Tratado de Fisiologia Médica
Circulação Coronariana
Figura 21-2. Análise gráfica da variação do débito cardíaco, do retorno venoso e da pressão atrial direita com o início de exercício intenso. Curvas pretas, circulação normal. Curvas vermelhas, exercício intenso.
CIRCULAÇÃO CORONARIANA
Cerca de um terço de todas as mortes nos países industrializados do mundo
ocidental resulta de doença das artérias coronárias (coronariopatias), e
quase todas as pessoas idosas têm pelo menos algum distúrbio da circulação
arterial coronariana. Por essa razão, a compreensão da fisiologia normal e
patológica da circulação coronariana é um dos temas mais importantes na
medicina.
Anatomia Fisiológica do Aporte Sanguíneo Coronariano
A Figura 21-3 mostra o coração e seu suprimento sanguíneo coronariano.
Observe que as artérias coronárias principais se situam na superfície do
coração e, então, pequenas artérias penetram da superfície à massa
muscular cardíaca. É quase totalmente por essas artérias que o coração
recebe seu suprimento sanguíneo nutritivo. Apenas 1/10 de milímetro mais
interno da superfície endocárdica pode obter nutrição significativa do sangue nas câmaras cardíacas, de modo que essa fonte de nutrição muscular
seja minúscula.
A artéria coronária esquerda supre principalmente as porções anterior e
lateral esquerda do ventrículo esquerdo, enquanto a artéria coronária
direita supre a maioria do ventrículo direito como também a parte posterior
do ventrículo esquerdo, em 80% a 90% das pessoas.
A maior parte do fluxo sanguíneo venoso coronariano do músculo
ventricular esquerdo retorna ao átrio direito do coração por meio do seio
coronariano — representando cerca de 75% do fluxo sanguíneo
coronariano total. Por outro lado, a maior parte do sangue venoso
coronariano do músculo ventri cular direito retorna pelas pequenas veias‐
cardíacas anteriores, que fluem diretamente para o átrio direito, e não por
meio do seio coronariano. Pequena quantidade de sangue venoso
coronariano também reflui para o coração pelas diminutas veias tebesianas,
que escoam diretamente nas câmaras cardíacas.
Figura 21-3. As artérias coronárias.
O Fluxo Sanguíneo Coronariano Normal Médio é 5% do
Débito Cardíaco
O fluxo sanguíneo coronariano normal nos seres humanos é, em média,
cerca de 70 mL/min/100 g do peso do coração ou em torno de 225 mL/min,
o que representa, em valores aproximados, 4% a 5% do débito cardíaco
total.
Durante exercício intenso, o coração no adulto jovem aumenta seu débito
cardíaco por quatro a sete vezes, e ele bombeia esse sangue contra pressão
arterial maior que a normal. Consequentemente, a produção (débito) de
trabalho pelo coração sob condições intensas pode aumentar por seis a nove
vezes. Ao mesmo tempo, o fluxo sanguíneo coronariano aumenta por três a
quatro vezes para levar os nutrientes adicionais necessitados pelo coração.
Esse aumento não é tão maior quanto o aumento da carga de trabalho, o que
significa que a proporção entre o gasto energético pelo coração e o fluxo
sanguíneo coronariano aumenta. Dessa maneira, a “eficiência” da utilização
cardía ca de energia se eleva para compensar a relativa defi ciência do
suprimento sanguíneo coronariano.
Alterações Fásicas no Fluxo Sanguíneo Coronariano durante a
Sístole e a Diástole — Efeito da Compressão do Músculo
Cardíaco. A Figura 21-4 mostra as variações do fluxo sanguíneo pelos
capilares nutrientes do sistema coronariano ventricular esquerdo em
mililitros por minuto no coração humano durante a sístole e a diástole,
como extrapolado a partir de estudos em animais experimentais. Observe
nesse esquema que o fluxo sanguíneo capilar coronariano no músculo
ventricular esquerdo cai para um valor baixo durante a sístole, que é o
oposto ao fluxo por outros leitos vasculares do corpo. A razão desse
fenômeno é a forte compressão dos vasos sanguíneos intramusculares pelo
músculo ventricular esquerdo durante a contração sistólica.
Durante a diástole, o músculo cardíaco relaxa e não mais obstrui o fluxo
sanguíneo pelos capilares do músculo ventricular esquerdo, de modo que o
sangue flui rapidamente durante toda a diástole.
O fluxo sanguíneo pelos capilares coronarianos do ventrículo direito
também é sujeito às variações fásicas durante o ciclo cardíaco, mas, como a
força da contração do músculo ventricular direito é muito menor que a do
músculo ventricular esquerdo, as alterações fásicas inversas são apenas
parciais, ao contrário daquelas no músculo ventricular esquerdo.
Figura 21-4. Fluxo fásico do sangue pelos capilares coronários do ventrículo humano esquerdo, durante a sístole e a diástole cardíacas (como extrapolado dos fluxos medidos em cães).
Fluxo Sanguíneo Coronariano Epicárdico versus
Subendocárdico — Efeito da Pressão Intramiocárdica. AFigura
21-5 demonstra a disposição especial dos vasos coronarianos em diferentes
profundidades do músculo cardíaco, mostrando, na superfície externa, as
artérias coronárias epicárdicas que suprem a maior parte do músculo.
Menores, as artérias intramusculares derivam das artérias epicárdicas que
penetram o músculo, suprindo os nutrientes necessários. Situado imediatamente sob o endocárdio, existe plexo de artérias subendocárdicas.
