Tratado de Fisiologia Médica
Resumo da Regulação da Glicose Sanguínea
A Somatostatina Inibe a Secreção de Glucagon e de Insulina
As células delta das ilhotas de Langerhans secretam o hormônio somatostatina,
polipeptídeo com 14 aminoácidos e meia-vida extremamente curta, de apenas 3
minutos, no sangue circulante. Quase todos os fatores relacionados à ingestão de
alimentos estimulam a secreção de somatostatina. Eles compreendem (1) glicose sanguínea aumentada; (2) aminoácidos aumentados; (3) ácidos graxos
aumentados; e (4) concentrações elevadas de diversos hormônios gastrointestinais, liberados do trato gastrointestinal superior, em resposta à
ingestão de alimentos.
Por sua vez, a somatostatina apresenta efeitos inibidores múltiplos, como
veremos a seguir:
1. A somatostatina age localmente nas próprias ilhotas de Langerhans para
deprimir a secreção de insulina e de glucagon.
2. A somatostatina diminui a motilidade do estômago, do duodeno e da vesicular
biliar.
3. A somatostatina diminui a secreção e a absorção no trato gastrointestinal.
Reunindo todas essas informações, sugeriu-se que o principal papel da
somatostatina é prolongar o tempo em que os nutrientes alimentares são assimilados pelo sangue. Ao mesmo tempo, o efeito da somatostatina de deprimir
a secreção da insulina e do glucagon reduz a utilização dos nutrientes absorvidos
pelos tecidos, impedindo, assim, consumo imediato dos alimentos, o que os torna disponíveis durante um período de tempo mais longo.
Devemos também recordar que a somatostatina é a mesma substância química
que o hormônio inibidor do hormônio do crescimento, secretado no hipotálamo e
que suprime a secreção do hormônio do crescimento pela hipófise anterior.
RESUMO DA REGULAÇÃO DA GLICOSE SANGUÍNEA
Na pessoa normal, a concentração de glicose sanguínea está sob controle
estrito, geralmente entre 80 e 90 mg/100 mL de sangue na pessoa em jejum,
a cada manhã, antes do desjejum. Essa concentração aumenta para 120 a
140 mg/100 mL durante a primeira hora ou um pouco mais, depois da
refeição, mas os sistemas de feedback para o controle da glicose sanguínea
restabelecem a concentração de glicose rapidamente de volta aos níveis de controle, em geral, dentro de 2 horas depois da última absorção de
carboidratos. Inversamente, na ausência de alimentação, a função da
gliconeogênese do fígado produz a glicose necessária para manter o nível
sérico de glicose em jejum.
Os mecanismos para atingir esse alto nível de controle foram apresentados
neste Capítulo e podem resumir-se do seguinte modo:
1. O fígado funciona como importante sistema tampão da glicose
sanguínea. Ou seja, quando a glicose sanguínea sobe a uma concentração
elevada depois de uma refeição e a secreção da insulina também aumenta
até uns dois terços da glicose absorvida pelo intestino, são quase
imediatamente armazenadas no fígado, sob a forma de glicogênio. Então,
durante as horas seguintes, quando tanto a concentração de glicose
sanguínea quanto a secreção de insulina caem, o fígado libera a glicose
de volta ao sangue. Dessa maneira, o fígado reduz as flutuações da
concentração da glicose sanguínea para cerca de um terço do que seria na
ausência desse mecanismo. De fato, nos pacientes portadores de doença
hepática grave, é quase impossível manter a faixa estreita da
concentração da glicose sanguínea.
2. Tanto a insulina como o glucagon funcionam como importantes
sistemas de controle por feedback para manter a concentração de
glicose sanguínea normal. Quando a concentração da glicose está muito
elevada, a secreção aumentada de insulina faz com que a concentração de
glicose sanguínea diminua em direção aos valores normais.
Inversamente, a redução da glicose sanguínea estimula a secreção do
glucagon; o glucagon, então, funciona na direção oposta, para aumentar a
glicose até o normal. Na maioria das condições normais, o mecanismo de
feedback da insulina é mais importante do que o mecanismo do
glucagon, mas, nos casos de falta de ingestão ou de utilização excessiva
da glicose durante o exercício e outras situações de estresse, o
mecanismo do glucagon também torna-se valioso.
3. Também, na hipoglicemia grave, o efeito direto dos baixos níveis de
glicose sanguínea no hipotálamo estimula o sistema nervoso simpático.
