Tratado de Fisiologia Médica

John E. Hall · Capítulo 349 de 351

Páginas do PDF

Tratado de Fisiologia Médica

Fatores Hormonais na Gravidez

A Excreção de Resíduos Através da Membrana Placentária. Da

mesma maneira que o dióxido de carbono se difunde do sangue fetal para o

sangue materno, outros produtos excretores formados no feto também se

difundem através da membrana placentária para o sangue materno e, então,

são excretados em conjunto com os produtos excretores da mãe. Eles

incluem especialmente os produtos nitrogenados não proteicos, como ureia,

ácido úrico e creatinina. O nível de ureia no sangue fetal é apenas

ligeiramente maior que o do san gue materno porque a ureia se difunde

através da membrana placentária com grande facilidade. Entretanto, a

creati nina, que não se difunde tão facilmente, tem concentração no sangue

fetal consideravelmente maior que no sangue materno. Portanto, a excreção

do feto depende, prin cipalmente, se não de forma total, dos gradientes de

difusão pela membrana placentária e sua permeabilidade. Como há

concentrações mais elevadas de produtos excretores no sangue fetal do que

no sangue materno, ocorre difusão contínua dessas substâncias do sangue

fetal para o materno.

 

FATORES HORMONAIS NA GRAVIDEZ

 

Na gravidez, a placenta forma quantidades especialmente grandes de

gonadotropina coriônica humana, estrogênios, progesterona e

somatomamotropina coriônica humana, e as três primeiras, e

provavelmente também a quarta, são essenciais à gravidez normal.

 

A GONADOTROPINA CORIÔNICA HUMANA CAUSA

PERSISTÊNCIA DO CORPO LÚTEO E EVITA A

MENSTRUAÇÃO

 

A menstruação normalmente ocorre em mulher não grávida cerca de 14 dias

depois da ovulação, época em que grande parte do endométrio uterino descama-se da parede uterina e é expelido para fora do útero. Se isso

ocorresse após a implantação do ovo, a gravidez seria terminada.

Entretanto, essa descamação é evitada pela secreção de gonadotropina

coriônica humana pelos tecidos embrionários em desenvolvimento.

Simultaneamente ao desenvolvimento das células trofoblásticas do ovo

recém-fertilizado, o hormônio gonadotropina coriônica humana é secretado

pelas células tro foblásticas sinciciais para os líquidos maternos, como

mostrado na Figura 83-7. A secreção desse hormônio pode primeiro ser

medida no sangue, 8 a 9 dias após a ovulação, pouco depois do blastocisto

se implantar no endométrio. Em seguida, a secreção aumenta rapidamente,

atingindo nível máximo em torno de 10 a 12 semanas de gestação e

diminuindo novamente a valor mais baixo, por volta de 16 a 20 semanas,

continuando nesse nível pelo restante da gravidez.

 

A Função da Gonadotropina Coriônica Humana. A gonadotropina

coriônica humana é uma glicoproteína com peso molecular aproximado de

39.000 e grande parte da mesma estrutura e função molecular do hormônio

luteinizante secretado pela hipófise. A sua função mais importante é evitar a

involução do corpo lúteo ao final do ciclo sexual feminino mensal. Em vez

disso, faz com que o corpo lúteo secrete quantidades ainda maiores de seus

hormônios sexuais — progesterona e estrogênios — pelos próximos meses.

Esses hormônios sexuais impedem a menstruação e fazem com que o

endométrio continue a crescer e armazenar grandes quantidades de

nutrientes, em vez de se descamar em produto menstrual. Por conseguinte,

as células semelhantes às células deciduais, que se desenvolvem no

endométrio durante o ciclo sexual feminino normal, transformam-se, na

verdade, em células deciduais verdadeiras — bastante inchadas e nutritivas

— mais ou menos na mesma época em que o blastocisto se implanta.

Sob a influência da gonadotropina coriônica, o corpo lúteo no ovário

materno cresce para cerca de duas vezes seu tamanho inicial, por volta de um mês depois do início da gravidez. E sua secreção contínua de

estrogênios e progesterona mantém a natureza decidual do endométrio

uterino, o que é necessário para o desenvolvimento inicial do feto.

