Tratado de Fisiologia Médica
Regulação da Secreção do Hormônio Tireoidiano
pelas adrenais.
Efeito do Hormônio Tireoidiano na Função Sexual. Para que a
função sexual seja normal, é necessária a secreção normal do hormônio
tireoidiano. Em homens, a falta desse hormônio, frequentemente, causa a
perda da libido; entretanto, um grande excesso pode causar impotência.
Em algumas mulheres, a falta de hormônio tireoidiano, frequentemente,
causa menorragia e polimenorreia — isto é, sangramento menstrual
excessivo e frequente, respectivamente. Entretanto, estranhamente, em
outras mulheres a ausência da tireoide pode causar ciclos menstruais
irregulares e, ocasionalmente, até mesmo amenorreia (ausência de
sangramento menstrual).
Mulheres com hipotireoidismo, assim como ocorre em homens, podem ter
grande redução da libido. Para confundir ainda mais o quadro, a
oligomenorreia, que é uma grande redução no sangramento menstrual, é
comum em mulheres com hipertireoidismo, ocasionalmente resultando em
amenorreia.
Não é possível determinar qualquer função específica do hormônio
tireoidiano sobre as gônadas; sua ação resulta, provavelmente, da
combinação de efeitos metabólicos diretos nas gônadas e de efeitos
excitatórios e inibitórios por feedback através dos hormônios da hipófise
anterior que controlam as funções sexuais.
REGULAÇÃO DA SECREÇÃO DO HORMÔNIO
TIREOIDIANO
Para manter níveis normais de atividade metabólica no organismo, uma
quantidade exata de hormônio tireoidiano deve ser secretada a cada
momento; para atingir esse nível ideal de secreção, mecanismos específicos de feedback operam por meio do hipotálamo e da hipófise anterior, para
controlar a secreção tireoidiana. Esses mecanismos serão discutidos nas
seções seguintes.
O TSH (DA GLÂNDULA HIPÓFISE ANTERIOR) AUMENTA
A SECREÇÃO TIREOIDIANA
O TSH, também chamado tireotropina, é um hormônio da hipófise anterior,
uma glicoproteína com peso molecular de 28.000, aproximadamente. Esse
hormônio, também discutido no Capítulo 75, aumenta a secreção de
tiroxina e tri-iodotironina pela tireoide. Seus efeitos específicos na tireoide
são:
1. Aumento da proteólise da tireoglobulina já armazena da nos folículos,
com resultante aumento da liberação dos hormônios tireoidianos para o
sangue circulante e diminuição da própria substância folicular.
2. Aumento da atividade da bomba de iodeto que aumenta a “captação de
iodeto” pelas células glandulares, às vezes elevando a proporção entre as
concentrações intra e extracelular de iodeto na subs tância glandular para
até oito vezes o normal.
3. Aumento da iodização da tirosina para formar os hormônios
tireoidianos.
4. Aumento do tamanho e da atividade secretora das células tireoidianas.
5. Aumento do número de células tireoidianas, além da transformação de
células cuboides em colunares e grande pregueamento do epitélio
tireoidiano nos folículos.
Em resumo, o TSH aumenta todas as conhecidas atividades secretoras das
células glandulares tireoidianas.
O efeito precoce mais importante, após a administração de TSH, é o início
da proteólise da tireoglobulina, que provoca a liberação de tiroxina e tri-iodotironina no sangue, depois de 30 minutos. Os demais efeitos levam
horas ou até mesmo dias e semanas para se desenvolver plenamente.
O Monofosfato Cíclico de Adenosina Medeia o Efeito
Estimulador do TSH. A maior parte dos múltiplos e variados efeitos do
TSH nas células tireoidianas resulta da ativação do sistema celular do
“segundo mensageiro”, monofosfato adenosina cíclico (AMPc).
O primeiro evento nessa ativação é a ligação do TSH a seus receptores
específicos na superfície da membrana basal das células tireoidianas. Essa
ligação ativa a adenilil ciclase na membrana, que aumenta a formação de
AMPc no interior da célula. Finalmente, o AMPc atua como segundo
mensageiro, ativando a proteinocinase, que provoca fosforilações múltiplas
em toda a célula. O resultado é o aumento imediato da secreção de
hormônios tireoidianos e o crescimento prolongado do próprio tecido
glandular.
