Tratado de Fisiologia Médica

John E. Hall · Capítulo 321 de 351

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Tratado de Fisiologia Médica

Regulação da Secreção do Hormônio Tireoidiano

pelas adrenais.

 

Efeito do Hormônio Tireoidiano na Função Sexual. Para que a

função sexual seja normal, é necessária a secreção normal do hormônio

tireoidiano. Em homens, a falta desse hormônio, frequentemente, causa a

perda da libido; entretanto, um grande excesso pode causar impotência.

Em algumas mulheres, a falta de hormônio tireoidiano, frequentemente,

causa menorragia e polimenorreia — isto é, sangramento menstrual

excessivo e frequente, respectivamente. Entretanto, estranhamente, em

outras mulheres a ausência da tireoide pode causar ciclos menstruais

irregulares e, ocasionalmente, até mesmo amenorreia (ausência de

sangramento menstrual).

Mulheres com hipotireoidismo, assim como ocorre em homens, podem ter

grande redução da libido. Para confundir ainda mais o quadro, a

oligomenorreia, que é uma grande redução no sangramento menstrual, é

comum em mulheres com hipertireoidismo, ocasionalmente resultando em

amenorreia.

Não é possível determinar qualquer função específica do hormônio

tireoidiano sobre as gônadas; sua ação resulta, provavelmente, da

combinação de efeitos metabólicos diretos nas gônadas e de efeitos

excitatórios e inibitórios por feedback através dos hormônios da hipófise

anterior que controlam as funções sexuais.

 

REGULAÇÃO DA SECREÇÃO DO HORMÔNIO

TIREOIDIANO

 

Para manter níveis normais de atividade metabólica no organismo, uma

quantidade exata de hormônio tireoidiano deve ser secretada a cada

momento; para atingir esse nível ideal de secreção, mecanismos específicos de feedback operam por meio do hipotálamo e da hipófise anterior, para

controlar a secreção tireoidiana. Esses mecanismos serão discutidos nas

seções seguintes.

 

O TSH (DA GLÂNDULA HIPÓFISE ANTERIOR) AUMENTA

A SECREÇÃO TIREOIDIANA

 

O TSH, também chamado tireotropina, é um hormônio da hipófise anterior,

uma glicoproteína com peso molecular de 28.000, aproximadamente. Esse

hormônio, também discutido no Capítulo 75, aumenta a secreção de

tiroxina e tri-iodotironina pela tireoide. Seus efeitos específicos na tireoide

são:

1. Aumento da proteólise da tireoglobulina já armazena da nos folículos,

com resultante aumento da liberação dos hormônios tireoidianos para o

sangue circulante e diminuição da própria substância folicular.

2. Aumento da atividade da bomba de iodeto que aumenta a “captação de

iodeto” pelas células glandulares, às vezes elevando a proporção entre as

concentrações intra e extracelular de iodeto na subs tância glandular para

até oito vezes o normal.

3. Aumento da iodização da tirosina para formar os hormônios

tireoidianos.

4. Aumento do tamanho e da atividade secretora das células tireoidianas.

5. Aumento do número de células tireoidianas, além da transformação de

células cuboides em colunares e grande pregueamento do epitélio

tireoidiano nos folículos.

Em resumo, o TSH aumenta todas as conhecidas atividades secretoras das

células glandulares tireoidianas.

O efeito precoce mais importante, após a administração de TSH, é o início

da proteólise da tireoglobulina, que provoca a liberação de tiroxina e tri-iodotironina no sangue, depois de 30 minutos. Os demais efeitos levam

horas ou até mesmo dias e semanas para se desenvolver plenamente.

 

O Monofosfato Cíclico de Adenosina Medeia o Efeito

Estimulador do TSH. A maior parte dos múltiplos e variados efeitos do

TSH nas células tireoidianas resulta da ativação do sistema celular do

“segundo mensageiro”, monofosfato adenosina cíclico (AMPc).

O primeiro evento nessa ativação é a ligação do TSH a seus receptores

específicos na superfície da membrana basal das células tireoidianas. Essa

ligação ativa a adenilil ciclase na membrana, que aumenta a formação de

AMPc no interior da célula. Finalmente, o AMPc atua como segundo

mensageiro, ativando a proteinocinase, que provoca fosforilações múltiplas

em toda a célula. O resultado é o aumento imediato da secreção de

hormônios tireoidianos e o crescimento prolongado do próprio tecido

glandular.

