Tratado de Fisiologia Médica
Espermatogênese
Figura 81-1. A, Sistema reprodutor masculino. B, Estrutura interna do testículo e relação entre o testículo e o epidídimo. (A, Modificada de Bloom V, Fawcett DW: Textbook of Histology, 10th ed. Philadelphia: WB Saunders, 1975. B, Modificada de Guyton AC: Anatomy and Physiology. Philadelphia: Saunders College Publishing, 1985.)
ESPERMATOGÊNESE
Durante a formação do embrião, as células germinativas primordiais
migram para os testículos e tornam-se células germinativas imaturas, chamadas espermatogônias, que se situam em duas ou três camadas das
superfícies internas dos túbulos seminíferos (na Figura 81-2A, é mostrado
um corte transversal dos túbulos). Na puberdade, as espermatogônias
passam por divisões mitóticas, proliferando e se diferenciando
continuamente através de estágios definidos de desenvolvimento para
formar o esperma, como mostrado na Figura 81-2B.
Figura 81-2. A, Secção transversal de um túbulo seminífero. B, Estágios de desenvolvimento dos espermatozoides das espermatogônias.
ESTÁGIOS DA ESPERMATOGÊNESE
A espermatogênese ocorre nos túbulos seminíferos, durante a vida sexual
ativa, como resultado da estimulação pelos hormônios gonadotrópicos da
glândula hipófise anterior, começando, aproximadamente, aos 13 anos de
idade e continuando pela maior parte do restante da vida, mas reduzindo-se,
acentuadamente, na velhice.
No primeiro estágio da espermatogênese, as espermatogônias migram
entre as células de Sertoli em direção ao lúmen central dos túbulos
seminíferos. As células de Sertoli são grandes, com envoltório
citoplasmático exuberante que envolve a espermatogônia em
desenvolvimento, durante todo o trajeto até o lúmen central do túbulo.
Meiose. A espermatogônia que cruza a barreira até a camada das células
de Sertoli é, progressivamente, modificada e alargada, para formar os
grandes espermatócitos primários (Figura 81-3). Cada um deles, por sua
vez, passa por divisão meiótica para formar dois espermatócitos
secundários. Poucos dias depois, estes também se dividem, formando
espermátides, que são, finalmente, modificadas, transformando-se em
espermatozoides (esperma).
Durante as transformações do estágio de espermatócitos para o de
espermátides, os 46 cromossomos (23 pares de cromossomos) do
espermatócito se dividem, e então 23 cromossomos vão para uma
espermátide e os outros 23 para a outra espermátide. Os genes
cromossômicos também se dividem, e, assim, somente metade das
características genéticas do possível feto é fornecida pelo pai, enquanto a
outra metade provém do oócito fornecido pela mãe.
Todo o período de espermatogênese, da espermatogônia ao
espermatozoide, dura, aproximadamente, 74 dias.
Figura 81-3. Divisões celulares durante a espermatogênese. Ao longo do desenvolvimento embrionário, as células germinativas primordiais migram para o testículo, onde elas se tornam espermatogônias. Na puberdade (geralmente entre 12 e 14 anos), as espermatogônias proliferam rapidamente por divisões mitóticas. Algumas iniciam a meiose para se tornarem espermatócitos primários e continuam por meio da divisão meiótica I, tornando-se espermatócitos secundários. Após o término da divisão meiótica II, os espermatócitos secundários produzem as espermátides, que se diferenciam formando os espermatozoides.
Cromossomos Sexuais. Em cada espermatogônia, um dos 23 pares de
cromossomos carrega a informação genética que determina o sexo do
possível concepto. Esse par é composto por um cromossomo X, chamado
cromossomo feminino, e um cromossomo Y, o cromossomo masculino.
Durante a divisão meiótica, o cromossomo Y masculino vai para uma
espermá tide, que então se torna esperma masculino, e o cromossomo X
feminino vai para a outra espermátide, que passa a ser esperma feminino. O
sexo do concepto eventual é determinado pelo tipo de esperma, entre os
dois descritos, que fertiliza o ovo. Isso será discutido adiante, no Capítulo
83.
