Tratado de Fisiologia Médica
Características Especiais do Controle Nervoso da Pressão Arterial
de controle da pressão que age muito rápida e intensamente para impedir
maior diminuição da pressão arterial, quando o fluxo sanguíneo cerebral
diminui até valor muito próximo do nível letal. Esse mecanismo pode ser
considerado como a “última cartada” no controle da pressão.
Reação de Cushing ao Aumento da Pressão no Encéfalo. A
reação de Cushing é tipo especial de resposta isquêmica do SNC, resultante
do aumento da pressão do líquido cefalorraquidiano (LCR) ao redor do
cérebro na caixa craniana. Por exemplo, quando a pressão do LCR aumenta
até se igualar à pressão arterial, ocorre a compressão de todo o cérebro, bem
como de suas artérias, bloqueando o suprimento sanguíneo cerebral. Isso
inicia a resposta isquêmica do SNC que provoca elevação da pressão
arterial. Quando a pressão arterial aumenta até ficar maior que a pressão do
LCR, o sangue passa novamente a fluir pelos vasos cerebrais, aliviando a
isquemia. Usualmente, a pressão sanguínea atinge novo nível de equilíbrio
ligeiramente maior que a pressão do LCR, permitindo o restabelecimento
do fluxo sanguíneo pelo encéfalo. A reação de Cushing ajuda a proteger os
centros vitais do encéfalo da perda de nutrição, nos casos em que a pressão
do LCR se eleva o suficiente para comprimir as artérias cerebrais.
CARACTERÍSTICAS ESPECIAIS DO CONTROLE
NERVOSO DA PRESSÃO ARTERIAL
Papel dos Nervos e Músculos Esqueléticos no Aumento
do Débito Cardíaco e da Pressão Arterial
Embora a maior parte do controle nervoso rápido da circulação seja
realizada pelo sistema nervoso autônomo, existem pelo menos duas condições, nas quais os nervos e os músculos esqueléticos têm participações
importantes nas respostas circulatórias.
Reflexo da Compressão Abdominal. Quando é produzido o reflexo
barorreceptor ou quimiorreceptor, sinais nervosos são transmitidos ao
mesmo tempo pelos nervos esqueléticos para os músculos esqueléticos do
corpo, em especial para os músculos abdominais. A contração muscular
provoca a compressão de todos os reservatórios venosos do abdome,
ajudando a translocar seu sangue em direção ao coração, que passa a dispor
de maior volume para bombear. Essa resposta geral é chamada de reflexo da
compressão abdominal. O efeito resultante sobre a circulação é o mesmo
causado pelos impulsos vasoconstritores simpáticos ao comprimirem as
veias: aumento do débito cardíaco e da pressão arterial. O reflexo da
compressão abdominal é provavelmente muito mais importante do que se
acreditava no passado, porque bem se sabe que pessoas cujos músculos
esqueléticos foram paralisados têm tendência muito maior de apresentar
episódios de hipotensão que pessoas com músculos normais.
Aumento do Débito Cardíaco e da Pressão Arterial Causado
pela Contração da Musculatura Esquelética durante o Exercício.
Quando os músculos esqueléticos se contraem durante o exercício,
comprimem os vasos sanguíneos em todo o corpo. Até mesmo a
antecipação do exercício enrijece os músculos, comprimindo assim os vasos
nos músculos e no abdome. Essa compressão transloca o sangue dos vasos
periféricos para o coração e os pulmões e, portanto, há aumento do débito
cardíaco. Esse efeito é essencial como ajuda para aumentar por cinco a sete
vezes o débito cardíaco, como ocorre às vezes durante o exercício muito
intenso. Esse aumento, por sua vez, é ingrediente essencial para o aumento
da pressão arterial durante o exercício que, em geral, se eleva da média
normal de 100 mmHg para 130 a 160 mmHg.
Ondas Respiratórias na Pressão Arterial
Em cada ciclo respiratório, a pressão arterial usualmente aumenta e diminui
por 4 a 6 mmHg, de forma ondulante, provocando as ondas respiratórias da
pressão arterial. As ondas resultam de vários efeitos diferentes, alguns
tendo natureza reflexa, como os seguintes:
1. Muitos dos “sinais respiratórios”, produzidos pelo centro respiratório do
bulbo, “extravasam” para o centro vasomotor a cada ciclo respiratório.
2. Cada vez que a pessoa inspira, a pressão na cavidade torácica fica mais
negativa, fazendo com que os vasos sanguíneos no tórax se expandam.
Isso reduz a quantidade de sangue que retorna para o lado esquerdo do
coração, e, assim, diminui momentaneamente o débito cardíaco e a
pressão arterial.
3. As variações da pressão causadas nos vasos torácicos pela respiração
podem excitar receptores de estiramento vasculares e atriais.