Esse método de controle da atividade das células tireoidianas é semelhante

à função do AMPc como “segundo mensageiro” em muitos outros tecidos-

alvo do organismo, como discutido no Capítulo 75.

 

A SECREÇÃO DE TSH PELA HIPÓFISE ANTERIOR É

REGULADA PELO HORMÔNIO LIBERADOR DE

TIREOTROPINA DO HIPOTÁLAMO

A secreção de TSH pela hipófise anterior é controlada pelo hormônio

hipotalâmico, o hormônio liberador de tireotropina (TRH), secretado por

terminações nervosas na eminência mediana do hipotálamo. A partir da

eminência mediana, o TRH é transportado para a hipófise anterior pelo

sangue portal hipotalâmico-hipofisário, descrito no Capítulo 75.

O TRH é um tripeptídeo amida — piroglutamil-histidil- -prolina amida. O

TRH afeta diretamente as células da hipófise anterior, elevando sua secreção de TSH. Quando o sistema portal sanguíneo do hipotálamo para a

hipófise anterior é bloqueado, a secreção de TSH, pela hipófise anterior,

fica bastante reduzida, mas não completamente.

O mecanismo molecular pelo qual o TRH provoca a produção de TSH

pelas células secretoras da hipófise anterior consiste na ligação a receptores

de TRH na membrana das células hipofisárias. Isso ativa o sistema de

segundo mensageiro da fosfolipase no seu interior, produzindo grande

quantidade de fosfolipase C, o que é seguido por cascata de outros segundos

mensageiros, incluindo íons cálcio e diacilglicerol, que, finalmente,

provocam a liberação de TSH.

 

Efeitos do Frio e Outros Estímulos Neurogênicos na Secreção

de TRH e TSH. Um dos estímulos mais bem conhecidos para o aumento

da secreção de TRH pelo hipotálamo e, portanto, de TSH pela hipófise

anterior é a exposição do animal ao frio. Esse efeito resulta, quase

certamente, da excitação dos centros hipotalâmicos de controle da

temperatura corporal. A exposição de ratos ao frio intenso durante muitas

semanas aumenta, em alguns casos, a liberação de hormônios tireoidianos

para mais de 100% e pode aumentar o metabolismo basal em até 50%. De

fato, sabe-se que pessoas que se mudam para regiões árticas desenvolvem

metabolismos basais 15% a 20% acima do normal.

Diversas reações emocionais também podem afetar a liberação de TRH e

TSH e, assim, afetar indiretamente a secreção de hormônios tireoidianos.

Agitação e ansiedade — condições que estimulam intensamente o sistema

nervoso simpático — causam redução aguda da secreção de TSH, talvez

porque esses estados aumentem o metabolismo e a temperatura corporal e,

portanto, exercem efeito inverso sobre o centro de controle da temperatura.

Nenhum desses efeitos emocionais nem o efeito do frio são observados

após o seccionamento do pedúnculo hipofisário, demonstrando que ambos

os efeitos são mediados pelo hipotálamo.

EFEITO DE FEEDBACKDO HORMÔNIO TIREOIDIANO

PARA REDUZIR A SECREÇÃO DE TSH PELA HIPÓFISE

ANTERIOR

 

A elevação do hormônio tireoidiano nos líquidos corporais reduz a secreção

de TSH pela hipófise anterior. Quando a secreção do hormônio tireoidiano

eleva-se para 1,75 do normal, a secreção de TSH cai praticamente para

zero. Quase todo esse efeito depressor por feedback ocorre até mesmo

quando a hipófise anterior é separada do hipotálamo. Portanto, como

mostrado na Figura 77-7, é provável que essa inibição ocorra,

principalmente, por efeito direto do hormônio tireoidiano na própria

hipófise anterior. Independentemente de onde se dá o controle por feedback,

seu efeito consiste em manter uma concentração quase constante de

hormônios tireoidianos nos líquidos corporais circulantes.

Figura 77-7. Regulação da secreção tireoidiana.

 

Substâncias Antitireoidianas Suprimem a Secreção Tireoidiana

As mais conhecidas drogas antitireoidianas são o tiocianato, o propiltiouracil e

as altas concentrações de iodetos inorgânicos. Esses fármacos bloqueiam a secreção tireoidiana por diferentes mecanismos, que serão explicados a seguir.