Durante a sístole, o fluxo sanguíneo pelo plexo subendocárdico do
ventrículo esquerdo, onde os vasos coronarianos intramusculares são,
consideravelmente, comprimi dos pela contração muscular ventricular, tende
a ser reduzido. Entretanto, os vasos adicionais do plexo subendocárdico
normalmente compensam isso. Adiante, neste Capítulo, explicaremos como
essa diferença peculiar entre o fluxo sanguíneo nas artérias epicárdicas e
subendocárdicas desempenha papel importante em certos tipos de isquemia
coronariana.
Figura 21-5. Diagrama da vasculatura coronariana epicárdica, intramuscular e subendocárdica.
Controle do Fluxo Sanguíneo Coronariano
O Metabolismo Muscular Local é o Controlador Principal
do Fluxo Coronariano
O fluxo sanguíneo pelo sistema coronariano é regulado, na sua maior parte,
pela vasodilatação arteriolar local, em resposta às necessidades nutricionais
do músculo cardíaco. Isto é, sempre que a força da contração cardíaca
estiver aumentada, independentemente da causa, a intensidade do fluxo
sanguíneo coronariano também aumenta. Ao contrário, a atividade cardíaca
diminuída é acompanhada pelo fluxo coronariano reduzido. Essa regulação
local do fluxo sanguíneo coronariano é similar à que ocorre em muitos outros tecidos do corpo, especialmente nos músculos esqueléticos de todo o
corpo.
Demanda de Oxigênio como Fator Principal na Regulação do
Fluxo Sanguíneo Coronariano Local. O fluxo sanguí neo pelas
artérias coronárias é, em geral, regulado, quase preci samente de acordo com
as necessidades de oxigê nio da musculatura cardíaca. Nas condições
normais, cerca de 70% do oxigênio do sangue arterial coronariano são
removidos, enquanto o sangue flui através do músculo cardíaco. Como não
resta muito oxigênio, a musculatura cardíaca só pode ser suprida com pouco
oxigênio adicional, a menos que aumente o fluxo sanguíneo coronariano.
Por sorte, o fluxo sanguíneo coronariano aumenta quase que em proporção
direta para qualquer consumo metabólico adicional de oxigênio pelo‐
coração.
Ainda não foi determinado o modo exato pelo qual o consumo aumentado
de oxigênio produz dilatação coronariana. Muitos pesquisadores especulam
que a diminuição da concentração de oxigênio no coração faz com que
substâncias vasodilatadoras sejam liberadas pelas células musculares,
dilatando as arteríolas. Uma substância com grande propensão
vasodilatadora é a adenosina. Na presença de concentrações muito baixas
de oxigênio nas células musculares, grande proporção do ATP celular é
degradada em monofosfato de adenosina; e a seguir pequenas porções dessa
substância são ainda mais degradadas, liberando adenosina nos líquidos
teciduais do músculo cardíaco, com aumento resultante no fluxo sanguíneo
coronariano local. Após a adenosina causar vasodilatação, grande parte dela
é reabsorvida pelas células cardíacas, a fim de ser novamente utilizada para
a produção de ATP.
A adenosina não é o único produto vasodilatador que já fora identificado;
outros são o fosfato de adenosina, os íons potássio, os íons hidrogênio, o
dióxido de carbono, as prostaglandinas e óxido nítrico. Os mecanismos da dilatação coronariana durante aumentos da atividade cardíaca não foram
esclarecidos, de modo completo, pela adenosina. Os agentes farmacológicos
que bloqueiam, integral ou parcialmente, o efeito vasodilatador da
adenosina não impedem a vasodilatação coronariana causada pelo aumento
da atividade do músculo cardíaco. Estudos em músculos esqueléticos
mostraram também que a infusão continuada de adenosina mantém a
vasodilatação vascular por apenas 1 a 3 horas e, ainda assim, a atividade
muscular dilata os vasos sanguíneos locais, mesmo quando a adenosina não
pode mais dilatá-los. Por conseguinte, os outros mecanismos
vasodilatadores relacionados antes devem ser lembrados.
Controle Nervoso do Fluxo Sanguíneo Coronariano
A estimulação dos nervos autonômicos para o coração pode afetar o fluxo
sanguíneo coronariano, de modo direto e indireto. Os efeitos diretos
resultam da ação das substâncias transmissoras nervosas, a acetilcolina dos
nervos vagos e a norepinefrina dos nervos simpáticos, nos vasos
coronarianos. Os efeitos indiretos resultam de alterações secundárias no
fluxo sanguíneo coronariano, causadas por aumento ou diminuição da
atividade do coração.
Os efeitos indiretos, que são, em grande parte, contrários aos efeitos
diretos, desempenham papel mais importante no controle normal do fluxo
sanguíneo coronariano. Desse modo, a estimulação simpática, que libera
norepinefrina dos nervos simpáticos e epinefrina, assim como norepinefrina
da medula da suprarrenal, aumenta a frequência cardíaca e a contratilidade
cardíaca, como também aumenta a intensidade do metabolismo cardíaco.
Por sua vez, o metabolismo elevado do coração desencadeia mecanismos
reguladores do fluxo sanguíneo local, para a dilatação dos vasos
coronarianos, e o fluxo sanguíneo aumenta, de modo aproximado,
proporcionalmente às necessidades metabólicas do músculo cardíaco. Ao contrário, a estimulação vagal, com sua liberação de acetilcolina, diminui a
frequência cardíaca e tem leve efeito depressor sobre a contratilidade
cardíaca. Esses efeitos reduzem o consumo de oxigênio cardíaco e,
portanto, contraem, de modo indireto, as artérias coronárias.
