Tratado de Fisiologia Médica
Sistema Quimiorreceptor Periférico para o Controle da Atividade Respiratória — o Papel do Oxigênio no Controle Respiratório
Aprendemos no Capítulo 41 que o sistema tampão hemoglobina-O2
distribui quantidades quase normais de O aos tecidos, mesmo quando a Po 22
pulmonar se altera de 60 para até 1.000 mmHg. Portanto, exceto sob
condições especiais, ainda pode ocorrer a distribuição adequada de O , 2
apesar das alterações da ventilação pulmonar que varia de valores
ligeiramente abaixo da metade normal até 20 ou mais vezes o normal. Isso
não é verdade para o CO , já que tanto a Pco sanguínea quanto a tecidual 2 2
se alteram inversamente com a frequência da ventilação pulmonar; assim,
os processos de evolução animal fizeram com que o CO seja principal 2
controlador da respiração, e não o O . 2
Contudo, em condições especiais de dano tecidual por falta de O , o corpo 2
tem mecanismo específico de controle respiratório, localizado nos
quimiorreceptores periféricos, externamente ao centro respiratório do
cérebro; esse mecanismo entra em ação quando ocorre queda intensa do O 2
sanguíneo, principalmente com a Po abaixo de 70 mmHg, como descrito 2
na próxima seção.
SISTEMA QUIMIORRECEPTOR PERIFÉRICO PARA O
CONTROLE DA ATIVIDADE RESPIRATÓRIA — O PAPEL
DO OXIGÊNIO NO CONTROLE RESPIRATÓRIO
Além do controle da atividade respiratória pelo centro respiratório, ainda
existe outro mecanismo disponível para o controle da respiração. Esse
mecanismo é o sistema quimiorreceptor periférico, ilustrado na Figura 42-
4. Em diversas áreas externas do cérebro, existem receptores químicos
neurais específicos que recebem o nome de quimiorreceptores. Tais
receptores são especialmente relevantes para a detecção de variações
sanguíneas do O , embora também respondam em menor grau às alterações 2
das concentrações do CO e dos íons hidrogênio. Os quimiorreceptores 2
transmitem sinais neurais para o centro respiratório encefálico, para ajudar a
regular a atividade respiratória.
Grande parte dos quimiorreceptores está situada nos corpos carotídeos.
Entretanto, alguns deles também se encontram nos corpos aórticos,
mostrados na parte inferior da Figura 42-4, e pouquíssimos deles estão
presentes em qualquer outro local, associados a outras artérias das regiões‐
torácica e abdominal.
Os corpos carotídeos estão localizados, bilateralmente, nas bifurcações
das artérias carótidas comuns. As fibras nervosas aferentes desses corpos
cursam pelos nervos de Hering e, em seguida, para os nervos
glossofaríngeos e para a área respiratória dorsal do bulbo. Os corpos
aórticos estão situados ao longo do arco da aorta; as fibras aferentes neurais
desses corpos cursam pelos nervos vagos, também rumo à área respiratória
dorsal do bulbo.
Cada um dos corpos quimiorreceptores recebe sua própria irrigação
sanguínea, por meio de artéria diminuta, diretamente a partir do tronco
arterial adjacente. Além disso, o fluxo sanguíneo por esses corpos é
extremamente alto, 20 vezes o peso dos próprios corpos, a cada minuto.
Portanto, a porcentagem de O removido do fluxo sanguíneo é praticamente 2
zero, o que significa que os quimiorreceptores sempre são expostos ao
sangue arterial, e não ao sangue venoso, e seus valores de Po são os 2
valores de Po arterial. 2
Figura 42-4. Controle respiratório promovido pelos quimiorreceptores periféricos nos corpos carotídeo e aórtico.
Redução do Oxigênio Arterial Estimula os Quimiorreceptores.