Os Íons Tiocianato Reduzem a Captação de Iodeto. A mesma bomba ativa

que transporta íons iodeto para dentro das células da tireoide também pode

bombear íons tiocianato, perclorato e nitrato. Por isso, a administração de

tiocianato (ou um dos outros íons), em concentração suficientemente alta, pode provocar a inibição competitiva do transporte de iodeto para a célula — isto é, a inibição do mecanismo de captação de iodo.

A menor disponibilidade de iodeto nas células glandulares não impede a

formação de tireoglobulina; simplesmente, impede a tireoglobulina formada de ser

iodada e, portanto, de formar os hormônios tireoidianos. Essa deficiência de

hormônios tireoidianos, por sua vez, leva à maior secreção de TSH pela hipófise

anterior, provocando o supercrescimento da tireoide, que, apesar disso, continua incapaz de formar quantidade adequada de hormônios. Sendo assim, o uso de

tiocianatos e de alguns outros íons para bloquear a secreção tireoidiana pode

levar ao desenvolvimento de tireoide muito aumentada, o que é chamado bócio.

O Propiltiouracil Reduz a Formação de Hormônio Tireoidiano. O

propiltiouracil (juntamente com outros compostos semelhantes, tais como

metimazol e carbimazol) impede a formação de hormônio tireoidiano a partir de iodeto e tirosina. Parte de seu mecanismo de ação consiste em bloquear a enzima peroxidase, necessária para a iodização da tirosina, e outra parte consiste em

bloquear a conjugação de duas tirosinas iodadas para formar tiroxina ou tri-

iodotironina.

O propiltiouracil, como o tiocianato, não impede a formação de tireoglobulina. A

ausência de tiroxina e tri-iodotironina, na tireoglobulina, pode levar a grande aumento, por feedback, da secreção de TSH pela hipófise anterior, promovendo,

assim, o crescimento do tecido glandular e a formação de bócio.

Altas Concentrações de Iodetos Reduzem a Atividade Tireoidiana e o

Tamanho da Tireoide. Quando existe alta concentração de iodetos no sangue

(100 vezes maior que o nível plasmático normal), a maior parte das atividades da tireoide é reduzida, mas essa redução, frequentemente, dura apenas algumas semanas. O efeito consiste na diminuição da captação de iodeto, de modo que a

iodização da tirosina, para a formação de hormônios tireoidianos, também se

reduz. Efeito ainda mais importante, causado pela alta concentração de iodeto, é

a paralisação da endocitose normal de coloide, a partir dos folículos, pelas células

glandulares da tireoide. Como esse é o primeiro estágio da liberação dos

hormônios tireoidianos a partir do coloide de armazenamento, ocorre interrupção

quase imediata da secreção de hormônio tireoidiano para o sangue.

Como a alta concentração de iodeto reduz todas as fases da atividade

tireoidiana, ela reduz, ligeiramente, o tamanho da tireoide e, principalmente, sua

irrigação sanguínea, ao contrário dos efeitos causados pela maior parte dos

demais agentes antitireoidianos. Por esse motivo, o iodeto é, frequentemente,

administrado aos pacientes por 2 a 3 semanas, antes da remoção cirúrgica da

tireoide, para reduzir o porte da cirurgia, em especial a intensidade do

sangramento.

 

Doenças da Tireoide

Hipertireoidismo

A maioria dos efeitos do hipertireoidismo pode ser obviamente deduzida da

discussão sobre os diversos efeitos fisiológicos do hormônio tireoidiano.

Entretanto, alguns efeitos específicos devem ser mencionados, em especial os

relacionados ao desenvolvimento, ao diagnóstico e ao tratamento do

hipertireoidismo.

Causas do Hipertireoidismo (Bócio Tóxico, Tireotoxicose, Doença de

Graves). Na maioria dos pacientes com hipertireoidismo, o tamanho da tireoide

aumenta duas a três vezes acima do normal, com enorme hiperplasia e

pregueamento do revestimento celular folicular para o interior dos folículos, de

modo que o número de células aumenta muito. Além disso, cada célula aumenta

sua secreção por muitas vezes; estudos de captação de iodo radioativo indicam

que algumas das glândulas hiperplásicas secretam hormônio tireoidiano em

quantidades 5 a 15 vezes maiores que o normal.

