Tratado de Fisiologia Médica
Receptores Sensoriais Musculares — Fusos Musculares e Órgãos Tendinosos de Golgi — e suas Funções no Controle Muscular
espinal, em íntima associação aos neurônios motores, encontra-se grande
número de neurônios pequenos, chamados células de Renshaw. Nas
proximidades do corpo celular, saem ramos colaterais dos axônios dos neurônios
motores anteriores, que se projetam para as células de Renshaw. Essas são
células inibitórias que transmitem sinais inibitórios para os neurônios motores
circunjacentes. Assim, a estimulação de cada neurônio motor tende a inibir os
neurônios motores adjacentes, efeito que é chamado inibição lateral. Esse efeito é
importante pelo motivo principal, descrito a seguir: o sistema motor usa essa
inibição lateral para focalizar ou ressaltar seus sinais, da mesma forma como os
sistemas sensoriais utilizam esse mesmo princípio para possibilitar a transmissão
não atenuada do sinal primário, na direção desejada, enquanto suprime a
tendência de os sinais se espalharem lateralmente.
Conexões Multissegmentares de Um dado Nível da Medula Espinal para
Outros Níveis — Fibras Proprioespinais. Mais da metade das fibras nervosas
ascendentes e descendentes, na medula espinal, são fibras proprioespinais.
Essas fibras trafegam de um segmento a outro da medula. Além disso, as fibras
sensoriais entram na medula pelas raízes posteriores, bifurcam-se e enviam
ramificações ascendentes e descendentes para a medula espinal; algumas
dessas ramificações transmitem sinais para apenas um ou dois segmentos,
enquanto outras transmitem sinais para muitos segmentos. Essas fibras
proprioespinais ascendentes e descendentes são as vias utilizadas nos reflexos
multissegmentares, descritos mais adiante neste Capítulo, incluindo os reflexos
que coordenam os movimentos simultâneos dos membros superiores e inferiores.
RECEPTORES SENSORIAIS MUSCULARES — FUSOS
MUSCULARES E ÓRGÃOS TENDINOSOS DE GOLGI — E
SUAS FUNÇÕES NO CONTROLE MUSCULAR
O controle adequado da função muscular requer não apenas a excitação do
músculo pelos neurônios motores anteriores da medula espinal, mas
também o feedback contínuo da informação sensorial de cada músculo para
a medula espinal, indicando o estado funcional do músculo a cada instante;
isto é, qual é o comprimento do músculo, qual é a tensão instantânea e qual
é a velocidade de variação de seu comprimento ou tensão? Para fornecer
essas informações, os músculos e seus tendões são supridos abundantemente com dois tipos especiais de receptores sensoriais: (1) os
fusos musculares (Figura 55-2), distribuídos no ventre do músculo,
enviando informações para o sistema nervoso sobre o comprimento do
músculo ou a velocidade de variação do seu comprimento; e (2) os órgãos
tendinosos de Golgi (Figuras 55-2 e 55-8), localizados nos tendões
musculares, transmitindo informação sobre a tensão do tendão ou a
velocidade de alteração da tensão do músculo.
Os sinais desses dois receptores são quase inteiramente direcionados para
o controle intrínseco do músculo. Eles operam, de forma quase completa,
em nível subconsciente. Mesmo assim, transmitem enorme quantidade de
informação não somente para a medula espinal, mas também para o
cerebelo e mesmo para o córtex cerebral, auxiliando cada uma dessas
regiões do sistema nervoso no controle da contração muscular.
FUNÇÃO RECEPTORA DO FUSO MUSCULAR
Inervação Motora e Estrutura do Fuso Muscular. A organi zação do
fuso muscular é mostrada na Figura 55-3. Cada fuso tem de 3 a 10
milímetros de comprimento. É constituído por três a 12 fibras intrafusais
muito delgadas que são pontia gudas em suas extremidades e ligadas ao
glicocálice das fibras grandes e circunjacentes musculares esqueléticas
extrafusais.