Formação do Esperma. Quando as espermátides são inicialmente
formadas, elas ainda apresentam as características usuais de células
epitelioides, mas começam a se diferenciar com grande rapidez e alongam-
se, formando os espermatozoides. Como mostrado na Figura 81-4, cada
espermatozoide é composto por uma cabeça e uma cauda. Na cabeça,
encontra-se o núcleo condensado da célula, com apenas a membrana
plasmática e camada citoplasmática delgada, envolvendo sua superfície. Na
parte externa dos dois terços anteriores da cabeça, está o capuz espesso,
chamado acrossomo formado principalmente pelo aparelho de Golgi. O
acrossomo contém várias enzimas semelhantes às encontradas nos
lisossomos de célula típica, incluindo a hialuronidase (que pode digerir
filamentos de proteoglicanos dos tecidos) e potentes enzimas proteolíticas
(que podem digerir proteínas). Essas enzimas têm papel importante,
possibilitando que o esperma entre no óvulo e o fertilize.
A cauda do esperma, chamada flagelo, tem três componentes principais:
(1) o esqueleto central, constituído por 11 microtúbulos, chamados
coletivamente axonema — cuja estrutura é semelhante à dos cílios encontrados na superfície de outros tipos de células, como descrito no
Capítulo 2; (2) a membrana celular fina que recobre o axonema; e (3) o
conjunto de mitocôndrias que envolve o axonema na porção proximal da
cauda (chamada corpo da cauda).
O movimento de vaivém da cauda (movimento flagelar) permite a
mobilidade do esperma. Esse movimento é consequência do deslocamento
rítmico longitudinal entre os túbulos anterior e posterior que compõem o
axonema. A energia para esse processo é fornecida como adenosina
trifosfato, sintetizado pelas mitocôndrias no corpo da cauda.
O esperma normal se move em um meio líquido com velocidade de 1 a 4
mm/min. Isso faz com que ele se mova, através do trato genital feminino,
em busca do óvulo.
Figura 81-4. Estrutura do espermatozoide humano.
Fatores Hormonais que Estimulam a Espermatogênese
O papel dos hormônios na reprodução será discutido a seguir, mas, neste
ponto, mostraremos que muitos hormônios têm funções essenciais na
espermatogênese. Algumas são descritas a seguir:
1. A testosterona, secretada pelas células de Leydig, localizadas no
interstício do testículo (Figura 81-2), é essencial para o crescimento e a
divisão das células germinativas testiculares, que se constituem no
primeiro estágio da formação do esperma.
2. O hormônio luteinizante, secretado pela hipófise anterior, estimula as
células de Leydig a secretar testosterona.
3. O hormônio folículo-estimulante, também secretado pela hipófise
anterior, estimula as células de Sertoli; sem essa estimulação, a
conversão das espermátides em espermatozoides (o processo de
espermiogênese) não ocorre.
4. Os estrogênios, formados a partir da testosterona pelas células de
Sertoli, quando são estimuladas pelo hormônio folículo-estimulante, são
também provavelmente essenciais para a espermiogênese.
5. O hormônio do crescimento (assim como a maioria dos outros
hormônios do organismo) é necessário para controlar as funções
metabólicas basais dos testículos. O hormônio do crescimento,
especificamente, promove a divisão precoce das espermatogônias; em
sua ausência, como no caso dos anões hipofisários, a espermatogênese é,
severamente, deficiente ou ausente, causando, assim, infertilidade.
Maturação do Espermatozoide no Epidídimo
O espermatozoide requer muitos dias para passar pelo túbulo do epidídimo,
com 6 metros de comprimento, após sua formação nos túbulos seminíferos.
O espermatozoide, retirado dos túbulos seminíferos e das porções iniciais
do epidídimo, não é móvel e não pode fertilizar o óvulo. Entretanto, após o
espermatozoide permanecer no epidídimo por 18 a 24 horas, ele desenvolve
a capacidade de mobilidade, embora muitas proteínas inibitórias no líquido
epididimário ainda impeçam a mobilidade final até depois da ejaculação.