Efeitos Diretos dos Estímulos Nervosos sobre a Vasculatura
Coronariana. A distribuição das fibras nervosas parassimpáticas (vagais),
para o sistema coronariano ventricular, não é muito grande. Todavia, a
acetilcolina, liberada pela estimulação parassimpática, exerce efeito direto,
dilatando as artérias coronárias.
Uma inervação simpática muito mais extensa ocorre nos vasos
coronarianos. No Capítulo 61, veremos que as substân cias transmissoras
simpáticas, norepinefrina e epinefrina, podem ter efeitos vasculares tanto
vasoconstritores quanto dilatadores, dependendo da presença ou ausência
dos receptores constritores ou dilatadores nas paredes dos vasos sanguí neos.
Os receptores constritores são designados como receptores alfa, e os
receptores dilatadores, como receptores beta. Esses receptores, alfa e beta,
existem nos vasos corona rianos. Em geral, os vasos coronarianos
epicárdicos têm preponderância de receptores alfa, enquanto as artérias
intramusculares podem ter preponderância de receptores beta. Assim, a
estimulação simpática pode pelo menos teori camente causar ligeira
constrição ou dilatação coronariana geral, mas costuma predominar a
constrição. Em algumas pessoas, os efeitos vasoconstritores alfa parecem
ser despropor cionalmente intensos, e essas pessoas podem apresentar
isquemia miocárdica vasoespástica durante períodos de estimu lação
simpática excessiva, muitas vezes com dor anginosa resultante.
Fatores metabólicos, especialmente o consumo de oxigê nio miocárdico,
são os principais controladores do fluxo sanguíneo miocárdico. Sempre que
os efeitos diretos da estimulação nervosa reduzem o fluxo sanguíneo coronariano, o controle metabólico do fluxo coronariano superará os efeitos
nervosos coronarianos diretos em segundos.
Aspectos Especiais do Metabolismo do Músculo
Cardíaco
Os princípios básicos do metabolismo celular, discutidos nos
Capítulos 68 a 73, aplicam-se ao músculo cardíaco da mesma forma que a
outros tecidos, porém existem algumas diferenças quantitativas. Mais
importante, sob condições de repouso, o músculo cardíaco consome
normalmente ácidos graxos para suprir grande parte da sua energia, em vez
de carboidra tos (aproximados 70% da energia derivam dos ácidos graxos).
Todavia, como ocorre em outros tecidos, em condições anaeróbicas ou
isquêmicas, o metabolismo cardíaco deve recorrer aos mecanismos da
glicólise anaeróbica para a obtenção de energia. Entretanto, a glicólise
consome grandes quantidade de glicose sanguínea e forma ao mesmo tempo
grandes quantidades de ácido lático no tecido cardíaco, que é
provavelmente uma das causas da dor cardíaca em condições de isquemia
cardíaca, como discutido adiante, neste Capítulo.
A exemplo de outros tecidos, mais de 95% da energia metabólica liberada
dos alimentos são utilizados para formar ATP nas mitocôndrias. Esse ATP,
por sua vez, atua como transpor tador ou carreador de energia para a
contração muscular cardíaca e para outras funções celulares. Na isquemia
corona riana grave, o ATP é degradado primeiro, em adenosina difosfato e,
em seguida, em monofosfato de adenosina e adenosina. Como a membrana
celular do músculo cardíaco é ligeiramente permeável à adenosina, boa
parte desse agente pode se difundir das células musculares para o sangue
circulante.
Acredita-se que a adenosina liberada seja uma das substâncias que cause a
dilatação das arteríolas coronarianas durante a hipoxia coronariana, como discutido antes. Todavia, perda da adenosina também tem séria
consequência celular. Com apenas 30 minutos de isquemia coronariana
grave, como a que ocorre após infarto do miocárdio, cerca da metade da
base adenina pode ser perdida pelas células musculares cardíacas afetadas.
Ainda mais, essa perda só pode ser reposta pela nova síntese de adenina
com intensidade/velocidade na intensidade de apenas 2% por hora. Por
conseguinte, sempre que um episódio sério de isquemia coronariana tenha
persistido por 30 minutos ou mais, o alívio da isquemia pode ser muito
tardio para evitar lesão e morte das células cardíacas. Esta é quase
certamente uma das causas principais de morte celular cardíaca, na
isquemia miocárdica.
Doença Cardíaca Isquêmica
A causa mais comum de morte na cultura ocidental é a cardio patia
isquêmica, que resulta do fluxo sanguíneo coronariano insuficiente.
Aproximadamente 35% das pessoas, nos Estados Unidos, com 65 ou mais
anos de idade morrem dessa causa. Algumas mortes ocorrem subitamente
como consequência da oclusão coronariana aguda ou da fibrilação do
coração, enquanto outras mortes ocorrem de modo lento, por período de
semanas a anos, em virtude do enfraquecimento progressivo do processo de
bombeamento do coração. Neste Capítulo, discutiremos a isquemia
coronariana aguda, ocasionada por oclusão coronariana aguda e o infarto do
miocárdio. No Capítulo 22, discutiremos a insuficiência cardíaca
congestiva, cuja causa mais frequente consiste na isquemia coronariana
progressiva e no enfraquecimento do músculo cardíaco.