Cada fibra muscular intrafusal é a fibra muscular esquelética muito
pequena. Entretanto, a região central de cada uma dessas fibras — isto é, a
área mediana entre as duas extremidades — tem (quase ou nunca)
filamentos de actina e miosina. Portanto, essa porção central não se contrai,
quando as extremidades se contraem. Em vez disso, ela funciona como
receptor sensorial, como descrito adiante. As porções terminais que se
contraem são excitadas pelas pequenas fibras nervosas motoras gama que
se originam dos pequenos neurônios motores tipo A gama, localizados no corno anterior da medula espinal, como descrito anteriormente. Essas fibras
nervosas motoras gama são também chamadas fibras eferentes gama, em
contraposição às grandes fibras eferentes alfa (fibras nervosas tipo A alfa)
que inervam os músculos esqueléticos extrafusais.
Inervação Sensorial do Fuso Muscular. A porção receptora do fuso
muscular é a porção central. Nessa região, as fibras musculares intrafusais
não apresentam os elementos contráteis actina e miosina. Como mostrado
na Figura 55-3 e, em mais detalhes na Figura 55-4, as fibras sensoriais se
originam nessa região, e a sua estimulação ocorre pelo estiramento da
região central do fuso. Pode-se observar facilmente que o receptor do fuso
muscular pode ser excitado de duas maneiras:
1. Com o aumento do comprimento do músculo, ocorre o estiramento da
região central do fuso e, portanto, excita o receptor.
2. Mesmo que o comprimento do músculo não se altere, a contração das
regiões terminais das fibras intrafusais do fuso provocam o estiramento
da região central do fuso e, portanto, excitam o receptor.
São encontrados dois tipos de terminações sensoriais nessa região central
do fuso muscular, as terminações ou receptores aferentes primários e as
terminações ou receptores aferentes secundários.
Figura 55-4. Detalhes das conexões neurais das fibras dos fusos musculares com saco nuclear e cadeia nuclear. (Modificada de Stein RB: Peripheral control of movement. Physiol Rev 54:225, 1974.)
Receptores Primários. No centro da área receptora, grande fibra
nervosa sensorial envolve a parte central de cada fibra intrafusal, formando
a chamada terminação ou receptor aferente primário ou receptor
anulospiral. Essa fibra nervosa é do tipo Ia, com aproximadamente 17
micrômetros de diâmetro, e transmite sinais sensoriais para a medula
espinal na velocidade de 70 a 120 m/s, tão rápida como qualquer outro tipo
de fibra nervosa encontrada em nosso corpo.
Receptores Secundários. Em geral, fibra nervosa sensorial menor,
algumas vezes são duas fibras — fibras tipo II com diâmetro médio de 8
micrômetros — inerva a região receptora em um ou em ambos os lados da
terminação primária, como mostrado nas Figuras 55-3 e 55-4. Essa
terminação sensorial é chamada terminação ou receptor aferente
secundário; às vezes, ela envolve as fibras intrafusais do mesmo modo que
as fibras tipo Ia, mas, em geral, ela se espalha como os ramos de um
arbusto.
Divisão das Fibras Intrafusais em Fibras com Cadeia Nuclear e
Fibras com Saco Nuclear — Respostas Estáticas e Dinâmicas
do Fuso Muscular. Existem também dois tipos de fibras intrafusais no
fuso muscular: (1) fibras musculares com saco nuclear (de uma a três em
cada fuso), onde muitos núcleos da fibra muscular estão reunidos em
“sacos” expandidos na região central da área receptora, como mostrado
pelas fibras na parte superior da Figura 55-4; e (2) fibras com cadeia
nuclear (de três a nove), que têm metade do diâmetro e metade do
comprimento das fibras com saco nuclear e apresentam os núcleos
alinhados em cadeia pela área receptora, como mostrado pelas fibras na
parte inferior da figura. As terminações nervosas sensoriais primárias (fibra
sensorial de 17 micrômetros) são excitadas, tanto pelas fibras intrafusais com saco nuclear quanto pelas fibras com cadeia nuclear. Ao contrário, as
terminações secundárias (fibra sensorial de 8 micrômetros) são, em geral,
excitadas somente pelas fibras com cadeia nuclear. Essas relações estão
apresentadas na Figura 55-4.