Estocagem do Espermatozoide nos Testículos. Os dois testículos
do adulto humano formam até 120 milhões de espermatozoides por dia. A maioria dos espermatozoides é estocada no epidídimo, embora uma
pequena quantidade seja estocada no canal deferente. Eles podem
permanecer armazenados, mantendo sua fertilidade, por pelo menos um
mês. Durante esse tempo, eles são mantidos em estado inativo,
profundamente reprimidos por múltiplas substâncias inibitórias, presentes
nas secreções dos ductos. Por sua vez, com alto nível de atividade sexual e
ejaculações, a armazenagem pode durar menos de alguns dias.
Após a ejaculação, os espermatozoides tornam-se móveis e capazes de
fertilizar o óvulo, processo chamado maturação. As células de Sertoli e o
epitélio do epidídimo secretam líquido nutriente especial, que é ejaculado
junto com o espermatozoide. Esse líquido contém hormônios (incluindo
testosterona e estrogênio), enzimas e nutrientes especiais, essenciais para a
maturação dos espermatozoides.
Fisiologia do Espermatozoide Maduro. Os espermatozoides normais
móveis e férteis são capazes de apresentar movimentos flagelares em meio
líquido com velocidades de 1 a 4 mm/min. A atividade do espermatozoide é
muito aumentada em meio neutro ou ligeiramente alcalino, como o
existente no sêmen ejaculado, mas é muito deprimida em meio ligeiramente
ácido. Um meio fortemente ácido pode causar a morte rápida do
espermatozoide.
A atividade do espermatozoide aumenta muito com a elevação da
temperatura, mas isso também aumenta sua atividade metabólica, fazendo
com que a sua vida se encurte consideravelmente. Embora o
espermatozoide possa viver por muitas semanas no estado reprimido nos
ductos genitais dos testículos, a expectativa de vida do espermatozoide
ejaculado, no trato genital feminino, é somente de 1 a 2 dias.
FUNÇÃO DAS VESÍCULAS SEMINAIS
Cada vesícula seminal é um tubo tortuoso, revestido de epitélio secretor que
secreta material mucoso contendo frutose, ácido cítrico e outras substâncias
nutritivas em abundância, bem como grande quantidade de prostaglandinas
e fibrinogê nio. Durante o processo de emissão e ejaculação, cada vesícula
seminal esvazia seu conteúdo no ducto ejaculatório, imediatamente após o
canal deferente ter despejado os espermatozoides. Isso aumenta muito o
volume de sêmen ejaculado, e a frutose e outras substâncias no líquido
seminal têm valor nutritivo considerável para os espermatozoides ejacula‐
dos, até o momento em que um espermatozoide fertilize o óvulo.
Acredita-se que as prostaglandinas auxiliem na fertilização de duas
maneiras: (1) reagindo com o muco cervical feminino, tornando-o mais
receptivo ao movimento do espermatozoide; e (2) possivelmente induzindo
contrações peristálticas reversas para trás, no útero e nas trompas de
Falópio, movendo os espermatozoides ejaculados em direção aos ovários
(poucos espermatozoides alcançam as extremidades superiores das trompas
de Falópio em 5 minutos).
FUNÇÃO DA PRÓSTATA
A próstata secreta líquido fino, leitoso, que contém cálcio, íon citrato, íon
fosfato, uma enzima de coagulação e uma pró-fibrinolisina. Durante a
emissão, a cápsula da próstata se contrai simultaneamente com as
contrações do canal deferente, de modo que o líquido fino e opaco da
próstata seja adicionado ao sêmen. Uma leve alcalinidade característica do
líquido prostático pode ser muito importante para a fertilização bem-
sucedida do óvulo, uma vez que o líquido do canal deferente é
relativamente ácido, possibilitando a presença de ácido cítrico e de produtos
finais do metabolismo do espermatozoide e, em consequência, auxiliando a
inibir a fertilidade do espermatozoide. As secreções vaginais femininas
também são ácidas (com um pH de 3,5 a 4,0). O espermatozoide não adquire a mobilidade necessária até que o pH dos líquidos que o envolvem
atinja valores de, aproximadamente, 6,0 a 6,5. Consequentemente, é
provável que o líquido prostático ligeiramente alcalino ajude a neutralizar a
acidez dos outros líquidos seminais, durante a ejaculação, e, assim, aumente
a mobilidade e fertilidade do espermatozoide.
