginação, e as proteínas fibrilares, ao redor da abertura da
cavidade em invaginação, fazem com que suas bordas se fechem sobre as
proteínas ligadas aos receptores, engolfando também pequena quantidade
de líquido extracelular. Imediatamente, a parte invaginada da membrana se
destaca da superfície da célula, formando uma vesícula pinocitótica, no
citoplasma da célula.
O que faz com que a membrana celular passe pelas deformações
necessárias, para formar as vesículas pinocitóticas, ainda é incerto. Esse
processo requer energia do interior da célula suprida pelo ATP, substância
de alta energia, discutido adiante, neste Capítulo. Este processo requer
também a presença de íons cálcio no líquido extracelular que
provavelmente reagem com os filamentos de proteína contráteis abaixo das
cavidades revestidas, para gerar a força para destacar as vesículas da
membrana celular.
Figura 2-11. Mecanismo da pinocitose.
Fagocitose. A fagocitose ocorre de forma muito parecida com a
pinocitose, mas envolve partículas grandes em vez de moléculas. Apenas
certas células têm a capacidade da fagocitose, principalmente os
macrófagos dos tecidos e alguns leucócitos.
A fagocitose se inicia quando uma partícula, tal como uma bactéria, uma
célula morta, ou restos de tecido, se liga a receptores na superfície do
fagócito. No caso das bactérias, cada uma geralmente está ligada a um
anticorpo específico, que é o anticorpo que se liga aos receptores do
fagócito, arrastando a bactéria com ele. Essa intermediação de anticorpos é
chamada opsonização, discutida nos Capítulos 34 e 35.
A fagocitose ocorre segundo os seguintes passos:
1. Os receptores da membrana celular se aderem aos ligantes da superfície
da partícula.
2. As bordas da membrana, ao redor dos pontos de ligação, evaginam em
fração de segundo para envolver toda a partícula; então,
progressivamente, mais e mais receptores da membrana se unem aos
ligantes da partícula. Tudo isso ocorre repentinamente, como um zíper,
para formar a vesícula fagocítica fechada.
3. A actina e outras fibrilas contráteis, no citoplasma, envolvem a vesícula
fagocítica e se contraem ao redor de sua borda externa, empurrando a
vesícula para o interior.
4. As proteínas contráteis então fecham a abertura da vesícula tão
completamente que ela se separa da membrana celular, deixando a
vesícula no interior da célula, da mesma maneira como as vesículas
pinocitóticas são formadas.
SUBSTÂNCIAS ESTRANHAS, PINOCITÓTICAS E
FAGOCITÓTICAS, SÃO DIGERIDAS DENTRO DA
CÉLULA PELOS LISOSSOMOS
Quase imediatamente após o aparecimento de uma vesícula pinocitótica ou
fagocítica no interior da célula, um ou mais lisossomos se ligam à vesícula e
lançam suas hidrolases ácidas no interior da vesícula, como mostra a Figura
2-12. Assim, uma vesícula digestiva é formada no citoplasma da célula, na
qual as hidrolases vesiculares começam a hidrolisar as proteínas,
carboidratos, lipídios e outras substâncias na vesícula. Os produtos da
digestão são pequenas moléculas de aminoácidos, glicose, fosfatos e outros,
que podem se difundir, através da membrana da vesícula, para o citoplasma.
O que sobra da vesícula digestiva, chamado corpo residual, representa
substâncias indigeríveis. Na maioria dos casos, esse corpo residual é
finalmente excretado pela membrana celular pelo processo da exocitose que
é essencialmente o oposto da endocitose.
Dessa forma, as vesículas pinocitóticas e fagocíticas contendo lisossomos
podem ser chamadas órgãos digestivos das células.
Figura 2-12. Digestão de substâncias nas vesículas pinocitóticas ou fagocíticas por enzimas derivadas dos lisossomos.
Regressão dos Tecidos e Autólise das Células Danificadas.
Certos tecidos corporais podem com frequência regredir até tamanho
menor. Por exemplo, essa regressão ocorre com o útero depois da gravidez,
nos músculos durante longos períodos de inatividade, e nas glândulas
mamárias, ao final da lactação. Os lisossomos são responsáveis por grande
parte dessa regressão.
