Tratado de Fisiologia Médica
Transplante de Tecidos e Órgãos
através das membranas glomerulares para os túbulos renais. Se essa
quantidade ainda for pequena, ela poderá ser reabsorvida para o sangue pelo
epitélio tubular sem causar danos; contudo, se for grande, somente pequena
porcentagem será reabsorvida. Além disso, a água continua a ser
reabsorvida, causando elevação da concentração de hemoglobina tubular,
que pode chegar a nível que leva à precipitação da hemoglobina e bloquear
muitos dos túbulos renais. Assim, a vasoconstrição renal, o choque
circulatório e o bloqueio dos túbulos renais, em conjunto, causam
insuficiência renal aguda. Se essa falência for completa e não for revertida,
o paciente morre em um período de 7 a 12 dias, como discutido no Capítulo
32, a menos que seja tratado pelo uso de rim artificial.
TRANSPLANTE DE TECIDOS E ÓRGÃOS
A maioria dos diferentes antígenos das hemácias que ocasionam reações de
transfusão também está muito presente em outras células do corpo, e cada
tecido corporal tem seus próprios complementos de antígenos.
Consequentemente, células estranhas transplantadas de qualquer local para
o corpo de um receptor podem causar reações imunes. Em outras palavras,
a maioria dos receptores é capaz de resistir à invasão de células estranhas,
da mesma forma que é capaz de resistir à invasão de bactérias ou de
hemácias estranhas.
Autoenxertos, Isoenxertos, Aloenxertos e Xenoenxertos. O
transplante de tecido ou órgão de parte do animal para outra parte do
mesmo animal é chamado autoenxerto; o transplante entre gêmeos idênticos
é chamado isoenxerto; de ser humano para outro ou de qualquer animal
para outro animal da mesma espécie é aloenxerto; e o transplante de animal não humano para ser humano ou de animal de uma espécie para animal de
outra espécie é chamado xeno enxerto.
Transplante de Tecidos Celulares. No caso dos autoenxertos e dos
isoenxertos, as células do transplante contêm, praticamente, os mesmos
tipos de antígenos dos tecidos do receptor e, na maioria das vezes, irão
sobreviver normal e indefinidamente se for fornecido suprimento sanguíneo
adequado.
No outro extremo, nos xenoenxertos, as reações imunes quase sempre
ocorrem, acarretando morte celular do enxerto entre 1 dia e 5 semanas após
o transplante, a menos que alguma terapia específica seja utilizada para
impedir as reações imunes.
Alguns dos diferentes tecidos celulares e órgãos que foram transplantados
como aloenxertos tanto experimentais quanto para propósitos terapêuticos
de pessoa para outra são pele, rins, coração, fígado, tecido glandular,
medula óssea e pulmões. Com a “compatibilidade” apropriada dos tecidos
entre as pessoas, muitos aloenxertos renais foram bem-sucedidos durante
períodos de pelo menos 5 a 15 anos, e aloenxertos hepáticos e cardíacos já
duram 1 a 15 anos.
TENTATIVAS DE SUPERAR AS REAÇÕES IMUNES NO
TECIDO TRANSPLANTADO
Devido à extrema importância em potencial do transplante de certos tecidos
e órgãos, estão sendo feitas tentativas sérias para a prevenção das reações
antígeno-anticorpos associadas aos transplantes. Os seguintes
procedimentos específicos tiveram algum grau de sucesso clínico ou
experimental.
Tipagem Tecidual — O Complexo de Antígenos Leucocitários
Humanos de Antígenos. Os antígenos mais importantes no desencadeamento da rejeição de enxertos formam o complexo chamado
antígenos leucocitários humanos (HLA). Seis desses antígenos estão nas
membranas celulares dos tecidos de cada pessoa, mas existem cerca de 150
antígenos HLA diferentes, que representam mais de um trilhão de
combinações possíveis. Como consequência, é praticamente impossível que
duas pessoas, exceto no caso de gêmeos idênticos, tenham os mesmos seis
antígenos HLA. O desenvolvimento de imunidade significativa contra um
desses antígenos pode causar rejeição do enxerto.