Se o corpo lúteo for removido antes de aproximadamente sete semanas de

gestação, quase sempre ocorrerá aborto espontâneo, às vezes até a 12 a

semana. Depois dessa época, a placenta secreta quantidades suficientes de

progesterona e estrogênios para manter a gravidez pelo restante do período

gestacional. O corpo lúteo involui lentamente depois da 13 a a a 17 semana

de gestação.

 

A Gonadotropina Coriônica Humana Estimula a Produção de

Testosterona pelos Testículos Fetais do Macho. A gonadotropina

coriônica humana também exerce efeito estimulador das células

intersticiais nos testículos do feto masculino, resultando na produção de

testosterona em fetos masculinos até o nascimento. Essa pequena secreção

de testosterona durante a gestação é que faz com que os órgãos sexuais

masculinos cresçam no feto em vez de órgãos sexuais femininos. Perto do

final da gestação, a testosterona secretada pelos testículos fetais também faz

com que os testículos desçam para o saco escrotal.

 

A SECREÇÃO DE ESTROGÊNIOS PELA PLACENTA

 

A placenta, assim como o corpo lúteo, secreta tanto estrogênios quanto

progesterona. Estudos histoquímicos e fisiológicos mostram que esses dois

hormônios, como a maioria dos hormônios placentários, são secretados

pelas células sinciciais trofoblásticas da placenta.

A Figura 83-7 mostra que, perto do final da gestação, a produção diária de

estrogênios placentários aumenta em cerca de 30 vezes o nível de produção

materna normal. Entretanto, a secreção de estrogênios pela placenta é bem

diferente da secreção pelos ovários. E, o mais importante, os estrogênios secretados pela placenta não são sintetizados de novo a partir de substratos

básicos na placenta. Em vez disso, eles são formados quase inteiramente

dos compostos esteroides androgênicos, desidroepiandrosterona e 16-hidro‐

xidesidroepiandrosterona, formados tanto nas glândulas adrenais da mãe

quanto nas glândulas adrenais do feto. Esses fracos androgênios são

transportados pelo sangue para a placenta e convertidos pelas células

trofoblásticas em estradiol, estrona e estriol. (Os córtices das glândulas

adrenais do feto são extremamente grandes, e cerca de 80% consistem na

chamada zona fetal, cuja função primária parece ser secretar

desidroepiandrosterona durante a gravidez.)

 

Figura 83-7. Intensidade da secreção de estrogênios e progesterona e concentração de gonadotropina coriônica humana em diferentes estágios da gravidez.

 

A Função do Estrogênio na Gravidez. No Capítulo 82, apontamos

que os estrogênios exercem basicamente função proliferativa na maioria dos órgãos reprodutores e anexos da mulher. Durante a gravidez, as quantidades

extremas de estrogênios causam (1) aumento do útero materno; (2) aumento

das mamas maternas e crescimento da estrutura dos ductos da mama; e (3)

aumento da genitália externa feminina da mãe.

Os estrogênios também relaxam os ligamentos pélvicos da mãe, assim as

articulações sacroilíacas ficam relativamente maleáveis; e a sínfise pubiana,

elástica. Essas mudanças facilitam a passagem do feto pelo canal de parto.

Existem fortes razões para acreditarmos que os estrogênios também afetam

muitos aspectos gerais do desenvolvimento fetal durante a gravidez, como,

por exemplo, a intensidade da reprodução celular no embrião inicial.

 

A SECREÇÃO DE PROGESTERONA PELA PLACENTA

 

A progesterona é também essencial para uma gravidez bem-sucedida; na

verdade, é tão importante quanto o estrogê nio. Além de ser secretada em

quantidade moderada pelo corpo lúteo no início da gravidez, é secretada

posteriormente em quantidades enormes pela placenta, como mostrado

na Figura 83-7.