Esse método de controle da atividade das células tireoidianas é semelhante
à função do AMPc como “segundo mensageiro” em muitos outros tecidos-
alvo do organismo, como discutido no Capítulo 75.
A SECREÇÃO DE TSH PELA HIPÓFISE ANTERIOR É
REGULADA PELO HORMÔNIO LIBERADOR DE
TIREOTROPINA DO HIPOTÁLAMO
A secreção de TSH pela hipófise anterior é controlada pelo hormônio
hipotalâmico, o hormônio liberador de tireotropina (TRH), secretado por
terminações nervosas na eminência mediana do hipotálamo. A partir da
eminência mediana, o TRH é transportado para a hipófise anterior pelo
sangue portal hipotalâmico-hipofisário, descrito no Capítulo 75.
O TRH é um tripeptídeo amida — piroglutamil-histidil- -prolina amida. O
TRH afeta diretamente as células da hipófise anterior, elevando sua secreção de TSH. Quando o sistema portal sanguíneo do hipotálamo para a
hipófise anterior é bloqueado, a secreção de TSH, pela hipófise anterior,
fica bastante reduzida, mas não completamente.
O mecanismo molecular pelo qual o TRH provoca a produção de TSH
pelas células secretoras da hipófise anterior consiste na ligação a receptores
de TRH na membrana das células hipofisárias. Isso ativa o sistema de
segundo mensageiro da fosfolipase no seu interior, produzindo grande
quantidade de fosfolipase C, o que é seguido por cascata de outros segundos
mensageiros, incluindo íons cálcio e diacilglicerol, que, finalmente,
provocam a liberação de TSH.
Efeitos do Frio e Outros Estímulos Neurogênicos na Secreção
de TRH e TSH. Um dos estímulos mais bem conhecidos para o aumento
da secreção de TRH pelo hipotálamo e, portanto, de TSH pela hipófise
anterior é a exposição do animal ao frio. Esse efeito resulta, quase
certamente, da excitação dos centros hipotalâmicos de controle da
temperatura corporal. A exposição de ratos ao frio intenso durante muitas
semanas aumenta, em alguns casos, a liberação de hormônios tireoidianos
para mais de 100% e pode aumentar o metabolismo basal em até 50%. De
fato, sabe-se que pessoas que se mudam para regiões árticas desenvolvem
metabolismos basais 15% a 20% acima do normal.
Diversas reações emocionais também podem afetar a liberação de TRH e
TSH e, assim, afetar indiretamente a secreção de hormônios tireoidianos.
Agitação e ansiedade — condições que estimulam intensamente o sistema
nervoso simpático — causam redução aguda da secreção de TSH, talvez
porque esses estados aumentem o metabolismo e a temperatura corporal e,
portanto, exercem efeito inverso sobre o centro de controle da temperatura.
Nenhum desses efeitos emocionais nem o efeito do frio são observados
após o seccionamento do pedúnculo hipofisário, demonstrando que ambos
os efeitos são mediados pelo hipotálamo.
EFEITO DE FEEDBACKDO HORMÔNIO TIREOIDIANO
PARA REDUZIR A SECREÇÃO DE TSH PELA HIPÓFISE
ANTERIOR
A elevação do hormônio tireoidiano nos líquidos corporais reduz a secreção
de TSH pela hipófise anterior. Quando a secreção do hormônio tireoidiano
eleva-se para 1,75 do normal, a secreção de TSH cai praticamente para
zero. Quase todo esse efeito depressor por feedback ocorre até mesmo
quando a hipófise anterior é separada do hipotálamo. Portanto, como
mostrado na Figura 77-7, é provável que essa inibição ocorra,
principalmente, por efeito direto do hormônio tireoidiano na própria
hipófise anterior. Independentemente de onde se dá o controle por feedback,
seu efeito consiste em manter uma concentração quase constante de
hormônios tireoidianos nos líquidos corporais circulantes.
Figura 77-7. Regulação da secreção tireoidiana.
Substâncias Antitireoidianas Suprimem a Secreção Tireoidiana
As mais conhecidas drogas antitireoidianas são o tiocianato, o propiltiouracil e
as altas concentrações de iodetos inorgânicos. Esses fármacos bloqueiam a secreção tireoidiana por diferentes mecanismos, que serão explicados a seguir.
