Tratado de Fisiologia Médica
Secreção Pancreática
Gastrina, colecistocinina (CCK) e secretina são polipeptídeos com pesos
moleculares de 2.000, 4.200 e 3.400, respecti vamente. Os cinco aminoácidos
terminais nas cadeias moleculares da gastrina e da CCK são os mesmos. A
atividade funcional da gastrina reside nos quatro aminoácidos terminais, e a
atividade da CCK reside nos oito aminoácidos terminais. Todos os aminoácidos da
molécula de secretina são essenciais.
Gastrina sintética, composta dos quatro aminoácidos terminais da gastrina
natural, mais o aminoácido alanina, tem as mesmas propriedades fisiológicas da
gastrina natural. Esse produto sintético é denominado pentagastrina.
SECREÇÃO PANCREÁTICA
O pâncreas, localizado sob o estômago (ilustrado na Figura 65-10), é
grande glândula composta, com a maior parte de sua estrutura semelhante à
das glândulas salivares mostradas na Figura 65-2. As enzimas digestivas
pancreáticas são secretadas pelos ácinos pancreáticos, e grandes volumes
de solução de bicarbonato de sódio são secretados pelos ductos pequenos e
maiores que começam nos ácinos. O produto combinado de enzimas e
bicarbonato de sódio flui, então, pelo longo ducto pancreático, que
normalmente drena para o ducto hepático, imediatamente, antes de se
esvaziar no duodeno pela papila de Vater, envolta pelo esfíncter de Oddi.
O suco pancreático é secretado de modo mais abundante, em resposta à
presença de quimo nas porções superiores do intestino delgado e as
características do suco pancreático são determinadas, até certo ponto, pelos
tipos de alimento no quimo. (O pâncreas secreta ainda insulina, mas essa
não é secretada pelo mesmo tecido pancreático que secreta o suco
pancreático. Em vez disso, o hormônio é secretado para o sangue — não
para o intestino — pelas ilhotas de Langerhans, dispersas por todo o
pâncreas. Estas estruturas são discutidas em detalhes no Capítulo 79.)
ENZIMAS DIGESTIVAS PANCREÁTICAS
A secreção pancreática contém múltiplas enzimas para digerir todos os três
principais grupos de alimentos: proteí nas, carboidratos e gorduras. Contém
ainda grande quantidade de íons bicarbonato que contribuem de modo
muito importante para a neutralização da acidez do quimo transportado do
estômago para o duodeno.
As mais importantes das enzimas pancreáticas na digestão de proteínas
são a tripsina, a quimotripsina e a carboxipolipeptidase. A mais abundante
é a tripsina.
A tripsina e a quimotripsina hidrolisam proteínas a peptídeos de tamanhos
variados, sem levar à liberação de aminoácidos individuais. Entretanto, a
carboxipolipeptidase cliva alguns peptídeos, até aminoácidos individuais,
completando assim a digestão de algumas proteínas até aminoácidos.
A enzima pancreática para a digestão de carboidratos é a amilase
pancreática, que hidrolisa amidos, glicogênio e outros carboidratos (exceto
celulose), para formar principalmente dissacarídeos e alguns trissacarídeos.
As principais enzimas para digestão das gorduras são (1) a lipase
pancreática, capaz de hidrolisar gorduras neutras a ácidos graxos e
monoglicerídeos; (2) a colesterol esterase, que hidrolisa ésteres de
colesterol; e (3) a fosfolipase, que cliva os ácidos graxos dos fosfolipídios.
Quando sintetizadas nas células pancreáticas, as enzimas digestivas
proteolíticas estão em formas enzimáticas inativas tripsinogênio,
quimotripsinogênio e procarboxipolipeptidase. Elas são ativadas somente
após serem secretadas no trato intestinal. O tripsinogênio é ativado pela
enzima denominada enterocinase, secretada pela mucosa intestinal, quando
o quimo entra em contato com a mucosa. Além disso, o tripsinogênio pode
ser ativado, autocataliticamente, pela própria tripsina já formada. O
quimotripsinogênio é ativado pela tripsina para formar quimotripsina, e a
procarboxipolipetidase é ativada de maneira semelhante.
A Secreção do Inibidor da Tripsina Previne a Digestão do
Pâncreas. É importante que as enzimas proteolíticas do suco pancreático
não fiquem ativadas até depois de chegarem ao intestino, pois a tripsina e as
outras enzimas poderiam digerir o próprio pâncreas. Felizmente, as mesmas
células que secretam enzimas proteolíticas no ácino do pâncreas secretam
simultaneamente outra substância, denominada inibidor de tripsina. Essa
substância é formada no citoplasma das células glandulares e inativa a
tripsina, ainda nas células secretoras, nos ácinos e nos ductos do pâncreas.
Alem disso, já que é a tripsina que ativa as outras enzimas proteolíticas
pancreáticas, o inibidor da tripsina evita também sua ativação.