Aterosclerose como Causa da Doença Cardíaca Is quêmi ca. Uma
causa frequente da diminuição do fluxo sanguíneo coronariano é a
aterosclerose. O processo aterosclerótico é discutido em relação ao
metabolismo lipídico no Capítulo 69. Resumidamente, nas pessoas com
predisposição genética à aterosclerose, ou em pessoas com sobrepeso e
obesas, que tenham um estilo de vida sedentário, ou que tenham pressão
arterial elevada e lesão das células endoteliais dos vasos sanguíneos
coronarianos, grande quantidade de colesterol é gradualmente depositada
sob o endotélio, em muitos pontos nas artérias de todo o organismo. De
modo gradual, essas áreas de depósito são invadidas por tecido fibroso e
são, com frequência, calcificadas. O resultado final é o desenvolvimento de
placas ateroscleróticas que, de fato, proeminam-se para o lúmen vascular e
bloqueiam, tanto total quanto parcialmente, o fluxo sanguíneo. Local
comum para o desenvolvimento de placas ateroscleróticas é o segmento dos
primeiros poucos centímetros das artérias coronárias principais.
Oclusão Coronariana Aguda
A oclusão aguda de artéria coronária ocorre com mais frequência em pessoa
que já tinha coronariopatia aterosclerótica de base, mas quase nunca em
pessoa com circulação coronariana normal. A oclusão aguda pode resultar
de qualquer um dos vários efeitos, dois dos quais são os seguintes:
1. A placa aterosclerótica pode produzir coágulo sanguíneo local, referido
como trombo, que oclui a artéria. O trombo ocorre, em geral, onde a
placa aterosclerótica irrompeu através do endotélio, entrando, assim, em
contato direto com o sangue circulante. Como a placa apresenta a
superfície irregular, as plaquetas se aderem a ela, a fibrina é depositada e
os eritrócitos são captados, formando coágulo sanguíneo que cresce até
ocluir o vaso. Ou, ocasionalmente, o coágulo se desprende de sua ligação
na placa aterosclerótica, indo para ramo mais periférico da árvore arterial
coronariana, onde bloqueia a artéria em um ponto. Trombo, que flui ao
longo da artéria e produz oclusão de vaso mais distal, é referido como
êmbolo coronariano.
2. Muitos clínicos acreditam que também possa ocorrer o espasmo
muscular local de uma artéria coronária. O espasmo poderia resultar da
irritação direta do músculo liso da parede arterial, pelas margens de
placa aterosclerótica, ou poderia resultar de reflexos nervosos
arterioscleróticos que causam contração excessiva da parede vascular
coronariana. O espasmo poderia levar, então, à trombose secundária do
vaso.
Valor Salva-vidas da Circulação Colateral do Coração. O grau da
lesão do músculo cardíaco, causada tanto pelo desenvolvimento lento da
constrição aterosclerótica das artérias coronárias quanto pela oclusão
coronariana súbita, é determinado, em grande parte, pelo grau da circulação
colateral que já se desenvolveu ou que pode se desenvolver dentro de curto
intervalo de tempo após a oclusão.
No coração normal, quase não existe grande comunicação calibrosa entre
as artérias coronárias maiores. Entretanto, existem muitas anastomoses
entre as artérias menores, com diâmetros de 20 a 250 micrômetros, como
mostrado na Figura 21-6.
Quando ocorre a oclusão súbita de uma das artérias coronárias maiores, as
pequenas anastomoses começam a se dilatar dentro de poucos segundos.
Porém, o fluxo sanguíneo por esses diminutos vasos colaterais é, em geral,
menos da metade do necessário para manter viva grande parte do músculo
cardíaco que nutrem; os diâmetros dos vasos colaterais não aumentam
muito mais nas próximas 8 a 24 horas. No entanto, o fluxo colateral começa
a aumentar, duplicando no segundo ou terceiro dia e muitas vezes atinge o
fluxo coronariano normal ou quase normal em cerca de 1 mês. Graças ao
desenvolvimento desses canais colaterais, muitos pacientes se recuperam,
de forma quase completa, dos vários graus de oclusão coronariana, quando
a área afetada do músculo envolvido não é muito grande.
Quando a aterosclerose constringe as artérias coronárias lentamente por
um período de muitos anos, em vez de subitamente, os vasos colaterais
podem se desenvolver durante esse mesmo tempo, enquanto a aterosclerose
se agrava mais e mais. Por conseguinte, a pessoa pode nunca ter tido a
qualquer tempo episódio agudo de disfunção cardíaca. Mas, eventualmente,
o processo esclerótico se desenvolve além dos limites, até mesmo do
suprimento sanguíneo colateral, para fornecer o fluxo sanguíneo necessário,
e algumas vezes os próprios vasos sanguíneos colaterais desenvolvem
aterosclerose. Quando isso ocorre, o músculo cardíaco fica gravemente
limitado em sua produção de trabalho, de modo que o coração não possa
bombear as quantidades normalmente necessárias do fluxo sanguíneo. Essa
é uma das causas mais comuns da insuficiência cardíaca nos idosos.
Figura 21-6. Anastomoses diminutas no sistema arterial coronariano normal.
Infarto do Miocárdio
Imediatamente após oclusão coronariana aguda, o fluxo sanguíneo cessa
nos vasos coronarianos distais além da oclusão, exceto por pequenas
quantidades de fluxo colateral dos vasos circunjacentes. A área do músculo
com fluxo nulo ou tão pequeno, que não pode sustentar a função muscular
cardíaca, é dita estar infartada. O processo total denomina-se infarto do
miocárdio.