Os Íons Tiocianato Reduzem a Captação de Iodeto. A mesma bomba ativa
que transporta íons iodeto para dentro das células da tireoide também pode
bombear íons tiocianato, perclorato e nitrato. Por isso, a administração de
tiocianato (ou um dos outros íons), em concentração suficientemente alta, pode provocar a inibição competitiva do transporte de iodeto para a célula — isto é, a inibição do mecanismo de captação de iodo.
A menor disponibilidade de iodeto nas células glandulares não impede a
formação de tireoglobulina; simplesmente, impede a tireoglobulina formada de ser
iodada e, portanto, de formar os hormônios tireoidianos. Essa deficiência de
hormônios tireoidianos, por sua vez, leva à maior secreção de TSH pela hipófise
anterior, provocando o supercrescimento da tireoide, que, apesar disso, continua incapaz de formar quantidade adequada de hormônios. Sendo assim, o uso de
tiocianatos e de alguns outros íons para bloquear a secreção tireoidiana pode
levar ao desenvolvimento de tireoide muito aumentada, o que é chamado bócio.
O Propiltiouracil Reduz a Formação de Hormônio Tireoidiano. O
propiltiouracil (juntamente com outros compostos semelhantes, tais como
metimazol e carbimazol) impede a formação de hormônio tireoidiano a partir de iodeto e tirosina. Parte de seu mecanismo de ação consiste em bloquear a enzima peroxidase, necessária para a iodização da tirosina, e outra parte consiste em
bloquear a conjugação de duas tirosinas iodadas para formar tiroxina ou tri-
iodotironina.
O propiltiouracil, como o tiocianato, não impede a formação de tireoglobulina. A
ausência de tiroxina e tri-iodotironina, na tireoglobulina, pode levar a grande aumento, por feedback, da secreção de TSH pela hipófise anterior, promovendo,
assim, o crescimento do tecido glandular e a formação de bócio.
Altas Concentrações de Iodetos Reduzem a Atividade Tireoidiana e o
Tamanho da Tireoide. Quando existe alta concentração de iodetos no sangue
(100 vezes maior que o nível plasmático normal), a maior parte das atividades da tireoide é reduzida, mas essa redução, frequentemente, dura apenas algumas semanas. O efeito consiste na diminuição da captação de iodeto, de modo que a
iodização da tirosina, para a formação de hormônios tireoidianos, também se
reduz. Efeito ainda mais importante, causado pela alta concentração de iodeto, é
a paralisação da endocitose normal de coloide, a partir dos folículos, pelas células
glandulares da tireoide. Como esse é o primeiro estágio da liberação dos
hormônios tireoidianos a partir do coloide de armazenamento, ocorre interrupção
quase imediata da secreção de hormônio tireoidiano para o sangue.
Como a alta concentração de iodeto reduz todas as fases da atividade
tireoidiana, ela reduz, ligeiramente, o tamanho da tireoide e, principalmente, sua
irrigação sanguínea, ao contrário dos efeitos causados pela maior parte dos
demais agentes antitireoidianos. Por esse motivo, o iodeto é, frequentemente,
administrado aos pacientes por 2 a 3 semanas, antes da remoção cirúrgica da
tireoide, para reduzir o porte da cirurgia, em especial a intensidade do
sangramento.
Doenças da Tireoide
Hipertireoidismo
A maioria dos efeitos do hipertireoidismo pode ser obviamente deduzida da
discussão sobre os diversos efeitos fisiológicos do hormônio tireoidiano.
Entretanto, alguns efeitos específicos devem ser mencionados, em especial os
relacionados ao desenvolvimento, ao diagnóstico e ao tratamento do
hipertireoidismo.
Causas do Hipertireoidismo (Bócio Tóxico, Tireotoxicose, Doença de
Graves). Na maioria dos pacientes com hipertireoidismo, o tamanho da tireoide
aumenta duas a três vezes acima do normal, com enorme hiperplasia e
pregueamento do revestimento celular folicular para o interior dos folículos, de
modo que o número de células aumenta muito. Além disso, cada célula aumenta
sua secreção por muitas vezes; estudos de captação de iodo radioativo indicam
que algumas das glândulas hiperplásicas secretam hormônio tireoidiano em
quantidades 5 a 15 vezes maiores que o normal.
