Tratado de Fisiologia Médica
Controle Local do Fluxo Sanguíneo em Resposta às Necessidades Teciduais
CAPÍTULO 17
Controle Local e Humoral do
Fluxo Sanguíneo dos Tecidos
CONTROLE LOCAL DO FLUXO SANGUÍNEO EM
RESPOSTA ÀS NECESSIDADES TECIDUAIS
Um princípio fundamental da função circulatória é que a maioria dos
tecidos apresenta a capacidade de controlar seu próprio fluxo sanguíneo, em
proporção às suas necessidades metabólicas específicas.
Algumas das necessidades específicas dos tecidos em relação ao fluxo
sanguíneo incluem as seguintes:
1. O suprimento de oxigênio aos tecidos.
2. O suprimento de outros nutrientes, como glicose, aminoácidos e ácidos
graxos.
3. A remoção de dióxido de carbono dos tecidos.
4. A remoção de íons hidrogênio dos tecidos.
5. A manutenção de concentrações apropriadas de íons nos tecidos.
6. O transporte de vários hormônios e outras substâncias para os diferentes
tecidos.
Certos órgãos apresentam necessidades especiais. Por exemplo, o fluxo
sanguíneo para a pele determina a perda de calor do corpo, ajudando, assim,
a controlar a temperatura corporal. Já o fornecimento de quantidades
adequadas de plasma sanguíneo aos rins permite que eles filtrem e excretem
os produtos do metabolismo corporal e regulem os volumes e eletrólitos do
líquido corporal.
Veremos que a maioria desses fatores exerce graus extremos de controle
local do fluxo sanguíneo e que diferentes tecidos exercem variados níveis
de importância nesses fatores no controle do fluxo sanguíneo.
Variações no Fluxo Sanguíneo em Diferentes Tecidos e Órgãos.
Note na Tabela 17-1 o enorme fluxo sanguíneo em alguns órgãos — por
exemplo, muitas centenas mL/min, por 100 g de tecido, na tireoide ou nas
suprarrenais e o fluxo sanguíneo total de 1.350 mL/min pelo fígado, o que
representa 95 mL/min/100 g de tecido hepático.
Note também o fluxo sanguíneo extremamente volumoso pelos rins —
1.100 mL/min. Esse fluxo extremo é necessário para que os rins realizem
sua função de eliminar do sangue os produtos do metabolismo e regulem,
com precisão, a composição dos líquidos corporais.
Por sua vez, é surpreendente o baixo fluxo sanguíneo para todos os
músculos inativos do corpo, perfazendo o total de apenas 750 mL/min,
embora os músculos constituam entre 30% e 40% da massa corporal total.
No estado de repouso, a atividade metabólica dos músculos é muito baixa,
bem como de seu fluxo sanguíneo de apenas 4 mL/min/100 g. Entretanto,
durante o exercício intenso, a atividade metabólica dos músculos pode
aumentar por mais de 60 vezes, e o fluxo sanguíneo por 20 vezes, até valores muito altos de até 16.000 mL/min no leito vascular muscular total
(ou 80 mL/min/100 g de músculo).
Tabela 17-1 Fluxo Sanguíneo em Diferentes Órgãos e Tecidos sob Condições Basais
Porcentagem de Débito mL/min/100 g de Peso
Cardíaco mL/min Tecidual
Cérebro 14 700 50
Coração 4 200 70
Brônquios 2 100 25
Rins 22 1.100 360
Fígado 27 1.350 95
Porta (21) (1.050)
Arterial (6) (300)
Músculo (estado 15 750 4
inativo)
Osso 5 250 3
Pele (tempo frio) 6 300 3
Tireoide 1 50 160
Suprarrenais 0,5 25 300
Outros tecidos 3,5 175 1,3
Total 100,0 5.000
Importância do Controle do Fluxo Sanguíneo pelos Tecidos
Locais. Pode-se fazer a pergunta simples: por que não se proporciona um
fluxo sanguíneo muito grande através de todos os tecidos do corpo, que
fosse sempre suficiente para suprir as necessidades teciduais, inde pen‐
dentemente do nível de atividade do tecido? A resposta é igualmente
simples: esse mecanismo requisitaria um fluxo sanguíneo muitas vezes
maior do que o coração pode bombear.