Tratado de Fisiologia Médica
Fisiopatologias de Anormalidades Pulmonares Específicas
Figura 43-3. Registros durante a manobra de capacidade vital forçada: (A), em pessoa saudável e (B), em pessoa com obstrução parcial de vias aéreas. (O “zero”, na escala de
volume, corresponde ao volume residual.) VEF , volume expiratório máximo forçado 1 durante o primeiro segundo; CVF, capacidade vital expiratória forçada.
FISIOPATOLOGIAS DE ANORMALIDADES
PULMONARES ESPECÍFICAS
ENFISEMA PULMONAR CRÔNICO
O termo enfisema pulmonar significa, literalmente, excesso de ar nos
pulmões. Entretanto, esse termo, em geral, é usado para descrever o
processo obstrutivo complexo e destrutivo dos pulmões causado por muitos
anos de tabagismo. O enfisema resulta das seguintes alterações
fisiopatológicas pulmonares principais:
1. Infecção crônica, causada pela inalação de fumaça ou outras
substâncias que irritam brônquios e bron quíolos. A infecção crônica
perturba gravemente os mecanismos normais de proteção das vias
aéreas, ocasionando, inclusive, paralisia parcial dos cílios do epitélio
respiratório, efeito provocado pela nicotina. Como resultado, o muco não
pode ser mobilizado, com facilidade, para fora das vias aéreas. Além
disso, ocorre estímulo para secreção excessiva de muco, o que exacerba
ainda mais essa condição. Também se observa a inibição dos macrófagos
alveolares, que passam a ser menos eficazes no combate a infecções.
2. A infecção, o muco excessivo e o edema inflamatório do epitélio
bronquiolar causam obstrução crônica de muitas das pequenas vias
aéreas.
3. A obstrução das vias aéreas torna especialmente difícil a expiração,
ocasionando, dessa maneira, o aprisionamento de ar no interior dos
alvéolos e sua hiperdistensão. Esse efeito, combinado com a infecção,
causa destruição importante de cerca de 50% a 80% das paredes
alveolares. Assim, o quadro final do pulmão enfisematoso é o mostrado
nas Figuras 43-4 (superior) e 43-5.
Os efeitos fisiológicos do enfisema crônico são variáveis e dependem da
gravidade da doença e dos níveis relativos de obstrução bronquiolar versus
a destruição parenquimatosa. Entre as diferentes anormalidades estão as
seguintes:
1. A obstrução bronquiolar aumenta a resistência das vias aéreas e resulta
em aumento importante do trabalho da respiração. É especialmente
difícil para a pessoa mover o ar pelos bronquíolos durante a expiração,
por causa da força compressiva na parede externa do pulmão, não apenas
comprimindo os alvéolos, mas também comprimindo os bronquíolos, o
que aumenta ainda mais a resistência expiratória.
2. A perda acentuada de paredes alveolares diminui a capacidade de
difusão pulmonar, o que reduz a função dos pulmões de oxigenar o
sangue e remover o CO circulante. 2
3. O processo obstrutivo é, frequentemente, muito pior em algumas partes
dos pulmões do que em outras; assim, algumas regiões são bem
ventiladas enquanto outras são pouco ventiladas. Essa situação
frequentemente causa proporções ventilação-perfusão muito anormais,
com V a/Q muito baixa em algumas partes (derivação fisiológica),
resultando em aeração insuficiente do sangue, e uma V a/Q muito alta
em outras regiões (espaço morto fisiológico), resultando em ventilação
perdida, com ambos os efeitos ocorrendo nos mesmos pulmões.
4. A perda de grande parte das paredes alveolares também diminui o
número de capilares pulmonares pelos quais o sangue pode passar. Como
resultado, a resistência vascular pulmonar, com frequência, aumenta
acentuadamente, causando hipertensão pulmonar, que, por sua vez,
sobrecarrega o lado direito do coração e, muitas vezes, provoca insu‐
ficiência cardíaca direita.
O enfisema crônico, em geral, progride lentamente, ao longo de muitos
anos. A hipoxia e a hipercapnia desenvolvem-se em virtude da
hipoventilação de muitos alvéolos mais a perda das paredes alveolares. O
resultado global de todos esses efeitos é a grave, prolongada e devastadora
fome de ar, que pode durar anos até que a hipoxia e a hipercapnia causem a
morte — preço alto a ser pago pelo tabagismo.
Figura 43-4. Contraste do pulmão enfisematoso (superior) com o pulmão normal (inferior), mostrando destruição alveolar extensa no enfisema. (Cortesia de Patricia Delaney e o Department of Anatomy, The Medical College of Wisconsin.)
Figura 43-5. Alterações alveolares na pneumonia e no enfisema.