A doença de Graves, a forma mais comum de hipertireoidismo, é uma doença
autoimune, na qual os anticorpos, chamados imunoglobulinas estimulantes da
tireoide (TSIs), formam-se contra o receptor de TSH na glândula tireoide. Esses
anticorpos se ligam ao mesmo receptor que liga o TSH e provoca a ativação
contínua dos sistemas celulares do AMPc, com resultante desenvolvimento de
hipertireoidismo. Os anticorpos TSI têm efeito estimulante prolongado na secreção
da glândula tireoide, durando até 12 horas, em contraste com o curto tempo para
o TSH, de pouco mais de 1 hora. O alto nível de secreção do hormônio
tireoidiano, causado pelo TSI, por sua vez, suprime a formação de TSH pela
hipófise anterior. Portanto, as concentrações de TSH ficam abaixo da normal (muitas vezes, essencialmente zero), em vez de aumentadas, em quase todos os
pacientes com doença de Graves.
Os anticorpos causadores do hipertireoidismo decorrem, quase certamente, do
desenvolvimento da autoimunidade contra o tecido tireoidiano. Presume-se que, em algum momento da história clínica da pessoa, foi liberado um excesso de
antígenos pelas células tireoidianas, resultando na formação de anticorpos contra
a tireoide.
Adenoma Tireoidiano. Ocasionalmente, o hipertireoidismo resulta de adenoma
(tumor) localizado, que se desenvolve no tecido da tireoide e secreta grande
quantidade de hormônio tireoidiano. Essa apresentação é diferente da forma mais comum de hipertireoidismo, pois, em geral, não está associada à evidência de
doença autoimune. Enquanto o adenoma secreta grandes quantidades de
hormônio tireoidiano, a função secretora de todo o restante da tireoide é quase
totalmente inibida, porque o hormônio tireoidiano do adenoma suprime a produção de TSH pela hipófise.
Sintomas do Hipertireoidismo
Os sintomas do hipertireoidismo podem ser facilmente deduzidos pela discussão
anterior sobre a fisiologia dos hormônios tireoidianos: (1) estado de alta
excitabilidade; (2) intolerância ao calor; (3) redução da sudorese; (4) perda de
peso ligeira a extrema (às vezes, até 50 kg); (5) graus variáveis de diarreia; (6) fraqueza muscular; (7) nervosismo ou outros transtornos psíquicos; (8) fadiga
extrema, acompanhada de insônia; e (9) tremor nas mãos.
Exoftalmia. A maior parte das pessoas com hipertireoidismo desenvolve algum
grau de protrusão dos globos oculares, conforme mostrado na Figura 77-8. Essa condição é chamada exoftalmia. Um grau importante de exoftalmia ocorre em
cerca de um terço dos pacientes com hipertireoidismo, e a condição, às vezes, torna-se tão grave, que a protrusão do globo ocular provoca estiramento do nervo óptico, suficiente para causar danos à visão. Com muito mais frequên cia, os olhos
são lesados porque as pálpebras não se fecham completamente quando a pessoa
pisca os olhos ou dorme. Como consequência, as superfícies epiteliais dos olhos ficam ressecadas, irritadas e frequentemente infectadas, resultando em ulceração da córnea.
A causa da protrusão ocular é o edema dos tecidos retro-orbitais e alterações
degenerativas nos músculos extraoculares. Na maioria dos pacientes, encontram-se imunoglobulinas sanguíneas que reagem com os músculos oculares. Além
disso, a concentração dessas imunoglobulinas é, em geral, maior em pacientes
com altas concentrações de TSIs. Portanto, existem muitas razões para se
acreditar que a exoftalmia, bem como o próprio hipertireoidismo, seja um processo
autoimune. A exoftalmia, em geral, regride acentuadamente com o tratamento do
hipertireoidismo.
Figura 77-8. Paciente com exoftalmia por hipertireoidismo. Note a protrusão dos olhos e a retração das pálpebras superiores. A taxa metabólica basal era de +40. (Cortesia do Dr. Leonard Posey.)
Testes Diagnósticos para o Hipertireoidismo. Para o caso usual de
hipertireoidismo, o exame diagnóstico mais preciso é a medição direta da
concentração de tiroxina “livre” (e, às vezes, tri-iodotironina) no plasma, usando
procedimentos apropriados de radioimunoensaio.
