Tratado de Fisiologia Médica
Tipos Sanguíneos Rh
aglutininas anti-A. O sangue do tipo B tem aglutinogênios B e aglutina com
as aglutininas anti-B. O tipo sanguíneo AB tem aglutinogênios A e B e
aglutina com ambos os tipos de aglutininas.
Tabela 36-2 Tipagem Sanguínea Demonstrando Aglutinação de Células de Diferentes
Tipos Sanguíneos com Aglutininas Anti-A ou Anti-B no Soro
Soro
Tipos de Hemácias Anti-A Anti-B
O − −
A + −
B − +
AB + +
TIPOS SANGUÍNEOS Rh
Juntamente com o sistema sanguíneo ABO, o sistema Rh também é
importante para as transfusões sanguíneas. A principal diferença entre o
sistema ABO e o sistema Rh é a seguinte: no sistema ABO, as aglutininas
plasmáticas responsáveis pelas reações de transfusão se desenvolvem
espontaneamente, enquanto no sistema Rh quase nunca ocorrem aglutininas
espontâneas. Em vez disso, primeiramente a pessoa precisa ser
maciçamente exposta a antígeno Rh, tal como por transfusão de sangue
contendo o antígeno Rh antes que o desenvolvimento suficiente de
aglutininas cause reação de transfusão significativa.
Antígenos Rh — Pessoas “Rh positivas” e “Rh negativas”.
Existem seis tipos comuns de antígenos Rh, cada um deles sendo chamado
fator Rh. Esses tipos são designados C, D, E, c, d e e. A pessoa que tem o
antígeno C não tem o antígeno c, mas a pessoa que não tem o antígeno C sempre tem o antígeno c. O mesmo é verdadeiro para os antígenos D-d e E-
e. Além disso, devido ao modo de herança desses fatores cada pessoa tem
três pares de antígenos.
O antígeno do tipo D é muito prevalente na população, sendo,
consideravelmente, mais antigênico do que os outros antígenos Rh.
Qualquer pessoa com esse tipo de antígeno é considerada Rh positiva,
enquanto a pessoa que não tenha o antígeno D é considerada Rh negativa.
Entretanto, deve ser observado que, mesmo em pessoas Rh negativas,
outros antígenos Rh ainda podem causar reações de transfusão, apesar de
essas reações, em geral, serem mais brandas.
Aproximadamente 85% da população branca é Rh positiva e 15%, Rh
negativa. Nos negros norte-americanos, a porcentagem de Rh positivos é
aproximadamente 95%, enquanto em negros africanos, é cerca de 100%.
RESPOSTA IMUNE Rh
Formação das Aglutininas Anti-Rh. Quando hemácias contendo fator
Rh são injetadas em uma pessoa, cujo sangue não contém o fator Rh — ou
seja, em pessoa Rh negativa — aglutininas anti-Rh se desenvolvem
lentamente, atingindo sua concentração máxima após período de 2 a 4
meses. Essa resposta imune ocorre, em maior grau, em algumas pessoas do
que em outras. Com exposições múltiplas ao fator Rh, a pessoa Rh
negativa, finalmente, pode ficar muito “sensibilizada” contra o fator Rh.
Características das Reações de Transfusão Rh. Se a pessoa Rh
negativa nunca foi exposta ao sangue Rh positivo, a transfusão de sangue
Rh positivo nessa pessoa, provavelmente, não causará reação imediata.
Entretanto, anticorpos anti-Rh podem se desenvolver em quantidade
suficiente, durante as próximas 2 a 4 semanas, para ocasionar a aglutinação
das células transfundidas que ainda estão circulando no sangue. Essas células são hemolisadas pelo sistema de macrófagos dos tecidos. Assim, há
reação de transfusão retardada, apesar de ser, em geral, leve. Em transfusão
subsequente de sangue Rh positivo na mesma pessoa que agora está
imunizada contra o fator Rh, a reação de transfusão se dá de forma
amplificada e pode ser imediata e tão grave quanto a reação de trans fusão
provocada por incompatibilidade entre tipos sanguíneos A e B.
Eritroblastose Fetal (“Doença Hemolítica do Recém-
nascido”)
A eritroblastose fetal é doença do feto e do recém-nascido, caracterizada
pela aglutinação e fagocitose das hemácias do feto. Na maioria dos casos de
eritroblastose fetal, a mãe é Rh negativa e o pai, Rh positivo. O recém-
nascido herda o antígeno Rh positivo do pai e a mãe desenvolve aglutininas
anti-Rh pela exposição ao antígeno Rh do feto. Por sua vez, as aglutininas
da mãe se difundem através da placenta para o feto, causando a aglutinação
das hemácias.
Incidência da Doença. Mãe Rh negativa, gestante do primeiro filho Rh
positivo, geralmente não desenvolve aglutininas anti-Rh suficientes para
causar dano. Entretanto, cerca de 3% dos segundos filhos Rh positivos
exibem sinais de eritroblastose fetal; cerca de 10% dos terceiros filhos‐
exibem a doença; e a incidência aumenta, progressivamente, com as
gestações subsequentes.
Efeito dos Anticorpos da Mãe sobre o Feto. Depois que anticorpos
anti-Rh se formam na mãe, eles se difundem lentamente através da
membrana placentária para o sangue do feto. No feto, causam aglutinação
do sangue fetal. As hemácias aglutinadas, em seguida, se hemolisam,
liberando hemoglobina no sangue. Os macrófagos do feto convertem essa
hemoglobina em bilirrubina, fazendo com que a pele do neonato fique amarela (ictérica). Os anticorpos podem também atacar e destruir outras
células do corpo.