Os antígenos HLA ocorrem nos leucócitos, bem como nas células
teciduais. Portanto, a tipagem do tecido para esses antígenos é feita nas
membranas dos linfócitos que foram separados do sangue da pessoa. Os
linfócitos são misturados com o antissoro e complemento apropriados; após
a incubação, as células são testadas para relação da lesão da membrana, em
geral por meio de teste da intensidade de captação transmembrana de
corante especial pelas células linfocíticas.
Alguns dos antígenos HLA não são fortemente antigênicos. Portanto, a
combinação precisa entre o doador e o receptor nem sempre é essencial
para permitir a aceitação do enxerto. Ao obter a melhor combinação
possível entre o receptor e o doador, o procedimento do transplante se
tornou muito menos perigoso. O melhor sucesso foi obtido com as
combinações de tecidos entre parentes e entre pais e filhos. A combinação
entre gêmeos idênticos é exata, de modo que os transplantes entre gêmeos
idênticos quase nunca são rejeitados devido às reações imunes.
Prevenção da Rejeição do Enxerto por meio da
Supressão do Sistema Imune
Se o sistema imune for completamente suprimido, não deve ocorrer rejeição
do enxerto. De fato, em pessoa com depressão acentuada do sistema imune,
os enxertos podem ser bem-sucedidos, sem uso de terapia significativa para impedir a rejeição. Entretanto, na pessoa normal, mesmo com a melhor
classificação possível do tipo de tecido, os aloenxertos raramente resistem à
rejeição por mais de alguns dias ou semanas sem o uso de terapia
específica, para a supressão do sistema imune. Além disso, como as células
T formam o principal componente do sistema imune para a eliminação das
células enxertadas, sua supressão é muito mais importante do que a
supressão dos anticorpos do plasma. Alguns dos agentes terapêuticos
utilizados para esses propósitos são:
1. Hormônios glicocorticoides isolados do córtex das glândulas adrenais
(ou fármacos com atividade semelhante à dos glicocorticoides), que
inibem os genes que codificam várias citocinas, especialmente
interleucina 2 (IL-2). A IL-2 é um fator essencial que induz proliferação
de linfócitos T e anticorpos.
2. Vários fármacos com efeito tóxico sobre o sistema linfoide e que,
portanto, bloqueiam a formação de anticorpos e das células T, sobretudo
a azatioprina.
3. Ciclosporina e tracrolimo, que inibem a formação das células T
auxiliares e, por conseguinte, são prin ci palmente eficazes no bloqueio da
reação de rejeição da célula T auxiliares. Esses agentes demons traram ter
elevado valor, por não deprimir outros componentes do sistema imune.
4. Tratamento imunossupressor com anticorpos, o que inclui anticorpos do
receptor da IL-2 ou antilinfocitários específicos.
O uso desses agentes, com frequência, deixa a pessoa desprotegida contra
doenças infecciosas; assim, algumas vezes, infecções bacterianas e viróticas
evoluem sem o menor controle. Além disso, a incidência de câncer é maior
nas pessoas imunossuprimidas, presumivelmente porque o sistema imune é
importante na destruição das células cancerosas iniciais antes que comecem
a proliferar.
O transplante de tecidos vivos em seres humanos tem tido sucesso
importante, principalmente devido ao desenvolvimento de fármacos que
suprimem a resposta do sistema imunológico. Com a introdução de
melhores agentes imunossupressores, o transplante bem-sucedido de órgãos
se tornou muito mais comum. A abordagem atual para a terapia
imunossupressora tenta equilibrar as incidências aceitáveis de rejeição, com
moderação dos efeitos adversos dos fármacos imunossupressores.
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