SÊMEN
O sêmen, que é ejaculado durante o ato sexual masculino, é composto por
líquido e espermatozoides do canal deferente (cerca de 10% do total),
líquido das vesículas seminais (quase 60%), líquido da próstata
(aproximadamente 30%) e pequenas quantidades de líquido das glândulas
mucosas, em especial das glândulas bulbouretrais. Assim, a maior parte do
sêmen é composta por líquido da vesícula seminal, que é o último a ser
ejaculado e serve para arrastar os espermatozoides ao longo do ducto
ejaculatório e da uretra.
O pH médio do sêmen combinado é de, aproximadamen te, 7,5, tendo o
líquido prostático alcalino mais do que neutralizado a ligeira acidez das
outras partes do sêmen. O líquido prostático dá ao sêmen a aparência
leitosa, e os líquidos das vesículas seminais e das glândulas mucosas dão ao
sêmen a consistência de muco. Uma enzima coaguladora do líquido
prostático também faz com que o fibrinogênio do líquido da vesícula
seminal forme um coágulo fraco de fibrina, que mantém o sêmen nas
regiões profundas da vagina, onde se situa o colo uterino. O coágulo, então,
é dissolvido nos próximos 15 a 30 minutos, devido à sua ruptura pela
fibrinolisina formada da pró-fibrinolisina prostática. Nos primeiros minutos
após a ejaculação, o esperma permanece relativamente imóvel, talvez por
causa da viscosidade do coágulo. À medida que o coágulo se dissolve, o
espermatozoide, ao mesmo tempo, fica muito móvel.
Embora os espermatozoides possam viver por muitas semanas nos ductos
genitais masculinos, uma vez ejaculados no sêmen, sua expectativa máxima
de vida é de somente 24 a 48 horas, à temperatura corporal. Em
temperaturas mais baixas, entretanto, o sêmen pode ser estocado por várias
semanas, e, quando congelado em temperaturas abaixo de −100°C, os
espermatozoides têm sido preservados por anos.
A “Capacitação” dos Espermatozoides É Necessária
para a Fertilização do Óvulo
Embora os espermatozoides sejam considerados “maduros” quando deixam
o epidídimo, sua atividade é mantida sob controle por múltiplos fatores
inibitórios secretados pelo epitélio do ducto genital. Por isso, quando
lançados inicialmente no sêmen, eles são incapazes de fertilizar o óvulo. No
entanto, ao entrar em contato com os líquidos do trato genital feminino,
ocorrem múltiplas mudanças que ativam o espermatozoide para os
processos finais de fertilização. Essas alterações conjuntas são chamadas
capacitação do espermatozoide, que, normalmente, requerem de 1 a 10
horas. Acredita-se que algumas mudanças que acontecem são as seguintes:
1. Os líquidos das trompas de Falópio e do útero eliminam os vários
fatores inibitórios que suprimem a atividade dos espermatozoides nos
ductos genitais masculinos.
2. Enquanto os espermatozoides permanecem no líquido dos ductos
genitais masculinos, eles estão continuamente expostos a muitas
vesículas flutuantes dos túbulos seminíferos, que contêm grande
quantidade de colesterol. Esse colesterol é continua mente adicionado à
membrana celular que cobre o acrossomo do espermatozoide,
fortalecendo essa membrana e impedindo a liberação de suas enzimas.
Após a ejaculação, os espermatozoides depositados na vagina se movem
para cima, na cavidade uterina, afastando-se das vesículas de colesterol,
e, assim, gradualmente perdem, nas próximas horas, a maior parte do
excesso de colesterol. Por isso, a membrana da cabeça dos
espermatozoides (o acrossomo) fica muito mais fraca.