Os efeitos especiais da progesterona, essenciais à progressão normal da

gravidez, são os seguintes:

1. A progesterona faz com que células deciduais se desenvolvam no

endométrio uterino. Essas células têm papel importante na nutrição do

embrião inicial.

2. A progesterona diminui a contratilidade do útero grávido, evitando,

assim, que contrações uterinas causem aborto espontâneo.

3. A progesterona contribui para o desenvolvimento do concepto mesmo

antes da implantação, pois especificamente aumenta as secreções das

trompas de Falópio e do útero, proporcionando material nutritivo

apropriado para o desenvolvimento da mórula (massa esférica, de 16 a

32 blastômeros, formada antes da blástula) e do blastocisto. Existem

ainda razões para acreditarmos que a progesterona afeta a clivagem

celular no embrião em desenvolvimento inicial.

4. A progesterona, secretada durante a gravidez, ajuda o estrogênio a

preparar as mamas da mãe para a lactação, o que será discutido adiante,

neste Capítulo.

 

SOMATOMAMOTROPINA CORIÔNICA HUMANA

 

A somatomamotropina coriônica humana é um hormônio proteico com

peso molecular de aproximadamente 22.000, que começa a ser secretada

pela placenta em torno da quinta semana de gestação. A secreção desse

hormônio aumenta progressivamente durante todo o restante da gravidez,

em proporção direta ao peso da placenta. Embora as funções da

somatomamotropina coriônica sejam incertas, ela é secretada em

quantidade muitas vezes maior do que todos os outros hormônios da

gravidez combinados. E tem também diversos possíveis efeitos importantes.

Primeiro, quando administrada a diversos tipos de animais, a

somatomamotropina coriônica humana causa pelo menos desenvolvimento

parcial das mamas animais e, em alguns casos, causa lactação. Uma vez que

esta foi sua primeira função a ser descoberta, o hormônio foi chamado

primeiro lactogênio placentário humano, e acreditava-se que tinha funções

semelhantes às da prolactina. Entretanto, tentativas de seu uso para

promover a lactação em humanos não foram bem-sucedidas.

Em segundo lugar, esse hormônio tem fracas ações, semelhantes às do

hormônio do crescimento, causando a formação de tecidos proteicos, da

mesma maneira como faz o hormônio do crescimento. Tem ainda estrutura

quími ca semelhante à do hormônio do crescimento, mas é preciso 100

vezes mais somatomamotropina coriônica humana do que hormônio do

crescimento para promover o crescimento.

Em terceiro lugar, a somatomamotropina coriônica humana diminui a

sensibilidade à insulina e a utilização de glicose pela mãe, disponibilizando,

assim, quantidades maiores de glicose ao feto. Como a glicose é o principal

substrato usado pelo feto para fornecer energia ao seu crescimento, a

possível importância desse efeito hormonal é óbvia. Ademais, o hormônio

promove a liberação de ácidos graxos livres das reservas de gordura da

mãe, assim, proporcionando essa fonte alternativa de energia para o

metabolismo materno durante a gravidez. Portanto, parece que a

somatomamotropina coriônica humana é um hormônio metabólico geral,

com implicações nutricionais específicas tanto para a mãe quanto para o

feto.

Outros Fatores Hormonais na Gravidez

Quase todas as glândulas endócrinas não sexuais maternas reagem também de

modo acentuado à gravidez, o que resulta basicamente do aumento da carga

metabólica da mãe, mas também, até certo ponto, dos efeitos dos hormônios

placentários na hipófise e outras glândulas. A seguir, são descritos alguns dos

efeitos mais notáveis.

Secreção Hipofisária. A hipófise anterior da mãe aumenta pelo menos 50%

durante a gravidez e aumenta sua produção de corticotropina, tireotropina e

prolactina. Por sua vez, a secreção hipofisária do hormônio foliculoestimulante e

do hormônio luteinizante é quase totalmente suprimida, como consequência dos

efeitos inibidores dos estrogênios e progesterona da placenta.