Outro papel especial dos lisossomos é a remoção das células danificadas
ou partes danificadas das células dos tecidos. Danos celulares — causados
por calor, frio, trauma, produtos químicos ou qualquer outro fator —
induzem os lisossomos a se romper. As hidrolases liberadas imediatamente
começam a digerir as substâncias orgânicas adjacentes. Se o dano for leve,
apenas parte da célula é removida, seguida por seu reparo. Se o dano for
grave, toda a célula é digerida, processo chamado autólise. Dessa maneira,
a célula é completamente removida e nova célula, do mesmo tipo, é normalmente formada por reprodução mitótica de célula adjacente, em
substituição à antiga.
Os lisossomos também contêm agentes bactericidas que podem matar
bactérias fagocitadas, antes que possam causar danos celulares. Esses
agentes incluem: (1) lisozima, que dissolve a membrana celular da bactéria;
(2) lisoferrina, que liga o ferro e outras substâncias, antes que possam
promover o crescimento bacteriano; e (3) ácido, em pH de
aproximadamente 5,0, que ativa as hidrolases e inativa os sistemas
metabólicos das bactérias.
Reciclagem das Organelas Celulares: Autofagia. Os lisossomos
desempenham um papel-chave no processo de autofagia, que literalmente
significa “comer-se”. A autofagia é um processo de limpeza pelo qual as
organelas obsoletas e grandes agregados proteicos são degradados e
reciclados (Fig. 2-13). As organelas celulares totalmente gastas são
transferidas para os lisossomos por estruturas de membrana dupla chamados
autofagossomos, que são formados no citosol. A invaginação da membrana
lisossomal e a formação de vesículas fornecem outra rota para as estruturas
citosólicas serem transportadas para o lúmen dos lisossomos. Uma vez
dentro dos lisossomos, as organelas são digeridas e os nutrientes são
reutilizados pela célula. A autofagia contribui para o turnover regular dos
componentes citoplasmáticos e é um mecanismo-chave para o
desenvolvimento dos tecidos, para a sobrevivência celular em situações de
escassez de nutrientes e para a manutenção da homeostasia. Por exemplo,
nas células do fígado, a mitocôndria média tem normalmente um tempo de
vida de cerca de 10 dias até sua destruição.
Figura 2-13. Diagrama esquemático das etapas de autofagia.
SÍNTESE DE ESTRUTURAS CELULARES PELO
RETÍCULO ENDOPLASMÁTICO E COMPLEXO
GOLGIENSE
Funções Específicas do Retículo Endoplasmático
A extensão do retículo endoplasmático e do complexo golgiense nas células
secretórias já foi destacada. Essas estruturas são formadas principalmente
por membranas de bicamada lipídica, similar à da membrana celular, e suas
paredes são revestidas por enzimas proteicas que catalisam a síntese de
muitas substâncias necessárias para a célula.
A maioria das sínteses começa no retículo endoplasmático. Os produtos
formados nele são então transferidos para o complexo golgiense, onde são
novamente processados, antes de serem liberados no citoplasma. Em
primeiro lugar, no entanto, vamos destacar os produtos específicos que são
sintetizados nas partes específicas do retículo endoplasmático e do
complexo golgiense.
Proteínas São Formadas pelo Retículo Endoplasmático
Granular. A porção granular do retículo endoplasmático é caracterizada
por grande número de ribossomos ancorados às superfícies externas da
membrana do retículo endoplasmático. Como discutido no Capítulo 3, as
moléculas de proteína são sintetizadas no interior da estrutura dos
ribossomos. Os ribossomos lançam algumas das moléculas de proteína
sintetizadas diretamente no citosol, mas também transferem muito mais
através da parede do retículo endoplasmático para o interior das vesículas e
túbulos endoplasmáticos, isto é, para a matriz endoplasmática.
Síntese de Lipídios pelo Retículo Endoplasmático Liso. O
retículo endoplasmático também sintetiza lipídios, especialmente os
fosfolipídios e o colesterol. Esses lipídios são rapidamente incorporados à
bicamada lipídica do próprio retículo endoplasmático, fazendo com que ele fique mais extenso. Esse processo ocorre principalmente na parte lisa do
retículo endoplasmático.
Para que o retículo endoplasmático não cresça além da demanda da célula,
pequenas vesículas, chamadas vesículas RE ou vesículas de transporte,
continuamente se destacam do retículo liso; a maioria dessas vesículas
migra com muita rapidez para o complexo golgiense.
Outras Funções do Retículo Endoplasmático. Outras funções
significativas do retículo endoplasmático, especialmente do retículo liso,
incluem as seguintes:
1. Ele fornece as enzimas que controlam a quebra do glicogênio, quando
ocorre demanda por energia.