A doença de Graves, a forma mais comum de hipertireoidismo, é uma doença

autoimune, na qual os anticorpos, chamados imunoglobulinas estimulantes da

tireoide (TSIs), formam-se contra o receptor de TSH na glândula tireoide. Esses

anticorpos se ligam ao mesmo receptor que liga o TSH e provoca a ativação

contínua dos sistemas celulares do AMPc, com resultante desenvolvimento de

hipertireoidismo. Os anticorpos TSI têm efeito estimulante prolongado na secreção

da glândula tireoide, durando até 12 horas, em contraste com o curto tempo para

o TSH, de pouco mais de 1 hora. O alto nível de secreção do hormônio

tireoidiano, causado pelo TSI, por sua vez, suprime a formação de TSH pela

hipófise anterior. Portanto, as concentrações de TSH ficam abaixo da normal (muitas vezes, essencialmente zero), em vez de aumentadas, em quase todos os

pacientes com doença de Graves.

Os anticorpos causadores do hipertireoidismo decorrem, quase certamente, do

desenvolvimento da autoimunidade contra o tecido tireoidiano. Presume-se que, em algum momento da história clínica da pessoa, foi liberado um excesso de

antígenos pelas células tireoidianas, resultando na formação de anticorpos contra

a tireoide.

Adenoma Tireoidiano. Ocasionalmente, o hipertireoidismo resulta de adenoma

(tumor) localizado, que se desenvolve no tecido da tireoide e secreta grande

quantidade de hormônio tireoidiano. Essa apresentação é diferente da forma mais comum de hipertireoidismo, pois, em geral, não está associada à evidência de

doença autoimune. Enquanto o adenoma secreta grandes quantidades de

hormônio tireoidiano, a função secretora de todo o restante da tireoide é quase

totalmente inibida, porque o hormônio tireoidiano do adenoma suprime a produção de TSH pela hipófise.

Sintomas do Hipertireoidismo

Os sintomas do hipertireoidismo podem ser facilmente deduzidos pela discussão

anterior sobre a fisiologia dos hormônios tireoidianos: (1) estado de alta

excitabilidade; (2) intolerância ao calor; (3) redução da sudorese; (4) perda de

peso ligeira a extrema (às vezes, até 50 kg); (5) graus variáveis de diarreia; (6) fraqueza muscular; (7) nervosismo ou outros transtornos psíquicos; (8) fadiga

extrema, acompanhada de insônia; e (9) tremor nas mãos.

Exoftalmia. A maior parte das pessoas com hipertireoidismo desenvolve algum

grau de protrusão dos globos oculares, conforme mostrado na Figura 77-8. Essa condição é chamada exoftalmia. Um grau importante de exoftalmia ocorre em

cerca de um terço dos pacientes com hipertireoidismo, e a condição, às vezes, torna-se tão grave, que a protrusão do globo ocular provoca estiramento do nervo óptico, suficiente para causar danos à visão. Com muito mais frequên cia, os olhos

são lesados porque as pálpebras não se fecham completamente quando a pessoa

pisca os olhos ou dorme. Como consequência, as superfícies epiteliais dos olhos ficam ressecadas, irritadas e frequentemente infectadas, resultando em ulceração da córnea.

A causa da protrusão ocular é o edema dos tecidos retro-orbitais e alterações

degenerativas nos músculos extraoculares. Na maioria dos pacientes, encontram-se imunoglobulinas sanguíneas que reagem com os músculos oculares. Além

disso, a concentração dessas imunoglobulinas é, em geral, maior em pacientes

com altas concentrações de TSIs. Portanto, existem muitas razões para se

acreditar que a exoftalmia, bem como o próprio hipertireoidismo, seja um processo

autoimune. A exoftalmia, em geral, regride acentuadamente com o tratamento do

hipertireoidismo.

 

Figura 77-8. Paciente com exoftalmia por hipertireoidismo. Note a protrusão dos olhos e a retração das pálpebras superiores. A taxa metabólica basal era de +40. (Cortesia do Dr. Leonard Posey.)