Secreção de Corticosteroide Aumentada. A secreção adrenocortical de

glicocorticoides fica, moderadamente, elevada durante a gravidez. É possível que

esses glicocorticoides ajudem a mobilizar aminoácidos dos tecidos maternos, de

maneira que possam ser usados na síntese de tecidos no feto.

Geralmente, a gestante apresenta aumento de cerca de duas vezes na secreção

de aldosterona, atingindo o pico no final da gravidez. Isto, em conjunto com as

ações dos estrogê nios, causa tendência, mesmo na gestante normal, de

reabsorver o excesso de sódio de seus túbulos renais e, portanto, reter líquido,

levando ocasionalmente à hipertensão induzida pela gravidez.

Secreção da Glândula Tireoide Aumentada. A glândula tireoide materna

aumenta, em geral, até 50% durante a gravi dez e eleva sua produção de tiroxina

em quantidade cor res pon dente. A maior produção de tiroxina é causada pelo menos parcialmente por efeito tireotrópico da gonadotropina co riônica humana,

secretada pela placenta e por pequenas quantidades do hormônio específico estimulante da tireoide, a tireotropina coriônica humana, também secretada pela

placenta.

Secreção da Glândula Paratireoide Aumentada. As glândulas paratireoides

maternas geralmente aumentam durante a gravidez; esse aumento é, sobretudo,

verdadeiro se a mãe estiver sob dieta deficiente em cálcio. O aumento dessas glândulas causa absorção de cálcio dos ossos maternos, mantendo, assim, a concentração normal de íons cálcio no líquido extracelular materno, mesmo

quando o feto remove cálcio para ossificar seus próprios ossos. Essa secreção do

hormônio paratireóideo é ainda mais intensificada durante a lactação após o nascimento do bebê, porque o bebê em crescimento requer mais cálcio do que o feto.

Secreção de “Relaxina” pelos Ovários e pela Placenta. Outra substância

além dos estrogênios e da progesterona, um hormônio denominado relaxina, é

secretada pelo corpo lúteo do ovário e pelos tecidos placentários. Sua secreção

aumenta por efeito estimulador da gonadotropina coriônica humana, ao mesmo

tempo em que o corpo lúteo e a placenta secretam grande quantidade de estrogênios e progesterona.

A relaxina é um polipeptídeo de 48 aminoácidos, com peso molecular

aproximado de 9.000. Esse hormônio, quando injetado, causa relaxamento dos ligamentos da sínfise pubiana em cobaias e ratos em estro. Seu efeito é fraco ou

possivelmente até mesmo ausente na gestante. Em vez disso, esse papel

provavelmente é desempenhado basicamente pelos estrogênios, que também ocasionam relaxamento dos ligamentos pélvicos. Também já se afirmou que a

relaxina amolece o colo uterino da gestante no momento do parto. Acredita-se

ainda que a relaxina atue como vasodilatador, contribuindo para aumentar o fluxo

sanguíneo em vários tecidos, entre os quais os rins, e aumentando o retorno venoso e o débito cardíaco durante a gravidez.

 

A Resposta do Corpo Materno à Gravidez

A mais aparente dentre as diversas reações da mãe ao feto e os altos níveis de

hormônios da gravidez é o aumento de tamanho dos vários órgãos sexuais. Por

exemplo, o útero aumenta de aproximadamente 50 gramas para 1.100 gramas, e

as mamas quase dobram de tamanho. Ao mesmo tempo, a vagina aumenta, e o introito se expande mais. Além disso, os diversos hormônios podem causar

mudanças acentuadas na aparência da gestante, às vezes resultando no

desenvolvimento de edema, acne e traços masculinos ou acromegálicos.

O Ganho de Peso na Gestante

Em média, a gestante engorda durante a gravidez cerca de 11 kg a 15 kg, e

grande parte desse ganho de peso ocorre nos últimos dois trimestres. Desse peso

adicional, cerca de 3,5 kg são do feto e 2 kg do líquido amniótico da placenta e

das membranas fetais. O útero aumenta perto de 1,3 kg, e as mamas outro 1 kg,

ainda restando aumento médio de peso de 3,4 kg a 7,8 kg. Cerca de 2 kg são

líquido extra no sangue e no líquido extracelular, e geralmente o restante 1,3 kg a

5,6 kg é acúmulo de gordura. O líquido extra é eliminado na urina, nos primeiros

dias após o parto, ou seja, depois da perda dos hormônios retentores de líquido

da placenta.

