Tratado de Fisiologia Médica
Pensamentos, Consciência e Memória
emocionais dos dois lados do cérebro.
PENSAMENTOS, CONSCIÊNCIA E MEMÓRIA
Nosso problema mais difícil ao discutir a consciência, os pensamentos, a
memória e a aprendizagem é que não conhecemos os mecanismos neurais
do pensamento e sabemos pouco sobre os mecanismos da memória.
Sabemos que a destruição de grandes porções do córtex cerebral não
impede a pessoa de ter pensamentos, mas reduz sim a profundidade dos
pensamentos e também o grau de consciência do ambiente.
Cada pensamento certamente envolve, de modo simultâneo, sinais em
diversas porções do córtex cerebral, tálamo, sistema límbico e formação
reticular do tronco cerebral. Alguns pensamentos básicos provavelmente
dependem de modo quase exclusivo dos centros inferiores; o pensamento
de dor é, com muita probabilidade, um bom exemplo, porque a estimulação
elétrica do córtex humano raramente só provoca qualquer coisa além de dor
leve, enquanto a estimulação de certas áreas do hipotálamo, amígdala e
mesencéfalo pode causar dor excruciante. Por sua vez, o tipo de padrão de
pensamento que requer grande participação do córtex cerebral é o da visão,
porque a perda do córtex visual causa incapacidade completa de se perceber
formas ou cores.
Podemos formular definição provisória de um pensamento, em termos de
atividade neural, como a seguinte: um pensamento resulta de um “padrão”
de estimulação de diversas partes do sistema nervoso ao mesmo tempo,
prova velmente envolvendo, de modo mais importante o córtex cerebral, o
tálamo, o sistema límbico e a formação reticular do tronco cerebral. Isso é
chamado teoria holística do pensamento. Acredita-se que as áreas
estimuladas do sistema límbico, tálamo e formação reticular determinam a
natureza geral dos pensamentos, dando suas qualidades como prazer, desprazer, dor, conforto, modalidades brutas sensoriais, locali zação
grosseira de partes do corpo e outras características gerais. Entretanto, áreas
específicas estimuladas do córtex cerebral determinam características
discretas dos pensamentos, como (1) localização específica das sensações
na superfície do corpo e de objetos nos campos visuais; (2) a sensação da
textura da seda; (3) reconhecimento visual do padrão retangular de parede
de blocos de concreto; e (4) outras características individuais, que entram
na percepção individual em um instante determinado. A consciência pode
ser, talvez, descrita como nosso fluxo contínuo de alerta, tanto de nossos
arredores quanto de nossos pensamentos sequenciais.
MEMÓRIA — PAPÉIS DA FACILITAÇÃO SINÁPTICA E
INIBIÇÃO SINÁPTICA
Memórias são armazenadas no cérebro pela variação da sensibilidade básica
da transmissão sináptica, entre neurônios, como resultado de atividade
neural prévia. As vias novas ou facilitadas são chamadas traços de
memória. Eles são importantes, porque, uma vez que os traços são
estabelecidos, eles podem ser seletivamente ativados pelos processos
mentais para reproduzir as memórias.
Experimentos em animais inferiores demonstraram que os traços de
memória podem ocorrer em todos os níveis do sistema nervoso. Mesmo
reflexos da medula espinal podem mudar pelo menos levemente em
resposta à ativação repetida da medula espinal, e essas mudanças nos
reflexos são partes do processo de memória. Além disso, memórias a longo
prazo também podem resultar de condução sináptica alterada, em centros
subcorticais. Entretanto, a maioria das memórias que associamos a
processos intelectuais é baseada em traços mnemônicos estabelecidos no
córtex cerebral.
Memória Positiva e Negativa — “Sensibilização” ou
“Habituação” da Transmissão Sináptica. Embora muitas vezes
interpretemos as memórias como sendo recordações positivas de
pensamentos ou de experiências passados, provavelmente a maior parte das
nossas memórias é negativa, não positiva, isto é, nosso cérebro é inundado
com informação sensorial de todos os nossos sentidos. Se as nossas mentes
tentassem lembrar de toda essa informação, a capacidade de memória do
nosso cérebro seria rapidamente excedida. Felizmente, o cérebro tem a
capacidade de aprender a ignorar informação sem consequências. Essa
capacidade resulta da inibição das vias sinápticas para esse tipo de
informação; o efeito resultante chama-se habituação, que é um tipo de
memória negativa.
