Tratado de Fisiologia Médica
Princípios Gerais da Motilidade Gastrointestinal
PRINCÍPIOS GERAIS DA MOTILIDADE
GASTROINTESTINAL
ANATOMIA FISIOLÓGICA DA PAREDE
GASTROINTESTINAL
A Figura 63-2 mostra típico corte transversal da parede intestinal,
incluindo as seguintes camadas de fora para dentro: (1) a serosa; (2)
camada muscular lisa longitudinal; (3) camada muscular lisa circular; (4)
a submucosa; e (5) a mucosa. Além disso, encontram-se feixes esparsos de
fibras de músculos lisos, a muscular da mucosa, nas camadas mais
profundas da mucosa. As funções motoras do intestino são realizadas pelas
diferentes camadas de músculos lisos.
As características gerais do músculo liso e suas funções são discutidas
no Capítulo 8, que deverá ser revisado como fundamento para as seções
subsequentes deste Capítulo.
Figura 63-2. Corte transversal típico do intestino.
O Músculo Liso Gastrointestinal Funciona como um Sincício.
As fibras musculares lisas individuais, no trato gastrointestinal, medem de
200 a 500 micrômetros de comprimento e de 2 a 10 micrômetros de
diâmetro; dispõem-se em feixes de até 1.000 fibras paralelas. Na camada
muscular longitudinal, os feixes se estendem longitudinalmente no trato
intestinal; na camada muscular circular, se dispõem em torno do intestino.
No interior de cada feixe, as fibras musculares se conectam eletricamente
por meio de grande quantidade de junções comunicantes, com baixa
resistência à movimentação dos íons da célula muscular para a seguinte.
Dessa forma, os sinais elétricos, que desencadeiam as contrações
musculares, podem passar prontamente de uma fibra para a seguinte em
cada feixe, porém mais rápido ao longo do comprimento do feixe do que
radialmente.
Cada feixe de fibras musculares lisas está parcialmente separado do
seguinte, por tecido conjuntivo frouxo, mas os feixes musculares se fundem
uns aos outros em diversos pontos, de maneira que, na verdade, cada
camada muscular represente uma rede de feixes de músculo liso. Assim,
cada camada muscular funciona como um sincício; isto é, quando um
potencial de ação é disparado em qualquer ponto na massa muscular, ele,
em geral, se propaga em todas as direções no músculo. A distância que deve
percorrer depende da excitabilidade do músculo; às vezes, ele é
interrompido depois de apenas alguns poucos milímetros e, outras vezes,
percorre muitos centímetros ou, até mesmo, toda a extensão do trato
intestinal.
Existem também algumas conexões entre as camadas musculares
longitudinal e circular, de maneira que a excitação de uma dessas camadas,
em geral, excita também a outra.
Atividade Elétrica do Músculo Liso Gastrointestinal
O músculo liso do trato gastrointestinal é excitado por atividade elétrica
intrínseca, contínua e lenta, nas membranas das fibras musculares. Essa
atividade consiste em dois tipos básicos de ondas elétricas: (1) ondas lentas;
e (2) potenciais em espícula, ambos mostrados na Figura 63-3. Além disso,
a voltagem do potencial de repouso da membrana do músculo liso
gastrointestinal pode ser feita para variar em diferentes níveis, o que
também pode ter efeitos importantes no controle da atividade motora do
trato gastrointestinal.
Figura 63-3. Potenciais da membrana no músculo liso intestinal. Observe as ondas lentas, os potenciais em espícula, a despolarização total e a hiperpolarização, todos ocorrendo sob diferentes condições fisiológicas no intestino.
Ondas Lentas. A maioria das contrações gastrointestinais ocorre
ritmicamente, e o ritmo é determinado, em grande parte, pela frequência das
chamadas “ondas lentas” do potencial da membrana do músculo liso. Essas
ondas, ilustradas na Figura 63-3, não são potenciais de ação. Em vez disso,
são variações lentas e ondulantes do potencial de repouso da membrana.
Sua intensidade normalmente varia entre 5 e 15 milivolts, e sua frequência
nas diferentes partes do trato gastrointestinal humano varia de 3 a 12 por
minuto: cerca de 3 no corpo do estômago, até 12 no duodeno, e em torno de
8 ou 9 no íleo terminal. Portanto, o ritmo da contração do corpo do
estômago, do duodeno e do íleo é de 3 por minuto, 12 por minuto e 8 a 9
por minuto, respectivamente.
