Tratado de Fisiologia Médica

John E. Hall · Capítulo 182 de 351

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Tratado de Fisiologia Médica

Condições Que Causam Sangramento Excessivo em Seres Humanos

coágulo interrompeu o sangramento, o AP-t eventualmente converte o

plasminogênio em plasmina, que, por sua vez, remove os restos inúteis do

coágulo sanguíneo. De fato, muitos pequenos vasos sanguíneos, nos quais o

fluxo sanguíneo fica bloqueado por coágulos, são reabertos por esse

mecanismo. Consequentemente, função sobretudo importante do sistema da

plasmina é a de remover diminutos coágulos de milhões de diminutos vasos

periféricos, que, talvez, ficariam ocluídos em locais onde não existiria outra

possibilidade de desobstrução.

 

CONDIÇÕES QUE CAUSAM SANGRAMENTO

EXCESSIVO EM SERES HUMANOS

 

O sangramento excessivo pode resultar da deficiência de qualquer um dos

fatores da coagulação do sangue. Três tipos particulares de tendência ao

sangramento, estudados exaustivamente, são discutidos neste Capítulo:

sangramento causado (1) pela deficiência de vitamina K; (2) hemofilia; e

(3) trombocitopenia (deficiência de plaquetas).

 

DIMINUIÇÃO DOS NÍVEIS DE PROTROMBINA, FATOR

VII, FATOR IX E FATOR X CAUSADA PELA DEFICIÊNCIA

DE VITAMINA K

 

Com poucas exceções, quase todos os fatores da coagulação do sangue são

formados no fígado. Portanto, doenças do fígado, como hepatite, cirrose e

atrofia amarela aguda (isto é, degeneração do fígado provocada por

toxinas, infeções ou outros agentes) podem, algumas vezes, deprimir o‐

sistema de coagulação de forma tão intensa, que o paciente desenvolve

grave tendência ao sangramento.

Outra causa para a reduzida formação dos fatores de coagulação pelo

fígado é a deficiência de vitamina K. Essa vitamina é fator essencial para a

carboxilase hepática que adiciona um grupo carboxila a radicais de ácido

glutâmico a cinco dos fatores importantes da coagulação: protrombina,

Fator VII, Fator IX, Fator X e proteína C. Ao adicionar o grupamento

carboxila a radicais de ácido glutâmico nos fatores da coagulação imaturos,

a vitamina K é oxidada, ficando inativa. Outra enzima, a redutase epóxica

da vitamina K-complexo 1 (VKOR c1), reduz a vitamina K de volta à sua

forma ativa.

Na ausência de vitamina K ativa, a insuficiência subsequente desses

fatores de coagulação no sangue pode levar a tendências hemorrágicas

graves.

A vitamina K é continuamente sintetizada no trato intestinal por bactérias,

de modo que a deficiência de vitamina K só raramente ocorre em pessoas

saudáveis como resulta do da falta de vitamina K na dieta (exceto em

neonatos, antes que sua flora intestinal se estabeleça). Entretanto, em‐

pessoas com doenças gastrointestinais, a deficiência de vitami na K ocorre,

em geral, como resultado da disabsorção de gorduras pelo trato

gastrointestinal, uma vez que a vitamina K é lipossolúvel e comumente é

absorvida para o sangue, junto com outros lipídeos.

Uma das causas mais prevalentes da deficiência de vitami na K é a falha

do fígado de secretar bile no trato gastrointestinal (o que ocorre como

resultado da obstrução dos ductos biliares, ou como o resultado de doença

hepática). A ausência de bile impede a digestão e a absorção adequadas de

gorduras e, portanto, também deprime a absorção de vitamina K. Assim, a

doença hepática causa diminuição da produção de protrombina e de outros

fatores da coagulação, tanto pela disabsorção da vitamina K, quanto pela

doença das células hepáticas. Por esse motivo, a vitamina K é injetada em

todos os pacientes cirúrgicos com doença hepática ou com ductos biliares obstruídos, antes do procedimento cirúrgico. Ordinariamente, a vitamina K

é administrada ao paciente com deficiência, entre 4 e 8 horas antes da

cirurgia, e, se as células parenquimatosas do fígado apresentarem pelo

menos a metade de sua função, quantidades suficientes de fatores da

coagulação serão produzidas para a prevenção de sangramento excessivo

durante a cirurgia.

 

HEMOFILIA

A hemofilia é doença hemorrágica que ocorre quase exclusivamente em

homens. Em 85% dos casos, ela é causada por anormalidade ou deficiência

do Fator VIII; esse tipo de hemofilia é chamado hemofilia A ou hemofilia

clássica. Cerca de, um em cada 10.000 homens, nos Estados Unidos, é

portador de hemofilia clássica. Em outros 15% dos pacientes com

hemofilia, a tendência ao sangramento é ocasionada por deficiência do

Fator IX. Esses dois fatores são geneticamente transmitidos por meio do

cromossomo feminino. Portanto, uma mulher quase nunca terá hemofilia

porque pelo menos um de seus dois cromossomos X apresenta os genes

apropriados. Se um de seus cromossomos X for deficiente, ela será

carreadora de hemofilia, transmitindo a doença para a metade de seus

descendentes do sexo masculino, e o estado de carreadora, para a metade de

seus descendentes do sexo feminino.

O traço hemorrágico na hemofilia pode ter graus variados de gravidade,

dependendo da deficiência genética. Em geral, não ocorre sangramento,

exceto após trauma, mas em alguns pacientes o grau de trauma necessário

para causar sangramento prolongado e grave, pode ser tão leve que o

trauma só raramente é notado pelo paciente. Por exemplo, o sangramento

pode durar dias após a extração de um dente.

O Fator VIII tem dois componentes ativos, o componen te grande, com

peso molecular de milhões, e o com ponente menor, com peso molecular de aproximadamente 230.000. O componente menor é o mais importante para

a via intrínseca, para a coagulação, e a deficiência dessa parte do Fator VIII

é a causa da hemofilia clássica. Outra doença hemorrágica com

características pouco diferentes chamada doença de von Willebrand resulta

da ausência do componente maior.

Quando a pessoa com hemofilia clássica experiencia sangramento

prolongado e grave, a única terapia verdadei ramente eficaz é a injeção de

Fator VIII purificado. O custo do Fator VIII é alto e sua disponibilidade é

limitada por só poder ser obtido do sangue humano e apenas em

quantidades extremamente pequenas. Todavia, a produção e o uso

crescentes do Fator VIII recombinante farão com que esse tratamento fique

disponível e para maior número de pacientes com hemofilia clássica.

 

TROMBOCITOPENIA

 

Trombocitopenia significa a presença de concentrações muito baixas de

plaquetas no sangue circulante. Pessoas com trombocitopenia apresentam

tendência hemorrágica, como os hemofílicos, exceto pelo fato de que o

sangramento ocorre, em geral, em muitas vênulas diminutas ou em

capilares em vez de ocorrer nos grandes vasos, como na hemofilia. Como

resultado, acontecem várias pequenas hemorragias puntiformes em todos os

tecidos do corpo. A pele dessa pessoa apresenta várias manchas arroxeadas,

dando à doença o nome de púrpura trombocitopênica. Como dito

anteriormente, as plaquetas são sobretudo importantes para o reparo de

diminutas rupturas nos capilares e em outros vasos pequenos.

Ordinariamente, o sangramento não vai ocorrer antes que a concentração

de plaquetas caia abaixo de 50.000/mL, em vez dos níveis normais de

150.000 a 300.000. Níveis abaixo de 10.000/ mL são quase sempre são

fatais.