Por sua vez, para a informação que entra no cérebro e que causa
consequências importantes, tais como dor ou prazer, o cérebro tem a
capacidade automática diferente de realçar e armazenar os traços
mnemônicos. Isso é a memória positiva. Ela resulta da facilitação das vias
sinápticas e o processo se chama sensibilização da memória. Como
discutiremos mais adiante, umas áreas especiais nas regiões límbicas basais
do cérebro determinam se uma informação é importante ou não e tomam a
decisão subconsciente de armazenar a informação, como traço de memória
sensibilizada ou suprimi-la.
Classificação das Memórias. Sabemos que algumas memórias duram
somente alguns segundos, enquanto outras duram por horas, dias, meses ou
anos. Para poder discutir esses tipos de memória vamos usar a classificação
comum das memórias que as divide em (1) memória a curto prazo, que
inclui memórias que duram por segundos ou, no máximo, minutos se não
forem convertidas em memórias a longo prazo; (2) memórias de prazo
intermediário, que duram por dias a semanas mas, então, desaparecem; e (3) memória a longo prazo, que, uma vez armazenada, pode ser recordada
até anos ou mesmo uma vida inteira mais tarde.
Além dessa classificação geral de memórias, também discutimos antes
(em conexão com os lobos pré-frontais), outro tipo de memória chamada
“memória de trabalho”, que inclui, principalmente, a memória a curto
prazo, que é usada durante raciocínio intelectual, mas é finalizada conforme
cada passo do problema for resolvido.
Memórias são frequentemente classificadas segundo o tipo de informação
que é armazenada. Uma destas classificações divide as memórias em
memória declarativa e memória de habilidades, como a seguir:
1. Memória declarativa significa basicamente memória dos vários
detalhes de pensamento integrado como, por exemplo, memória de
experiência importante que inclui (1) memória do ambiente; (2) memória
das relações temporais; (3) memória de causas da experiência; (4)
memória do significado da experiência; e (5) memória das deduções que
ficaram na mente do indivíduo.
2. Memória de habilidades é, frequentemente, associada a atividades
motoras do corpo da pessoa, tais como todas as habilidades
desenvolvidas, para bater numa bola de tênis, incluindo memórias
automáticas para (1) avistar a bola; (2) calcular a relação e a velocidade
da bola com a raquete; e (3) deduzir rapidamente os movimentos do
corpo e dos braços e da raquete necessários para bater na bola como
desejado — com todas essas capacidades ativadas instantaneamente,
com base na aprendizagem anterior do jogo de tênis — então, continua-
se para o próximo lance do jogo enquanto se esquecem os detalhes do
lance prévio.
MEMÓRIA A CURTO PRAZO
Memória a curto prazo é ilustrada pela memória que se tem de 7 a 10
dígitos, no número de telefone (ou 7 a 10 outros fatos distintos), por alguns
segundos, até alguns minutos de cada vez, mas que dura somente enquanto
a pessoa continua a pensar nos números ou nos fatos.
Muitos fisiologistas sugeriram que essa memória a curto prazo seja
causada por atividade neural contínua, resultando de sinais neurais que se
propagam em círculos em traço de memória temporária de circuito de
neurônios reverberantes. Ainda não foi possível provar essa teoria. Outra
explicação possível para a memória a curto prazo é a facilitação ou inibição
pré-sináptica, o que ocorre em sinapses que ficam em fibras nervosas
terminais, imediatamente antes que formem sinapses com o neurônio
subsequente. As substâncias neurotransmissoras, liberadas em tais terminais
frequentemente causam facilitação ou inibição, que duram segundos ou até
vários minutos. Circuitos desse tipo poderiam levar à memória a curto
prazo.
