Tratado de Fisiologia Médica
Digestão de Diversos Alimentos por Hidrólise
CAPÍTULO 66
Digestão e Absorção no Trato
Gastrointestinal
Os principais alimentos, que sustentam a vida do corpo (com exceção de
pequenas quantidades de substâncias como vitaminas e sais minerais),
podem ser classificados como carboidratos, gorduras e proteínas. Em
termos gerais, esses alimentos não podem ser absorvidos em suas formas
naturais por meio da mucosa gastrointestinal e, por essa razão, são inúteis
como nutrientes, sem digestão preliminar. Assim, este Capítulo discute
primeiro os processos pelos quais carboidratos, gorduras e proteínas são
digeridos a compostos que podem ser absorvidos e, segundo, os
mecanismos pelos quais os produtos finais da digestão, bem como água,
eletrólitos e outras substâncias, são absorvidos.
DIGESTÃO DE DIVERSOS ALIMENTOS POR HIDRÓLISE Hidrólise de Carboidratos. Quase todos os carboidratos da dieta são
grandes polissacarídeos ou dissacarídeos, que são combinações de
monossacarídeos, ligados uns aos outros por condensação. Esse fenômeno
significa que um íon hidrogênio (H +) foi removido de um dos
monossacarídeos, e um íon hidroxila (−OH) foi removido do outro. Os dois
monossacarídeos se combinam, então, nos locais de remoção, e os íons
hidrogênio e hidroxila se combinam para formar água (H O). 2
Quando os carboidratos são digeridos, esse processo é invertido, e os
carboidratos são convertidos a monossacarídeos. Enzimas específicas nos
sucos digestivos do trato gastrointestinal catalisam a reintrodução dos íons
hidrogênio e hidroxila obtidos da água nos polissacarídeos e, assim,
separam os monossacarídeos. Esse processo, denominado hidrólise, é o
seguinte (no qual R -R é um dissacarídeo):
Hidrólise de Gorduras. Quase todas as gorduras da dieta consistem em
triglicerídeos (gorduras neutras) formados por três moléculas de ácidos
graxos condensadas com uma só molécula de glicerol. Durante a
condensação, três moléculas de água são removidas.
A hidrólise (digestão) dos triglicerídeos consiste no processo inverso: as
enzimas digestivas de gorduras reinserem três moléculas de água na
molécula de triglicerídeo e, assim, separam as moléculas de ácido graxo do
glicerol.
Hidrólise de Proteínas. As proteínas são formadas por múltiplos
aminoácidos que se ligam por ligações peptídicas. Em cada ligação, íon
hidroxila foi removido de um aminoácido e íon hidrogênio foi removido do
outro; assim, os aminoácidos sucessivos na cadeia de proteína se ligam
também por condensação, e a digestão se dá por efeito inverso: hidrólise. Ou seja, as enzimas proteolíticas inserem de novo íons hidrogênio e
hidroxila das moléculas de água nas moléculas de proteína, para clivá-las
em seus aminoácidos constituintes.
Por conseguinte, a química da digestão é simples, porque, no caso dos três
tipos principais de alimentos, o mesmo processo básico de hidrólise está
envolvido. A única diferença é encontrada nos tipos de enzimas necessárias
para promover as reações de hidrólise para cada tipo de alimento.
Todas as enzimas digestivas são proteínas. Sua secreção, por diferentes
glândulas gastrointestinais, foi discutida no Capítulo 65.
DIGESTÃO DOS CARBOIDRATOS
Carboidratos da Dieta Alimentar. Existem apenas três fontes
principais de carboidratos na dieta humana normal. Sacarose, dissacarídeo
popularmente conhecido como açúcar de cana; lactose, dissacarídeo
encontrado no leite; amidos, grandes polissacarídeos presentes em quase
todos os alimentos de origem não animal, particularmente nas batatas e nos
diferentes tipos de grãos. Outros carboidratos ingeridos em menor
quantidade são amilose, glicogênio, álcool, ácido lático, ácido pirúvico,
pectinas, dextrinas e quantidades ainda menores de derivados de
carboidratos da carne.
A dieta contém ainda grande quantidade de celulose que é carboidrato.
Entretanto, nenhuma enzima capaz de hidrolisar a celulose é secretada no
trato digestivo humano. Consequentemente, a celulose não pode ser
considerada alimento para os seres humanos.
A Digestão de Carboidratos Começa na Boca e no Estômago.