Durante a gravidez, a mulher normalmente sente mais vontade de comer, em

parte como consequência da remoção de substratos alimentares do sangue

materno pelo feto e em parte devido a fatores hormonais. Sem o controle pré-natal

apropriado da dieta, o ganho de peso da mulher pode ser tão grande quanto 34

kg, em vez dos usuais 11 kg a 15 kg.

O Metabolismo Durante a Gravidez

Como consequência de maior secreção de muitos hormônios durante a

gravidez, incluindo a tiroxina, hormônios adrenocorticais e hormônios sexuais, o

metabolismo basal da gestante aumenta cerca de 15% na última metade da

gravidez. Por conseguinte, frequentemente ela tem sensações de calor excessivo.

Além disso, devido à carga extra que ela está carregando, precisa despender

mais energia do que o normal na atividade muscular.

A Nutrição Durante a Gravidez

Sem dúvida, o maior crescimento do feto ocorre durante o último trimestre de

gestação; seu peso quase duplica nos últimos dois meses da gestação.

Comumente, a mãe não absorve proteínas, cálcio, fosfato e ferro suficientes de

sua dieta, nos últimos meses de gestação, para suprir essas necessidades extras

do feto. Entretanto, antecipando tais necessidades extras, o corpo da mãe já trata

de armazenar essas substâncias — parte na placenta, mas a maioria nos

depósitos normais da mulher.

Se os elementos nutricionais apropriados não estiverem presentes na dieta da

gestante, pode ocorrer uma série de deficiências maternas, especialmente de

cálcio, fosfatos, ferro e vitaminas. Por exemplo, o feto precisa de cerca de 375

miligramas de ferro para formar seu sangue, e a mãe precisa de outros 600 miligramas para formar seu próprio sangue extra. A reserva normal de ferro não

ligado à hemoglobina na mulher, no início da gravidez, geralmente fica em torno de 100 miligramas e quase nunca acima de 700 miligramas. Por isso, sem ferro

suficiente na dieta, a gestante, muitas vezes, desenvolve anemia hipocrômica. Além disso, é particularmente importante que ela receba vitamina D porque,

embora a quantidade total de cálcio usada pelo feto seja pequena, o cálcio normalmente é mal absorvido pelo trato gastrointestinal materno, sem vitamina D. Por fim, pouco antes de o bebê nascer, geralmente acrescenta-se vitamina K à

dieta materna, de maneira que o bebê tenha protrombina suficiente para evitar

hemorragia, particularmente hemorragia cerebral causada pelo processo do parto.

As Mudanças no Sistema Circulatório Materno Durante a Gravidez

O Fluxo de Sangue Através da Placenta e o Débito Cardíaco Materno

Aumentam Durante a Gravidez. Cerca de 625 mililitros de sangue fluem através

da circulação materna da placenta a cada minuto, no último mês de gravidez. Esse fluxo, mais o aumento geral do metabolismo materno, aumenta o débito

cardíaco materno de 30% a 40% acima do normal, na 27 a semana de gestação; então, por razões inexplicadas, o débito cardíaco diminui até pouco acima do normal durante as últimas oito semanas de gravidez, independentemente do

elevado fluxo sanguíneo uterino, indicando que o fluxo sanguíneo noutros tecidos

possa ser reduzido.

