Tratado de Fisiologia Médica
Efeito dos Gradientes de Pressão Hidrostática nos Pulmões Sobre o Fluxo Sanguíneo Regional Pulmonar
sistêmicos, que se dilatam, em vez de se contrair, em resposta a
concentrações baixas de O . Embora os mecanismos que promovem a 2
vasoconstrição pulmonar durante a hipoxia não sejam conhecidos em
profundidade, a baixa concentração de O pode estimular a liberação de 2
substâncias vasoconstritoras ou reduzir a liberação de um vasodilatador,
como o óxido nítrico, do tecido pulmonar.
Alguns estudos sugerem que a hipoxia pode induzir diretamente a
vasoconstrição por inibição dos canais de íons potássio sensíveis ao
oxigênio nas membranas celulares do músculo liso vascular pulmonar. Com
baixas concentrações parciais de O , esses canais são bloqueados, o que 2
conduz a uma despolarização das membranas celulares e a ativação dos
canais de cálcio, provocando a entrada de íons cálcio. A elevação da
concentração de cálcio provoca, desse modo, uma constrição das pequenas
artérias e arteríolas.
O aumento na resistência vascular pulmonar, como consequência de uma
baixa concentração de O , tem uma função importante de distribuição do 2
fluxo sanguíneo para onde ele for mais eficiente. Ou seja, se alguns
alvéolos estão mal ventilados e apresentem baixas concentrações de O , os 2
vasos locais se contraem. Essa contração faz com que o sangue flua para
outras áreas dos pulmões que estejam mais bem aeradas, gerando sistema
automático de controle para a distribuição do fluxo de sangue para as áreas
pulmonares em proporção às suas pressões de oxigênio alveolar.
EFEITO DOS GRADIENTES DE PRESSÃO
HIDROSTÁTICA NOS PULMÕES SOBRE O FLUXO
SANGUÍNEO REGIONAL PULMONAR
No Capítulo 15, destacou-se que a pressão arterial nos pés de uma pessoa
na posição ereta pode chegar a 90 mmHg ou mais do que a pressão no nível do coração. Essa diferença é causada pela pressão hidrostática — ou seja,
pelo peso do corpo propriamente dito sobre os vasos sanguíneos. O mesmo
efeito, mas, em menor grau, ocorre nos pulmões. No adulto, na posição
ereta, o ponto mais baixo nos pulmões fica normalmente a uns 30 cm do
ponto mais alto, o que representa diferença de pressão de cerca de 23
mmHg, com 15 mmHg acima do coração e 8 mmHg abaixo. Ou seja, a
pressão arterial pulmonar na porção mais superior do pulmão da pessoa em
pé é aproximadamente 15 mmHg menor do que a pressão da artéria
pulmonar no nível do coração, e a pressão na porção mais inferior dos
pulmões é em torno de 8 mmHg maior.
Tais diferenças de pressão têm efeitos profundos sobre o fluxo de sangue,
pelas diferentes áreas dos pulmões. Esse efeito é demonstrado pela curva
inferior na Figura 39-3, que exibe o fluxo de sangue por unidade de tecido
pulmonar em diferentes níveis do pulmão na pessoa em pé. Observe que, na
posição ereta em repouso, existe pouco fluxo no topo do pulmão, mas um
fluxo aproximadamente cinco vezes maior na porção inferior. Para ajudar a
explicar essas diferenças, em geral se descreve o pulmão dividido em três
zonas, como mostrado na Figura 39-4. Em cada zona, os padrões de fluxo
de sangue são bastante diferentes.
Figura 39-3. Fluxo sanguíneo em diferentes níveis do pulmão de uma pessoa em pé em repouso e durante o exercício. Observe que, quando a pessoa está em repouso, o fluxo sanguíneo é muito baixo na parte superior dos pulmões; a maior parte do fluxo ocorre na parte inferior dos pulmões.