2. Ele fornece grande número de enzimas que são capazes de desintoxicar
substâncias, tais como fármacos, que poderiam danificar as células. A
desintoxicação se dá por coagulação, oxidação, hidrólise, conjugação
com o ácido glicurônico, e por outras maneiras.
Funções Específicas do Complexo Golgiense
Funções Sintéticas do Complexo Golgiense. Embora a principal
função do complexo golgiense seja o processamento adicional de
substâncias já formadas no retículo endoplasmático, ele também tem a
capacidade de sintetizar certos carboidratos que não são formados no
retículo endoplasmático. Isso é particularmente válido para a formação de
grandes polímeros de sacarídeos ligados a pequenas quantidades de
proteína; os exemplos mais importantes incluem o ácido hialurônico e o
sulfato de condroitina.
Algumas das diversas funções do ácido hialurônico e do sulfato de
condroitina no corpo são as seguintes: (1) eles são os principais
componentes dos proteoglicanos, secretados no muco e em outras secreções glandulares; (2) eles são os principais componentes da substância
fundamental, ou componentes não fibrosos da matriz extracelular, no
exterior das células, nos espaços intersticiais, agindo como enchimentos
entre as fibras de colágeno e as células; (3) eles são os principais
componentes da matriz orgânica, tanto das cartilagens quanto dos ossos; e
(4) são importantes nas atividades celulares, incluindo a migração e a
proliferação.
Processamento de Secreções Endoplasmáticas pelo Complexo
Golgiense — Formação de Vesículas. A Figura 2-14resume as
principais funções do retículo endoplasmático e do complexo golgiense. À
medida que as substâncias são formadas no retículo endoplasmático,
especialmente as proteínas, elas são transportadas pelos túbulos para as
partes do retículo endoplasmático liso mais próximas do complexo
golgiense. Nesse ponto, pequenas vesículas de transporte, compostas de
pequenos envelopes de retículo endoplasmático liso, continuamente se
destacam e se difundem para a camada mais profunda do complexo
golgiense. Nas vesículas, estão as proteínas sintetizadas e outros produtos
do retículo endoplasmático.
As vesículas de transporte rapidamente se fundem com o complexo
golgiense e lançam as substâncias que contêm nos espaços vesiculares do
complexo golgiense. Aí, porções adicionais de carboidratos são
acrescentadas às secreções. Outra importante função do complexo golgiense
é compactar as secreções do retículo endoplasmático em pacotes muito
concentrados. À medida que as secreções passam para as camadas mais
externas do complexo golgiense, a compactação e o processamento
continuam. Por fim, tanto vesículas grandes, quanto pequenas continuam se
destacando do complexo golgiense, carregando com elas as substâncias
secretórias compactadas e, por sua vez, as vesículas se difundem por toda a
célula.
O seguinte exemplo dá uma ideia da velocidade desses processos: quando
célula glandular é exposta a aminoácidos radioativos, moléculas de proteína
radioativas recém-formadas podem ser detectadas no retículo
endoplasmático granular dentro de 3 a 5 minutos. Em 20 minutos, proteínas
recém-formadas já estão presentes no complexo golgiense e, após 1 ou 2
horas, proteínas são secretadas pela célula.
Figura 2-14. Formação de proteínas, lipídios e vesículas celulares pelo retículo endoplasmático e pelo complexo golgiense.
Tipos de Vesículas Formadas pelo Complexo golgiense —
Vesículas Secretórias e Lisossomos. Em célula intensamente
secretora, as vesículas, formadas pelo complexo golgiense, são
principalmente vesículas secretórias que contêm substâncias proteicas para serem secretadas pela superfície da membrana celular. Essas vesículas
secretórias primeiro se difundem para a membrana celular, depois se
fundem com ela e lançam suas substâncias para o exterior pelo mecanismo
da exocitose. A exocitose, na maior parte dos casos, é estimulada pela
entrada de íons cálcio na célula; os íons cálcio interagem com a membrana
vesicular, de forma ainda não bem compreendida, e causam sua fusão com a
membrana celular, seguida pela exocitose — isto é, a abertura da membrana
para o exterior e extrusão dos conteúdos. Algumas vesículas, entretanto, são
destinadas ao uso intracelular.