 

Testes Diagnósticos para o Hipertireoidismo. Para o caso usual de

hipertireoidismo, o exame diagnóstico mais preciso é a medição direta da

concentração de tiroxina “livre” (e, às vezes, tri-iodotironina) no plasma, usando

procedimentos apropriados de radioimunoensaio.

Os seguintes exames são ocasionalmente usados:

1. O metabolismo basal está, geralmente, aumentado de + + 30 a 60, no

hipertireoidismo grave.

2. A concentração de TSH no plasma é medida por radioimunoensaio. No tipo

habitual de tireotoxicose, a secreção de TSH pela hipófise anterior está tão

completamente suprimida pela grande quantidade de tiroxina e tri-iodotironina circulantes, que o TSH plasmático é praticamente nulo.

3. A concentração de TSI é medida por radioimunoensaio. Essa concentração é,

em geral, alta na tireotoxicose, porém baixa no adenoma tireoidiano.

Tratamento do Hipertireoidismo. O tratamento mais direto do hipertireoidismo

é a remoção cirúrgica da maior parte da tireoide. Em geral, é preferível preparar o

paciente para a remoção cirúrgica da glândula, antes da operação, por meio da

administração de propiltiouracil, em geral por diversas semanas, até que o metabolismo basal do paciente tenha retornado ao normal. Então, é administrada uma alta concentração de iodeto, durante 1 a 2 semanas, imediatamente antes da

operação, o que provoca a redução do tamanho e da irrigação sanguínea da glândula. Com o uso desses procedimentos pré-operatórios, a mortalidade

cirúrgica é inferior a 1 em 1.000, enquanto que, antes do desenvolvimento de procedimentos modernos, a mortalidade era de 1 em 25.

Tratamento da Tireoide Hiperplásica com Iodo Radio ativo. Oitenta a 90% de

uma dose injetada de iodeto é absorvida pela tireoide hiperplásica tóxica, um dia

após a injeção. Se essa dose injetada for radioativa, poderá destruir a maior parte

das células secretoras da tireoide. Geralmente, 5 milicuries de iodo radioativo são administrados ao paciente, cuja condição é reavaliada várias semanas depois. Se o paciente ainda apresentar hipertireoidismo, doses adicionais são administradas,

até que o estado normal da tireoide seja atingido.

Hipotireoidismo

Os efeitos do hipotireoidismo, em geral, são opostos aos do hipertireoidismo,

mas alguns mecanismos fisiológicos são específicos dessa patologia. O

hipotireoidismo, assim como o hipertireoidismo, é provavelmente iniciado por autoimunidade contra a tireoide (doença de Hashimoto), mas, nesse caso, é a

imunidade que destrói a glândula, em vez de estimulá-la. A tireoide da maioria

desses pacientes apresenta “tireoidite” autoimune, que significa inflamação da tireoide. A tireoidite causa deterioração progressiva e, por fim, fibrose da glândula, resultando em diminuição ou ausência da secreção do hormônio tireoidiano.

Muitos outros tipos de hipotireoidismo podem ocorrer, frequentemente, associados

ao aumento da glândula, chamado d bócio, tal como será descrito nas seções seguintes.

Bócio Coloide Endêmico Causado por Deficiência Dietética de Iodeto. O

termo “bócio” significa um grande aumento da tireoide. Conforme ressaltado na

discussão sobre o metabolismo do iodo, cerca de 50 miligramas de iodo por ano

são necessários para a formação de quantidade adequada de hormônio

tireoidiano. Em certas regiões do mundo, como nos Alpes Suíços, nos Andes e na

região dos Grandes Lagos nos Estados Unidos, existe quantidade insuficiente de

iodo no solo, de modo que os alimentos não possuem sequer essa minúscula

quantidade. Portanto, nos tempos anteriores ao sal de cozinha iodado, muitas

pessoas que viviam nessas áreas desenvolviam tireoides extremamente

aumentadas, chamadas bócios en dêmicos.

O mecanismo de desenvolvimento de grandes bócios endêmicos é o seguinte: a

falta de iodo impede a produção tanto de tiroxina quanto de tri-iodotironina. Como

resultado, não há hormônios disponíveis para inibir a produção de TSH pela

hipófise anterior, que passa a secretar quantidade excessiva desse hormônio. O

TSH, então, estimula as células tireoidianas a secretar grande quantidade de

coloide de tireoglobulina nos folículos, e a glândula torna-se cada vez maior.