Figura 39-4. Mecânica do fluxo de sangue nas três zonas de fluxo sanguíneo dos pulmões: zona 1, sem fluxo — a pressão alveolar (PALV) do ar é maior do que a pressão arterial; zona 2, fluxo intermitente — a pressão arterial sistólica se eleva a níveis mais altos do que a pressão do ar al veo lar, mas a pressão arterial diastólica cai abaixo da pressão do ar al‐ veo lar; e zona 3, fluxo contínuo — a pressão arterial e a pressão capilar pulmonar (Ppc) permanecem maiores do que a pressão do ar alveolar durante todo o tempo.
ZONAS 1, 2 E 3 DE FLUXO SANGUÍNEO
Os capilares, nas paredes alveolares, são distendidos pela pressão arterial
em seu interior, mas, simultaneamente, são comprimidos pela pressão do ar
alveolar sobre suas paredes externas. Portanto, toda vez que a pressão do ar,
no alvéolo pulmonar, for maior do que a pressão capilar pulmonar, os
capilares se fecham, e o fluxo sanguíneo é interrompido. Sob diferentes condições pulmonares, patológicas e normais, pode ser encontrada qualquer
uma das três possíveis zonas (padrões) de fluxo pulmonar:
Zona 1: Ausência de fluxo sanguíneo, durante todas as partes do ciclo
cardíaco, porque a pressão capilar alveolar local, nessa área do pulmão,
nunca se eleva acima da pressão do ar alveolar, em nenhuma parte do ciclo
cardíaco.
Zona 2: Fluxo sanguíneo intermitente, somente durante os picos da
pressão arterial pulmonar, porque a pressão sistólica é superior à pressão do
ar alveolar, mas a pressão diastólica é inferior à pressão do ar alveolar.
Zona 3: Fluxo sanguíneo contínuo, porque a pressão capilar alveolar
permanece mais alta que a pressão do ar alveolar, durante todo o ciclo
cardíaco.
Normalmente, os pulmões só têm as zonas de fluxo sanguíneo 2 e 3 —
zona 2 (fluxo intermediário), nos ápices e zona 3 (fluxo contínuo), em todas
as áreas inferiores. Por exemplo, quando a pessoa está na posição ereta, a
pressão arterial pulmonar, no ápice do pulmão, é, aproximadamente, 15
mmHg menor do que a pressão no nível do coração. Portanto, a pressão
sistólica apical é de apenas 10 mmHg (25 mmHg, no nível cardíaco menos
15 mmHg de diferença da pressão hidrostática). Essa pressão sanguínea
apical de 10 mmHg é superior à pressão alveolar zero, de modo que o
sangue flui, pelos capilares pulmonares apicais, durante a sístole cardíaca.
Inversamente, durante a diástole, a pressão diastólica de 8 mmHg no nível
do coração não é suficiente para empurrar o sangue pelos 15 mmHg do
gradiente de pressão hidrostática, necessários para causar fluxo capilar
diastólico. Portanto, o fluxo sanguíneo pela parte apical dos pulmões é
intermitente, com fluxo durante a sístole, mas com sua interrupção durante
a diástole; essa é chamada zona 2 de fluxo sanguíneo. A zona 2 do fluxo
sanguíneo começa, em pulmões normais, a cerca de 10 cm acima do nível médio do coração e se estende desse ponto até a região superior dos
pulmões.
Nas regiões inferiores dos pulmões, aproximadamente desde 10 cm acima
do nível do coração até a parte inferior dos pulmões, a pressão arterial
pulmonar durante a sístole e a diástole permanece superior à pressão do ar
alveolar zero. Porém, existe um fluxo contínuo pelos capilares alveola res,
ou zona 3 do fluxo sanguíneo. Além disso, quando a pessoa está deitada,
nenhuma parte do pulmão está a mais de alguns centímetros acima do nível
do coração. Nesse caso, o fluxo sanguíneo na pessoa normal é totalmente
zona 3, incluindo os ápices pulmonares.