Quando o alimento é mastigado, ele se mistura com a saliva, contendo a
enzima digestiva ptialina (uma a-amilase), secretada, em sua maior parte,
pelas glândulas parótidas. Essa enzima hidrolisa o amido no dissacarídeo maltose e em outros pequenos polímeros de glicose, contendo três a nove
moléculas de glicose, como mostrado na Figura 66-1. O alimento, porém,
permanece na boca apenas por curto período de tempo, de modo que não
mais do que 5% dos amidos terão sido hidrolisados, até a deglutição do
alimento.
Entretanto, a digestão do amido, continua no corpo e no fundo do
estômago por até 1 hora, antes de o alimento ser misturado às secreções
gástricas. Então, a atividade da amilase salivar é bloqueada pelo ácido das
secreções gástricas, já que a amilase é essencialmente inativa como enzima,
quando o pH do meio cai abaixo de 4,0. Contudo, em média, antes de o
alimento e a saliva estarem completamente misturados com as secreções
gástricas, até 30% a 40% dos amidos terão sido hidrolisados para formar
maltose.
Figura 66-1. Digestão de carboidratos.
DIGESTÃO DE CARBOIDRATOS NO INTESTINO
DELGADO
Digestão por Amilase Pancreática. A secreção pancreá tica, como a
saliva, contém grande quantidade de a-amilase, que é quase idêntica em
termos de função à a-amilase da saliva, mas muitas vezes mais potente.
Portanto, 15 a 30 minutos depois do quimo ser transferido do estômago para o duodeno e misturar-se com o suco pancreático, praticamente todos os
carboidratos terão sido digeridos.
Em geral, os carboidratos são quase totalmente convertidos em maltose
e/ou outros pequenos polímeros de glicose, antes de passar além do
duodeno ou do jejuno superior.
Hidrólise de Dissacarídeos e de Pequenos Polímeros de
Glicose em Monossacarídeos por Enzimas do Epitélio
Intestinal. Os enterócitos que revestem as vilosidades do intestino delgado
contêm quatro enzimas (lactase, sacarose, maltase e a-dextrinase), que são
capazes de clivar os dissacarídeos lactose, sacarose e maltose, mais outros
pequenos polímeros de glicose nos seus monossacarídeos constituintes.
Essas enzimas ficam localizadas nos enterócitos que forram a borda em
escova das microvilosidades intestinais, de maneira que os dissacarídeos
são digeridos, quando entram em contato com esses enterócitos.
A lactose se divide em molécula de galactose e em molécula de glicose. A
sacarose se divide em molécula de frutose e molécula de glicose. A maltose
e outros polímeros pequenos de glicose se dividem em múltiplas moléculas
de glicose. Assim, os produtos finais da digestão dos carboidratos são todos
monossacarídeos hidrossolúveis absorvidos imediatamente para o sangue
porta.
Na dieta comum, contendo muito mais amidos do que todos os outros
carboidratos combinados, a glicose representa mais de 80% dos produtos
finais da digestão de carboidratos, enquanto a fração de galactose ou frutose
raramente ultrapassa 10%.
As principais etapas da digestão de carboidratos estão resumidas na
Figura 66-1.
DIGESTÃO DE PROTEÍNAS
Proteínas da Dieta. As proteínas da dieta são, em termos químicos,
cadeias de aminoácidos conectadas por ligações peptídicas. A ligação
peptídica é a seguinte:
As características de cada proteína são determinadas pelos tipos de
aminoácidos que a compõem e pelas sequên cias desses aminoácidos. As
características físicas e químicas das diferentes proteínas nos tecidos
humanos são discutidas no Capítulo 70.
Digestão das Proteínas no Estômago. Pepsina, a importante enzima
péptica do estômago, é mais ativa em pH de 2,0 a 3,0 e é inativa em pH
acima de 5,0. Consequentemente, para que essa enzima tenha ação digestiva
sobre a proteína, os sucos gástricos precisam ser ácidos. Como explicado
no Capítulo 65, as glândulas gástricas secretam grande quantidade de ácido
clorídrico. Esse ácido clorídrico é secretado pelas células parietais
(oxínticas) nas glândulas a pH em torno de 0,8, até se misturar ao conteúdo
gástrico e às secreções das células glandulares não oxínticas do estômago; o
pH da mistura fica então entre 2,0 e 3,0, faixa favorável à atividade da
pepsina.