Quando o pâncreas é lesado gravemente ou quando ocorre bloqueio do
ducto, grande quantidade de secreção pancreática, às vezes, se acumula nas
áreas comprometidas do pâncreas. Nessas condições, o efeito do inibidor de
tripsina é insuficiente, situação em que as secreções pancreáticas ficam
ativas e podem digerir todo o pâncreas, em questão de poucas horas,
levando à condição denominada pancreatite aguda. Esse distúrbio, por
vezes, é letal em razão do consequente choque circulatório; se não for letal,
em geral, leva à insuficiência pancreática crônica subsequente.
SECREÇÃO DE ÍONS BICARBONATO
Embora as enzimas do suco pancreático sejam secretadas em sua totalidade
pelos ácinos das glândulas pancreáticas, os outros dois componentes
importantes do suco pancreá tico, íons bicarbonato e água, são secretados
basicamente pelas células epiteliais dos ductos que se originam nos ácinos.
Quando o pâncreas é estimulado a secretar quantidade abundante de suco
pancreático, a concentração dos íons bicarbonato pode atingir 145 mEq/L,
valor cinco vezes maior que a concentração do íon no plasma. Com essa
concentração elevada, provê grande quantidade de álcali no suco pancreático, que serve para neutralizar o ácido clorídrico no duodeno, vindo
do estômago.
As etapas básicas do mecanismo celular da secreção da solução de íons
bicarbonato nos ductos pancreáticos, mostradas na Figura 65-8 são os
seguintes:
1. O dióxido de carbono se difunde para as células a partir do sangue e,
sob a influência da anidrase carbônica, combina-se com a água para
formar ácido carbônico (H CO ). O ácido carbônico, por sua vez, 2 3
dissocia-se em íons bicarbonato e íons hidrogênio (HCO − + e H). Os 3
íons bicarbonato adicionais entram na célula através da membrana
basolateral mediante cotransporte com íons sódio (Na +). Os íons
bicarbonato são trocados posteriormente por íons cloreto (Cl −) por meio
de transporte ativo secundário, através da membrana luminal da célula
para o lúmen do ducto. O cloreto que penetra na célula é reciclado no
lúmen, mediante canais de cloreto especiais.
2. Os íons hidrogênio formados por dissociação do ácido carbônico na
célula são trocados por íons sódio na membrana basolateral da célula.
Os íons sódio entram também na célula mediante cotransporte com
bicarbonato através da membrana basolateral. Os íons sódio são então
transportados através da borda luminal para dentro do lúmen do ducto
pancreático. A voltagem negativa do lúmen também impulsiona os íons
sódio com carga positiva através das uniões estreitas entre as células.
3. O movimento global de íons sódio e bicarbonato do sangue para o
lúmen do ducto cria gradiente de pressão osmótica que causa fluxo de
água também para o ducto pancreático, formando, assim, solução de
bicarbonato quase isosmótica.
Figura 65-8. Secreção de solução isosmótica de bicarbonato de sódio pelos dúctulos e ductos pancreáticos. CA, anidrase carbônica.
REGULAÇÃO DA SECREÇÃO PANCREÁTICA
Estímulos Básicos que Causam Secreção Pancreática
Três estímulos básicos são importantes na secreção pancreática:
1. Acetilcolina, liberada pelas terminações do nervo vago parassimpático e
por outros nervos colinérgicos para o sistema nervoso entérico.
2. Colecistocinina, secretada pela mucosa duodenal e do jejuno superior,
quando o alimento entra no intestino delgado.
3. Secretina, também secretada pelas mucosas duodenal e jejunal, quando
alimentos muito ácidos entram no intestino delgado.
Os dois primeiros desses estímulos, acetilcolina e colecistocinina,
estimulam as células acinares do pâncreas, levando à produção de grande
quantidade de enzimas digestivas pancreáticas, mas quantidades
relativamente pequenas de água e eletrólitos vão com as enzimas. Sem a
água, a maior parte das enzimas se mantém temporariamente armazenada
nos ácinos e nos ductos até que uma secreção mais fluida apareça para lavá-
las dentro do duodeno. A secretina, em contrapartida, estimula a secreção
de grandes volumes de solução aquosa de bicarbonato de sódio pelo epitélio
do ducto pancreático.
Efeitos Multiplicativos de Diferentes Estímulos. Quando todos os
diferentes estímulos da secreção pancreá tica agem ao mesmo tempo, a
secreção total é bem maior do que a soma das secreções ocasionadas por
cada um deles, separadamente. Por isso, considera-se que os diversos
estímulos “multiplicam” ou “potencializam” uns aos outros. Desse modo, a
secreção pancreática normalmente resulta de efeitos combinados de
múltiplos estímulos básicos, e não apenas de um só.
Fases da Secreção Pancreática
A secreção pancreática, semelhante à secreção gástrica, ocorre em três
fases: cefálica, gástrica e intestinal. Suas características são descritas nas
seções seguintes.