A epinefrina secretada pelas glândulas adrenais aumenta ainda mais a
liberação de glicose pelo fígado, o que também ajuda a proteger contra a
hipoglicemia grave.
4. E finalmente, durante um período de horas e dias, tanto o hormônio do
crescimento como o cortisol são secretados em resposta à hipoglicemia e
ambos diminuem a utilização da glicose pela maioria das células do
organismo, convertendo, por sua vez, uma quantidade maior de
utilização das gorduras. Isso também ajuda a concentração da glicose
sanguínea a retornar ao normal.
A Importância da Regulação da Glicose Sanguínea. A pergunta
poderia ser feita: Por que é tão importante manter a concentração constante
da glicose no sangue se, particularmente, a maioria dos tecidos pode mudar
para a utilização das gorduras e proteínas como fonte de energia, na
ausência da glicose? A resposta é que a glicose é o único nutriente que pode
ser utilizado normalmente pelo encéfalo, pela retina e pelo epitélio
germinativo das gônadas, em quantidade suficiente para supri-los de modo
ideal com a energia requerida. Consequentemente, isso é importante para
manter a concentração da glicose sanguínea em níveis suficientes para
fornecer essa nutrição necessária.
A maioria da glicose formada pela gliconeogênese durante o período
interdigestivo é empregada no metabolismo neural. De fato, é importante
que o pâncreas não secrete qualquer quantidade de insulina durante esse
perío do; de outra forma, as escassas reservas de glicose disponíveis
seguiriam todas para os músculos e outros tecidos periféricos, deixando o
cérebro sem fonte de nutrição.
É também importante que a concentração da glicose sanguínea não
aumente demais por vários motivos:
1. A glicose contribui de forma importante para a pressão osmótica no
líquido extracelular, e, se a concentração de glicose aumentar para
valores excessivos, isso pode provocar considerável desidratação celular.
2. Nível excessivamente elevado da concentração de glicose sanguínea
provoca a perda de glicose na urina.
3. A perda de glicose na urina também provoca diurese osmótica pelos
rins, que pode depletar o organismo de seus líquidos e eletrólitos.
4. Aumentos duradouros da glicose sanguínea podem causar lesões em
diversos tecidos, especialmente nos vasos sanguíneos. A lesão vascular
associada ao diabetes descontrolado leva a maior risco de ataques
cardíacos, derrame, doença renal no estágio terminal e cegueira.
Diabetes Melito
O diabetes melito é uma síndrome do metabolismo defeituoso de carboidratos,
lipídios e proteínas, causada tanto pela ausência de secreção de insulina como
pela diminuição da sensibilidade dos tecidos à insulina. Existem dois tipos gerais
de diabetes melito:
1. O diabetes tipo 1, também chamado diabetes melito dependente de insulina, é
ocasionado pela ausência de secreção de insulina.
2. O diabetes tipo 2, também chamado diabetes melito não dependente de
insulina, é inicialmente provocado pela diminuição da sensibilidade dos tecidos-alvo ao efeito metabólico da insulina. Essa sensibilidade reduzida à insulina é
frequentemente chamada resistência insulínica.
Em ambos os tipos de diabetes melito, o metabolismo de todos os nutrientes
está alterado. O efeito básico da ausência de insulina ou da resistência à insulina
no metabolismo da glicose é impedir a captação eficiente e a utilização da glicose
pela maioria das células do organismo, exceto pelo cérebro. Como resultado, a
concentração de glicose sanguínea aumenta, a utilização celular da glicose cai
ainda mais, e a utilização dos lipídios e das proteínas aumenta.
Diabetes Tipo 1 — Deficiência de Produção de Insulina pelas Células Beta do
Pâncreas
Lesão das células beta do pâncreas ou doenças que prejudiquem a produção de
insulina podem levar ao diabetes tipo 1. As infecções virais ou distúrbios
autoimunes podem estar envolvidos na destruição das células beta em diversos pacientes portadores de diabetes tipo 1, embora a hereditariedade também‐ desempenhe papel importante na determinação da suscetibilidade das células
beta à sua destruição, em consequência dessas agressões. Em algumas
circunstâncias, pode existir tendência hereditária para a degeneração das células beta, até mesmo na ausência de infecções virais ou de distúrbios autoimunes.