Os seguintes exames são ocasionalmente usados:
1. O metabolismo basal está, geralmente, aumentado de + + 30 a 60, no
hipertireoidismo grave.
2. A concentração de TSH no plasma é medida por radioimunoensaio. No tipo
habitual de tireotoxicose, a secreção de TSH pela hipófise anterior está tão
completamente suprimida pela grande quantidade de tiroxina e tri-iodotironina circulantes, que o TSH plasmático é praticamente nulo.
3. A concentração de TSI é medida por radioimunoensaio. Essa concentração é,
em geral, alta na tireotoxicose, porém baixa no adenoma tireoidiano.
Tratamento do Hipertireoidismo. O tratamento mais direto do hipertireoidismo
é a remoção cirúrgica da maior parte da tireoide. Em geral, é preferível preparar o
paciente para a remoção cirúrgica da glândula, antes da operação, por meio da
administração de propiltiouracil, em geral por diversas semanas, até que o metabolismo basal do paciente tenha retornado ao normal. Então, é administrada uma alta concentração de iodeto, durante 1 a 2 semanas, imediatamente antes da
operação, o que provoca a redução do tamanho e da irrigação sanguínea da glândula. Com o uso desses procedimentos pré-operatórios, a mortalidade
cirúrgica é inferior a 1 em 1.000, enquanto que, antes do desenvolvimento de procedimentos modernos, a mortalidade era de 1 em 25.
Tratamento da Tireoide Hiperplásica com Iodo Radio ativo. Oitenta a 90% de
uma dose injetada de iodeto é absorvida pela tireoide hiperplásica tóxica, um dia
após a injeção. Se essa dose injetada for radioativa, poderá destruir a maior parte
das células secretoras da tireoide. Geralmente, 5 milicuries de iodo radioativo são administrados ao paciente, cuja condição é reavaliada várias semanas depois. Se o paciente ainda apresentar hipertireoidismo, doses adicionais são administradas,
até que o estado normal da tireoide seja atingido.
Hipotireoidismo
Os efeitos do hipotireoidismo, em geral, são opostos aos do hipertireoidismo,
mas alguns mecanismos fisiológicos são específicos dessa patologia. O
hipotireoidismo, assim como o hipertireoidismo, é provavelmente iniciado por autoimunidade contra a tireoide (doença de Hashimoto), mas, nesse caso, é a
imunidade que destrói a glândula, em vez de estimulá-la. A tireoide da maioria
desses pacientes apresenta “tireoidite” autoimune, que significa inflamação da tireoide. A tireoidite causa deterioração progressiva e, por fim, fibrose da glândula, resultando em diminuição ou ausência da secreção do hormônio tireoidiano.
Muitos outros tipos de hipotireoidismo podem ocorrer, frequentemente, associados
ao aumento da glândula, chamado d bócio, tal como será descrito nas seções seguintes.
Bócio Coloide Endêmico Causado por Deficiência Dietética de Iodeto. O
termo “bócio” significa um grande aumento da tireoide. Conforme ressaltado na
discussão sobre o metabolismo do iodo, cerca de 50 miligramas de iodo por ano
são necessários para a formação de quantidade adequada de hormônio
tireoidiano. Em certas regiões do mundo, como nos Alpes Suíços, nos Andes e na
região dos Grandes Lagos nos Estados Unidos, existe quantidade insuficiente de
iodo no solo, de modo que os alimentos não possuem sequer essa minúscula
quantidade. Portanto, nos tempos anteriores ao sal de cozinha iodado, muitas
pessoas que viviam nessas áreas desenvolviam tireoides extremamente
aumentadas, chamadas bócios en dêmicos.
O mecanismo de desenvolvimento de grandes bócios endêmicos é o seguinte: a
falta de iodo impede a produção tanto de tiroxina quanto de tri-iodotironina. Como
resultado, não há hormônios disponíveis para inibir a produção de TSH pela
hipófise anterior, que passa a secretar quantidade excessiva desse hormônio. O
TSH, então, estimula as células tireoidianas a secretar grande quantidade de
coloide de tireoglobulina nos folículos, e a glândula torna-se cada vez maior.
