Tratado de Fisiologia Médica
Integração dos Mecanismos Renais para o Controle do Líquido Extracelular
oscile em torno de 1,8 mEq/L, mais da metade dessa quantidade está ligada
às proteínas plasmáticas. Assim, a concentração ionizada livre de magnésio
é de apenas cerca de 0,8 mEq/L.
A ingestão diária normal de magnésio é de aproxima damente 250 a 300
mg/dia, mas apenas cerca da metade dessa quantidade é absorvida pelo trato
gastrointestinal. Para manter o equilíbrio do magnésio, os rins devem
excretar essa quantidade absorvida, ou seja, 125 a 150 mg/dia.
Normalmente, os rins excretam cerca de 10% a 15% do magnésio presente
no filtrado glomerular.
A excreção renal de magnésio pode aumentar, de modo acentuado,
durante o excesso de magnésio ou diminuir até quase zero na sua depleção.
Como o magnésio participa de muitos processos bioquímicos no corpo,
incluindo a ativação de inúmeras enzimas, sua concentração deve ser
estreitamente regulada.
A regulação da excreção de magnésio é realizada, em sua maior parte,
pela variação de sua reabsorção tubular. O túbulo proximal, usualmente, só
reabsorve 25% do magnésio filtrado. O principal local de reabsorção é a
alça de Henle, onde ocorre a reabsorção de aproximadamente 65% da carga
filtrada de magnésio. Apenas quantidade pequena (em geral, menos de 5%)
do magnésio filtrado é reabsorvida pelos túbulos distais e coletores.
Os mecanismos reguladores da excreção de magnésio não são bem
compreendidos, mas os seguintes distúrbios causam elevação de sua
excreção: (1) concentração elevada de magnésio no líquido extracelular; (2)
expansão do volume extracelular; e (3) concentração aumentada de cálcio
no líquido extracelular.
INTEGRAÇÃO DOS MECANISMOS RENAIS PARA O
CONTROLE DO LÍQUIDO EXTRACELULAR
O volume do líquido extracelular é determinado, principalmente, pelo
equilíbrio entre a entrada e a saída de água e sal. Em muitos casos, a
ingestão de água e sal é ditada por hábitos pessoais e não por mecanismos
de controle fisiológico. Dessa forma, a responsabilidade da regulação do
volume extracelular é frequentemente atribuída aos rins, que devem adaptar
suas excreções de sal e água às suas ingestões, sob condições estáveis.
Ao discutir a regulação do volume do líquido extracelular, também são
levados em conta os fatores reguladores da quantidade de cloreto de sódio
no líquido extracelular, já que as alterações do conteúdo extracelular do
cloreto de sódio, usualmente, produzem modificações paralelas no volume
do líquido extracelular, desde que os mecanismos do hormônio antidiurético
(ADH) e da sede também estejam operantes. Quando os mecanismos ADH-
sede estão funcionando normalmente, a variação da quantidade do cloreto
de sódio no líquido extracelular será compensada por variação semelhante
do teor de água extracelular, de modo que a manutenção da osmolalidade e
da concentração de sódio seja relativamente constante.
A INGESTÃO E A EXCREÇÃO DE SÓDIO SÃO
equilibradas EM CONDIÇÕES DE ESTADO
ESTACIONÁRIO
Consideração importante no controle geral da excreção de sódio — ou na
excreção da maioria dos eletrólitos — está no fato de que, no estado estável,
a excreção renal é determinada pela ingestão. Para a manutenção da vida, a
pessoa deve excretar, a longo prazo, quase exatamente a mesma quantidade
de sódio que foi ingerida. Por conseguinte, mesmo com distúrbios
causadores de importantes alterações da função renal, o equilíbrio entre a
entrada e a saída de sódio é restabelecido em poucos dias.