Não se conhece, exatamente, a causa das ondas lentas, mas elas parecem
ser ocasionadas por interações complexas entre as células do músculo liso e
células especializadas, denominadas células intersticiais de Cajal, que
supostamente atuam como marca-passos elétricos das células do músculo
liso. Essas células intersticiais formam rede entre si e interpõem-se nas camadas do músculo liso com contatos do tipo sináptico com as células do
músculo liso. Os potenciais de membrana das células intersticiais de Cajal
passam por mudanças cíclicas, devido a canais iônicos específicos que,
periodicamente, abrem-se, permitindo correntes de influxo (marca-passo) e
que, assim, podem gerar atividade de onda lenta.
As ondas lentas geralmente não causam, por si sós, contração muscular, na
maior parte do trato gastrointestinal, exceto talvez no estômago. Mas
basicamente estimulam o disparo intermitente de potenciais em espícula e
estes, de fato, provocam a contração muscular.
Potenciais em Espícula. Os potenciais em espícula são verdadeiros
potenciais de ação. Ocorrem, automaticamente, quando o potencial de
repouso da membrana do músculo liso gastrointestinal fica mais positivo do
que cerca de −40 milivolts (o potencial de repouso normal da membrana,
nas fibras do músculo liso do intestino, é entre −50 e −60 milivolts). Assim,
observa-se na Figura 63-3, que toda vez que os picos das ondas lentas
ficam temporariamente mais positivos do que −40 milivolts surgem os
potenciais em espícula, superpostos a esses picos. Quanto maior o potencial
da onda lenta, maior a frequência dos potenciais em espícula, geralmente
entre 1 e 10 pontas por segundo. Os potenciais em espícula no músculo
gastrointestinal têm duração 10 a 40 vezes maior que os potenciais de ação
nas grandes fibras nervosas. Cada potencial de ação gastrointestinal dura até
10 a 20 milissegundos.
Outra diferença importante entre os potenciais de ação do músculo liso
gastrointestinal e os das fibras nervosas é o modo como são gerados. Nas
fibras nervosas, os potenciais de ação são causados quase inteiramente pela
rápida entrada de íons sódio pelos canais de sódio, para o interior das fibras.
Nas fibras do músculo liso gastrointestinal, os canais responsáveis pelos
potenciais de ação são diferentes; eles permitem que quantidade
particularmente grande de íons cálcio entre junto com quantidades menores de íons sódio e, portanto, são denominados canais para cálcio-sódio. Esses
canais se abrem e fecham com mais lentidão que os rápidos canais para
sódio das grandes fibras nervosas. A lenta cinética de abertura e fechamento
dos canais para cálcio-sódio é responsável pela longa duração dos
potenciais de ação. A movimentação de quantidade de íons cálcio para o
interior da fibra muscular durante o potencial de ação tem papel especial na
contração das fibras musculares intestinais, como discutiremos em breve.
Mudanças na Voltagem do Potencial de Repouso da Membrana.
Além das ondas lentas e dos potenciais em espícula, o nível basal de
voltagem do potencial de repouso da membrana do músculo liso também
pode variar. Sob condições normais, o potencial de repouso da membrana é,
em média, de −56 milivolts, mas diversos fatores podem alterar esse nível.
Quando o potencial fica menos negativo, o que é denominado
despolarização da membrana, as fibras musculares ficam mais excitáveis.
Quando o potencial fica mais negativo, o que se chama de
hiperpolarização, as fibras ficam menos excitáveis.
Os fatores que despolarizam a membrana — isto é, a fazem mais excitável
— são (1) estiramento do músculo; (2) estimulação pela acetilcolina,
liberada a partir das terminações dos nervos parassimpáticos; e (3)
estimulação por diversos hormônios gastrointestinais específicos.
Fatores importantes que tornam o potencial da membrana mais negativo
— isto é, hiperpolarizam a membrana e a fazem menos excitáveis — são
(1) efeito da norepinefrina ou da epinefrina, na membrana da fibra; e (2)
estimulação dos nervos simpáticos que secretam principalmente
norepinefrina em seus terminais.
A Entrada de Íons Cálcio Provoca Contração do Músculo Liso.
A contração do músculo liso ocorre em resposta à entrada de íons cálcio na
fibra muscular. Como explicado no Capítulo 8, os íons cálcio, agindo por meio de mecanismo de controle pela calmodulina, ativam os filamentos de