Tratado de Fisiologia Médica
Causas Fisiológicas do Choque
CAPÍTULO 24
Choque Circulatório e seu
Tratamento
Choque circulatório significa fluxo sanguíneo inadequado generalizado
pelo corpo, na extensão em que os tecidos corpo rais são danificados,
especialmente em decorrência do suprimento deficiente de oxigênio e de
outros nutrientes para as células teciduais. Mesmo o próprio sistema
cardiovascular — a musculatura cardíaca, as paredes dos vasos sanguíneos,
o sistema vasomotor e outros componentes da circulação — começa a se
deteriorar, de modo que o choque, uma vez iniciado, está propenso a ficar
progressivamente pior.
CAUSAS FISIOLÓGICAS DO CHOQUE
Choque Circulatório Causado pela Diminuição do Débito
Cardíaco O choque resulta, em geral, de débito cardíaco inadequado. Por
conseguinte, qualquer condição que reduza o débito cardíaco muito abaixo
do normal pode levar ao choque circulatório. Dois tipos de fatores podem
reduzir de forma muito acentuada o débito cardíaco:
1. Anormalidades cardíacas que diminuem a capacidade do coração de
bombear sangue. Entre essas anormalidades incluem-se, em particular, o
infarto do miocárdio, mas também estados tóxicos do coração, disfunção
grave das valvas cardíacas, arritmias cardíacas, além de outras
condições. O choque circulatório, que resulta da capacidade diminuída
de bombeamento cardíaco, é denominado choque cardiogênico. Essa
condição é discutida em detalhes no Capítulo 22, onde é apontado que
mais de 70% das pessoas que desenvolvem choque cardiogênico não
sobrevivem.
2. Fatores que diminuem o retorno venoso também reduzem o débito
cardíaco, porque o coração não pode bombear sangue que não flua para
ele. A causa mais comum da queda do retorno venoso é a diminuição do
volume sanguíneo, porém o retorno venoso também pode ser reduzido
como resultado da diminuição do tônus vascular, especialmente dos
reservatórios de sangue venoso, ou obstrução ao fluxo sanguíneo, em
algum ponto na circulação, de forma particular na via de retorno venoso
ao coração.
Choque Circulatório sem Diminuição do Débito Cardíaco
Ocasionalmente, o débito cardíaco está normal ou até mesmo maior que o
normal, ainda que a pessoa esteja em estado de choque circulatório. Essa
condição pode resultar de (1) metabolismo excessivo do corpo, de modo que
mesmo o débito cardíaco normal seja inadequado; ou (2) padrões de
perfusão tecidual anormal, de modo que a maior parte do débito cardíaco esteja passando por vasos sanguíneos que não os que suprem os tecidos
locais com nutrientes.
As causas específicas do choque são discutidas adiante, neste Capítulo.
Por enquanto, é importante notar que todas elas levam à distribuição
inadequada de nutrientes para os tecidos e para os órgãos críticos,
resultando, também, na inade quada remoção dos produtos de excreção
celular desses tecidos e órgãos.
O que Acontece com a Pressão Arterial no Choque
Circulatório?
Na opinião de muitos clínicos, o nível da pressão arterial é a principal
medida de adequação da função circulatória. Todavia, a pressão arterial
pode, muitas vezes, ser seriamen te ilusória. De vez em quando, a pessoa
pode estar em choque e ainda apresentar pressão arterial quase normal,
devido aos potentes reflexos nervosos que impedem a queda da pressão. Em
outras vezes, a pressão arterial pode cair até a metade da normal, porém a
pessoa ainda mantém perfusão tecidual normal e não está em choque.
Na maioria dos tipos de choque, especialmente no choque causado por
perda grave de sangue, a pressão sanguínea arterial diminui ao mesmo
tempo em que o débito cardíaco diminui, embora usualmente não o faça de
modo tão intenso.
Deterioração Tecidual é o Resultado Final do Choque
Circulatório
Uma vez que o choque circulatório atinja um estado crítico de gravidade,
independentemente de sua causa inicial, o próprio choque produz mais
choque. Isto é, o fluxo sanguíneo inadequado faz com que os tecidos
corporais comecem a se deteriorar, incluindo o coração e o sistema circulatório. Essa deterioração provoca diminuição ainda maior do débito