O início usual do diabetes tipo 1 ocorre por volta dos 14 anos de idade nos
Estados Unidos, e por esse motivo é, com frequência, chamado diabetes melito
juvenil. Entretanto, o diabetes tipo 1 pode ocorrer em qualquer idade, incluindo na
fase adulta, após distúrbios que levem à destruição das células betapancreáticas. O diabetes tipo 1 pode se desenvolver de modo repentino, em período de alguns dias ou semanas, com três sequelas principais: (1) glicose sanguínea aumentada;
(2) aumento da utilização dos lipídios como fonte de energia e para a formação de colesterol pelo fígado; e (3) depleção das proteínas do organismo.
Aproximadamente 5% a 10% das pessoas com diabetes melito apresentam a forma tipo 1 da doença.
A Concentração da Glicose Sanguínea Atinge Níveis Elevados no Diabetes
Melito. A ausência de insulina reduz a eficiência da utilização periférica da glicose e aumenta a produção de glicose, elevando a glicose plasmática para cerca de
300 a 1.200 mg/100 mL. O aumento da glicose plasmática então apresenta efeitos
múltiplos por todo o organismo.
A Glicose Sanguínea Aumentada Provoca Perda de Glicose na Urina. A
glicose sanguínea elevada faz com que mais glicose chegue aos túbulos renais em quantidade maior do que pode ser reabsorvida, e o excesso da glicose é
eliminado na urina. Isso ocorre, usualmente, quando a concentração de glicose
fica acima de 180 mg/100 mL, o nível chamado “limiar” sanguíneo para o aparecimento da glicose na urina. Quando o nível de glicose sanguínea atinge entre 300 e 500 mg/100 mL — valores comuns nas pessoas portadoras de
diabetes grave não tratado — 100 ou mais gramas de glicose podem ser perdidos pela urina a cada dia.
A Glicose Sanguínea Aumentada Causa Desidratação. Níveis de glicose
sanguínea muito elevados (chegando a atingir, às vezes, até 8 a 10 vezes o seu valor normal no diabetes grave não tratado) podem causar grave desidratação celular em todo o organismo. Esse fenômeno ocorre, em parte, porque a glicose não se difunde facilmente pelos poros das membranas celulares, e o aumento da
pressão osmótica nos líquidos extracelulares causa transferência osmótica de
água para fora das células.
Além do efeito direto de desidratação celular devido ao excesso de glicose, a
perda da glicose na urina causa diurese osmótica, o que significa que o efeito
osmótico da glicose nos túbulos renais reduz muito a reabsorção tubular de
líquidos. O efeito global é a perda maciça de líquido na urina, ocasionando
desidratação do líquido extracelular, que, por sua vez, causa desidratação
compensatória do líquido intracelular. Assim, a poliúria (excreção excessiva de
urina), as desidratações intracelular e extracelular e o aumento da sede são
sintomas clássicos do diabetes.
A Concentração da Glicose Elevada Crônica Causa Injúria Tecidual. Quando
a glicose sanguínea é mal controlada durante longos períodos no diabetes melito,
os vasos sanguíneos, em diversos tecidos do organismo, começam a funcionar‐
anormalmente e passam por alterações estruturais que resultam em aporte
inadequado de sangue para os tecidos. Por sua vez, essa situação leva a
aumento do risco de ataque cardíaco, derrame, doença renal no estágio terminal,
retinopatia, cegueira, isquemia e gangrena nos membros.
A concentração da elevada glicose crônica também provoca lesões em muitos
outros tecidos. Por exemplo, neuropatia periférica, que consiste no funcionamento
anormal dos nervos periféricos, e disfunção do sistema nervoso autônomo são
complicações frequentes do diabetes melito crônico descontrolado. Essas
anormalidades podem resultar em alteração dos reflexos cardiovasculares,
deterioração do controle vesical, diminuição da sensibilidade nas extremidades e
outros sintomas de lesão de nervos periféricos.
Os mecanismos exatos que levam à lesão tecidual no diabetes não são bem
compreendidos, mas provavelmente envolvem efeitos múltiplos das elevadas
concentrações de glicose e outras anormalidades metabólicas nas proteínas das
células endoteliais vasculares e das células musculares lisas, assim como de
outros tecidos. Além disso, a hipertensão, secundária à lesão renal, e a
aterosclerose, secundária ao metabolismo anormal dos lipídios, frequentemente
desenvolvem-se nos pacientes portadores de diabetes e amplificam a lesão
tecidual causada pela glicose elevada.