Entretanto, devido à falta de iodo, a produção de tiroxina e tri-iodotironina não
ocorre na molécula de tireoglobulina e, portanto, não causa a supressão normal
da produção de TSH pela hipófise anterior. Os folículos adquirem um enorme
tamanho, e a tireoide pode aumentar de 10 a 20 vezes.
Bócio Coloide Atóxico Idiopático. O aumento da tireoide, semelhante ao que
acontece no bócio coloide endêmico, pode também ocorrer em pessoas que não
apresentam deficiência de iodo. Essas glândulas aumentadas podem secretar
quantidade normal de hormônios tireoidianos; entretanto, com mais frequência,
sua secreção é reduzida, como no bócio coloide endêmico.
A causa exata do aumento da tireoide em pacientes com bócio coloide idiopático
não é conhecida, mas a maioria desses pacientes apresenta sinais de tireoidite
leve; portanto, tem sido sugerido que a tireoidite provoca ligeiro hipotireoidismo
que, então, leva ao aumento da secreção de TSH e ao crescimento progressivo
das porções não inflamadas da glândula. Essa teoria poderia explicar por que
essas glândulas são, em geral, nodulares, com o crescimento de algumas porções
da glândula, enquanto outras são destruídas pela tireoidite.
Em algumas pessoas com bócio coloide, a tireoide apresenta anormalidade no
sistema enzimático necessário para a formação dos hormônios tireoidianos.
Frequentemente, encontram-se as seguintes anormalidades:
1. Deficiência do mecanismo de captação de iodeto, na qual o iodeto não é
bombeado adequadamente para as células tireoidianas.
2. Deficiência do sistema peroxidase, em que os iodetos não são oxidados para o
estado de iodo.
3. Deficiência da conjugação de tirosinas iodadas na molécula de tireoglobulina,
de modo que os hormônios tireoidianos finais não podem ser formados.
4. Deficiência da enzima deiodinase, que impede a recuperação do iodo das
tirosinas iodadas que não são conjugadas para formar os hormônios
tireoidianos (que representam cerca de dois terços do iodo), levando à deficiência de iodo.
Finalmente, alguns alimentos contêm substâncias bociogênicas com atividade
antitireoidiana, semelhante ao propiltiouracil, levando ao aumento da tireoide,
estimulado pelo TSH. Tais substâncias bociogênicas são encontradas
especialmente em algumas variedades de nabo e repolho.
Características Fisiológicas do Hipotireoidismo. No hipotireoidismo causado
por tireoidite, bócio coloide endêmico, bócio coloide idiopático, destruição da
tireoide por radiação ou remoção cirúrgica da glândula, os efeitos fisiológicos são os mesmos. Eles incluem fadiga e sonolência extrema, provocando 12 a 14 horas
de sono por dia, extrema lentidão muscular, redução da frequência cardíaca, do
débito cardíaco e do volume sanguíneo, ocasionalmente aumento de peso,
constipação, lentidão mental, insuficiência de muitas funções tróficas do organismo, evidenciada por redução do crescimento do cabelo e descamação da
pele, desenvolvimento de rouquidão e, em casos graves, de aparência edematosa
em todo o corpo, chamada mixedema.
Mixedema. O mixedema se desenvolve no indivíduo que tem ausência quase
total da função do hormônio tireoidiano. A Figura 77-9apresenta um desses casos,
demonstrando a flacidez sob os olhos e o inchaço da face. Nessa condição, por motivos não explicados, a quantidade muito elevada de ácido hialurônico e sulfato
de condroitina, ligados a proteínas, forma um excesso de gel tecidual nos espaços
intersticiais, aumentando a quantidade total do líquido intersticial. Como o líquido
em excesso trata-se de um gel, é essencialmente imóvel, e o edema é deprimível.
Figura 77-9. Paciente com mixedema. (Cortesia do Dr. Herbert Langford.)
Aterosclerose no Hipotireoidismo. Como ressaltado antes, a falta de
hormônio tireoidiano aumenta a concentração sanguínea de colesterol, devido à
alteração do metabolismo dos lipídios e do colesterol e à redução de sua excreção
hepática na bile. Geralmente, a elevação do colesterol sanguíneo está associada
ao aumento da aterosclerose. Portanto, muitos pacientes com hipotireoidismo,
particularmente os com mixedema, desenvolvem aterosclerose, que, por sua vez,
resulta em doença vascular periférica, surdez e doença arterial coronariana, com
consequente redução da expectativa de vida.