Quadro Clínico da Eritroblastose. O recém-nascido ictéri co e
eritroblastótico, em geral, é anêmico ao nascer, e as aglutininas anti-Rh da
mãe usualmente circulam pelo sangue do neonato durante 1 a 2 meses após
o nascimento, destruindo cada vez mais hemácias.
Os tecidos hematopoéticos do recém-nascido tentam repor as hemácias
hemolisadas. O fígado e o baço se dilatam e produzem hemácias do mesmo
modo como faziam durante o meio da gestação. Devido à produção muito
acelerada de hemácias, muitas formas precoces de hemácias, incluindo
diversas formas blásticas nucleadas, passam da medula óssea para o
sistema circulatório do neonato, e devido à presença dessas hemácias
blásticas nucleadas, a doença é chamada eritroblastose fetal.
Apesar de a grave anemia da eritroblastose fetal, muitas vezes, levar à
morte, muitas crianças que sobrevivem a essa anemia apresentam retardo
mental permanente ou lesões das áreas motoras do cérebro devido à
precipitação da bilirrubina nas células neuronais, causando a destruição de
muitas delas, a condição chamada kernicterus.
Tratamento do Neonato com Eritroblastose Fetal. O tratamento da
eritroblastose fetal é a substituição do sangue do neonato por sangue Rh
negativo. Cerca de 400 mililitros de sangue Rh negativo são transfundidos
durante período de 1,5 hora ou mais, enquanto o próprio sangue Rh positivo
do neonato é removido. Esse procedimento pode ser repetido várias vezes
durante as primeiras semanas de vida, principalmente para manter baixos
níveis de bilirrubina prevenindo contra o kernicterus. Com o passar do
tempo, as células Rh negativas transfundidas são substituídas pelas células
Rh positivas próprias do neonato, processo que necessita de 6 ou mais semanas, tempo mais que suficiente para que as aglutininas anti-Rh da mãe
sejam destruídas.
Prevenção da Eritroblastose Fetal. O antígeno D do sistema de grupo
sanguíneo Rh é o culpado primário pela imunização da mãe Rh negativa
contra um feto Rh positivo. Na década de 1970, ocorreu drástica redução da
incidência de eritroblastose fetal, alcançada por meio do desenvolvimento
da imunoglobulina Rh globina, um anticorpo anti-D que é administrado à
gestante após 28 a 30 semanas de gestação. O anticorpo anti-D é também
administrado às gestantes Rh negativas, que têm o primeiro filho Rh
positivo, para impedir a sensibilização das mães contra o antígeno D. Essa
etapa diminui enormemente o risco de desenvolvimento de grande
quantidade de anticorpos D durante a segunda gestação.
O mecanismo pelo qual a imunoglobulina Rh globina previne contra a
sensibilização do antígeno D não é completamente compreendido, mas um
dos efeitos do anticorpo anti-D é o de inibir a produção de anticorpos pelos
linfócitos B induzida pelo antígeno na gestante. O anticorpo anti-D
administrado também se fixa aos locais antigênicos das hemácias Rh
positivas fetais que podem cruzar a placenta e entrar na circulação da
gestante, interferindo com a resposta imune ao antígeno D.
REAÇÕES DE TRANSFUSÃO RESULTANTES DE TIPOS
SANGUÍNEOS NÃO COMPATÍVEIS
Se o sangue do doador com determinado tipo sanguíneo for transfundido
para o receptor com outro tipo sanguíneo, é provável que ocorra reação de
transfusão, na qual as hemácias do sangue do doador são aglutinadas. É
raro que o sangue transfundido cause aglutinação das células do receptor
pelo seguinte motivo: a porção plasmática do sangue do doador é diluída
por todo o plasma do receptor, diminuindo consequentemente a titulação das aglutininas transfundidas até um nível muito baixo para causar
aglutinação. De forma inversa, a pequena quantidade de sangue infundido
não dilui, significativamente, as aglutininas no plasma do receptor.
Portanto, as aglutininas do receptor ainda podem aglutinar as células não
compatíveis do doador.
Como explicado anteriormente, todas as reações de transfusão causam por
fim hemólise imediata, resultante das hemolisinas, ou hemólise tardia,
resultante da fagocitose das células aglutinadas. A hemoglobina liberada
pelas hemácias é convertida pelos fagócitos em bilirrubina, sendo excretada
na bile pelo fígado, como discutido no Capítulo 71. A concentração de
bilirrubina nos líquidos corporais se eleva o suficiente para causar icterícia
— ou seja, os tecidos internos e a pele da pessoa são coloridos pelo
pigmento amarelo da bile. Entretanto, se a função hepática estiver normal, o
pigmento biliar será excretado pelos intestinos, por meio da bile hepática,
de modo que a icterícia geralmente não aparece no adulto, a não ser que
mais de 400 mililitros de sangue sejam hemolisados em menos de 1 dia.
Insuficiência Renal Aguda após Reações de Transfusão. Um dos
efeitos mais letais das reações de transfusão é a insuficiência renal, que
pode se iniciar após alguns minutos ou horas e continuar até que a pessoa
morra por insuficiência renal aguda.
A insuficiência renal parece resultar de três causas: primeira, a reação
antígeno-anticorpo da reação de transfusão libera substâncias tóxicas do
sangue hemolisado, causando vasoconstrição renal muito intensa. Segunda,
a perda de hemácias circulantes pelo receptor, juntamente com a produção
de substâncias tóxicas das células hemolisadas e das reações imunes, em
geral causa choque circulatório. A pressão arterial cai lentamente, com
diminuição do fluxo renal e do débito urinário. Terceira, se a quantidade
total de hemoglobina livre liberada no sangue circulante for maior que a
quantidade que pode se ligar à “haptoglobina” (proteína plasmática que liga pequenas quantidades de hemoglobina), grande parte do excesso vazará