Logo após o início do infarto, pequenas quantidades de sangue colateral
começam a se infiltrar pela área infartada, e isso, combinado com a
dilatação progressiva dos vasos sanguíneos locais, faz com que a área fique,
de forma excessiva, cheia com sangue estagnado. Simultaneamente, as
fibras musculares utilizam os últimos resíduos de oxigênio no sangue,
fazendo com que a hemoglobina fique totalmente desoxi genada. Logo, a
área infartada adquire tonalidade marrom- azulada, e os vasos sanguíneos da
área parecem estar ingurgitados, apesar da falta de fluxo sanguíneo. Nos
estágios seguintes, as paredes dos vasos ficam muito permeá veis, e com o
extravasamento de líquido o tecido muscular local fica edemaciado, e as
células musculares cardíacas começam a inchar, em virtude da diminuição
do metabolis mo celular. Em poucas horas de ausência quase total do
suprimento sanguíneo, as células musculares cardíacas morrem.
O músculo cardíaco necessita de cerca de 1,3 mL de oxigê nio por 100
gramas de tecido muscular por minuto para permanecer vivo. Pode-se
comparar essa quantidade com cerca de 8 mL de oxigênio por 100 gramas
distribuídos para o ventrículo esquerdo normal em repouso, a cada minuto.
Portanto, se existir até mesmo 15% a 30% de fluxo sanguíneo coronariano
normal em repouso, o músculo não morrerá. Na região central de infarto grande, entretanto, onde quase não há fluxo sanguíneo colateral, o músculo
morre.
Infarto Subendocárdico. O músculo subendocárdico é, com muita
frequência, infartado mesmo quando não existe evidên cia de infarto nas
regiões da superfície externa do coração. A razão para isso é que o músculo
subendocárdico apresenta um consumo de oxigênio mais elevado e uma
dificuldade adicional para obter fluxo sanguíneo adequado, pois os vasos
sanguíneos no subendocárdio são extremamente comprimidos pela
contração sistólica do coração, como explicado antes. Por conseguinte,
qualquer condição que comprometa o fluxo sanguíneo em qualquer área do
coração, provoca, em geral, lesão nas regiões subendocárdicas, com
disseminação posterior da lesão para o lado externo em direção ao
epicárdio.
Causas de Morte após a Oclusão Coronariana Aguda
As causas mais comuns de morte após infarto miocárdico agudo são (1)
débito cardíaco diminuído; (2) acúmulo de sangue nos vasos sanguíneos
pulmonares e, portanto, morte em consequência de edema pulmonar; (3)
fibrilação do coração; e, ocasionalmente, (4) ruptura do coração.
Débito Cardíaco Diminuído — Distensão Sistólica e Choque
Cardíaco. Quando algumas das fibras cardíacas não estão funcionando,
enquanto outras estão muito fracas para se contraírem com grande força, a
capacidade total de bombea mento do ventrículo afetado é
proporcionalmente reduzida. De fato, a força total do bombeamento do
coração infartado está muitas vezes diminuída mais do que se poderia
esperar, em virtude do fenômeno referido como distensão sistólica (systolic
stretch), mostrado na Figura 21-7. Isto é, quando as porções normais do
músculo ventricular se contraem, a região isquêmica do músculo, se estiver morta ou simplesmente não funcional, em vez de se contrair é forçada para
fora pela pressão que se desenvolve no ventrículo. Por consequência, muito
da força de bombeamento do ventrículo é dissipada pela protrusão da área
de músculo cardíaco não funcional.
Quando o coração fica incapaz de se contrair, com força suficiente para
bombear quantidade adequada de sangue para a árvore arterial periférica, há
o desenvolvimento de insuficiência cardíaca e morte dos tecidos periféricos
como resultado da isquemia periférica. Essa condição, conhecida como
choque coronariano, choque cardiogênico ou insuficiên cia cardíaca de
baixo débito, é discutida de modo mais completo no próximo Capítulo. O
choque cardiogênico ocorre quase sempre quando mais de 40% do
ventrículo esquerdo são infartados. A morte se dá em mais de 70% dos
pacientes que desenvolvem choque cardiogênico.
Figura 21-7. Distensão sistólica em área de isquemia do músculo cardíaco.
Retenção de Sangue no Sistema Venoso do Corpo. Quando o
coração não está bombeando sangue para diante, esse sangue deve ficar
acumulado nos átrios e nos vasos sanguí neos dos pulmões, ou na circulação
sistêmica. Isso ocasiona aumento das pressões nos capilares, principalmente
nos pulmões.
Esse acúmulo de sangue nas veias provoca, muitas vezes, pouca
dificuldade durante as primeiras poucas horas após o infarto do miocárdio.
Em vez disso, os sintomas se desenvolvem poucos dias depois pela seguinte razão: o débito cardíaco agudamente reduzido leva à queda do fluxo
sanguíneo para os rins. Assim, pelas razões que são discutidas no Capítulo
22, os rins falham com a resultante incapacidade de excretar quantidade
suficiente de urina. Essa situação aumenta progressivamente o volume
sanguíneo total e, por isso, ocasiona os sintomas congestivos. Por
consequência, muitos pacientes que aparentemente estão se recuperando
bem durante os primeiros dias após o início da insuficiência cardíaca
desenvolverão de repente edema pulmonar agudo e, muitas vezes, morrerão
em poucas horas após o aparecimento dos sintomas pulmonares iniciais.
Fibrilação dos Ventrículos após Infarto do Miocárdio. A morte de
muitas pessoas, em consequência de oclusão coronariana, ocorre por causa
da fibrilação ventricular súbita. A tendência a desenvolver fibrilação é
especialmente maior após infarto grande, porém ela pode, algumas vezes,
também acontecer depois de pequenas oclusões. De fato, alguns pacientes
com insuficiência coronariana crônica morrem repentinamente de
fibrilação, sem qualquer infarto agudo.