Um dos aspectos importantes da digestão pela pepsina é a sua capacidade
de digerir a proteína colágeno, proteína de tipo albuminoide, pouco afetada por outras enzimas digestivas. O colágeno é constituinte significativo do
tecido conjuntivo celular das carnes; portanto, para que outras enzimas do
trato digestivo digiram outras proteínas das carnes, é preciso primeiro que
as fibras de colágeno sejam digeridas. Consequentemente, em pessoas que
não produzem pepsina nos sucos gástricos, a carne ingerida é menos
processada por outras enzimas digestivas e, portanto, pode ser mal digerida.
Como mostrado na Figura 66-2, a pepsina apenas inicia o processo de
digestão das proteínas, usualmente promovendo 10% a 20% da digestão
total das proteínas, para convertê-las a proteoses, peptonas e outros
polipeptídeos. A clivagem das proteínas ocorre como resultado da hidrólise
nas ligações peptídicas entre os aminoácidos.
Figura 66-2. Digestão de proteínas.
A Maior Parte da Digestão de Proteínas Resulta das Ações das
Enzimas Proteolíticas Pancreáticas. Grande parte da digestão das
proteínas ocorre no intestino delgado superior, duodeno e jejuno, sob a
influência de enzimas proteolíticas da secreção pancreática. Imediatamente
ao entrar no intestino delgado, provenientes do estômago, os produtos da
degradação parcial das proteínas são atacados pelas principais enzimas
proteolíticas pancreáticas: tripsina, quimotripsina, carboxipolipeptidase e
elastase, como mostrado na Figura 66-2.
Tanto a tripsina como a quimotripsina clivam as moléculas de proteína em
pequenos polipeptídeos; a carboxipolipeptidase então libera aminoácidos
individuais dos terminais carboxila dos polipeptídeos. A proelastase, por
sua vez, é convertida em elastase que, então, digere as fibras de elastina,
abundantes em carnes.
Apenas pequena porcentagem das proteínas é digerida completamente, até
seus aminoácidos constituintes pelos sucos pancreáticos. A maioria é
digerida até dipeptídeos e tripeptídeos.
Digestão de Peptídeos por Peptidases nos Enterócitos Que
Revestem as Vilosidades do Intestino Delgado. O último estágio na
digestão das proteínas no lúmen intestinal é feito pelos enterócitos que
revestem as vilosidades do intestino delgado, especialmente no duodeno e
no jejuno. Essas células apresentam borda em escova, que consiste em
centenas de microvilosidades que se projetam da superfície de cada célula.
Nas membranas de cada uma dessas microvilosidades, encontram-se
múltiplas peptidases que se projetam através das membranas para o
exterior, onde entram em contato com os líquidos intestinais.
Dois tipos de peptidases são especialmente importantes,
aminopolipeptidase e diversas dipeptidases. Elas continuam a hidrólise dos
maiores polipeptídeos remanescentes em tripeptídeos e dipeptídeos e de uns
poucos aminoácidos. Aminoácidos, dipeptídeos e tripeptídeos são
facilmente transportados através da membrana microvilar para o interior do
enterócito.
Finalmente, no citosol do enterócito, existem várias outras peptidases
específicas para os tipos de aminoácidos que ainda não foram hidrolisados.
Em minutos, praticamente todos os últimos dipeptídeos e tripeptídeos são
digeridos a aminoácidos, que então são transferidos para o sangue.
Mais de 99% dos produtos finais da digestão das proteí nas absorvidas são
aminoácidos; raramente, peptídeos e, ainda mais raramente, proteínas inteiras são absorvidas. Mesmo essas raríssimas moléculas de proteínas
absorvidas inteiras podem, por vezes, causar sérios distúrbios alérgicos ou
imunológicos, como discutido no Capítulo 35.
DIGESTÃO DE GORDURAS
Gorduras na Dieta. As gorduras mais abundantes da dieta são as
gorduras neutras, também conhecidas como triglicerídeos; estes são
formados por glicerol esterificado com três moléculas de ácidos graxos,
como mostra a Figura 66-3. A gordura neutra é um dos principais
constituintes dos alimentos de origem animal, mas muito mais rara nos
alimentos de origem vegetal.
Na dieta usual existem também quantidades pequenas de fosfolipídios,
colesterol e ésteres de colesterol. Os fosfolipídios e os ésteres de colesterol
contêm ácidos graxos e, portanto, podem ser considerados gorduras. O
colesterol, no entanto, é um composto esterol que não contém ácido graxo,
mas exibe algumas das características químicas e físicas das gorduras; além
disso, é derivado das gorduras e metabolizado como elas. Portanto, o
colesterol é considerado, do ponto de vista dietético, gordura.
Figura 66-3. Hidrólise da gordura neutra catalisada por lipase.