Entretanto, devido à falta de iodo, a produção de tiroxina e tri-iodotironina não

ocorre na molécula de tireoglobulina e, portanto, não causa a supressão normal

da produção de TSH pela hipófise anterior. Os folículos adquirem um enorme

tamanho, e a tireoide pode aumentar de 10 a 20 vezes.

Bócio Coloide Atóxico Idiopático. O aumento da tireoide, semelhante ao que

acontece no bócio coloide endêmico, pode também ocorrer em pessoas que não

apresentam deficiência de iodo. Essas glândulas aumentadas podem secretar

quantidade normal de hormônios tireoidianos; entretanto, com mais frequência,

sua secreção é reduzida, como no bócio coloide endêmico.

A causa exata do aumento da tireoide em pacientes com bócio coloide idiopático

não é conhecida, mas a maioria desses pacientes apresenta sinais de tireoidite

leve; portanto, tem sido sugerido que a tireoidite provoca ligeiro hipotireoidismo

que, então, leva ao aumento da secreção de TSH e ao crescimento progressivo

das porções não inflamadas da glândula. Essa teoria poderia explicar por que

essas glândulas são, em geral, nodulares, com o crescimento de algumas porções

da glândula, enquanto outras são destruídas pela tireoidite.

Em algumas pessoas com bócio coloide, a tireoide apresenta anormalidade no

sistema enzimático necessário para a formação dos hormônios tireoidianos.

Frequentemente, encontram-se as seguintes anormalidades:

1. Deficiência do mecanismo de captação de iodeto, na qual o iodeto não é

bombeado adequadamente para as células tireoidianas.

2. Deficiência do sistema peroxidase, em que os iodetos não são oxidados para o

estado de iodo.

3. Deficiência da conjugação de tirosinas iodadas na molécula de tireoglobulina,

de modo que os hormônios tireoidianos finais não podem ser formados.

4. Deficiência da enzima deiodinase, que impede a recuperação do iodo das

tirosinas iodadas que não são conjugadas para formar os hormônios

tireoidianos (que representam cerca de dois terços do iodo), levando à deficiência de iodo.

Finalmente, alguns alimentos contêm substâncias bociogênicas com atividade

antitireoidiana, semelhante ao propiltiouracil, levando ao aumento da tireoide,

estimulado pelo TSH. Tais substâncias bociogênicas são encontradas

especialmente em algumas variedades de nabo e repolho.

Características Fisiológicas do Hipotireoidismo. No hipotireoidismo causado

por tireoidite, bócio coloide endêmico, bócio coloide idiopático, destruição da

tireoide por radiação ou remoção cirúrgica da glândula, os efeitos fisiológicos são os mesmos. Eles incluem fadiga e sonolência extrema, provocando 12 a 14 horas

de sono por dia, extrema lentidão muscular, redução da frequência cardíaca, do

débito cardíaco e do volume sanguíneo, ocasionalmente aumento de peso,

constipação, lentidão mental, insuficiência de muitas funções tróficas do organismo, evidenciada por redução do crescimento do cabelo e descamação da

pele, desenvolvimento de rouquidão e, em casos graves, de aparência edematosa

em todo o corpo, chamada mixedema.

Mixedema. O mixedema se desenvolve no indivíduo que tem ausência quase

total da função do hormônio tireoidiano. A Figura 77-9apresenta um desses casos,

demonstrando a flacidez sob os olhos e o inchaço da face. Nessa condição, por motivos não explicados, a quantidade muito elevada de ácido hialurônico e sulfato

de condroitina, ligados a proteínas, forma um excesso de gel tecidual nos espaços

intersticiais, aumentando a quantidade total do líquido intersticial. Como o líquido

em excesso trata-se de um gel, é essencialmente imóvel, e o edema é deprimível.

Figura 77-9. Paciente com mixedema. (Cortesia do Dr. Herbert Langford.)

 

Aterosclerose no Hipotireoidismo. Como ressaltado antes, a falta de

hormônio tireoidiano aumenta a concentração sanguínea de colesterol, devido à

alteração do metabolismo dos lipídios e do colesterol e à redução de sua excreção

hepática na bile. Geralmente, a elevação do colesterol sanguíneo está associada

ao aumento da aterosclerose. Portanto, muitos pacientes com hipotireoidismo,

particularmente os com mixedema, desenvolvem aterosclerose, que, por sua vez,

resulta em doença vascular periférica, surdez e doença arterial coronariana, com

consequente redução da expectativa de vida.

