Tratado de Fisiologia Médica

John E. Hall · Capítulo 258 de 351

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Tratado de Fisiologia Médica

Reflexo Flexor e Reflexos de Retirada

Possível Função do Reflexo Tendinoso na Equalização da Força

Contrátil entre as Fibras Musculares. Outra provável função do

reflexo tendinoso de Golgi é a de equalizar as forças contráteis das diversas

fibras musculares. Isto é, as fibras que exercem tensão excessiva são

inibidas pelo reflexo, enquanto as que exercem muito pouca tensão ficam

mais excitadas, devido à ausência da inibição reflexa. Esse fenômeno faz

com que a carga do músculo se distribua por todas as fibras e previne a

lesão em áreas isoladas do músculo, onde um número pequeno de fibras

poderia ficar sobrecarregado.

 

Função dos Fusos Musculares e dos Órgãos Tendinosos

de Golgi no Controle Motor pelos Centros Encefálicos

Superiores

 

Embora tenhamos enfatizado a função dos fusos musculares e dos órgãos

tendinosos de Golgi, no controle da função motora, pela medula espinal,

esses dois órgãos sensoriais também informam os centros superiores de

controle motor das alterações instantâneas que ocorrem nos músculos. Por

exemplo, o trato espinocerebelar dorsal conduz informação instantânea dos

fusos musculares e dos órgãos tendinosos de Golgi diretamente para o

cerebelo, com velocidades de condução próximas de 120 m/s, a condução

mais rápida verificada em qualquer lugar do encéfalo e da medula espinal.‐

Vias adicionais transmitem informações semelhantes para as regiões

reticulares do tronco cerebral e, em menor extensão, para todas as áreas

motoras do córtex cerebral. Como discutido nos Capítulos 56 e 57, a

informação veiculada por esses receptores é fundamental para o controle

por feedback dos sinais motores que se originam em todas essas áreas.

 

REFLEXO FLEXOR E REFLEXOS DE RETIRADA

No animal espinal ou descerebrado, quase todos os tipos de estímulos

sensoriais cutâneos em um de seus membros, provavelmente, causarão a

contração dos músculos flexores desse membro, com o afastamento do

membro do objeto estimulador. Esse é chamado reflexo flexor.

O reflexo flexor, na sua forma clássica, é provocado mais fortemente pela

estimulação das terminações para dor, tais como alfinetada, calor, ferimento

e, por essa razão, ele é também chamado reflexo nociceptivo ou

simplesmente reflexo à dor. A estimulação dos receptores para o tato pode

também provocar reflexo flexor mais fraco e menos prolongado.

Se alguma parte do corpo, exceto os membros, é estimulada

dolorosamente, essa parte de modo semelhante será afastada do estímulo,

mas o reflexo pode não se restringir aos músculos flexores, embora seja

basicamente o mesmo tipo de reflexo. Portanto, os vários padrões desses

reflexos em diferentes áreas do corpo são chamados reflexos de retirada.

 

Mecanismo Neuronal do Reflexo Flexor. A parte esquerda da Figura

55-9 mostra as vias neuronais para o reflexo flexor. Nesse caso, estímulo

doloroso foi aplicado na mão; como resultado, os músculos flexores do

braço foram excitados, afastando assim a mão do estímulo doloroso.

As vias que provocam o reflexo flexor não passam diretamente para os

neurônios motores anteriores, mas primeiro passam pelo conjunto de

interneurônios da medula espinal e apenas de forma secundária, para os

neurônios motores. O circuito mais curto possível é a via de três ou quatro

neurônios; entretanto, a maioria dos sinais do reflexo trafega por muitos

neurônios e envolve os seguintes tipos básicos de circuitos: (1) circuitos

divergentes para propagar o reflexo aos músculos necessários para a

retirada; (2) circuitos para a inibição dos músculos antagonistas, chamados

circuitos de inibição recíproca; (3) circuitos que promovem a pós-descarga,

com duração de muitas frações de segundo, após o estimulo ter terminado.

A Figura 55-10 mostra miograma típico de um músculo flexor durante

um reflexo flexor. O reflexo flexor aparece, em poucos milissegundos, após

o nervo relacionado à dor ter sido estimulado. Então, nos próximos poucos

segundos, o reflexo começa a entrar em fadiga, o que é característico de

quase todos os reflexos integrativos complexos da medula espinal.

Finalmente, após o estímulo ter terminado, a contração do músculo retorna

ao nível basal; mas, devido à pós-descarga, essa contração leva muitos

milissegundos para que ocorra. A duração da pós-descarga depende da

intensidade do estímulo sensorial que provocou o reflexo; estímulo tátil

fraco quase não provoca pós-descarga, enquanto o estímulo doloroso forte

provoca pós-descarga que pode durar por 1 segundo ou mais.

A pós-descarga, que ocorre no reflexo flexor resulta, quase certamente, de

ambos os tipos de circuitos de descargas repetitivas, como discutido

no Capítulo 47. Estudos eletrofisiológicos indicam que a pós-descarga

imediata, com a duração de 6 a 8 milissegundos, é resultado do disparo

repetitivo dos interneurônios excitados. A pós-descarga que ocorre, após

estímulo doloroso forte também é quase um resultado de vias recorrentes

que iniciam a oscilação nos circuitos de interneurônios reverberantes. Esses,

por sua vez, transmitem impulsos para os neurônios motores anteriores,

algumas vezes, por vários segundos, após o sinal sensorial ter terminado.

Assim, o reflexo flexor é organizado apropriadamente para retirar (afastar)

a parte do corpo irritada ou dolorida pelo estímulo. Além disso, devido à

pós-descarga, o reflexo pode manter a parte irritada distante do estímulo por

0,1 a 3 segundos, após a irritação ter terminado. Durante esse tempo, outros

reflexos e ações do sistema nervoso central podem mover todo o corpo para

longe do estímulo doloroso.

Figura 55-9. Reflexo flexor, reflexo extensor cruzado e inibição recíproca.