Resposta de Ambas as Terminações Primárias e Secundárias
ao Comprimento do Receptor — Resposta “Estática”. Quando a
região receptora do fuso muscular é estirada lentamente, o número de
impulsos, transmitidos pelas duas terminações primária e secundária
aumenta quase em proporção direta em relação ao grau de estiramento, e as
terminações continuam a transmitir esses impulsos por vários minutos. Esse
efeito é chamado resposta estática dos receptores do fuso, significando que
ambas as terminações, primárias e secundárias, continuam a transmitir seus
sinais por, no mínimo, vários minutos, se o fuso muscular permanecer
estirado.
Resposta da Terminação Primária (mas Não da Terminação
Secundária) à Velocidade de Mudança do Comprimento do
Receptor — Resposta “Dinâmica”. Quando o comprimento do fuso
aumenta rapidamente, a terminação primária (mas não a terminação
secundária) é fortemente estimulada. Esse estímulo da terminação primária
é chamado resposta dinâmica, o que significa que a terminação primária
responde, muito ativamente, à rápida velocidade de alteração do
comprimento do fuso. Mesmo quando o comprimento do fuso aumenta
somente por fração de micrômetro por apenas fração de segundo, o receptor
primário transmite enorme quantidade de impulsos em excesso para as
grandes fibras sensoriais de 17 micrômetros, mas somente enquanto o
comprimento está realmente aumentando. Tão logo o comprimento para de
aumentar, essa frequência de descarga de impulsos extra retorna para o
nível muito menor da resposta estática que ainda está presente no sinal.
Ao contrário, quando o fuso encurta, ocorrem sinais sensoriais exatamente
opostos. Assim, as terminações primárias enviam sinais, bastante intensos,
positivos ou negativos, para a medula espinal, de modo a informá-la de
qualquer alteração no comprimento do fuso muscular.
Controle da Intensidade das Respostas Estática e Dinâmica
pelos Nervos Motores Gama. Os nervos motores gama que inervam os
fusos musculares, podem ser divididos em dois tipos: gama-dinâmico
(gama-d) e gama-estático (gama-e). O primeiro desses nervos motores
gama excita, em sua maioria, as fibras intrafusais com saco nuclear, e o
segundo excita principalmente as fibras intrafusais com cadeia nuclear.
Quando as fibras gama-d excitam as fibras com saco nuclear, a resposta
dinâmica do fuso muscular fica muito aumentada, enquanto a resposta
estática é dificilmente afetada. Ao contrário, a estimulação das fibras gama-
e, que excitam as fibras com cadeia nuclear, aumenta a resposta estática,
enquanto há pouca influência sobre a resposta dinâmica. Os parágrafos
subsequentes mostram que esses dois tipos de respostas dos fusos
musculares são importantes nos diferentes tipos de controle muscular.
Descarga Contínua dos Fusos Musculares Sob Condições
Normais. Nas condições normais, quando ocorre algum grau de excitação
gama, os fusos musculares emitem impulsos nervosos sensoriais
continuamente. O estiramento dos fusos musculares aumenta a frequência
dos disparos, enquanto o encurtamento do fuso reduz essa frequência.
Assim, os fusos podem enviar, para a medula espinal, tanto sinais positivos
— quantidades aumentadas de impulsos, indicando o estiramento do
músculo — quanto sinais negativos — quantidades reduzidas de impulsos,
indicando que o músculo não está estirado.
REFLEXO DE ESTIRAMENTO MUSCULAR
A manifestação mais simples da função do fuso muscular é o reflexo de
estiramento muscular. Sempre que um músculo é rapidamente estendido, a
excitação dos fusos causa a contração reflexa das fibras musculares
esqueléticas grandes (extrafusais) do próprio músculo estirado e, também,
dos músculos sinérgicos estreitamente relacionados.