Embora seja difícil analisar as relações exatas de todos esses fatores
causadores das ondas respiratórias da pressão, o resultado final durante a
respiração normal é, em geral, aumento da pressão arterial durante a parte
inicial da expiração e diminuição no restante do ciclo respiratório. Durante
a respiração profunda, a pressão sanguínea pode aumentar e reduzir por até
20 mmHg em cada ciclo respiratório.
Ondas “Vasomotoras” da Pressão Arterial — Oscilação
dos Sistemas de Controle Reflexo da Pressão
Frequentemente, durante o registro da pressão arterial, nota-se, além das
pequenas ondas de pressão causadas pela respiração, ondas muito maiores
— ocasionalmente com até 10 a 40 mmHg — que aumentam e diminuem
mais lentamente que as ondas respiratórias. A duração de cada ciclo varia
de 26 segundos no cão anestesiado, a 7 a 10 segundos no ser humano não
anestesiado. Essas ondas são referidas como ondas vasomotoras ou ondas
de Mayer. Tais registros são mostrados na Figura 18-10, demonstrando a
elevação e diminuição cíclica da pressão arterial.
A causa das ondas vasomotoras é a “oscilação reflexa” de um ou mais
mecanismos nervosos de controle da pressão, entre os quais citamos a
seguir.
Figura 18-10. A, Ondas vasomotoras causadas pela oscilação da resposta isquêmica do SNC. B, Ondas vasomotoras provocadas pela oscilação do reflexo barorreceptor.
Oscilação dos Reflexos Barorreceptor e Quimiorreceptor. As
ondas vasomotoras da Figura 18-10B são, com frequência, observadas nos
registros experimentais de pressão, embora sejam, em geral, muito menos
intensas que as mostradas na figura. Elas são causadas, em sua maior parte,
por oscilação do reflexo barorreceptor, isto é, a alta pressão excita os
barorreceptores; isso inibe o sistema nervoso simpático e reduz a pressão
alguns segundos depois. A diminuição da pressão, por sua vez, reduz a
estimulação de barorreceptores e permite que o centro vasomotor fique de
novo ativo, elevando a pressão. A resposta não é instantânea, sendo
retardada por até alguns segundos. Essa pressão elevada inicia outro ciclo, e
a oscilação se mantém.
O reflexo quimiorreceptor também pode oscilar, gerando o mesmo tipo de
ondas. Esse reflexo, em geral, oscila ao mesmo tempo que o reflexo
barorreceptor. Provavelmente, ele desempenha o papel principal na geração
das ondas vasomotoras, quando a pressão arterial está na faixa entre 40 e 80 mmHg, porque nesses baixos valores o controle da circulação pelos
quimiorreceptores circulatórios torna-se potente, enquanto o controle pelos
barorreceptores está mais fraco.
Oscilação da Resposta Isquêmica do SNC. O registro na Figura 18-
10A resultou da oscilação do mecanismo de controle isquêmico da pressão
pelo SNC. Nesse experimento, a pressão do LCR foi elevada para 160
mmHg, o que comprimiu os vasos cerebrais e iniciou a resposta da pressão
isquêmica do SNC para 200 mmHg. Quando a pressão arterial atingiu esse
valor elevado, a isquemia cerebral foi aliviada, e o sistema nervoso
simpático foi inativado. Como resultado, a pressão arterial caiu rapidamente
para valor muito mais baixo, provocando de novo isquemia cerebral. Esta,
por sua vez, iniciou nova elevação na pressão. A isquemia foi novamente
aliviada, e a pressão caiu mais uma vez. Essa resposta se repetiu de forma
cíclica enquanto a pressão do LCR permaneceu elevada.
Desse modo, qualquer mecanismo reflexo de controle da pressão pode
oscilar se a intensidade do feedback for forte o suficiente e se houver
retardo entre a excitação do receptor de pressão e a subsequente resposta
pressórica. As ondas vasomotoras demonstram que os reflexos nervosos
que controlam a pressão arterial obedecem aos mesmos princípios
aplicáveis aos sistemas mecânicos e elétricos de controle. Por exemplo, se a
resposta do feedback for muito intensa no mecanismo de direção do piloto
automático de um avião, e também houver retardo no tempo de resposta
desse mecanismo, o avião oscilará para lá e para cá, em vez de seguir um
curso retilíneo.
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CAPÍTULO 19
O Papel dos Rins no Controle a
Longo Prazo da Pressão Arterial
e na Hipertensão: O Sistema
Integrado de Regulação da
Pressão Arterial
O sistema nervoso simpático desempenha um papel muito importante na
regulação a curto prazo da pressão arterial, grande parte por meio dos
efeitos do sistema nervoso sobre a resistência e capacitância vasculares
periféricas totais e também sobre a capacidade de bombeamento do
coração, como discutido no Capítulo 18.
O corpo, no entanto, tem também potentes mecanismos para a regulação
da pressão arterial ao longo de semanas e meses. Esse controle, a longo
prazo, da pressão arterial está intimamente relacionado à homeostasia do volume de líquido corporal, determinado pelo balanço entre a ingestão e a