PNEUMONIA: INFLAMAÇÃO PULMONAR E LÍQUIDO
NOS ALVÉOLOS
O termo pneumonia inclui qualquer condição inflamatória pulmonar em que
alguns ou todos os alvéolos são preenchidos com líquido e hemácias, como
mostrado na Figura 43-5. Tipo comum de pneumonia é a bacteriana,
causada, mais frequentemente, por pneumococos. Essa doença se inicia com
a infecção alveolar; a membrana pulmonar fica inflamada e muito porosa,
de modo que o líquido e até mesmo hemácias e leucócitos escapam da
corrente sanguínea para o interior dos alvéolos. Assim, os alvéolos
infectados ficam, progressivamente, cheios com líquido e células, e a
infecção se dissemina pela extensão das bactérias ou dos vírus de alvéolo
em alvéolo. Por fim, grandes áreas dos pulmões, alguns lobos inteiros ou
até mesmo todo um pulmão ficam “consolidados”, o que significa que estão
preenchidos com líquido e detritos celulares.
Em pessoas com pneumonia, a função das trocas gasosas dos pulmões
diminui em diferentes estágios da doença. Nos estágios iniciais, o processo
pneumônico pode estar localizado em apenas um pulmão, com redução da
ventilação alveolar, enquanto o fluxo sanguíneo, pelos pulmões, continua
normal. Essa condição causa duas anormalidades pulmonares principais: (1)
redução da área de superfície total disponível da membrana respiratória; e (2) diminuição da proporção ventilação-perfusão. Ambos os efeitos causam
hipoxemia (O sanguíneo baixo) e hipercapnia (CO alto). 2 2
A Figura 43-6 mostra o efeito da redução da proporção ventilação-
perfusão na pneumonia. O sangue que passa pelo pulmão aerado é 97%
saturado pelo O , enquanto ao passar pelo pulmão não aerado, a saturação 2
diminui para 60%. Portanto, a saturação média do sangue bombeado pelo
coração esquerdo na aorta é de apenas 78%, o que é bem abaixo do normal.
Figura 43-6. Efeito da pneumonia na porcentagem de saturação do oxigênio (O2), na artéria pulmonar, nas veias pulmonares direita e esquerda e na aorta.
ATELECTASIA: COLAPSO DOS ALVÉOLOS
Atelectasia significa colapso alveolar. Pode ocorrer em áreas localizadas do
pulmão ou em todo o pulmão. As causas mais comuns são (1) obstrução total das vias aéreas; ou (2) perda de surfactante nos líquidos que revestem
os alvéolos.
Obstrução das Vias Aéreas Causa Colapso Pulmonar. A
atelectasia secundária à obstrução das vias aéreas geralmente resulta de (1)
bloqueio de muitos brônquios de pequeno calibre por muco; ou (2)
obstrução de brônquio principal tanto por um grande tampão mucoso
quanto por algum objeto sólido, como um tumor. O ar aprisionado além do
bloqueio é absorvido em minutos a horas pelo sangue que flui pelos
capilares pulmonares. Caso o tecido pulmonar seja maleável o suficiente,
isso levará simplesmente ao colapso alveolar. No entanto, se o pulmão é
rígido por causa de tecido fibrótico e não pode colapsar, a absorção do ar
alveolar cria pressões muito negativas no interior dos alvéo los, o que puxa o
líquido dos capilares pulmonares para os alvéolos, acarretando, assim, o
enchimento completo do alvéolo com líquido de edema. Esse processo
quase sempre é o resultado da atelectasia de todo um pulmão, uma condição
chamada colapso maciço pulmonar.
Os efeitos na função pulmonar total causados pelo colapso maciço
(atelectasia) de todo um pulmão são mostrados na Figura 43-7. O colapso
do tecido pulmonar não apenas oclui o alvéolo, mas também quase sempre
aumenta a resistência ao fluxo sanguíneo pelos vasos do pulmão colapsado.
Esse aumento da resistência ocorre parcialmente por causa do próprio
colapso pulmonar, que comprime e distorce os vasos conforme o volume
diminui. Além disso, a hipoxia, nos alvéolos colapsados, causa
vasoconstrição adicional, como explicado noCapítulo 39.
Em razão da vasoconstrição, o fluxo sanguíneo pelo pulmão atelectásico é
muito reduzido. Felizmente, a maior parte do sangue é desviada para as
áreas de pulmão ven tilado e, portanto, mais bem aeradas. Na situação
mostrada na Figura 43-7, cinco sextos do sangue passam pelo pulmão
aerado e apenas um sexto passa pelo pulmão não aerado. Como resultado, a proporção ventilação-perfusão total é apenas moderadamente
comprometida, de modo que o sangue aórtico é ligeiramente dessaturado de
O , apesar da perda total da ventilação em todo um pulmão. 2
Figura 43-7. Efeito da atelectasia na saturação de oxigênio (O2) do sangue aórtico.