É muito provável que a fibrilação ocorra durante dois períodos
especialmente perigosos após o infarto coronariano. O primeiro é durante os
primeiros 10 minutos, após a ocorrência do infarto. Em seguida, há breve
período de relativa segurança, acompanhado por segundo período de
irritabilidade cardíaca, com início 1 hora ou pouco mais e durando por
poucas horas. A fibrilação também pode ocorrer dias após o infarto, porém
com menor probabilidade.
Pelo menos quatro fatores compõem a tendência para a fibrilação
cardíaca:
1. A perda aguda do suprimento sanguíneo ao músculo cardíaco ocasiona
depleção rápida de potássio pela musculatura isquêmica. Isso também
aumenta a concentração de potássio nos líquidos extracelulares em torno
das fibras musculares cardíacas. Experimentos, nos quais o potássio foi
injetado no sistema coronariano, demonstraram que a elevada
concentração de íon potássio eleva a irritabilidade da musculatura
cardíaca e, portanto, sua probabilidade de fibrilação.
2. A isquemia do músculo causa uma “corrente da lesão”, descrita
no Capítulo 12, em relação aos eletrocardiogramas de pacientes com
infarto agudo do miocárdio. Isto é, a musculatura isquêmica não pode
muitas vezes repolarizar completamente suas membranas após um
batimento cardíaco, de modo que a superfície externa desse músculo
permanece negativa em relação ao potencial de membrana normal do
músculo cardíaco, em outros pontos do coração. Por conseguinte, a
corrente elétrica flui da área isquêmica do coração para a área normal,
podendo produzir impulsos anormais capazes de desencadear a
fibrilação.
3. Potentes reflexos simpáticos muitas vezes se desenvolvem após infarto
maciço, provocado principalmente por não bombeamento pelo coração
de volume de sangue adequado na árvore arterial, que leva à diminuição
da pressão sanguínea. A estimulação simpática também aumenta a
irritabilidade do músculo cardíaco e o predispõe assim à fibrilação.
4. A fraqueza do músculo cardíaco, causada pelo infarto do miocárdio, faz
com que muitas vezes o ventrículo se dilate excessivamente. Essa
dilatação excessiva aumenta a extensão da via de condução do impulso
no coração e, com frequência, produz vias anormais de condução em
torno de toda a área infartada do músculo cardíaco. Esses dois efeitos
predispõem ao desenvolvimento de movimentos circulares, pois, como
discutido no Capítulo 13, o prolongamento excessivo das vias de
condução nos ventrículos permite que os impulsos cheguem de novo ao
músculo que já está se recuperando da refratariedade, iniciando assim
um ciclo de “movimento circular” da nova excitação e resultando em
uma continuação do processo.
Ruptura da Área Infartada. Durante o primeiro dia ou nos seguintes
após o infarto agudo, existe pouco perigo de ruptura da porção isquêmica
do coração, mas após poucos dias as fibras musculares mortas começam a
degenerar, e a parede cardíaca na área afetada do coração fica distendida e
muito delgada. Quando isso ocorre, o músculo cardíaco é abaulado, com
protrusão severa para fora a cada contração do coração, e essa distensão
sistólica aumenta progressivamente até que, por fim, o coração se rompe.
Na verdade, um dos meios utilizados para a avaliação do progresso do
infarto grave do miocárdio é o registro da imagem cardíaca (isto é, raios X)
se o grau da distensão sistólica estiver aumentando.
Quando o ventrículo se rompe, a perda de sangue para o espaço
pericárdico causa rápido desenvolvimento do tamponamento cardíaco —
que é a compressão externa do coração pelo sangue coletado na cavidade
pericárdica. Por causa dessa compressão do coração, o sangue não pode
fluir para o átrio direito, e o paciente morre por diminuição súbita do débito
cardíaco.
Estágios da Recuperação do Infarto Agudo do Miocárdio
A parte superior esquerda da Figura 21-8 mostra os efeitos da oclusão
coronariana aguda em paciente com pequena área de isquemia muscular; à
direita, é mostrado coração com grande área de isquemia. Quando a área de
isquemia é pequena, pode ocorrer pouca ou nenhuma morte das células
musculares, porém parte do músculo muitas vezes passa a ser
temporariamente não funcional, em virtude da nutrição insuficiente para
sustentar a contração muscular.
Quando a área de isquemia é extensa, algumas das fibras musculares no
centro da área morrem em pouco tempo, dentro de 1 a 3 horas se ocorre a
interrupção total do suprimento sanguíneo coronariano. Imediatamente em
torno da área morta, encontra-se a área não funcional, com comprometimento da contração e, em geral, com falência da condução do
impulso. A seguir, estendendo-se circunferencialmente em torno da área
não funcional, existe a área que ainda está se contraindo, mas com menor
força por causa da isquemia moderada.
Figura 21-8. Na parte superior, áreas pequenas e grandes de isquemia coronariana. Na parte inferior, estágios de recuperação do infarto do miocárdio.
Substituição do Músculo Morto por Tecido Cicatricial. Na parte
inferior da Figura 21-8, são mostrados os vários estágios da recuperação
após grande infarto do miocárdio. Logo após a oclusão, as fibras
musculares no centro da área isquêmi ca morrem. A seguir, durante os dias
seguintes, essa área de fibras mortas fica maior, pois muitas das fibras
marginais finalmente sucumbem à isquemia prolongada. Ao mesmo tempo,
por causa do aumento dos canais arteriais colaterais que suprem a margem
externa da área infartada, muito do músculo não funcional se recupera.