Se os distúrbios da função renal não forem muito graves, o equilíbrio do
sódio pode ser alcançado, principalmente, por meio de ajustes intrarrenais, com alterações mínimas do volu me do líquido extracelular ou por outros
ajustes sistêmicos. Entretanto, quando os distúrbios renais são graves e as
compen sações intrarrenais estão exauridas, devem ser ativados ajustes
sistêmicos, tais como alterações da pressão sanguínea, dos hormônios
circulantes e da atividade do sistema nervoso simpático.
Esses ajustes podem ser custosos, em termos da homeostasia global, por
causarem outras alterações no corpo, possivelmente danosas, a longo prazo.
Por exemplo, a função renal comprometida pode levar ao aumento da
pressão sanguínea, que, por sua vez, auxilia na manutenção da excreção
normal de sódio. A longo prazo, a pressão arterial elevada pode causar
danos aos vasos sanguíneos, ao coração e a outros órgãos. Essas
compensações, no entanto, são necessárias já que o equilíbrio deficiente
mantido entre a entrada e a saída de líquidos e de eletrólitos leva
rapidamente ao acúmulo ou à perda desses elementos, resultando em
colapso cardiovascular em alguns dias. Dessa forma, a ocorrência de ajustes
sistêmicos em resposta às anormalidades da função renal pode ser vista
como mecanismo necessário e restaurador do equilíbrio entre a entrada e a
saída de eletrólitos e de líquido.
CONTROLE DA EXCREÇÃO DO SÓDIO POR
ALTERAÇÃO NAS TAXAS DE FILTRAÇÃO
GLOMERULAR OU DE REABSORÇÃO TUBULAR DE
SÓDIO
As duas variáveis que influenciam a excreção de sódio e de água
correspondem à filtração glomerular e à reabsorção tubular:
Excreção = Filtração glomerular
− Reabsorção tubular
Em geral, a FG oscila em torno de 180 L/dia, a reab sorção tubular é de
178,5 L/dia, e a excreção urinária, de 1,5 L/dia. Dessa forma, pequenas
variações na FG ou na reabsorção tubular podem potencialmente causar
grandes alterações na excreção renal. Por exemplo, incremento de 5% da
FG (para 189 L/dia) provocaria aumento de 9 L/dia do volume urinário, se
não ocorressem as compensações tubulares; esse aumento rapidamente
levaria a alterações catastróficas dos volumes dos líquidos corporais. Do
mesmo modo, pequenas alterações na reabsorção tubular, da ausência dos
ajustes compensatórios da FG, também levariam a modificações drásticas
no volume urinário e na excreção de sódio. A reabsorção tubular e a FG são
reguladas com precisão, de modo que a excreção renal pode ser exatamente
compensada pela ingestão de água e de eletrólitos.
Mesmo em casos de distúrbios que alterem a FG ou a reabsorção tubular,
as alterações da excreção urinária são minimizadas por diversos
mecanismos de tamponamento. Por exemplo, se os rins ficarem bastante
vasodilatados e a FG aumentar (como pode ocorrer com certos fármacos ou
na febre alta), isso promoverá a distribuição do cloreto de sódio para os
túbulos, o que, por sua vez, levará, pelo menos, a duas compensações
intrarrenais: (1) aumento da reabsorção tubular de quantidade extra do
cloreto de sódio filtrado, evento que recebe o nome de equilíbrio
glomerulotubular; e (2) feedback pela mácula densa, onde a distribuição
aumentada de cloreto de sódio, para o túbulo distal, provoca constrição
arteriolar aferente e retorno da FG ao seu valor normal. Do mesmo modo,
as anormalidades da reabsorção tubular, no túbulo proximal ou na alça de
Henle, são parcialmente compensadas por esses mesmos feedbacks
intrarrenais, tal como exposto no Capítulo 27.
Como nenhum desses dois mecanismos atua de forma perfeita para
restaurar toda a normalidade na distribuição distal do cloreto de sódio, as
variações da FG ou da reabsorção tubular podem levar às modificações significativas da excreção urinária de sódio e de água. Quando isso