O Diabetes Melito Causa Aumento da Utilização dos Lipídios e Acidose
Metabólica. A alteração do metabolismo de carboidratos para metabolismo de
lipídios no diabetes aumenta a liberação de cetoácidos, tais como o ácido
acetoacético e o ácido b-hidroxibutírico, no plasma mais rapidamente do que as
células teciduais são capazes de captá-los e realizar sua oxidação. Como
consequência, desenvolve-se acidose metabólica grave, devido ao excesso de
cetoácidos, que, por sua vez, em associação à desidratação causada pela formação excessiva de urina, pode provocar acidose grave. Esse cenário conduz
rapidamente ao coma diabético e à morte, a menos que o paciente receba tratamento imediatamente, com grande quantidade de insulina.
Todas as compensações fisiológicas usuais que ocorrem na acidose metabólica
também ocorrem na acidose diabética. Entre elas incluem-se respiração rápida e profunda, que provoca aumento da expiração de dióxido de carbono; esse
mecanismo age como tampão para a acidose, mas também depleta o líquido
extracelular de suas reservas de bicarbonato. Os rins compensam por meio da redução da excreção de bicarbonato, gerando novo bicarbonato, que é devolvido
ao líquido extracelular.
Embora a acidose extrema só ocorra nas circunstâncias mais graves do diabetes
descontrolado, quando o pH do sangue cai abaixo de 7,0, coma acidótico e morte
podem ocorrer em questão de horas. As alterações globais nos eletrólitos do
sangue como consequência de acidose diabética grave são mostradas na Figura
79-11.
A utilização excessiva de lipídios no fígado, durante um longo período, provoca a
presença de grande quantidade de colesterol no sangue circulante e aumento da
deposição do colesterol nas paredes arteriais. Isso leva à arteriosclerose grave e a
outras lesões vasculares, como discutido antes.
Figura 79-11. Alterações dos constituintes sanguíneos no coma diabético, mostrando valores normais (barras lilás) e valores no coma diabético (barras vermelhas).
O Diabetes Causa Depleção das Proteínas do Organismo. A incapacidade de
utilização da glicose como fonte de energia leva ao aumento da utilização e à
diminuição do armazenamento das proteínas, assim como dos lipídios. Por
conseguinte, a pessoa portadora de diabetes melito grave não tratado apresenta
perda de peso rápida e astenia (ausência de energia), apesar de ingerir grande
quantidade de alimentos (polifagia). Sem tratamento, essas anormalidades
metabólicas podem provocar severo consumo dos tecidos corporais e óbito, em
poucas semanas.
Diabetes Tipo 2 — Resistência aos Efeitos Metabólicos da Insulina
O diabetes tipo 2 é de longe mais comum que o tipo 1, correspondendo a cerca
de 90% a 95% de todos os casos de diabetes melito. Na maioria dos casos, o
início do diabetes tipo 2 ocorre depois dos 30 anos de idade, geralmente entre os
50 e 60 anos, e a evolução da doença é gradual. Portanto, a síndrome é
frequentemente descrita como diabetes do adulto. Nos últimos anos, entretanto, ocorreu um aumento sistemático no número de indivíduos mais jovens, alguns
com menos de 20 anos de idade, com diabetes tipo 2. Essa tendência parece estar relacionada principalmente ao aumento da prevalência da obesidade, que é o fator de risco mais importante para o diabetes tipo 2 em crianças, assim como
em adultos.
Obesidade, Resistência à Insulina e “Síndrome Metabólica” Geralmente
Precedem o Desenvolvimento do Diabetes Tipo 2. O diabetes tipo 2, ao
contrário do tipo 1, está associado ao aumento da concentração de insulina plasmática (hiperinsulinemia). Isso acontece como resposta compensatória das
células betapancreáticas à resistência à insulina, uma sensibilidade diminuída dos
tecidos-alvo aos efeitos metabólicos da insulina. A redução da sensibilidade à insulina prejudica a utilização e o armazenamento dos carboidratos, elevan do o nível da glicose sanguínea e estimulando o aumento compensatório da secreção
de insulina.
O desenvolvimento da resistência à insulina e do metabolismo alterado da
glicose é geralmente um processo gradual, começando com excesso de ganho de peso e obesidade. Os mecanismos que relacionam a obesidade à resistência insu‐
línica, no entanto, ainda não estão bem esclarecidos. Alguns estudos sugerem que pode haver menos receptores de insulina, especialmente no músculo esquelético, no fígado e no tecido adiposo, nos indivíduos obesos do que nos de
peso normal. Entretanto, a maior parte da resistência à insulina parece ser
provocada por anormalidades nas vias de sinalização que ligam a ativação do receptor a diversos efeitos celulares. Alteração da sinalização da insulina parece
estar intimamente relacionada aos efeitos tóxicos do acúmulo dos lipídios nos
tecidos, como o músculo esquelético e fígado, em consequência do ganho excessivo de peso.