Após poucos dias a 3 semanas, grande parte do músculo não funcional volta a ser funcional ou morre — um ou outro. Nesse ínterim, o tecido fibroso
começa a se desenvolver entre as fibras mortas, pois a isquemia pode
estimular o crescimento de fibroblastos e promover o desenvolvimento de
maior quantidade que o normal de tecido fibroso. Por conseguinte, o tecido
muscular morto é substituído gradualmente por tecido fibroso. A seguir,
como é propriedade geral do tecido fibroso passar por retração e dissolução
progressivas, a cicatriz fibrosa pode diminuir de tamanho por período de
vários meses a 1 ano.
Por fim, as áreas normais do coração se hipertrofiam gradualmente para
compensar pelo menos em parte a perda da musculatura cardíaca morta. Por
esses meios, o coração pode se recuperar, parcial ou quase totalmente, em
poucos meses.
Valor do Repouso no Tratamento do Infarto do Miocárdio. O grau
da morte celular cardíaca é determinado pelo grau de isquemia e da carga
de trabalho sobre o músculo cardíaco. Quando a carga de trabalho é muito
aumentada, como durante os exercícios sob tensão emocional intensa, ou
como resultado da fadiga, o coração necessita de quanti dades maiores de
oxigênio e de outros nutrientes para susten tar sua vida. Além disso, os
vasos sanguíneos anastomóticos que suprem com sangue as áreas
isquêmicas do coração devem também suprir as áreas do coração que
normalmente suprem. Quando o coração fica excessivamente ativo, os
vasos da musculatura normal ficam muito dilatados. Essa dilatação permite
que a maior parte do sangue fluindo pelos vasos coronarianos flua pelo
tecido muscular normal, deixando assim pouco sangue para fluir pelos
pequenos canais anastomóticos, na área isquêmica: como consequência, a
condição isquêmica agrava. Essa condição é referida como síndrome de
“sequestro coronariano”. Consequentemente, um dos fatores mais
importantes no tratamento de paciente com infarto do miocárdio é a observância do repouso absolu to do corpo, durante o processo de
recuperação.
Função do Coração após Recuperação de Infarto do
Miocárdio
Ocasionalmente, o coração que tenha se recuperado de grande infarto
extenso do miocárdio retorna quase à capaci dade funcional completa;
porém com maior frequência sua capacidade de bombeamento fica
diminuída de forma permanente, menor que a de coração saudável. Isso não
sig nifica que a pessoa seja necessariamente inválida cardíaca ou que o
débito cardíaco em repouso esteja diminuído até abaixo do normal, pois o
coração normal é capaz de bombear 300% a 400% mais sangue, por
minuto, do que o corpo necessita durante o repouso — isto é, uma pessoa
normal tem “reserva cardíaca” de 300% a 400%. Mesmo quando a reserva
cardíaca é reduzida para menos de 100%, a pessoa ainda pode realizar
atividades normais, mas não exercício intenso passível de sobrecarregar o
coração.
Dor na Doença Coronariana do Coração
Normalmente, a pessoa não pode “sentir” seu coração, mas o músculo
cardíaco isquêmico muitas vezes ocasiona sensação de dor, algumas vezes
dor intensa. A causa precisa dessa dor não é conhecida; porém, acredita-se
que a isquemia faz com que o músculo libere substâncias ácidas, como o
ácido lático, ou outros produtos que promovem a dor, como histamina,
cininas ou enzimas celulares proteolíticas, que não são removidas com
rapidez suficiente pelo lento fluxo sanguí neo coronariano. As altas
concentrações desses produtos anormais estimulam então as terminações nervosas para a dor no músculo cardíaco, enviando impulsos dolorosos‐
pelas fibras nervosas aferentes sensoriais até o sistema nervoso central.
Angina Pectoris (Dor Cardíaca). Na maioria das pessoas que
desenvolvem constrição progressiva de suas artérias coronárias, a dor
cardíaca, denominada angina pectoris, começa a surgir sempre que a carga
sobre o coração fica excessiva em relação ao fluxo sanguíneo coronariano
disponível. Essa dor é sentida, em geral, por trás da parte superior do
esterno, sobre o coração (retroesternal) e, além disso, é muitas vezes
direcionada às áreas superficiais distantes do corpo, mais comumente ao
braço e ao ombro esquerdos, mas também, com certa frequência, ao
pescoço e até mesmo ao lado da face. A razão para essa distribuição da dor
é que durante a vida embrionária o coração se origina no pescoço, da
mesma forma que os braços. Portanto, o coração e essas áreas superficiais
do corpo recebem fibras nervosas para a dor dos mesmos segmentos da
medula espinal.
Muitas pessoas com angina pectoris crônica sentem dor quando fazem
exercícios ou quando experienciam emoções que aumentam o metabolismo
do coração ou que contraem transitoriamente os vasos coronários, em
virtude dos sinais nervosos simpáticos vasoconstritores. A dor anginosa
também é exacerbada pela temperatura fria ou por ter repleção gástrica,
ambas aumentam a carga de trabalho do coração. A dor dura, em geral,
apenas poucos minutos. Todavia, alguns pacientes têm isquemia tão grave e
tão intensa que a dor está presente o tempo todo. A dor costuma ser descrita
como quente, que pressiona e causa sensação de aperto; é de tal natureza
que, em geral, faz o paciente cessar toda a atividade corporal desnecessária.