Quando a concentração de O no sangue arterial baixa até menos que a 2
normal, os quimiorreceptores são intensamente estimulados. Esse efeito se
encontra ilustrado na Figura 42-5, que exibe o efeito dos diferentes níveis
da Po arterial sobre a frequência dos impulsos nervosos do corpo 2
carotídeo. Observe que a frequência dos impulsos é particularmente sensível às alterações da Po arterial situa das entre 60 e 30 mmHg, faixa de 2
variação onde a saturação de hemoglobina com o O diminui rapidamente. 2
Figura 42-5. Efeito da Po arterial sobre a frequência de disparos neurais do corpo 2
carotídeo.
Aumento da Concentração de Dióxido de Carbono e de Íons
Hidrogênio Estimula os Quimiorreceptores. O aumento da
concentração de CO ou de íons hidrogênio também estimula os 2
quimiorreceptores e, dessa forma, intensifica indiretamente a atividade
respiratória. Contudo, os efeitos diretos de ambos os fatores sobre o centro
respiratório são mais potentes que seus efeitos mediados pelos
quimiorreceptores (cerca de sete vezes mais intensos). Todavia, existe
diferença entre os efeitos periféricos e centrais do CO : a estimulação, por 2
meio dos quimiorreceptores periféricos ocorre com rapidez cinco vezes
maior que a estimulação central, assim esses quimiorreceptores podem ser
particularmente importantes no aumento da velocidade da resposta ao CO , 2
no início da atividade física.
Mecanismo Básico de Estimulação dos Quimiorreceptores pela
Deficiência de O2. Os meios exatos pelos quais a baixa Po estimula as 2
terminações nervosas nos corpos carotídeos e aórticos ainda não estão
esclarecidos. No entanto, esses corpos têm múltiplas células de tipo
altamen te glandular-like características, denominadas células glomosas, que
fazem sinapse direta ou indireta com as terminações nervosas. As
evidências atuais sugerem que essas células glomosas atuam como
quimiorreceptores e, então, estimulam as terminações nervosas (Figura 42-
6). As células glomosas apresentam canais de potássio sensíveis ao O que 2
são inativados quando os valores sanguíneos de Po diminuem de forma 2
importante. Essa inativação provoca a despolarização das células, o que, por
sua vez, abre os canais de cálcio ativados por voltagem e eleva a
concentração intracelular de íons cálcio. Esse aumento nos íons cálcio
estimula a liberação de um neurotransmissor, ativando os neurônios
aferentes, que enviam sinais ao sistema nervoso central e estimulam a
respiração. Embora estudos anteriores sugerissem que a dopamina e a
acetilcolina poderiam ser os principais neurotransmissores, investigações
mais recentes sugerem que, durante a hipoxia, o neurotransmissor
excitador-chave liberado pelas células glomosas do corpo carotídeo poderia
ser a adenosina trifosfato.
Figura 42-6. Detecção de oxigênio pelas células glomosas do corpo carotídeo. Quando o
valor de Po diminui para menos de cerca de 60 mmHg, os canais de potássio encerram, o 2
que provoca uma despolarização celular, com a abertura dos canais de cálcio e o aumento da concentração de íons cálcio citosólicos. Isso estimula a liberação de transmissores (provavelmente, o mais importante é o ATP), ativando as fibras aferentes que emitem sinais ao sistema nervoso central (SNC) e estimulam a respiração. Os mecanismos, em
virtude dos quais valores baixos de Po influenciam na atividade dos canais de potássio, 2 não são ainda claros. DV , alterações no potencial de membrana. m
O Efeito da Po2 Arterial Baixa para Estimular a
Ventilação Alveolar Quando as Concentrações Arteriais
de CO2 e de Íons Hidrogênio Permanecem Normais
A Figura 42-7 mostra o efeito da baixa Po arterial sobre a ventilação 2
alveolar, quando a Pco e a concentração de íons hidrogênio se mantêm 2
constantes em seus níveis normais. Em outras palavras, essa figura
demonstra o estado ativo, apenas, do controle ventilatório decorrente do
efeito do baixo teor de O sobre os quimiorreceptores. Essa figura mostra 2
efeito quase nulo sobre a ventilação, enquanto a Po arterial permanecer 2
superior a 100 mmHg. Entretanto, sob pressões menores que 100 mmHg, a
ventilação aproximadamente se duplica, quando a Po arterial declina para 2
60 mmHg, e pode aumentar por até cinco vezes para valores de Po muito 2
baixos. Sob essas condições, a baixa Po arterial evidentemente controla o 2
processo ventilatório de forma bastante intensa.