Testes Diagnósticos no Hipotireoidismo. Os exames já descritos para o

diagnóstico do hipertireoidismo apresentam resultados opostos no hipotireoidismo.

A concentração sanguínea de tiroxina livre é baixa. O metabolismo basal no mixedema varia entre −30 e −50, e a secreção de TSH pela hipófise anterior,

quando se administra uma dose de TRH, fica, em geral, muito aumentada (exceto nos raros casos de hipotireoidismo causado por redução da resposta da hipófise

ao TRH).

Tratamento do Hipotireoidismo. A Figura 77-4 mostra o efeito da tiroxina no

metabolismo basal, demonstrando que a duração da ação do hormônio é, normalmente, maior que um mês. Consequentemente, é fácil manter um nível

estável de atividade do hormônio tireoidiano no organismo pela ingestão oral de

um ou mais comprimidos contendo tiroxina. Além disso, o tratamento adequado do paciente com hipotireoidismo resulta em normalidade tão completa, que pacientes, previamente mixedematosos, chegaram a viver até os 90 anos de

idade, após serem tratados por mais de 50 anos.

Cretinismo

O cretinismo é causado por hipotireoidismo extremo em fetos, bebês ou

crianças. Essa condição se caracteriza, especialmente, pela deficiência do crescimento corporal e por retardo mental. O cretinismo resulta da ausência congênita da tireoide (cretinismo congênito), de sua incapacidade de produzir

hormônio tireoidiano devido a defeito genético, ou da ausência de iodo na dieta

(cretinismo endêmico).

Um neonato sem tireoide pode ter aparência e função normais, por ter recebido

alguma quantidade (embora geralmente insuficiente) de hormônio tireoidiano

materno, durante a vida uterina. Entretanto, algumas semanas após o nascimento, os movimentos do neonato passam a ser lentos, e o seu desenvolvimento físico e

mental fica bastante retardado. O tratamento do neonato com cretinismo, em

qualquer momento, com quantidades adequadas de iodo ou tiroxina, geralmente

provoca a normalização do crescimento físico; entretanto, a menos que o cretinismo seja tratado a partir de algumas semanas após o nascimento, o

desenvolvimento mental permanece retardado de forma permanente. Esse estado

ocorre devido a retardo do crescimento, ramificação e mielinização das células neuronais do sistema nervoso central nesse momento crítico de desenvolvimento das capacidades mentais.

O crescimento esquelético da criança com cretinismo é caracteristicamente mais

inibido que o do tecido mole. Como resultado dessa desproporcionalidade do

crescimento, os tecidos moles apresentam probabilidade de crescer

excessivamente, dando à criança uma aparência obesa, estrutura brevilínea e

baixa estatura. Ocasionalmente, a língua se torna tão grande, em relação ao

crescimento esquelético, que obstrui a deglutição e a respiração, induzindo uma

respiração gutural característica, que, por vezes, sufoca a criança.

 

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CAPÍTULO 78

 

Hormônios Adrenocorticais

 

As duas glândulas adrenais, cada uma pesando aproximadamente 4 gramas,

localizam-se nos polos superiores dos rins. Como mostrado na Figura 78-1, cada

glândula é composta por duas partes distintas, a medula adrenal e o córtex

adrenal. A medula, que consiste nos 20% centrais da glândula, é funcionalmente

relacionada ao sistema nervoso simpático; ela secreta os hormônios epinefrina e

norepinefrina, em resposta ao estímulo simpático. Por sua vez, esses hormônios

causam praticamente os mesmos efeitos que a estimulação direta dos nervos

simpáticos em todas as partes do corpo. Esses hormônios e seus efeitos estão

discutidos, em detalhes, no Capítulo 61, em relação ao sistema nervoso

simpático.

O córtex adrenal secreta um grupo inteiramente diferente de hormônios,

chamados corticosteroides. Esses hormônios são sintetizados a partir do

colesterol esteroide e apresentam fórmulas químicas semelhantes. Entretanto,

pequenas diferenças em suas estruturas moleculares lhes conferem funções

diferentes, mas muito importantes.