Tratado de Fisiologia Médica
Metabolismo Cerebral
Uma vez iniciados esses dois ciclos viciosos, medidas heroicas precisam ser
implementadas para impedir a destruição total do cérebro. Medida desse tipo é a
infusão intravenosa de substância osmótica concentrada, por exemplo, solução muito concentrada de manitol, o que puxa líquido do tecido cerebral, por osmose,
e quebra os ciclos viciosos. Outra medida é retirar rapidamente líquido dos ventrículos laterais do cérebro, mediante punções ventriculares, aliviando, assim,
a pressão intracerebral.
METABOLISMO CEREBRAL
Como outros tecidos, o cérebro precisa de oxigênio e nutrientes para suprir
suas necessidades metabólicas. Entretanto, há peculiaridades especiais do
metabolismo cerebral que merecem ser mencionadas.
Taxa Metabólica Total do Cérebro e a Taxa Metabólica dos
Neurônios. Em condições de repouso, mas na pessoa acordada, o
metabolismo cerebral equivale a cerca de 15% do metabolismo total do
corpo, embora a massa encefálica seja somente 2% da massa corporal total.
Assim, em condições de repouso, o metabolismo cerebral por unidade de
massa é cerca de 7,5 vezes o metabolismo médio dos tecidos não neurais.
A grande parte desse metabolismo ocorre nos neurônios, e não nos tecidos
gliais de suporte. A maior necessidade metabólica dos neurônios tem a
finalidade de bombear íons através de suas membranas principalmente para
transportar íons sódio e íons cálcio para fora da membrana neuronal e íons
potássio para o interior. Cada vez que o neurônio conduz potencial de ação,
esses íons se movem pelas membranas, aumentando a necessidade de
transporte adicional pela membrana para restaurar as diferenças de
concentração iônicas corretas entre os dois lados das membranas neuronais.
Por isso, durante altos níveis de atividade cerebral, o metabolismo neuronal
pode aumentar por até 100% a 150%.
Requisitos Especiais do Cérebro por Oxigênio — Falta de
Metabolismo Anaeróbico Significativo. A maioria dos tecidos do
corpo pode viver sem oxigênio durante vários minutos e alguns por até 30
minutos. Durante esse tempo, as células do tecido obtêm sua energia de
processos metabólicos anaeróbicos, que significa a liberação de energia pela
quebra parcial das moléculas de glicose e glicogênio, mas sem combiná-las
com oxigênio. Esse processo produz energia somente à custa do consumo
de quantidades enormes de glicose e glicogênio. Entretanto, isso permite
manter os tecidos vivos.
O cérebro não é capaz de muito metabolismo anaeróbico. Uma das razões
para isto é a alta intensidade metabólica dos neurônios, de forma que a
maior parte da atividade neuronal depende do aporte sanguíneo de oxigênio
a cada segundo. Juntando esses fatores, é possível entender por que a
cessação súbita do fluxo de sangue para o cérebro ou a falta súbita total de
oxigênio no sangue podem causar inconsciência dentro de 5 a 10 segundos.
Em Condições Normais, a Maior Parte da Energia Cerebral É
Fornecida pela Glicose. Em condições normais, quase toda a energia
usada pelas células cerebrais é fornecida pela glicose proveniente do
sangue. Da mesma forma, como no caso do oxigênio, a maior parte da
glicose é trazida a cada instante pelo sangue capilar, uma vez que o total de
glicose armazenada sob a forma de glicogênio nos neurônios não seria
capaz de suprir as demandas funcionais por mais do que 2 minutos.
Característica especial do aporte de glicose para os neurônios é que seu
transporte para os neurônios através da membrana celular não depende da
insulina, embora a insulina seja necessária para o transporte de glicose para
a maioria das outras células do corpo. Portanto, em pacientes com diabetes
grave com secreção praticamente zero de insulina, a glicose ainda se
difunde facilmente para os neurônios — o que é muito importante, porque
impede a perda de função mental em pessoas com diabetes. Entretanto, quando o paciente diabético é tratado com doses altas demais de insulina, a
concentração de glicose no sangue pode cair para valores extremamente
baixos, porque a insulina excessiva faz com que quase toda a glicose no
sangue seja transportada rapidamente para o número enorme de células não
neurais sensíveis à insulina em todo o corpo, principalmente as células
musculares e os hepatócitos. Quando isso acontece, não sobra glicose
suficiente no sangue para suprir as necessidades dos neurônios de forma
correta, e a função mental se torna então gravemente prejudicada, levando
às vezes ao coma e, mais frequentemente, a desequilíbrios mentais e
distúrbios psicóticos — todos eles causados pelo tratamento com doses
excessivas de insulina.
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UNIDADE XII
Fisiologia Gastrointestinal
RESUMO DA UNIDADE
CAPÍTULO 63 - Princípios Gerais da Função
Gastrointestinal — Motilidade, Controle Nervoso e
Circulação Sanguínea
Princípios Gerais da Motilidade Gastrointestinal
Controle Neural da Função Gastrointestinal — Sistema
Nervoso Entérico
Controle Hormonal da Motilidade Gastrointestinal
Tipos Funcionais de Movimentos no Trato Gastrointestinal
Fluxo Sanguíneo Gastrointestinal — “Circulação
Esplâncnica”
CAPÍTULO 64 - Propulsão e Mistura dos Alimentos no
Trato Alimentar
Ingestão de Alimentos
Funções Motoras do Estômago
Movimentos do Intestino Delgado
Movimentos do Cólon
Outros Reflexos Autônomos que Afetam a Atividade
Intestinal
CAPÍTULO 65 - Funções Secretoras do Trato Alimentar
Princípios Gerais da Secreção no Trato Alimentar
Secreção de Saliva
Secreção Gástrica
Secreção Pancreática
Secreção de Bile pelo Fígado
Secreções do Intestino Delgado
Secreção de Muco pelo Intestino Grosso
CAPÍTULO 66 - Digestão e Absorção no Trato
Gastrointestinal
Digestão de Diversos Alimentos por Hidrólise
Princípios Básicos da Absorção Gastrointestinal
Absorção no Intestino Delgado
Absorção no Intestino Grosso: Formação de Fezes
CAPÍTULO 67 - Fisiologia dos Distúrbios
Gastrointestinais
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CAPÍTULO 63
Princípios Gerais da Função
Gastrointestinal — Motilidade,
Controle Nervoso e Circulação
Sanguínea
O trato alimentar abastece o corpo com suprimento contínuo de água,
eletrólitos, vitaminas e nutrientes. Isso requer (1) movimentação do
alimento pelo trato alimentar; (2) secreção de soluções digestivas e digestão
dos alimentos; (3) absorção de água, diversos eletrólitos, vitaminas e
produtos da digestão; (4) circulação de sangue pelos órgãos
gastrointestinais para transporte das substâncias absorvidas; (5) controle de
todas essas funções pelos sistemas nervoso e hormonal locais.
A Figura 63-1 exibe o trato alimentar completo. Cada parte está adaptada
às suas funções específicas: algumas para a simples passagem do alimento, como o esôfago; outras para o armazenamento temporário do alimento,
como o estômago; e outras para digestão e absorção, como o intestino
delgado. Neste Capítulo, discutimos os princípios básicos da função de todo
o sistema alimentar e nos Capítulos subsequentes discutiremos as funções
específicas dos diferentes segmentos do trato.
Figura 63-1. Trato alimentar.