3. A membrana dos espermatozoides fica também muito mais permeável
aos íons cálcio, e, assim, o cálcio agora entra no espermatozoide em
abundância, mudando a atividade do flagelo, dando a ele um potente
movimento de chicote, ao contrário de seu movimento prévio ondulante
e fraco. Além disso, os íons cálcio causam alterações na membrana
celular que cobre a ponta do acrossomo, tornando possível a liberação
rápida e fácil das enzimas pelo acrossomo, no momento em que os
espermatozoides penetram a massa de células granulosas que envolvem
o óvulo e, mais ainda, quando ele tenta penetrar a zona pelúcida do
óvulo.
Assim, alterações múltiplas ocorrem durante o processo de capacitação.
Sem elas, o espermatozoide não pode seguir seu percurso para o interior do
óvulo, causando a fertilização.
Enzimas do Acrossomo, “Reação do Acrossomo” e
Penetração do Óvulo
Uma grande quantidade de enzimas proteolíticas e de hialuronidase estão
armazenadas no acrossomo do espermatozoide. A hialuronidase
despolimeriza os polímeros do ácido hialurônico no cimento intercelular
que mantém juntas as células granulosas ovarianas. As enzimas
proteolíticas digerem as proteínas nos elementos estruturais das células
teciduais, que ainda aderem ao óvulo.
Quando o óvulo é expelido do folículo ovariano para a trompa de Falópio,
ele ainda carrega múltiplas camadas de células granulosas. O esperma deve
dissolver essas camadas de células granulosas, antes de fertilizar o óvulo, e,
então, deve penetrar, através do revestimento espesso do óvulo, a zona pelúcida. Para essa penetração ocorrer, as enzimas estocadas no acrossomo
começam a ser liberadas. Acredita-se que a hialuronidase seja
especialmente importante para abrir caminhos entre as células granulosas,
de modo que o espermatozoide possa atingir o óvulo.
Quando o espermatozoide atinge a zona pelúcida do óvulo, a membrana
anterior do espermatozoide liga-se, especificamente, às proteínas
receptoras, na zona pelúcida. Em seguida, todo o acrossomo se dissolve
rapidamente, e todas as enzimas acrossômicas são liberadas. Em alguns
minutos, essas enzimas abrem uma via de penetração para a passagem da
cabeça do espermatozoide, através da zona pelúcida, para dentro do óvulo.
Em 30 minutos, as membranas celulares da cabeça do espermatozoide e do
oócito se fundem, formando uma só célula. Ao mesmo tempo, os materiais
genéticos do espermatozoide e do oócito se combinam para formar um
genoma celular completamente novo, contendo as mesmas quantidades de
cromossomos e genes do pai e da mãe. Esse é o processo de fertilização; o
embrião, então, começa a se desenvolver, como discutido no Capítulo 83.
Por Que Somente um Espermatozoide Penetra o Oócito? Com a
enorme quantidade de espermatozoides, por que somente um penetra o
oócito? A razão não é completamente entendida, mas, alguns minutos após
o espermatozoide ter penetrado a zona pelúcida do óvulo, os íons cálcio se
difundem através da membrana do oócito e provocam a liberação, por
exocitose, de vários grânulos corticais do oócito para o espaço
perivitelínico. Esses grânulos contêm substâncias que permeiam todas as
regiões da zona pelúcida e impedem a ligação de espermatozoide adicional,
fazendo com que qualquer espermatozoide que tenha começado a se ligar se
solte. Assim, quase nunca ocorre a entrada de mais de um espermatozoide
no oócito, durante a fertilização.
Espermatogênese Anormal e Fertilidade Masculina
O epitélio dos túbulos seminíferos pode ser destruído por várias doenças. Por
exemplo, a orquite bilateral (inflamação) dos testículos, resultante de caxumba,
causa esterilidade em alguns homens afetados. Alguns meninos também nascem
com o epitélio tubular degenerado, em consequência da constrição dos ductos
genitais ou de outras anormalidades. Finalmente, outra causa da esterilidade,
geralmente temporária, é a temperatura excessiva dos testículos.