Falta de “Surfactante” como Causa do Colapso Pulmonar. A
secreção e a função do surfactante no alvéolo foram discutidas noCapítulo
38. Foi demonstrado que o surfactante é secretado por células epiteliais
alveolares especiais, para os líquidos que revestem a superfície interna do‐
alvéo lo. O surfactante, por sua vez, diminui a tensão superfi cial no alvéolo
por 2 a 10 vezes, o que normalmente tem papel importante na prevenção do
colapso alveolar. No entanto, em várias condições, como na doença da
membra na hialina (também chamada síndrome de angústia respiratória)
que frequentemente ocorre em recém-nascidos prematuros, a quantidade de
surfactante secretada pelos alvéolos está tão reduzida que a tensão superficial do líquido alveolar fica várias vezes maior que o normal. Essa
situação causa tendência séria ao colapso pulmonar ou ao en chimen to
alveo lar por líquido. Como explicado no Capítulo 38, muitas dessas
crianças morrem de asfixia, quando grandes porções dos pulmões ficam
atelectásicas.
ASMA — CONTRAÇÃO ESPASMÓDICA DOS MÚSCULOS
LISOS NOS BRONQUÍOLOS
A asma é caracterizada pela contração espástica da musculatura lisa dos
bronquíolos, o que ocasiona sua obstrução parcial e extrema dificuldade
para respirar. A doença acomete 3% a 5% de todas as pessoas em algum
período da vida.
A causa comum para a asma é a hipersensibilidade contrátil bronquiolar
em resposta às substâncias estranhas no ar. Em cerca de 70% dos pacientes
abaixo de 30 anos de idade, a asma é provocada por hipersensibilidade
alérgica, especialmente a sensibilidade ao pólen das plantas. Em pessoas
com mais idade, a causa é, quase sempre, a hipersen sibilidade às partículas
irritativas não alérgicas, tais como as presentes no ar poluído.
A pessoa normalmente alérgica tende a formar grandes e anormais
quantidades de anticorpos IgE, e esses anticorpos causam reações alérgicas
quando interagem com antígenos específicos que proporcionaram o
desenvolvimento dos anticorpos na primeira ocasião, como explicado
no Capítulo 35. Em pessoas com asma, esses anticorpos estão ligados,
principalmente, aos mastócitos presentes no interstício pulmonar, em
associação íntima com os bronquíolos e pequenos brônquios. Quando uma
pessoa asmática respi ra o pólen para o qual é sensível (isto é, para o qual
desenvolveu anticorpos IgE), este reage com os anticorpos ligados aos
mastócitos, que liberam várias substâncias diferentes como resposta. Entre
elas estão (a) histamina; (b) substância de anafilaxia de reação lenta (que é mistura de leucotrienos); (c) fator quimiotático eosinofílico; e (d)
bradicinina. Os efeitos combinados de todos esses fatores, especialmente a
substância de anafilaxia de reação lenta, produzem (1) edema localizado nas
paredes dos pequenos bronquíolos, assim como secreção de muco espesso,
no interior do lúmen bronquiolar; e (2) espasmo da musculatura lisa
bronquiolar. Portanto, a resistência das vias aéreas aumenta bastante.
Como discutido neste Capítulo, o diâmetro bronquiolar nas pessoas com
asma fica menor durante a expiração do que durante a inspiração, o que é
causado pelo colapso bronquiolar durante o esforço expiratório que
comprime as paredes externas dos bronquíolos. Visto que os bronquíolos
dos pulmões asmáticos já estão parcialmente ocluídos, oclusão adicional,
resultante de pressão externa, cria obstrução sobretudo grave durante a
expiração, isto é, a pessoa asmática frequentemente pode inspirar de modo
muito adequado, mas tem grande dificuldade para expirar. Os registros
clínicos mostram (1) fluxo expiratório máximo bastante reduzido; e (2)
redução do volume expiratório no tempo. Além disso, todos esses
resultados juntos provocam dispneia ou “fome de ar”, que é discutida
adiante neste Capítulo.
A capacidade residual funcional e o volume residual pulmo nar são
especialmente aumentados durante uma crise asmática aguda, por causa da
dificuldade em expirar o ar dos pulmões. Também, ao longo de anos, a
caixa torácica fica permanentemente aumentada, causando o aspecto de
“tórax em barril”, e tanto a capacidade residual funcional quanto o volume
residual pulmonar ficam aumentados da mesma forma.
TUBERCULOSE
Na tuberculose, os bacilos causam reação tecidual peculiar nos pulmões,
incluindo (1) invasão do tecido afetado por macrófagos; e (2)
“encarceramento” da lesão por tecido fibroso que forma o chamado tubérculo. Esse processo de encarceramento ajuda a limitar maior