A resistência insulínica faz parte de uma cascata de distúrbios que
frequentemente é chamada “síndrome metabólica”. Algumas das características da síndrome metabólica incluem: (1) obesidade, especialmente acúmulo de
gordura abdominal; (2) resistência à insulina; (3) hiperglicemia de jejum; (4) anormalidades lipídicas, tais como aumento dos triglicerídeos no sangue e
redução da lipoproteína de alta densidade; e (5) hipertensão. Todas as características da síndrome metabólica estão intimamente relacionadas com o acúmulo do excesso de tecido adiposo na cavidade abdominal em torno das
vísceras.
O papel da resistência insulínica que contribui com alguns dos componentes da
síndrome metabólica ainda não foi bem esclarecido, apesar de estar claro que a
resistência à insulina é a causa primária do aumento da concentração da glicose
no sangue. A principal consequência negativa da síndrome metabólica é a doença
cardiovascular, incluindo aterosclerose e lesões em diversos órgãos do corpo.
Várias das anormalidades metabólicas, associadas a essa síndrome, aumentam o
risco de doença cardiovascular, e a resistência à insulina predispõe ao
desenvolvimento de diabetes melito tipo 2, que é também importante causa de
doença cardiovascular.
Outros Fatores Capazes de Provocar Resistência Insulínica e Diabetes Tipo
2. Embora a maioria dos pacientes portadores de diabetes tipo 2 esteja com
excesso de peso ou apresente acúmulo substancial de gordura visceral, grave
resistência à insulina e diabetes tipo 2 também podem ocorrer como resulta do de
outras condições genéticas ou adquiridas que prejudicam a sinalização da insulina
nos tecidos periféricos (Tabela 79-2).
A síndrome do ovário policístico (PCOS), por exemplo, está associada aos
aumentos acentuados da produção de androgê nios ovarianos e resistência à
insulina. É um dos distúrbios endócrinos mais comuns em mulheres, acometendo
aproxima damente 6% de todas as mulheres durante sua vida reprodutiva. Embora
a patogênese da PCOS continue pouco elucidada, a resistência insulínica e a
hiperinsulinemia são encontradas em torno de 80% das mulheres afetadas. As
consequências em longo prazo incluem maior risco de diabetes melito, de
aumento da concentração dos lipídios sanguíneos e doença cardiovascular.
A formação excessiva de glicocorticoides (síndrome de Cushing) ou de hormônio
do crescimento (acromegalia) também diminui a sensibilidade de diversos tecidos
aos efeitos metabólicos da insulina e pode levar ao desenvolvimento de diabetes
melito. As causas genéticas da obesidade e da resistência insulínica, se forem
bastante graves, também podem dar origem ao diabetes tipo 2, assim como a
muitas outras características da síndrome metabólica, incluindo a doença
cardiovascular.
Tabela 79-2 Algumas Causas de Resistência à Insulina
• Obesidade/excesso de peso (especialmente excesso de adiposidade visceral)
• Excesso de glicocorticoides (síndrome de Cushing ou terapia com esteroides)
• Excesso de hormônio do crescimento (acromegalia)
• Gestação, diabetes gestacional
• Doença do ovário policístico
• Lipodistrofia (adquirida ou genética; associada ao acúmulo de lipídios no fígado)
• Autoanticorpos ao receptor de insulina
• Mutações do receptor de insulina
• Mutações do receptor g ativador do proliferador de peroxissomo (PPARg) • Mutações que causam obesidade genética (p. ex., mutações no receptor de
melanocortina)
• Hemocromatose (uma doença hereditária que causa acúmulo de ferro tecidual)
Desenvolvimento do Diabetes Tipo 2 Durante Prolongada Resistência à
Insulina. Nos casos de resistência insulínica prolongada e grave, até mesmo
níveis aumentados de insulina não são suficientes para manter a regulação normal da glicose. Como consequência, vamos encontrar hiperglicemia moderada, após a
ingestão de carboidratos, nos estágios iniciais da doença.