Circuitaria Neuronal do Reflexo de Estiramento. A Figura 55-5
demonstra o circuito básico do reflexo de estiramento do fuso muscular,
mostrando fibra nervosa proprioceptiva tipo Ia originando-se em fuso
muscular e entrando pela raiz dorsal da medula espinal. A ramificação desta
fibra, então, segue para o corno anterior da substância cinzenta da medula,
fazendo sinapse diretamente com os neurônios motores anteriores que
enviam fibras nervosas motoras para o mesmo músculo, de onde as fibras
do fuso muscular se originaram. Assim, essa via monossináptica possibilita
que o sinal reflexo retorne ao músculo, com o menor atraso possível, após a
excitação do fuso. A maioria das fibras tipo II do fuso muscular termina em
interneurônios múltiplos, na substância cinzenta da medula espinal, e eles
transmitem sinais com retardo para os neurônios motores anteriores, ou se
prestam a outras funções.
Figura 55-5. Circuito neuronal do reflexo de estiramento.
Reflexo de Estiramento Dinâmico e Reflexos de Estiramento
Estático. O reflexo de estiramento pode ser dividido em dois
componentes: o reflexo de estiramento dinâmico e o reflexo de estiramento
estático. O reflexo de estiramento dinâmico é provocado por sinais
dinâmicos potentes, transmitidos a partir das terminações sensoriais
primárias dos fusos musculares, causados pelo estiramento ou encurtamento
rápidos. Isto é, quando o músculo é rapidamente estirado ou encurtado,
forte sinal é transmitido para a medula espinal, o que produz contração
reflexa forte e instantânea (ou redução da contração) do mesmo músculo no
qual o sinal teve origem. Assim, o reflexo se opõe às alterações rápidas do
comprimento do músculo.
O reflexo de estiramento dinâmico termina em fração de segundo, após o
músculo ter sido estendido (ou encurtado) para seu novo comprimento, mas então o reflexo de estiramento estático, mais fraco, continua por período
prolongado. Esse reflexo é provocado pelos sinais contínuos dos receptores
estáticos, transmitidos por ambas as terminações, primária e secundária. A
importância desse reflexo de estiramento estático reside no fato de ele
manter o grau de contração muscular razoavelmente constante, exceto
quando o sistema nervoso da pessoa determina que seja diferente.
Função de “Amortecimento” dos Reflexos de Estiramento
Dinâmico e Estático na Suavização da Contração do Músculo
Liso. Uma função especialmente importante do reflexo de estiramento é a
sua capacidade de impedir oscilações ou sacudidas nos movimentos do
corpo, que é uma função de amortecimento ou alisamento.
Os sinais da medula espinal são transmitidos para o músculo, geralmente
em forma não uniforme, aumentando em intensidade em poucos
milissegundos e, em seguida, diminuindo em intensidade, mudando então
para outro nível de intensidade, e assim por diante. Quando o sistema do
fuso muscular não está funcionando satisfatoriamente, a contração muscular
é brusca, durante o curso de tal sinal. Esse efeito está demonstrado na
Figura 55-6. Na curva A, o reflexo do fuso muscular do músculo excitado
está intacto. Note que a contração é relativamente suave, mesmo que o
nervo motor que inerva o músculo seja excitado na baixa frequência de
apenas oito sinais por segundo. A curva B ilustra o mesmo experimento em
animal cujos nervos sensoriais do fuso muscular foram seccionados 3 meses
antes. Note que a contração muscular não é uniforme. Assim, a curva A
demonstra, graficamente, a capacidade do mecanismo de amortecimento de
suavizar as contrações musculares, mesmo que os sinais aferentes primários
para o sistema motor possam ser, eles mesmos, bruscos. Esse efeito pode
ser chamado também de função de tirar a média do sinal do reflexo do fuso
muscular.