Fases Cefálica e Gástrica. Durante a fase cefálica da secreção
pancreática, os mesmos sinais nervosos do cérebro que causam a secreção
do estômago também provocam liberação de acetilcolina pelos terminais do
nervo vago no pâncreas. Essa sinalização faz com que quantidade moderada
de enzimas seja secretada nos ácinos pancreáticos, respondendo por cerca de 20% da secreção total de enzimas pancreáticas, após refeição.
Entretanto, pouco da secreção flui imediatamente pelos ductos pancreáticos
para o intestino, porque somente quantidade pequena de água e eletrólitos é
secretada com as enzimas.
Durante a fase gástrica, a estimulação nervosa da secreção enzimática
prossegue, representando outros 5% a 10% das enzimas pancreáticas
secretadas após refeição. No entanto, mais uma vez, somente pequena
quantidade chega ao duodeno devido à falta continuada de secreção
significativa de líquido.
Fase Intestinal. Depois que o quimo deixa o estômago e entra no
intestino delgado, a secreção pancreática fica abundante, basicamente, em
resposta ao hormônio secretina.
A Secretina Estimula a Secreção Abundante de Íons
Bicarbonato, que Neutralizam o Quimo Gástrico Ácido. A
secretina é um polipeptídeo com 27 aminoácidos (com um peso molecular
em torno de 3.400). Está presente em forma inativa, pró-secretina, nas
chamadas células S, na mucosa do duodeno e do jejuno. Quando o quimo
ácido com pH menor que 4,5 a 5,0 entra no duodeno vindo do estômago,
causa ativação e liberação de secretina pela mucosa duodenal para o
sangue. O único constituinte, verdadeiramente potente do quimo, que
ocasiona essa liberação de secretina é o ácido clorídrico.
A secretina, por sua vez, faz com que o pâncreas secrete grandes
quantidades de líquido contendo concentração elevada de íons bicarbonato
(até 145 mEq/L), mas concentração reduzida de íons cloreto. O mecanismo
da secretina é importante por duas razões: primeiro, a secretina começa a
ser liberada pela mucosa do intestino delgado, quando o pH do conteúdo
duodenal cai abaixo de 4,5 a 5,0, e sua liberação aumenta bastante quando o
pH diminui para 3,0. Esse mecanismo prontamente à secreção abundante de suco pancreático contém grande quantidade de bicarbonato de sódio. O
resultado final é, então, a seguinte reação no duodeno:
HCl + + NaHCO → NaCl H CO 3 23
O ácido carbônico se dissocia imediatamente em dióxido de carbono e
água. O dióxido de carbono é transferido para o sangue e expirado pelos
pulmões, deixando, assim, solução neutra de cloreto de sódio no duodeno.
Dessa forma, o conteúdo ácido vindo do estômago para o duodeno é
neutralizado, de maneira que a atividade digestiva peptídica, adicional pelos
sucos gástricos no duodeno, é imediatamente bloqueada. Como a mucosa
do intestino delgado não tem proteção contra a ação do suco gástrico ácido,
o mecanismo de neutralização do ácido é essencial para evitar o
desenvolvimento de úlceras duodenais, como discutido em detalhes
no Capítulo 67.
A secreção de íons bicarbonato pelo pâncreas estabelece o pH apropriado
para a ação das enzimas digestivas pancreáticas, que operam em meio
ligeiramente alcalino ou neutro no pH de 7,0 a 8,0. O pH da secreção de
bicarbonato de sódio é, em média, de 8,0.
Colecistocinina Contribui para o Controle da Secreção de
Enzimas Digestivas pelo Pâncreas. A presença de alimento no
intestino delgado superior também faz com que um segundo hormônio, a
colecistocinina (CCK), polipeptídeo contendo 33 aminoácidos, seja liberado
por outro grupo de células, as células I, da mucosa do duodeno e do jejuno
superior. Essa liberação de CCK é estimulada pela presença de proteoses e
peptonas (produtos da digestão parcial de proteínas) e ácidos graxos de
cadeia longa, no quimo que vem do estômago.
A CCK, assim como a secretina, chega ao pâncreas pela circulação
sanguínea, mas, em vez de estimular a secreção de bicarbonato de sódio,
provoca principalmente a secreção de ainda mais enzimas digestivas pancreáticas pelas células acinares. É efeito semelhante ao causado pela
estimulação vagal, porém mais pronunciado, respondendo por 70% a 80%
da secreção total das enzimas digestivas pancreáticas após refeição.
As diferenças entre os efeitos estimuladores pancreáticos da secretina e da
CCK são apresentadas na Figura 65-9, que demonstra (1) a intensa
secreção de bicarbonato de sódio, em resposta ao ácido no duodeno
estimulada pela secretina; (2) o duplo efeito em resposta à gordura; e (3) a
secreção intensa de enzimas digestivas (quando peptonas entram no
duodeno), estimulada pela CCK.
A Figura 65-10 resume os fatores mais importantes da regulação da
secreção pancreática. A quantidade total secretada por dia fica em torno de
1 litro.
Figura 65-9. Secreção de bicarbonato de sódio (NaHCO3), água e enzimas pelo pâncreas, causada pela presença de soluções de ácido (HCl), gorduras ou peptonas no duodeno.