Testes Diagnósticos no Hipotireoidismo. Os exames já descritos para o
diagnóstico do hipertireoidismo apresentam resultados opostos no hipotireoidismo.
A concentração sanguínea de tiroxina livre é baixa. O metabolismo basal no mixedema varia entre −30 e −50, e a secreção de TSH pela hipófise anterior,
quando se administra uma dose de TRH, fica, em geral, muito aumentada (exceto nos raros casos de hipotireoidismo causado por redução da resposta da hipófise
ao TRH).
Tratamento do Hipotireoidismo. A Figura 77-4 mostra o efeito da tiroxina no
metabolismo basal, demonstrando que a duração da ação do hormônio é, normalmente, maior que um mês. Consequentemente, é fácil manter um nível
estável de atividade do hormônio tireoidiano no organismo pela ingestão oral de
um ou mais comprimidos contendo tiroxina. Além disso, o tratamento adequado do paciente com hipotireoidismo resulta em normalidade tão completa, que pacientes, previamente mixedematosos, chegaram a viver até os 90 anos de
idade, após serem tratados por mais de 50 anos.
Cretinismo
O cretinismo é causado por hipotireoidismo extremo em fetos, bebês ou
crianças. Essa condição se caracteriza, especialmente, pela deficiência do crescimento corporal e por retardo mental. O cretinismo resulta da ausência congênita da tireoide (cretinismo congênito), de sua incapacidade de produzir
hormônio tireoidiano devido a defeito genético, ou da ausência de iodo na dieta
(cretinismo endêmico).
Um neonato sem tireoide pode ter aparência e função normais, por ter recebido
alguma quantidade (embora geralmente insuficiente) de hormônio tireoidiano
materno, durante a vida uterina. Entretanto, algumas semanas após o nascimento, os movimentos do neonato passam a ser lentos, e o seu desenvolvimento físico e
mental fica bastante retardado. O tratamento do neonato com cretinismo, em
qualquer momento, com quantidades adequadas de iodo ou tiroxina, geralmente
provoca a normalização do crescimento físico; entretanto, a menos que o cretinismo seja tratado a partir de algumas semanas após o nascimento, o
desenvolvimento mental permanece retardado de forma permanente. Esse estado
ocorre devido a retardo do crescimento, ramificação e mielinização das células neuronais do sistema nervoso central nesse momento crítico de desenvolvimento das capacidades mentais.
O crescimento esquelético da criança com cretinismo é caracteristicamente mais
inibido que o do tecido mole. Como resultado dessa desproporcionalidade do
crescimento, os tecidos moles apresentam probabilidade de crescer
excessivamente, dando à criança uma aparência obesa, estrutura brevilínea e
baixa estatura. Ocasionalmente, a língua se torna tão grande, em relação ao
crescimento esquelético, que obstrui a deglutição e a respiração, induzindo uma
respiração gutural característica, que, por vezes, sufoca a criança.
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CAPÍTULO 78
Hormônios Adrenocorticais
As duas glândulas adrenais, cada uma pesando aproximadamente 4 gramas,
localizam-se nos polos superiores dos rins. Como mostrado na Figura 78-1, cada
glândula é composta por duas partes distintas, a medula adrenal e o córtex
adrenal. A medula, que consiste nos 20% centrais da glândula, é funcionalmente
relacionada ao sistema nervoso simpático; ela secreta os hormônios epinefrina e
norepinefrina, em resposta ao estímulo simpático. Por sua vez, esses hormônios
causam praticamente os mesmos efeitos que a estimulação direta dos nervos
simpáticos em todas as partes do corpo. Esses hormônios e seus efeitos estão
discutidos, em detalhes, no Capítulo 61, em relação ao sistema nervoso
simpático.
O córtex adrenal secreta um grupo inteiramente diferente de hormônios,
chamados corticosteroides. Esses hormônios são sintetizados a partir do
colesterol esteroide e apresentam fórmulas químicas semelhantes. Entretanto,
pequenas diferenças em suas estruturas moleculares lhes conferem funções
diferentes, mas muito importantes.