Figura 55-6. Contração muscular provocada por sinal da medula espinal sob duas condições: curva A, no músculo normal, e curva B, em músculo cujos fusos musculares foram desnervados pela secção das raízes posteriores da medula espinal há 82 dias. Note o efeito uniformizador do reflexo do fuso muscular na curva A. (Modificada de Creed RS, Denney-Brown D, Eccles JC, et al: Reflex Activity of the Spinal Cord. New York: Oxford University Press, 1932.)
FUNÇÃO DO FUSO MUSCULAR NA ATIVIDADE MOTORA
VOLUNTÁRIA
Para entender a importância do sistema eferente gama, deve-se reconhecer
que 31% de todas as fibras nervosas motoras para o músculo são finas
fibras motoras eferentes do tipo A gama, em vez de fibras motoras tipo A
alfa. Sempre que os sinais são transmitidos do córtex motor ou de qualquer
outra área do encéfalo para os neurônios motores alfa, na maioria das vezes,
os neurônios motores gama são estimulados simultaneamente, efeito
chamado coativação dos neurônios motores alfa e gama. Esse efeito faz
com que tanto as fibras musculoesqueléticas extrafusais como as fibras
musculoesqueléticas intrafusais do fuso muscular se contraiam ao mesmo
tempo.
O propósito de contrair as fibras musculares intrafusais ao mesmo tempo
que as fibras musculoesqueléticas extrafusais são dois: primeiro, para impedir a alteração do comprimento da porção receptora do fuso muscular,
durante o curso de contração muscular. Portanto, a coativação impede que o
reflexo do fuso muscular se oponha à contração muscular. Segundo, para
manter adequada a função de amortecimento do fuso muscular,
independente de qualquer alteração no comprimento do músculo. Por
exemplo, se o fuso muscular não contraísse e relaxasse, junto com as fibras
musculares extrafusais, a porção receptora do fuso poderia algumas vezes
ficar flácida, em outras, superestirada, e, em nenhuma das condições,
operando sob condições ideais para a função do fuso.
Áreas Encefálicas Envolvidas no Controle do Sistema
Motor Gama
O sistema eferente gama é estimulado de modo específico por sinais
provenientes da região facilitatória bulborreticular do tronco cerebral e,
secundariamente, por impulsos transmitidos para a área bulborreticular do
(1) cerebelo; (2) gânglios da base; e (3) córtex cerebral.
Pouco se sabe sobre os mecanismos precisos de controle do sistema
eferente gama. Entretanto, como a área facilitatória bulborreticular está
particularmente relacionada às contrações antigravitacionais e como os
músculos antigravitacionais têm densidade especialmente alta de fusos
musculares, é dada ênfase à importância do mecanismo eferente gama, no
amortecimento dos movimentos de diferentes partes do corpo, durante a
caminhada e a corrida.
Sistema Do Fuso Muscular Estabiliza A Posição Do Corpo
Durante Uma Ação Tensa. Uma das funções mais importantes do
sistema do fuso muscular é a de estabilizar a posição do corpo, durante
qualquer ação motora tensa. Para realizar essa função, a região facilitatória
bulborreticular e as áreas relacionadas do tronco cerebral transmitem sinais excitatórios pelas fibras nervosas gama para as fibras musculares intrafusais
dos fusos musculares. Essa ação encurta as terminações dos fusos e estira as
regiões receptoras centrais, aumentando assim seu sinal de saída.
Entretanto, se os fusos de ambos os lados de cada articulação são ativados
ao mesmo tempo, a excitação reflexa dos músculos esqueléticos de ambos
os lados da articulação também aumenta, produzindo músculos tensos e
firmes, opostos em cada lado da articulação. O resultado final é que a
posição da articulação fica fortemente estabilizada, e qualquer força que
tenda a mover a articulação de sua posição atual é antagonizada pelos
reflexos de estiramento, altamente sensibilizados, que operam em ambos os
lados da articulação.
Em qualquer momento que a pessoa necessite realizar função muscular
que requeira posicionamento extremamente delicado e exato, a excitação
dos fusos musculares apropriados pelos sinais provenientes da região
facilitatória bulborreticular do tronco cerebral estabiliza as posições das
principais articulações. Essa estabilização auxilia extremamente na
realização dos movimentos voluntários detalhados adicionais (dos dedos ou
de outras partes do corpo), necessários para os procedimentos motores
complexos.
