Tratado de Fisiologia Médica

John E. Hall · Capítulo 99 de 351

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Tratado de Fisiologia Médica

Causas Fisiológicas do Choque

CAPÍTULO 24

 

Choque Circulatório e seu

 

Tratamento

 

Choque circulatório significa fluxo sanguíneo inadequado generalizado

pelo corpo, na extensão em que os tecidos corpo rais são danificados,

especialmente em decorrência do suprimento deficiente de oxigênio e de

outros nutrientes para as células teciduais. Mesmo o próprio sistema

cardiovascular — a musculatura cardíaca, as paredes dos vasos sanguíneos,

o sistema vasomotor e outros componentes da circulação — começa a se

deteriorar, de modo que o choque, uma vez iniciado, está propenso a ficar

progressivamente pior.

 

CAUSAS FISIOLÓGICAS DO CHOQUE

 

Choque Circulatório Causado pela Diminuição do Débito

Cardíaco O choque resulta, em geral, de débito cardíaco inadequado. Por

conseguinte, qualquer condição que reduza o débito cardíaco muito abaixo

do normal pode levar ao choque circulatório. Dois tipos de fatores podem

reduzir de forma muito acentuada o débito cardíaco:

1. Anormalidades cardíacas que diminuem a capacidade do coração de

bombear sangue. Entre essas anormalidades incluem-se, em particular, o

infarto do miocárdio, mas também estados tóxicos do coração, disfunção

grave das valvas cardíacas, arritmias cardíacas, além de outras

condições. O choque circulatório, que resulta da capacidade diminuída

de bombeamento cardíaco, é denominado choque cardiogênico. Essa

condição é discutida em detalhes no Capítulo 22, onde é apontado que

mais de 70% das pessoas que desenvolvem choque cardiogênico não

sobrevivem.

2. Fatores que diminuem o retorno venoso também reduzem o débito

cardíaco, porque o coração não pode bombear sangue que não flua para

ele. A causa mais comum da queda do retorno venoso é a diminuição do

volume sanguíneo, porém o retorno venoso também pode ser reduzido

como resultado da diminuição do tônus vascular, especialmente dos

reservatórios de sangue venoso, ou obstrução ao fluxo sanguíneo, em

algum ponto na circulação, de forma particular na via de retorno venoso

ao coração.

 

Choque Circulatório sem Diminuição do Débito Cardíaco

 

Ocasionalmente, o débito cardíaco está normal ou até mesmo maior que o

normal, ainda que a pessoa esteja em estado de choque circulatório. Essa

condição pode resultar de (1) metabolismo excessivo do corpo, de modo que

mesmo o débito cardíaco normal seja inadequado; ou (2) padrões de

perfusão tecidual anormal, de modo que a maior parte do débito cardíaco esteja passando por vasos sanguíneos que não os que suprem os tecidos

locais com nutrientes.

As causas específicas do choque são discutidas adiante, neste Capítulo.

Por enquanto, é importante notar que todas elas levam à distribuição

inadequada de nutrientes para os tecidos e para os órgãos críticos,

resultando, também, na inade quada remoção dos produtos de excreção

celular desses tecidos e órgãos.

 

O que Acontece com a Pressão Arterial no Choque

Circulatório?

Na opinião de muitos clínicos, o nível da pressão arterial é a principal

medida de adequação da função circulatória. Todavia, a pressão arterial

pode, muitas vezes, ser seriamen te ilusória. De vez em quando, a pessoa

pode estar em choque e ainda apresentar pressão arterial quase normal,

devido aos potentes reflexos nervosos que impedem a queda da pressão. Em

outras vezes, a pressão arterial pode cair até a metade da normal, porém a

pessoa ainda mantém perfusão tecidual normal e não está em choque.

Na maioria dos tipos de choque, especialmente no choque causado por

perda grave de sangue, a pressão sanguínea arterial diminui ao mesmo

tempo em que o débito cardíaco diminui, embora usualmente não o faça de

modo tão intenso.

 

Deterioração Tecidual é o Resultado Final do Choque

Circulatório

 

Uma vez que o choque circulatório atinja um estado crítico de gravidade,

independentemente de sua causa inicial, o próprio choque produz mais

choque. Isto é, o fluxo sanguíneo inadequado faz com que os tecidos

corporais comecem a se deteriorar, incluindo o coração e o sistema circulatório. Essa deterioração provoca diminuição ainda maior do débito