Nos estágios mais avançados do diabetes tipo 2, as células betapancreáticas
tornam-se “exauridas” ou lesadas e são incapazes de produzir insulina suficiente
para impedir hiperglicemia mais grave, em especial depois de a pessoa ingerir refeição rica em carboidratos.
Algumas pessoas obesas, apesar de apresentarem acentuada resistência à
insulina e aumentos acima do normal de glicose sanguínea após uma refeição, nunca desenvolvem diabetes melito clinicamente significativo; aparentemente, o
pâncreas, nessas pessoas, produz insulina suficiente para impedir anormalidades graves do metabolismo da glicose. No entanto, em outras pessoas obesas, o
pâncreas gradativamente se esgota por secretar grandes quantidades de insulina ou fica prejudicado por fatores associados ao acúmulo de lipídios no pâncreas, e se instala o diabetes melito completo. Alguns estudos sugerem que fatores
genéticos desempenham papel importante na determinação da capacidade do
pâncreas da pessoa de manter o débito elevado da insulina durante o perío do de longos anos, necessário para evitar as graves anormalidades do metabolismo da
glicose no diabetes tipo 2.
Em muitas circunstâncias, o diabetes tipo 2 pode ser tratado eficazmente pelo
menos nos estágios iniciais, com exercícios, restrição calórica e redução de peso,
sem necessidade da administração exógena de insulina. Os fármacos que aumentam a sensibilidade à insulina, tais como as tiazolidinedionas, fármacos que suprimem a produção de glicose no fígado, como a metformina, ou fármacos que
provocam libera ção adicional da insulina pelo pâncreas, tais como as sulfonilureias, também podem ser empregados. No entanto, nos estágios mais
avançados do diabetes tipo 2, a administração de insulina é, geralmente, necessária para controlar a glicemia.
Foram desenvolvidos fármacos que simulam as ações da incretina GLP-1 para o
tratamento do diabetes tipo 2. Esses fármacos favorecem a secreção de insulina e estão destinados a ser utilizados conjuntamente com outros antidiabéticos. Outro
enfoque terapêutico consiste em inibir a enzima dipeptidil peptidase 4 (DPP-4),
que inativa os hormônios GLP-1 e GIP. Ao bloquear as ações da DPP-4, os efeitos
das incretinas GLP-1 e GIP podem ser prolongados, conduzindo a uma elevação
da secreção de insulina e a um melhor controle dos níveis sanguíneos de glicose.
Fisiologia do Diagnóstico do Diabetes Melito
A Tabela 79-3 compara algumas das características clínicas do diabetes melito
tipos 1 e 2. Os métodos usuais para estabelecer o diagnóstico do diabetes se
baseiam em diversos testes químicos realizados na urina e no sangue.
Tabela 79-3 Características Clínicas de Pacientes com Diabetes Melito Tipos 1 e 2
Característica Tipo 1 Tipo 2
Idade na Geralmente < 20 Geralmente > 30 anos
apresentação anos
Massa corporal Pequena Obesidade visceral
(consumida) a
normal
Insulina Baixa ou ausente Inicialmente de normal a elevada
plasmática
Glucagon Elevado, pode ser Elevado, resistente à supressão
plasmático suprimido
Glicose Aumentada Aumentada
plasmática
Sensibilidade à Normal Reduzida
insulina
Terapia Insulina Perda de peso, tiazolidinedionas, metformina,
sulfonilureias, insulina
Glicose Urinária. Exames simples de realização ambulatorial ou testes
laboratoriais quantitativos mais complicados podem ser usados para determinar a
quantidade de glicose eliminada na urina. Em geral, a pessoa normal perde
quantidade indetectável de glicose, enquanto a pessoa portadora de diabetes
elimina glicose em quantidades que variam de pequenas a grandes, segundo a
gravidade da doença e a ingestão de carboidratos.
Glicose Sanguínea de Jejum e Níveis de Insulina. O nível de glicose
sanguínea em jejum no começo da manhã está, normalmente, entre 80 e 90
mg/100 mL, e o valor de 110 mg/100 mL é considerado o limite superior da normalidade. O nível de glicose sanguínea em jejum acima desses valores, com
frequência, indica diabetes melito ou, pelo menos, resistência acentuada à insulina.
Nos indivíduos com diabetes tipo 1, os níveis de insulina plasmáticos são muito
baixos ou indetectáveis durante o jejum e até mesmo depois de uma refeição. No diabetes tipo 2, a concentração de insulina plasmática pode ser várias vezes mais
alta que o normal e, em geral, aumenta em maior grau depois da ingestão de uma
carga padrão de glicose, durante o teste de tolerância à glicose (ver o próximo parágrafo).