Aplicações Clínicas do Reflexo de Estiramento
Quase todas as vezes que o médico faz exame físico do paciente, ele provoca
reflexos de estiramento múltiplos. O objetivo é determinar quanto de excitação
basal, ou “tônus”, o encéfalo está enviando para a medula espinal. Esse reflexo é provocado como descrito a seguir.
Reflexo Patelar e Outros Abalos Musculares Podem Ser Usados para
Avaliar a Sensibilidade dos Reflexos de Estiramento. Clinicamente, o método usado para determinar a sensibilidade dos reflexos de estiramento é provocar o
reflexo patelar e outros abalos musculares. O reflexo patelar pode ser induzido
pela percussão do tendão patelar com martelo de reflexo; essa ação
instantaneamente estira o músculo quadríceps e ativa o reflexo de estiramento dinâmico, que faz com que a perna “se lance” para frente. A parte superior da
Figura 55-7 mostra miograma do músculo quadríceps registrado durante um
reflexo patelar.
Reflexos semelhantes podem ser obtidos de quase todos os músculos do corpo,
percutindo-se o tendão ou o ventre do próprio músculo. Em outras palavras, o
estiramento rápido do fuso muscular é tudo que se necessita para induzir o reflexo
de estiramento dinâmico.
Os abalos musculares são usados pelos neurologistas para avaliar o grau de
facilitação dos centros da medula espinal. Quando grande quantidade de impulsos
facilitatórios está sendo transmitida de regiões superiores do sistema nervoso
central para a medula, os abalos musculares, resultantes dos reflexos
pesquisados, são muito exagerados. Ao contrário, se os impulsos facilitatórios
estão deprimidos ou abolidos, os abalos musculares estarão consideravelmente
enfraquecidos ou ausentes. Esses reflexos são mais utilizados para a
determinação da presença ou ausência de espasticidade muscular, causada por
lesões das áreas motoras encefálicas ou por doenças que excitam a área
facilitatória bulborreticular do tronco cerebral. Habitualmente, grandes lesões nas
áreas motoras corticais, mas não nas áreas inferiores de controle motor
(especialmente lesões provocadas por derrames ou tumores cerebrais), provocam
reflexos de estiramento musculares muito exagerados, nos músculos do lado
oposto do corpo.
Clônus — Oscilações dos Abalos Musculares. Em certas condições, os
abalos musculares podem oscilar, fenômeno chamado clônus muscular (veja
miograma inferior na Figura 55-7). A oscilação pode ser particularmente bem
explicada em relação ao clônus do tornozelo, como descrito a seguir.
Se a pessoa está de pé, na ponta dos dedos, e cai rapidamente para a frente,
estirando os músculos gastrocnêmicos, são gerados impulsos para o reflexo de
estiramento, que são transmitidos dos fusos musculares para a medula espinal.
Esses impulsos excitam reflexamente o músculo estirado que levanta o corpo
novamente. Após fração de segundos, a contração reflexa do músculo se extingue
e o corpo volta a cair, estirando, assim, os fusos pela segunda vez. Novamente, o
reflexo de estiramento dinâmico levanta o corpo, mas este também se extingue
após fração de segundos, e o corpo cai mais uma vez, iniciando um novo ciclo.
Desse modo, o reflexo de estiramento do músculo gastrocnêmio continua a oscilar
geralmente por longos períodos, que é um clônus.
O clônus, em geral, ocorre apenas quando o reflexo de estiramento está muito
sensibilizado pelos impulsos facilitatórios provenientes do cérebro. Por exemplo,
no animal desce re brado, em quem os reflexos de estiramento estão muito
facilitados, o clônus se desenvolve rapidamente. Para determinar o grau de
facilitação da medula espinal, os neurologistas testam os pacientes quanto ao estado de clônus, estirando rapidamente um músculo e aplicando força de
estiramento constante a ele. Se ocorrer o clônus, é certo que o grau de facilitação está alto.