O Volume de Sangue Materno Aumenta Durante a Gravidez. O volume de

sangue materno pouco antes do termo é cerca de 30% acima do normal. Esse aumento ocorre, principalmente, durante a última metade da gravidez, como

mostrado pela curva da Figura 83-8. A causa desse aumento de volume, provavelmente, é devido, pelo menos em parte, à aldosterona e aos estrogênios,

que elevam muito durante a gravidez, e à maior retenção de líquido pelos rins. Além disso, a medula óssea fica cada vez mais ativa e produz hemácias extras

circulantes no excesso de volume de líquido. Portanto, na época do nascimento do bebê, a mãe tem por volta de 1 a 2 litros de sangue extra no seu sistema

circulatório. Cerca de apenas um quarto desse montante é, normalmente, perdido através de sangramento, durante o trabalho de parto do bebê, sendo assim um fator de segurança considerável para a mãe.

Figura 83-8. O efeito da gravidez no aumento do volume de sangue materno.

 

A Respiração Materna Aumenta Durante a Gravidez. Devido ao aumento do

metabolismo basal da gestante e por causa do aumento de tamanho da mãe, a

quantidade total de oxigênio usado por ela, pouco antes do nascimento do bebê, é

de aproximadamente 20% acima do normal, e uma quantidade proporcional de

dióxido de carbono é formada. Esses efeitos fazem com que a ventilação minuto

da mãe aumente. Acredita-se também que os altos níveis de progesterona

durante a gravidez elevem a ventilação minuto ainda mais, já que a progesterona

aumenta a sensibilidade do centro respiratório ao dióxido de carbono. O resultado

efetivo é o aumento da ventilação minuto de cerca de 50% e queda na PCO2

arterial de vários milímetros de mercúrio, abaixo do que seria em uma mulher não

grávida. Simultaneamente, o útero em crescimento pressiona os conteúdos

abdominais para cima, fazendo pressão ascendente contra o diafragma; assim, a

excursão total do diafragma diminui. Por conseguinte, a frequência respiratória

aumenta para manter a ventilação extra.

A Função Renal Materna Durante a Gravidez

A formação de urina na gestante geralmente é maior, devido ao aumento da

ingestão de líquido e à maior carga de produtos excretores. Mas, além disso,

várias alterações especiais ocorrem na função renal.

Primeiro, a capacidade reabsortiva dos túbulos renais de sódio, cloreto e água

aumenta até 50% em decorrência do aumento da produção de sal e água, que

retêm hormônios, especialmente hormônios esteroides pela placenta e pelo córtex

adrenal.

Em segundo lugar, a filtração glomerular e o fluxo sanguíneo renal aumentam

até 50% durante a gravidez normal devido à vasodilatação renal. Embora os

mecanismos que causem essa vasodilatação renal na gravidez ainda não sejam

claros, alguns estudos sugerem que os níveis elevados de óxido nítrico ou do hormônio ovariano relaxina podem contribuir para essas alterações. A filtração

glomerular aumentada provavelmente ocorre, pelo menos em parte, como compensação pela maior reabsorção tubular de sal e água. Assim, a gestante

normal acumula, em geral, apenas 2,2 kg de água e sal extras.

Líquido Amniótico e sua Formação

Normalmente, o volume de líquido amniótico (o líquido dentro do útero no qual o

feto flutua) fica entre 500 mililitros e 1 litro, mas pode ser de até poucos milímetros ou vários litros. Estudos com isótopos sobre a formação do líquido amniótico mostram que, em média, a água no líquido amniótico é substituída a cada 3 horas,

e os eletrólitos sódio e potássio são repostos em média uma vez a cada 15 horas. Grande porção do líquido deriva da excreção renal do feto. Da mesma maneira,

determinada quantidade de absorção ocorre por meio do trato gastrointestinal e dos pulmões do feto. Entretanto, mesmo depois da morte intrauterina do feto,

ainda se observa a presença de renovação de líquido amniótico, indicando que parte do líquido é formada e absorvida diretamente através das membranas

amnióticas.