Tratamento com Fármacos. Vários fármacos vasodilatadores, quando
administrados durante o ataque agudo de angina, podem, muitas vezes,
conseguir o alívio imediato da dor. Os vasodilatadores de curta ação comumente utilizados são a nitroglicerina e outros compostos à base de
nitrato. Outros vasodilatadores, como os inibidores dos receptores da
enzima conversora da angiotensina, os bloqueadores dos canais de cálcio e
ranolazina, podem ser úteis no tratamento da dor anginosa crônica estável.
Outra classe de fármacos utilizados no tratamento prolon gado da angina
pectoris são os betabloqueadores, como o propranolol. Essas substâncias
bloqueiam os receptores simpá ticos betadrenérgicos, o que impede a
estimulação simpática da frequência cardíaca e do metabolismo cardíaco
durante o exercício ou os episódios emocionais. Assim, a terapia com
betabloqueador diminui a necessidade pelo coração de oxigê nio metabólico
adicional durante condições estressantes. Por razões óbvias, essa terapia
também pode reduzir o número de ataques de angina, bem como sua
gravidade.
Tratamento Cirúrgico da Doença Arterial Coronariana
Cirurgia de Derivação Aortocoronariana. Em muitos pacientes com
isquemia coronariana, as áreas contraídas das artérias coronárias ficam
situadas em apenas alguns pontos separados, bloqueados pela doença
aterosclerótica, e os vasos coronarianos em outros pontos estão normais ou
quase normais. Desenvolveu-se procedimento cirúrgico na década de 1960,
denominado derivação aortocoronariana ou enxerto de derivação arterial
coronariana (EDAC), que consiste na remoção de segmento de veia
subcutânea do braço ou da perna, e, a seguir, em seu enxerto, desde a raiz
da aorta até o lado da artéria coronária periférica, além do ponto de
bloqueio aterosclerótico. São feitos de um a cinco enxertos, cada um
suprindo uma artéria coronária periférica além do bloqueio.
A angina pectoris é aliviada na maioria dos pacientes. Também em
pacientes, cujo coração não estava gravemente lesionado antes da cirurgia,
o procedimento de derivação coronariana pode dar expectativa normal de vida. Ao contrário, se o coração já estiver muito lesionado, provavelmente o
procedimento de derivação seja de pouca valia.
Angioplastia Coronariana. Desde a década de 1980, um procedimento
tem sido utilizado para abrir, pelo menos em parte, os vasos coronarianos
bloqueados antes de serem totalmente ocluídos. Esse procedimento,
denominado angioplastia da artéria coronária, é realizado da seguinte
forma: pequeno cateter com balão na extremidade, de cerca de 1 milímetro
de diâmetro, é introduzido sob orientação radiográfica no sistema
coronariano e impulsionado pela artéria parcialmente ocluída até que a
porção do cateter com o balão atinja o ponto que está em parte ocluído. O
balão é inflado com alta pressão que distende acentuadamente a artéria
lesionada. Após esse procedimento, o fluxo sanguíneo pelo vaso muitas
vezes aumenta por três a quatro vezes, e mais de 75% dos pacientes que são
submetidos a esse procedimento têm alívio dos sintomas isquêmicos
coronarianos por pelo menos vários anos, embora muitos dos pacientes
ainda necessitem eventualmente de cirurgia de derivação coronariana.
Pequenos tubos de malha de fios de aço inoxidável, chamados stents, são
algumas vezes colocados no interior da artéria coronária dilatada por
angioplastia para manter a artéria aberta, impedindo, desse modo, sua
reestenose. Algumas semanas após a colocação do stent, o endotélio cresce
sobre a superfície metálica desse stent, permitindo que o sangue flua
normalmente pelo stent. Entretanto, o refechamento (reestenose) da artéria
bloqueada ocorre em cerca de 25% a 40% dos pacientes submetidos à
arterioplastia muitas vezes dentro de 6 meses após o procedimento inicial.
Usualmente, a reestenose se deve ao crescimento excessivo de tecido
cicatricial o qual se desenvolve por baixo no novo endotélio sadio, que
cresceu sobre o stent. Os stents que lentamente liberam fármacos (stents
liberadores de fármacos, drug-eluting stents) podem ajudar a diminuir o
crescimento excessivo do tecido cicatricial.
Novos procedimentos para a abertura das artérias ateroscleróticas ainda
estão em constante desenvolvimento experimental. Um desses
procedimentos utiliza feixe a laser na extremidade do cateter na artéria
coronária direcionado para a lesão aterosclerótica. O laser dissolve
literalmente a lesão, sem lesionar de forma substancial o restante da parede
arterial.
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CAPÍTULO 22
Insuficiência Cardíaca
Uma das mais importantes afecções tratadas pelo médico é a insuficiência
cardíaca (“falência do coração”). Essa desordem pode resultar de qualquer
condição cardíaca que reduza a capacidade do coração em bombear san gue
suficiente, para satisfazer as necessidades do corpo. A causa é geralmente a
contratilidade diminuída do miocárdio, resultante do fluxo sanguíneo
coronariano diminuído. Todavia, a insuficiência também pode ser
provocada por lesão das valvas cardíacas, pressão externa em torno do
coração, deficiência de vitamina B, doença muscular cardía ca primária ou
qualquer anormalidade que faça do coração uma bomba hipoeficaz.
Neste Capítulo, discutiremos, primariamente, a insuficiên cia cardíaca
provocada por cardiopatia isquêmica, resultante do bloqueio parcial dos
vasos sanguíneos coronarianos, que é a causa mais comum de insuficiência
cardíaca. No Capítulo 23, discutiremos as valvulopatias e as cardiopatias
congênitas.