Teste de Tolerância à Glicose. Como demonstrado pela curva inferior na Figura
79-12, chamada “curva de tolerância à glicose”, quando uma pessoa normal, em jejum, ingere 1 grama de glicose por quilograma de peso corporal, o nível sérico
de glicose aumenta de cerca de 90 mg/100 mL para 120 a 140 mg/100 mL e volta
para o nível abaixo do normal em cerca de 2 horas.
Em pessoa portadora de diabetes, a concentração da glicose sanguínea de
jejum está, quase sempre, acima de 110 mg/100 mL e, com frequência, acima de 140 mg/100 mL. O teste de tolerância à glicose está, também, quase sempre
anormal. Com a ingestão de glicose, essas pessoas apresentam elevação muito
acima da prevista para o seu nível de glicose sanguínea, como vemos na curva
superior, mostrada naFigura 79-12, e o nível de glicose sanguínea somente retorna ao valor de controle depois de 4 a 6 horas; além do mais, não chega a cair
abaixo do nível de controle. A queda lenta dessa curva e a sua incapacidade de cair abaixo do nível de controle demonstram que (1) o aumento normal na
secreção de insulina após a ingestão de glicose não ocorre; ou (2) existe redução da sensibilidade à insulina. O diagnóstico de diabetes melito pode, em geral, ser
estabelecido com base em curva como essa, e os tipos 1 e 2 do diabetes podem
ser distinguidos um do outro por meio de dosagens de insulina plasmática, e, no diabetes tipo 1, a insulina se encontra baixa ou indetec tável, e aumentada no diabetes tipo 2.
Figura 79-12. Curva de tolerância à glicose em pessoa normal e em pessoa com diabetes.
Hálito Cetônico. Como ressaltado no Capítulo 69, pequenas quantidades de
ácido acetoacético no sangue, que aumenta muito no diabetes grave, são
transformadas em acetona. Esta é volátil e vaporizada no ar expirado.
Consequentemente, podemos, com frequência, estabelecer diagnóstico de
diabetes melito tipo 1 simplesmente ao percebermos a presença de acetona no
hálito do paciente. Também, os cetoácidos podem ser detectados por meios
químicos na urina, e sua quantificação ajuda na determinação da gravidade do
diabetes. Nos estágios iniciais do diabetes tipo 2, no entanto, os cetoácidos não
são, geralmente, produzidos em quantidade excessiva. Entretanto, quando a
resistência à insulina é grave e existe grande aumento da utilização de lipídios
como fonte de energia, os cetoácidos são, então, produzidos pelas pessoas
portadoras de diabetes tipo 2.
Tratamento do Diabetes
O tratamento efetivo do diabetes melito tipo 1 requer administração de insulina
suficiente, de modo que o paciente possa ter metabolismo de carboidratos, lipídios
e proteínas tão normal quanto for possível. A insulina é disponível em diversas
formulações. A insulina “regular” apresenta duração de ação que vai de 3 a 8
horas, enquanto outras formas de insulina (precipitada com zinco ou com diversos
derivados de proteí nas) são absorvidas lentamente no local da injeção e,
consequentemente, apresentam efeitos que duram de 10 a 48 horas. Usualmente,
o paciente portador da forma grave do diabetes tipo 1 recebe uma só dose de uma
das insulinas com ação prolongada a cada dia, de modo a aumentar o
metabolismo global dos carboidratos durante o dia. Então, quantidades adicionais
de insulina regular são administradas durante o dia, nos momentos em que o nível da glicose sanguínea costuma subir muito, por exemplo, nas refeições. Assim,
cada paciente recebe padrão de tratamento individualizado.
No passado, a insulina usada para o tratamento era extraída do pâncreas de
animais. No entanto, a insulina produzida pelo processo do DNA recombinante se tornou mais amplamente utilizada porque alguns pacientes desenvolvem imunidade e sensibilização contra a insulina animal, limitando, assim, sua eficácia.
Nas pessoas portadoras de diabetes tipo 2, dieta e exercícios são, geralmente,
recomendados na tentativa de induzir a perda de peso e reverter a resistência à insulina. Se essa estratégia falhar, podem ser administrados medicamentos para
elevar a sensibilidade à insulina ou para estimular o aumento da produção da insulina pelo pâncreas, como indicado anteriormente. Contudo, em muitas pessoas, deve-se empregar insulina exógena para regular a glicose sanguínea.