Pelo fato de a hipoxia, na ventilação, ser modesta para valores de Po2
maiores que 60 a 80 mmHg, a Pco e a resposta do íon hidrogênio são, 2
sobretudo, as responsáveis pela regulação da ventilação em seres humanos
saudáveis que se encontram em locais ao nível do mar.
Figura 42-7. A curva inferior demonstra o efeito de diferentes níveis da Po arterial sobre a 2
ventilação alveolar, mostrando aumento por seis vezes da ventilação, à medida que a Po2 diminui de 100 mmHg (nível normal) para 20 mmHg. A linha superior demonstra a
manutenção da Pco arterial em nível constante, durante as medidas desse estudo; o pH 2
também se manteve constante.
Estimulação Ainda Maior da Respiração pela Inalação
Crônica de Baixos Níveis de Oxigênio — O Fenômeno de
“Aclimatação”
Os alpinistas verificaram que, ao escalarem a montanha lentamente, durante
alguns dias e não apenas por algumas horas, apresentavam respiração muito
mais profunda e, consequentemente, conseguiam suportar concentrações
bem mais baixas de O atmosférico, em comparação à rápida escalada. Esse 2
fenômeno recebe o nome de aclimatação.
A causa da aclimatação se deve ao fato de que, em 2 ou 3 dias, o centro
respiratório no tronco cerebral perde cerca de 80% de sua sensibilidade às alterações da Pco e dos íons hidrogênio. Em decorrência, a eliminação 2
ventilatória do excesso de CO , que inibiria o aumento na frequência 2
respiratória, em condições normais não ocorre e, consequentemente, baixos
teores de O podem conduzir o sistema respiratório a níveis muito mais 2
altos de ventilação alveolar do que sob condições agudas. Em vez do
possível aumento de 70%, na ventilação, após a exposição aguda a baixos
teores de O , a ventilação alveolar frequentemente aumenta por 400% a 2
500%, depois de 2 a 3 dias de redução dos níveis desse gás; isso, por sua
vez, colabora imensamente com o suprimento adicional de O aos 2
alpinistas.
Efeitos Combinados da Pco2, do pH e da Po2 sobre a
Ventilação Alveolar
A Figura 42-8 mostra rápida visão global do modo de influên cia dos
fatores químicos reunidos Po , Pco e pH sobre a ventilação alveolar. Para 2 2
compreender esse diagrama, observe primeiro as quatro curvas de coloração
vermelha. Essas curvas foram registradas com diferentes níveis da Po2
arterial — 40, 50, 60 e 100 mmHg. Para cada uma dessas curvas, o nível da
Pco foi modificado em escala crescente de valores. Assim, essa “família” 2
de curvas vermelhas representa os efeitos combinados da Pco e da Po 22
alveolares sobre a ventilação.
Agora observe as curvas verdes. Enquanto as curvas verme lhas foram
medidas no pH sanguíneo de 7,4, as verdes foram no pH de 7,3. Dessa
forma, temos duas famílias de curvas representando os efeitos combinados
da Pco e da Po sobre a ventilação, para dois valores distintos de pH. Não 2 2
obstante, outras famílias de curvas seriam deslocadas para a direita, com pH
mais altos e à esquerda com pH mais baixos. Portanto, por meio desse
diagrama, é possível predizer o nível de ventilação alveolar com relação a quase todas as combinações de Pco alveolar, da Po alveolar e do pH 2 2