Tratado de Fisiologia Médica
Reflexo Flexor e Reflexos de Retirada
Possível Função do Reflexo Tendinoso na Equalização da Força
Contrátil entre as Fibras Musculares. Outra provável função do
reflexo tendinoso de Golgi é a de equalizar as forças contráteis das diversas
fibras musculares. Isto é, as fibras que exercem tensão excessiva são
inibidas pelo reflexo, enquanto as que exercem muito pouca tensão ficam
mais excitadas, devido à ausência da inibição reflexa. Esse fenômeno faz
com que a carga do músculo se distribua por todas as fibras e previne a
lesão em áreas isoladas do músculo, onde um número pequeno de fibras
poderia ficar sobrecarregado.
Função dos Fusos Musculares e dos Órgãos Tendinosos
de Golgi no Controle Motor pelos Centros Encefálicos
Superiores
Embora tenhamos enfatizado a função dos fusos musculares e dos órgãos
tendinosos de Golgi, no controle da função motora, pela medula espinal,
esses dois órgãos sensoriais também informam os centros superiores de
controle motor das alterações instantâneas que ocorrem nos músculos. Por
exemplo, o trato espinocerebelar dorsal conduz informação instantânea dos
fusos musculares e dos órgãos tendinosos de Golgi diretamente para o
cerebelo, com velocidades de condução próximas de 120 m/s, a condução
mais rápida verificada em qualquer lugar do encéfalo e da medula espinal.‐
Vias adicionais transmitem informações semelhantes para as regiões
reticulares do tronco cerebral e, em menor extensão, para todas as áreas
motoras do córtex cerebral. Como discutido nos Capítulos 56 e 57, a
informação veiculada por esses receptores é fundamental para o controle
por feedback dos sinais motores que se originam em todas essas áreas.
REFLEXO FLEXOR E REFLEXOS DE RETIRADA
No animal espinal ou descerebrado, quase todos os tipos de estímulos
sensoriais cutâneos em um de seus membros, provavelmente, causarão a
contração dos músculos flexores desse membro, com o afastamento do
membro do objeto estimulador. Esse é chamado reflexo flexor.
O reflexo flexor, na sua forma clássica, é provocado mais fortemente pela
estimulação das terminações para dor, tais como alfinetada, calor, ferimento
e, por essa razão, ele é também chamado reflexo nociceptivo ou
simplesmente reflexo à dor. A estimulação dos receptores para o tato pode
também provocar reflexo flexor mais fraco e menos prolongado.
Se alguma parte do corpo, exceto os membros, é estimulada
dolorosamente, essa parte de modo semelhante será afastada do estímulo,
mas o reflexo pode não se restringir aos músculos flexores, embora seja
basicamente o mesmo tipo de reflexo. Portanto, os vários padrões desses
reflexos em diferentes áreas do corpo são chamados reflexos de retirada.
Mecanismo Neuronal do Reflexo Flexor. A parte esquerda da Figura
55-9 mostra as vias neuronais para o reflexo flexor. Nesse caso, estímulo
doloroso foi aplicado na mão; como resultado, os músculos flexores do
braço foram excitados, afastando assim a mão do estímulo doloroso.
As vias que provocam o reflexo flexor não passam diretamente para os
neurônios motores anteriores, mas primeiro passam pelo conjunto de
interneurônios da medula espinal e apenas de forma secundária, para os
neurônios motores. O circuito mais curto possível é a via de três ou quatro
neurônios; entretanto, a maioria dos sinais do reflexo trafega por muitos
neurônios e envolve os seguintes tipos básicos de circuitos: (1) circuitos
divergentes para propagar o reflexo aos músculos necessários para a
retirada; (2) circuitos para a inibição dos músculos antagonistas, chamados
circuitos de inibição recíproca; (3) circuitos que promovem a pós-descarga,
com duração de muitas frações de segundo, após o estimulo ter terminado.
A Figura 55-10 mostra miograma típico de um músculo flexor durante
um reflexo flexor. O reflexo flexor aparece, em poucos milissegundos, após
o nervo relacionado à dor ter sido estimulado. Então, nos próximos poucos
segundos, o reflexo começa a entrar em fadiga, o que é característico de
quase todos os reflexos integrativos complexos da medula espinal.
Finalmente, após o estímulo ter terminado, a contração do músculo retorna
ao nível basal; mas, devido à pós-descarga, essa contração leva muitos
milissegundos para que ocorra. A duração da pós-descarga depende da
intensidade do estímulo sensorial que provocou o reflexo; estímulo tátil
fraco quase não provoca pós-descarga, enquanto o estímulo doloroso forte
provoca pós-descarga que pode durar por 1 segundo ou mais.
A pós-descarga, que ocorre no reflexo flexor resulta, quase certamente, de
ambos os tipos de circuitos de descargas repetitivas, como discutido
no Capítulo 47. Estudos eletrofisiológicos indicam que a pós-descarga
imediata, com a duração de 6 a 8 milissegundos, é resultado do disparo
repetitivo dos interneurônios excitados. A pós-descarga que ocorre, após
estímulo doloroso forte também é quase um resultado de vias recorrentes
que iniciam a oscilação nos circuitos de interneurônios reverberantes. Esses,
por sua vez, transmitem impulsos para os neurônios motores anteriores,
algumas vezes, por vários segundos, após o sinal sensorial ter terminado.
Assim, o reflexo flexor é organizado apropriadamente para retirar (afastar)
a parte do corpo irritada ou dolorida pelo estímulo. Além disso, devido à
pós-descarga, o reflexo pode manter a parte irritada distante do estímulo por
0,1 a 3 segundos, após a irritação ter terminado. Durante esse tempo, outros
reflexos e ações do sistema nervoso central podem mover todo o corpo para
longe do estímulo doloroso.
Figura 55-9. Reflexo flexor, reflexo extensor cruzado e inibição recíproca.