Efeito da Temperatura na Espermatogênese. O aumento da temperatura dos
testículos pode impedir a espermatogênese, por causar degeneração da maioria
das células dos túbulos seminíferos, além das espermatogônias. Tem-se afirmado
que a razão para que os testículos estejam localizados no saco escrotal é para
manter a temperatura dessas glândulas abaixo da temperatura interna do corpo,
embora, geralmente, ela seja de apenas 2°C abaixo da temperatura interna. Nos
dias frios, os reflexos escrotais fazem com que a musculatura do saco escrotal se
contraia, puxando os testículos para perto do corpo para manter esse diferencial
de 2°C. Assim, o saco escrotal atua como mecanismo de resfriamento dos
testículos (mas um resfriamento controlado), sem o qual a espermatogênese
poderia ser deficiente durante o clima quente.
Criptorquidia. Criptorquidia significa uma falha na descida do testículo, do
abdome para o saco escrotal, à época do nascimento ou próximo ao nascimento
de um feto. Durante o desenvolvimento do feto masculino, os testículos são
derivados das pregas genitais no abdome. Entretanto, aproximadamente de 3
semanas a 1 mês antes do nascimento, os testículos normalmente descem pelos
canais inguinais para o saco escrotal. Ocasionalmente, essa descida não ocorre,
ou ocorre de modo incompleto; assim, um ou ambos os testículos permanecem no
abdome, no canal inguinal, ou em outro local ao longo do trajeto de descida.
O testículo que permanece na cavidade abdominal por toda a vida é incapaz de
formar espermatozoides. O epitélio tubular degenera, permanecendo apenas as
estruturas intersticiais dos testículos. Tem-se afirmado que mesmo poucos graus
de temperatura mais elevados no abdome do que no saco escrotal são suficientes
para causar degeneração do epitélio tubular e, consequentemente, ocasionar
esterilidade, embora esse efeito não esteja totalmente provado. No entanto, por
essa razão, podem ser realizadas em meninos com criptorquidia cirurgias para
retirar os testículos do abdome e colocá-los na bolsa escrotal, antes do início da
vida sexual adulta.
A secreção de testosterona pelos testículos fetais é o estímulo normal que faz
com que os testículos desçam para o saco escrotal. Portanto, a maioria, se não
todos, dos casos de criptorquidia é provocada por testículos anormais, incapazes
de secretar as quantidades necessárias de testosterona. Nesses casos, a cirurgia da criptorquidia, provavelmente, não terá sucesso.
Efeito da Contagem de Espermatozoides na Fertilidade. A quantidade usual
de sêmen ejaculado durante cada coito é de aproximadamente 3,5 mililitros, e em
cada mililitro de sêmen existe, em média, 120 milhões de espermatozoides, embora, mesmo nos homens “normais”, esse número possa variar de 35 a 200
milhões. Isso significa que, em média, um total de 400 milhões de
espermatozoides está geralmente presente em cada ejaculação. Quando o número de espermatozoides em cada mililitro cai abaixo de 20 milhões, é provável que o indivíduo seja infértil. Assim, embora um só espermatozoide seja suficiente
para fertilizar o óvulo por motivos desconhecidos, a ejaculação deve conter uma
quantidade enorme de espermatozoides para somente um deles fertilizar o óvulo.
Efeito da Morfologia dos Espermatozoides e da Motilidade na Fertilidade.
Às vezes, o homem tem quantidade normal de espermatozoides, mas, mesmo
assim, é infértil. Quando essa situação ocorre, algumas vezes se encontram anormalidades físicas em metade dos espermatozoides, como duas cabeças,
cabeças com formas anormais ou caudas anormais, como mostrado na Figura 81-
5. Outras vezes, os espermatozoides parecem ser estruturalmente normais, mas,
por motivos desconhecidos, eles não são móveis ou só são relativamente móveis. Sempre que a maioria dos espermatozoides é morfologicamente anormal ou não
apresenta motilidade, é provável que a pessoa seja infértil, embora o restante dos
espermatozoides pareça ser normal.