Uso das Vesículas Intracelulares para Repor as Membra nas
Celulares. Algumas das vesículas intracelulares, formadas pelo complexo
golgiense, se fundem com a membra na celular ou com as membranas de
estruturas intracelulares, tais como as das mitocôndrias ou mesmo do
retículo endoplasmático. Essa fusão aumenta a área dessas membranas e,
dessa forma, repõe as membranas conforme elas vão sendo consumidas. Por
exemplo, a membrana celular perde muito de seus componentes cada vez
que forma vesícula pinocitótica ou fagocítica, e as membranas vesiculares
do complexo golgiense continuamente repõem a membrana celular.
Em suma, o sistema membranoso do retículo endoplasmático e do
complexo golgiense representa órgão altamente metabólico, capaz de
formar novas estruturas intracelulares, bem como substâncias a serem
secretadas pela célula.
AS MITOCÔNDRIAS EXTRAEM ENERGIA DOS
NUTRIENTES
As principais substâncias, das quais a célula extrai energia, são os nutrientes
que reagem quimicamente com o oxigênio — carboidratos, gorduras e
proteínas. No corpo humano, essencialmente, todos os carboidratos são convertidos em glicose pelo trato digestório e pelo fígado, antes de
alcançarem outras células do corpo. Da mesma forma, as proteí nas são
convertidas em aminoácidos, e as gorduras em ácidos graxos. A Figura 2-
15 mostra o oxigênio e os alimentos — glicose, ácidos graxos e
aminoácidos — todos entrando na célula. Nesta, os alimentos reagem
quimicamente com o oxigênio, sob a influência de enzimas que controlam
as reações e canalizam a energia liberada na direção apropriada. Os detalhes
de todas essas funções digestivas e metabólicas são apresentados nos
Capítulos 63 a 73.
Resumidamente, quase todas essas reações oxidativas ocorrem nas
mitocôndrias, e a energia liberada é usada para formar o composto de alta
energia, o ATP. Em seguida, o ATP, e não os nutrientes originais, é usado
pela célula para energizar quase todas as reações metabólicas intracelulares
subsequentes.
Figura 2-15. Formação de trifosfato de adenosina (ATP) na célula, mostrando que a maior parte do ATP é formada nas mitocôndrias. ADP, difosfato de adenosina; CoA, coenzima A.
Características Funcionais do ATP
O ATP é nucleotídeo composto de (1) base nitrogenada, adenina; (2) açúcar
pentose, ribose; e (3) três radicais fosfato. Os dois últimos radicais fosfato
são conectados com o restante da molécula pelas chamadas ligações fosfato
de alta energia, representadas na fórmula mostrada anteriormente pelo
símbolo ~. Sob as condições físicas e químicas do corpo, cada uma dessas
ligações de alta energia contém cerca de 12.000 calorias de energia por mol
de ATP, o que é muitas vezes maior do que a energia armazenada em
ligação química usual; daí a origem do termo ligação de alta energia. A
ligação fosfato de alta energia é muito lábil, de forma que pode ser cindida
instantaneamente sempre que energia for necessária para promover outras
reações intracelulares.
Quando o ATP libera sua energia, um radical de ácido fosfórico se separa,
formando o difosfato de adenosina (ADP). Essa energia liberada é usada
para energizar muitas outras funções da célula, como a síntese de
substâncias e a contração muscular.
Para reconstituir o ATP celular que foi consumido, a energia, derivada dos
nutrientes celulares, é usada para recombinar o ADP e o ácido fosfórico, formando de novo o ATP, e todo o processo se repete indefinidamente. Por
essas características, o ATP é chamado moeda de energia da célula, pois ele
pode ser gasto e se refazer continuamente em períodos de apenas alguns
minutos.
Processos Químicos na Formação de ATP — O Papel das
Mitocôndrias. À medida que entra na célula, a glicose é submetida, no
citoplasma, às enzimas que a convertem em ácido pirúvico (processo
chamado glicólise). Pequena quantidade de ADP é transformada em ATP
pela energia liberada durante essa conversão, mas essa quantidade é
responsável por menos de 5% do metabolismo energético total da célula.
Cerca de 95% da formação do ATP na célula ocorrem nas mitocôndrias. O
ácido pirúvico, derivado dos carboidratos, ácidos graxos dos lipídios, e
aminoácidos das proteínas são convertidos no composto acetil-coenzima A
(CoA), na matriz das mitocôndrias. Esse composto, por sua vez, é
processado (para fins de extração de sua energia) por outra série de enzimas
na matriz das mitocôndrias; essa sequência de reações químicas é chamada
ciclo do ácido cítrico ou ciclo de Krebs. Essas reações químicas são tão
importantes que serão explicadas detalhadamente no Capítulo 68.