A Zona 1 de Fluxo Sanguíneo Ocorre Somente sob Condições
Anormais. A zona 1 de fluxo sanguíneo, que representa a ausência de
fluxo durante todo o ciclo car día co, ocorre quando a pressão arterial
sistólica pulmonar é muito baixa ou quando a pressão alveolar é muito alta
para permitir o fluxo. Por exemplo, se a pessoa em pé está respirando contra
pressão de ar positiva de modo que a pressão do ar intra-alveolar seja pelo
menos 10 mmHg acima do normal, mas a pressão sistólica do sangue
pulmonar é normal, pode-se esperar uma zona 1 de fluxo sanguíneo —
ausência de fluxo sanguíneo — nos ápices pulmonares. Outro exemplo, no
qual a zona 1 de fluxo sanguíneo ocorre, é a pessoa na posição ereta, cuja
pressão sistólica arterial pulmonar seja extremamente baixa, como pode
acontecer após grave perda sanguínea.
O Exercício Aumenta o Fluxo Sanguíneo por Todas as Partes
dos Pulmões. Novamente com referência à Figura 39-3, observa-se que
o fluxo sanguíneo, em todas as partes dos pulmões, eleva durante o
exercício. Uma razão importante do aumento no fluxo sanguíneo é que as
pressões vasculares pulmonares se elevam, suficientemente, durante o exercício, para converter os ápices pulmonares de padrão zona 2 para
padrão de fluxo zona 3.
DÉBITO CARDÍACO AUMENTADO DURANTE EXERCÍCIO
INTENSO É NORMALMENTE ACOMODADO PELA
CIRCULAÇÃO PULMONAR SEM GRANDES
ACRÉSCIMOS NA PRESSÃO ARTERIAL PULMONAR
Durante o exercício intenso, o fluxo sanguíneo pelos pulmões pode
aumentar de 4 a 7 vezes. Esse fluxo extra é acomodado, nos pulmões, por
três maneiras: (1) aumentando o número de capilares abertos, podendo
chegar a até três vezes; (2) pela distensão de todos os capilares e pela
elevação da velocidade de fluxo, por cada capilar por mais de duas vezes; e
(3) aumentando a pressão arterial pulmonar. Normalmente, as duas
primeiras alterações diminuem a resistência vascular pulmonar de modo
que a pressão arterial pulmonar se eleva muito pouco, mesmo durante
exercício intenso. Esse efeito está demonstrado na Figura 39-5.
A capacidade dos pulmões de acomodarem fluxo sanguíneo muito
aumentado durante o exercício, sem elevar a pressão arterial pulmonar,
conserva a energia do lado direito do coração. Essa capacidade também
previne contra elevação significativa da pressão capilar pulmonar e o
desenvolvimento de edema pulmonar.
Figura 39-5. Efeito sobre a pressão arterial pulmonar média, causado pela elevação do débito cardíaco durante o exercício.
FUNÇÃO DA CIRCULAÇÃO PULMONAR QUANDO A
PRESSÃO ATRIAL ESQUERDA SE ELEVA COMO
RESULTADO DE INSUFICIÊNCIA CARDÍACA ESQUERDA
A pressão atrial esquerda, na pessoa saudável, quase nunca se eleva acima
dos +6 mmHg, mesmo durante o exercício mais vigoroso. Essas pequenas
alterações da pressão atrial esquerda não têm efeito significativo sobre a
circulação pulmo nar, pois isso meramente expande as vênulas pulmonares e
abre mais capilares, de modo que o sangue continua a fluir com facilidade
quase igual à encontrada nas artérias pulmonares.
Entretanto, quando o lado esquerdo do coração falha, o sangue começa a
se acumular no átrio esquerdo. Consequentemente, a pressão do átrio
esquerdo pode se elevar de seu valor normal, entre 1 e 5 mmHg, até valores
de 40 a 50 mmHg. A elevação inicial da pressão atrial até cerca de 7 mmHg
tem pouco efeito sobre a circulação pulmonar. Contudo, quando a pressão atrial esquerda se eleva acima de 7 ou 8 mmHg, maiores elevações da