Relação Entre o Tratamento e a Arteriosclerose. Os pacientes diabéticos,
principalmente devido a seus altos níveis de colesterol e outros lipídios circulantes,
desenvolvem aterosclerose, arteriosclerose, doença coronariana grave e múltiplas
lesões microcirculatórias bem mais facilmente do que as pessoas saudáveis. Na verdade, os pacientes portadores de diabetes mal controlado durante a infância
apresentam risco de morte pela doença no início da idade adulta.
No passado, o tratamento do diabetes tendia a reduzir drasticamente os
carboidratos na dieta, para diminuir a necessidade de insulina. Esse procedimento
impedia que a glicose sanguínea aumentasse demais e atenuava a perda da
glicose pela urina, mas não evitava a ocorrência de muitas das anormalidades no metabolismo dos lipídios. Por conseguinte, a tendência atual é permitir que o
paciente ingira dieta praticamente normal de carboidratos e administrar quantidade bastante de insulina para metabolizar os carboidratos. Isso reduz o metabolismo
lipídico e os altos níveis de colesterol sérico.
Como as complicações do diabetes, tais como aterosclerose, suscetibilidade
aumentada a infecções, retinopatia diabética, catarata, hipertensão e doença renal crônica, estão intimamente associadas aos níveis de lipídios e de glicose sanguínea, a maioria dos médicos também utiliza fármacos redutores dos lipídios
para ajudar a prevenir essas alterações.
Insulinoma — Hiperinsulinismo
Apesar de ser muito mais rara do que o diabetes, ocasionalmente encontramos
produção excessiva de insulina, provocada por adenoma de uma ilhota de Langerhans. Cerca de 10% a 15% desses adenomas são malignos, e,
ocasionalmente, metástases derivadas das ilhotas de Langerhans se disseminam
pelo organismo, causando extraordinária produção de insulina, tanto pelo tumor
primário como pelas lesões metastáticas. De fato, em alguns desses pacientes já
houve necessidade de mais de 1.000 gramas de glicose a cada 24 horas, para
impedir a hipoglicemia.
Choque Insulínico e Hipoglicemia. Como já enfatizado, o sistema nervoso
central, em geral, obtem essencialmente toda a sua energia do metabolismo da
glicose, e não há necessidade de insulina para sua utilização. No entanto, se os
níveis elevados de insulina fazem com que a glicose sanguínea caia a valores
muito baixos, o metabolismo do sistema nervoso central fica deprimido.
Consequentemente, nos pacientes portadores de tumores secretores de insulina
ou nos portadores de diabetes que autoadministram quantidade muito elevada de
insulina, ocorre choque insulínico, como veremos a seguir.
Quando o nível de glicose sanguínea atinge a faixa de 50 a 70 mg/100 mL, o
sistema nervoso central fica, em geral, excitável, porque esse grau de
hipoglicemia sensibiliza a atividade neuronal. Algumas vezes, ocorrem diversas
formas de alucinações, mas, frequentemente, o paciente simplesmente
experiencia nervosismo extremo, com tremor por todo o corpo, e apresenta
sudorese profusa. Quando a glicose sanguínea cai para o nível entre 20 e 50
mg/100 mL, existe a probabilidade de ocorrer convulsões clônicas e perda da
consciência. À medida que o nível sérico da glicose cai ainda mais, as convulsões
cessam e permanece apenas o estado de coma. Às vezes, de fato é difícil
distinguir, apenas pela observação clínica, entre o coma diabético, como resultado
de acidose por falta de insulina, e coma provocado por hipoglicemia, causado pelo
excesso de insulina. O hálito cetônico e a respiração rápida e profunda do coma
diabético não estão presentes nas pessoas em coma hipoglicêmico.
O tratamento apropriado ao paciente que se encontra em choque hipoglicêmico
ou em coma é a administração intravenosa imediata de grande quantidade de
glicose. Isso, em geral, traz o paciente de volta do choque dentro de 1 minuto ou
um pouco mais. A administração de glucagon (ou, com menos eficácia, de
epinefrina) também pode causar glicogenólise no fígado e, consequentemente,
aumentar o nível sanguíneo da glicose de modo extremamente rápido. Se o
tratamento não for prontamente administrado, é frequente ocorrer lesão
permanente nas células neuronais do sistema nervoso central.
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