No ciclo do ácido cítrico, a acetil-CoA é clivada em suas partes
componentes, átomos de hidrogênio e dióxido de carbono. O dióxido de
carbono se difunde para fora das mitocôndrias e eventualmente para fora da
célula; por fim, é excretado do corpo pelos pulmões.
Os átomos de hidrogênio, de modo inverso, são muito reativos e se
combinam com o oxigênio que também se difundiu para as mitocôndrias.
Essa combinação libera uma quantidade enorme de energia, usada pelas
mitocôndrias para converter grande quantidade do ADP em ATP. Essas
reações são complexas, requerendo a participação de grandes números de
enzimas proteicas, que são partes integrantes das dobras da membrana das
mitocôndrias, pro jetando-se para dentro da matriz mitocondrial. O evento inicial é a remoção de um elétron do átomo de hidrogênio, o que o converte
a íon hidrogênio. O evento final é a combinação dos íons hidrogênio com o
oxigênio para formar água, com liberação de enorme quantidade de energia
para grandes proteínas globulares, que se projetam como protuberâncias das
dobras das membranas mitocondriais; esse processo recebe o nome de ATP-
sintetase. Por fim, a enzima ATP sintetase usa a energia dos íons hidrogênio
para converter ADP em ATP. O ATP recém-formado é transportado para
fora da mitocôndria, para todas as partes do citoplasma e do nucleoplasma
da célula, onde sua energia é usada para múltiplas funções celulares.
Esse processo geral de formação de ATP é chamado mecanismo
quimiosmótico. Os detalhes químicos e físicos desse mecanismo são
apresentados no Capítulo 68, e muitas das funções metabólicas do ATP no
corpo são apresentadas em detalhes nos Capítulos 68 a 72.
Usos do ATP no Funcionamento Celular. A energia do ATP é usada
para promover três grandes categorias de funções celulares: (1) transporte
de substâncias através das membranas da célula; (2) síntese de componentes
químicos pela célula; e (3) função mecânica. Esses usos do ATP são
ilustrados pelos exemplos da Figura 2-16: (1) para fornecer energia para o
transporte do sódio através da membrana celular; (2) para promover a
síntese de proteínas pelos ribossomos; e (3) para suprir a energia necessária
para a contração muscular.
Além do transporte do sódio pela membrana, a energia do ATP é
necessária para o transporte dos íons potássio, íons cálcio, íons magnésio,
íons fosfato, íons cloreto, íons urato, íons hidrogênio e de muitos outros
íons e de diversas substân cias orgânicas pela membrana. O transporte pela
membra na é tão importante para o funcionamento celular que algumas
células — as células tubulares renais, por exemplo — usam até 80% do
ATP que formam somente para essa finalidade.
Além de sintetizar proteínas, as células sintetizam fosfolipídios, colesterol,
purinas, pirimidinas e uma série de outras substâncias. A síntese de quase
todos os compostos químicos requer energia. Por exemplo, uma só
molécula de proteína pode ser composta de vários milhares de amino ácidos,
unidos uns aos outros por ligações peptídicas. A formação de cada uma
dessas ligações requer energia derivada do rompimento de quatro ligações
de alta energia; assim, diversos milhares de moléculas de ATP têm de
liberar energia para cada molécula de proteína formada. De fato, algumas
células usam até 75% de todo o ATP que formam simplesmente para
sintetizar novos compostos químicos, especialmente moléculas de proteína;
isso é particularmente verdadeiro durante a fase de crescimento das células.
O último dos principais usos do ATP é o de fornecer energia para células
especiais realizarem trabalho mecânico. Veremos, noCapítulo 6, que cada
contração da fibra muscular requer gasto de enorme quantidade de energia
do ATP. Outras células realizam trabalho mecânico de outras formas,
especialmente por movimentos ciliares e ameboides, descritos mais adiante
neste Capítulo. A fonte de energia para todos esses tipos de trabalhos
mecânicos é o ATP.
Em suma, o ATP está sempre disponível para liberar rapidamente e quase
explosivamente sua energia onde for necessário na célula. Para repor o ATP
usado pela célula, reações químicas muito mais lentas quebram
carboidratos, gorduras e proteínas e usam a energia desses processos para
formar novo ATP. Mais de 95% desse ATP são formados nas mitocôndrias;
por isso as mitocôndrias são chamadas “casa de força” da célula.