Pré-eclâmpsia e Eclâmpsia

Cerca de 5% de todas as gestantes apresentam hipertensão induzida pela

gravidez, que é um rápido aumento da pressão arterial em níveis hipertensivos

nos últimos meses de gravidez. Isso também está associado à perda de grande quantidade de proteína na urina. Essa condição é denominada pré-eclâmpsia ou

toxemia gravídica e se caracteriza por retenção excessiva de sal e água pelos rins maternos e pelo ganho de peso e desenvolvimento de edema e hipertensão na

mãe. Além disso, há comprometimento da função do endotélio vascular, ocorrendo espasmo arterial em muitas partes do organismo materno, mais

particularmente nos rins, cérebro e fígado. Tanto o fluxo sanguíneo renal quanto a filtração glomerular são menores, exatamente em oposição às mudanças que ocorrem nas gestantes normais. Esses efeitos renais incluem ainda

espessamento dos tufos glomerulares, contendo depósito proteico nas

membranas basais.

Várias tentativas já foram feitas para provar que a pré- eclâmpsia é causada pela

secreção excessiva de hormônios placentários ou adrenais, mas ainda não há provas de base hormonal. Outra teoria é que a pré-eclâmpsia resulta de algum

tipo de autoimunidade ou alergia na mulher causada pela presença do feto. Em apoio a essa hipótese, os sintomas agudos normalmente desaparecem poucos

dias depois do nascimento do bebê.

Há ainda evidências de que a pré-eclâmpsia seja desencadeada por suprimento

insuficiente de sangue à placenta, resultando na liberação pela placenta de

substâncias que causam disfunção difusa do endotélio vascular materno. Durante

o desenvolvimento placentário normal, os trofoblastos invadem as arteríolas do

endométrio uterino e remodelam inteiramente as arteríolas maternas em grandes

vasos sanguíneos com baixa resistência ao fluxo de sangue. Em mulheres com

pré-eclâmpsia, as arteríolas maternas não apresentam essas alterações

adaptativas, por razões que ainda não estão claras, e não ocorre fornecimento de

sangue suficiente à placenta. Isso, por sua vez, faz com que a placenta libere

diversas substâncias que entram na circulação materna e comprometem a função

endotelial vascular, causam menor fluxo de sangue aos rins, excesso de retenção

de sal e água e aumento da pressão sanguínea.

Muito embora os fatores que ligam o menor fornecimento sanguíneo placentário

à disfunção do endotélio materno ainda sejam incertos, alguns estudos

experimentais sugerem um papel para os níveis elevados de citocinas

inflamatórias como o fator de necrose tumoral a e a interleucina 6. Os fatores

placentários que impedem a angiogênese (crescimento de vasos sanguíneos)

também têm mostrado contribuição no aumento de citocinas inflamatórias e pré-

eclâmpsia. Por exemplo, as proteínas antiangiogênicas tirosina cinases

relacionadas a fms solúvel 1 (s-Flt-1) e endoglina solúvel estão aumentadas no

sangue de mulheres com pré-eclâmpsia. Essas substâncias são liberadas pela

placenta para a circulação materna em resposta à isquemia e hipoxia da placenta.

A endoglina solúvel e as s-Flt-1 têm efeitos múltiplos que podem comprometer a

função do endotélio vascular materno e resultam em hipertensão, proteinúria e as

outras manifestações sistêmicas da pré-eclâmpsia. Porém, o papel preciso de

vários fatores liberados pela placenta isquêmica que causam as múltiplas

anormalidades nas mulheres com pré-eclâmpsia ainda é incerto.

Eclâmpsia é um grau extremo de pré-eclâmpsia, caracterizada por espasmo

vascular por todo o corpo; convulsões clônicas na mãe, às vezes seguidas por

coma; grande redução do débito renal; disfunção hepática; geralmente

hipertensão grave; e toxemia generalizada. Geralmente, ocorre pouco antes do

nascimento do bebê. Sem tratamento, uma grande porcentagem de gestantes

eclâmpticas falece. Entretanto, com o uso imediato e adequado de agentes

vasodilatadores de ação rápida para reduzir a pressão arterial aos níveis normais,

seguido pela interrupção imediata da gravidez — por cesariana, se necessário —,

a mortalidade, mesmo em gestantes eclâmpticas, tem sido reduzida a 1% ou

menos.