Figura 55-7. Miogramas registrados no músculo quadríceps, na indução do reflexo patelar (acima) e do músculo gastrocnêmio, durante clônus do tornozelo (abaixo).
REFLEXO TENDINOSO DE GOLGI
O Órgão Tendinoso de Golgi Auxilia no Controle da Tensão
Muscular. O órgão tendinoso de Golgi, mostrado na Figura 55-8, é
receptor sensorial encapsulado, pelo qual passam fibras tendinosas
musculares. Aproximadamente 10 a 15 fibras musculares estão, em geral,
conectadas a cada órgão tendinoso de Golgi, e o órgão é estimulado quando
esse pequeno feixe de fibras musculares é “tensionado” pela contração ou
pelo estiramento do músculo. Assim, a principal diferença entre a excitação
do órgão tendinoso de Golgi e a do fuso muscular é que o fuso detecta o
comprimento do músculo e as alterações no comprimento do músculo,
enquanto o órgão tendinoso detecta a tensão do músculo refletida no
próprio tendão.
O órgão tendinoso, como o receptor primário do fuso muscular, tem tanto
resposta dinâmica como resposta estática, reagindo intensamente quando a
tensão no músculo aumenta com rapidez (resposta dinâmica), mas
diminuindo em fração de segundos para nível mais inferior de disparo de
estado de repouso, que é quase diretamente proporcional à tensão sobre o
músculo (resposta estática). Assim, os órgãos tendinosos de Golgi
informam, de modo instantâneo, o sistema nervoso sobre o grau de tensão
de cada pequeno segmento de cada músculo.
Figura 55-8. Reflexo no tendão de Golgi. Uma tensão excessiva do músculo estimula os receptores sensitivos no órgão tendinoso de Golgi. Os sinais dos receptores são transmitidos por meio de uma fibra nervosa aferente sensorial que excita um interneurônio inibitório na medula espinal, inibindo a atividade do neurônio motor anterior, provocando relaxamento muscular e protegendo o músculo contra uma tensão excessiva.
Transmissão de Impulsos do Órgão Tendinoso para o Sistema
Nervoso Central. Os sinais do órgão tendinoso são transmitidos por meio
de fibras nervosas tipo Ib, de condução rápida e grande diâmetro de cerca
de 16 micrômetros, apenas ligeiramente menores que as das terminações
primárias do fuso muscular. Essas fibras, como as das terminações
primárias do fuso, transmitem sinais para áreas da medula espinal e também
após fazer sinapse no corno dorsal da medula espinal, por vias de fibras
longas, tais como os tratos espinocerebelares, para o cerebelo, e, por outros
tratos, para o córtex cerebral. O sinal local da medula espinal excita
interneurônio inibitório único que inibe o neurônio motor anterior. Esse
circuito local inibe diretamente o próprio músculo, sem afetar os músculos
adjacentes. A relação entre os sinais para o encéfalo e a função do cerebelo
e outras partes do encéfalo no controle muscular é discutida noCapítulo 57.
O Reflexo Tendinoso Evita uma Tensão Excessiva no Músculo.
Quando os órgãos tendinosos de Golgi do tendão muscular são estimulados
por aumento da tensão no músculo relacionado, os sinais são transmitidos
para a medula espinal, produzindo os efeitos reflexos no respectivo
músculo. Esse reflexo é inteiramente inibitório. Assim, tal reflexo é
mecanismo de feedback negativo que impede o desenvolvimento de tensão
excessiva do músculo.
Quando a tensão no músculo e, portanto, do tendão fica extrema, o efeito
inibitório do órgão tendinoso pode ser tão grande que leva à reação rápida
na medula espinal, que causa o relaxamento instantâneo de todo o músculo.
Esse efeito é chamado reação de alongamento; provavelmente, é
mecanismo de proteção para prevenir o rompimento do músculo ou a
separação do tendão de seus ligamentos ao osso.