A Digestão de Gorduras Ocorre Principalmente no Intestino
Delgado. Pequena quantidade de triglicerídeos é digerida no estômago
pela lipase lingual secretada pelas glândulas linguais na boca e deglutida
com a saliva. Essa digestão é menor que 10% e, em geral, sem importância.
Essencialmente, toda a digestão das gorduras ocorre no intestino delgado,
conforme descrito a seguir.
A Primeira Etapa na Digestão da Gordura é a Emulsificação por
Ácidos Biliares e Lecitina. A primeira etapa na digestão de gorduras é a
quebra física dos glóbulos de gordura em partículas pequenas, de maneira
que as enzimas digestivas hidrossolúveis possam agir nas superfícies das
partículas. Esse processo é denominado emulsificação da gordura e começa
pela agitação no estômago que mistura a gordura com os produtos da
secreção gástrica.
A maior parte da emulsificação ocorre no duodeno, sob a influência da
bile, secreção do fígado que não contém enzimas digestivas. Porém, a bile contém grande quantidade de sais biliares, assim como o fosfolipídeo
lecitina. Essas duas substâncias, mas especialmente a lecitina, são
extremamente importantes para a emulsificação da gordura. As porções
polares (i. e., os pontos onde ocorre a ionização na água) dos sais biliares e
das moléculas de lecitina são muito solúveis em água, enquanto quase todas
as porções remanescentes de suas moléculas são muito solúveis em gordura.
No entanto, as porções solúveis em gordura dessas secreções hepáticas se
dissolvem na camada superficial dos glóbulos gordurosos, com as porções
polares projetadas. As projeções polares, por sua vez, são solúveis nos
líquidos aquosos circundantes, o que diminui, consideravelmente, a tensão
interfacial da gordura e também a torna solúvel.
Quando a tensão interfacial do glóbulo do líquido imiscível é baixa, esse
líquido imiscível, sob agitação, pode ser dividido em pequenas partículas,
muito mais facilmente do que pode quando a tensão interfacial é grande.
Consequentemente, a principal função majoritária dos sais biliares e da
lecitina, especialmente da lecitina na bile, é tornar os glóbulos gordurosos
rapidamente fragmentáveis, sob agitação com água no intestino delga do.
Essa ação é igual àquela que muitos detergentes que são largamente usados
em limpadores domésticos para a remoção de gordura.
Com a redução do diâmetro dos glóbulos de gordura, a área superficial
total aumenta bastante. Na medida em que os diâmetros médios das
partículas de gordura no intestino após a emulsificação são inferiores a 1
micrômetro, isso representa um aumento de até 1.000 vezes da área
superficial total da fase lipídica.
As enzimas lipases são compostos hidrossolúveis e podem atacar os
glóbulos de gordura apenas em suas superfícies. Por conseguinte, essa
função detergente dos sais biliares e da lecitina é muito importante para a
digestão das gorduras.
Os Triglicerídeos São Digeridos pela Lipase Pancreática. A
enzima mais importante para a digestão dos triglicerídeos é a lipase
pancreática, presente em enorme quantidade no suco pancreático, suficiente
para digerir em 1 minuto todos os triglicerídeos. Os enterócitos do intestino
delgado contêm outra lipase adicional, conhecida como lipase entérica, mas
esta não é normalmente necessária.
Os Produtos Finais da Digestão de Gordura São Ácidos Graxos
Livres. Grande parte dos triglicerídeos na dieta é hidrolisada pela lipase
pancreática em ácidos graxos livres e 2-monoglicerídeos, como mostra a
Figura 66-4.
Figura 66-4. Digestão de gorduras.
Os Sais Biliares Formam Micelas Que Aceleram a Digestão de
Gorduras. A hidrólise dos triglicerídeos é reação muito reversível; por
conseguinte, o acúmulo de monoglicerídeos e de ácidos graxos livres na
vizinhança do que está sendo digerido impede a continuação da digestão.
Os sais biliares têm o importante papel adicional de remover os
monoglicerídeos e os ácidos graxos das adjacências das partículas em
digestão, quase tão rapidamente quanto esses produtos da digestão são
formados. Esse processo ocorre do modo a seguir.
Os sais biliares, em concentração elevada o suficiente na água, tendem a
formar micelas, que são agregados cilíndricos com 3 a 6 nanômetros de
diâmetro compostos por 20 a 40 moléculas de sais biliares. Essas micelas se
desenvolvem porque cada molécula de sal biliar é composta por núcleo esterol, muito lipossolúvel e grupo polar muito hidrossolúvel. O núcleo