MEMÓRIA DE PRAZO INTERMEDIÁRIO
As memórias de prazo intermediário podem durar por muitos minutos ou
até semanas. Serão por fim perdidas se os traços de memória não forem
ativados o suficiente para se tornarem mais permanentes; então, são
classificadas como memórias a longo prazo. Experimentos em animais
primitivos mostraram que memórias do tipo de prazo intermediário podem
resultar de alterações temporárias químicas ou físicas, ou ambas, tanto nos
terminais pré-sinápticos quanto nas membranas pós-sinápticas, mudanças
essas que podem persistir por alguns minutos a várias semanas. Esses
mecanismos são tão importantes que merecem descrição especial.
Memória Baseada em Mudanças Químicas nos
Terminais Pré-sinápticos ou nas Membranas Neuronais Pós-sinápticas
A Figura 58-9 mostra o mecanismo de memória estudado especialmente
por Kandel e seus colegas, que pode ocasionar memórias que duram desde
alguns minutos até 3 semanas na Aplysia, grande lesma do mar. Na Figura
58-9, existem dois terminais sinápticos. Um terminal que vem de um
neurônio sensorial e termina, diretamente, na superfície do neurônio que
deve ser estimulado, é chamado terminal sensorial. O outro terminal, uma
terminação pré-sináptica, que fica na superfície do terminal sensorial, é
chamado terminal facilitador. Quando o terminal sensorial é estimulado
repetidamente, mas sem estimulação do terminal facilitador, a transmissão
do sinal inicialmente é grande, mas se torna cada vez menos intensa com a
estimulação repetida, até a transmissão quase desaparecer. Esse fenômeno é
a habituação como explicado antes. É o tipo de memória negativa que faz o
circuito neuronal perder sua resposta a eventos repetidos, que são
insignificantes.
Por sua vez, se um estímulo nocivo excitar o terminal facilitador no
mesmo momento em que o terminal sensorial for estimulado, então, em vez
de o sinal transmitido ao neurônio pós-sináptico se tornar cada vez mais
fraco, a facilitação da transmissão se tornará cada vez mais forte e
permanecerá forte por minutos, horas, dias ou com treino mais intenso, até
cerca de 3 semanas, mesmo sem estimulação adicional do terminal
facilitador. Dessa forma, o estímulo nocivo faz com que as vias de memória
pelo terminal sensorial fiquem facilitadas nos dias e semanas seguintes. É
especialmente interessante que mesmo depois da habituação ocorrer essa
via poderá ser reconvertida para via facilitada com apenas alguns estímulos
nocivos.
Figura 58-9. Sistema de memória descoberto no molusco marinho Aplysia.
Mecanismo Molecular da Memória Intermediária
Mecanismo para a Habituação. Em nível molecular, o efeito de
habituação no terminal sensorial resulta do fechamento progressivo de
canais de cálcio na membrana terminal, apesar da causa do fechamento dos
canais de cálcio não ser completamente conhecida. De qualquer forma,
quantidades muito menores que as normais de íons cálcio podem se difundir
para o terminal habituado e, como consequência, muito menos
neurotransmissor é liberado pelo terminal sensorial, já que a entrada de
cálcio é o estímulo principal para a liberação do neurotransmissor (como
discutido no Capítulo 46).
Mecanismo para Facilitação. No caso da facilitação, acredita-se que
pelo menos parte do mecanismo molecular seja o seguinte:
1. Estimulação do terminal pré-sináptico facilitador, ao mesmo momento
em que o terminal sensorial estimulado causa liberação de serotonina, na
sinapse facilitadora, na superfície do terminal sensorial.
2. A serotonina age em receptores serotoninérgicos na membrana do
terminal sensorial, e esses receptores ativam a enzima adenil ciclase do
lado interno da membrana. A adenil ciclase causa a formação de
monofosfato de adenosina cíclico (AMPc) também no terminal sensorial
pré-sináptico.
3. O AMP cíclico ativa uma proteinocinase que causa a fosforilação de
proteína que, por sua vez, é parte dos canais de potássio, na membrana
do terminal sináptico sensorial; por sua vez, isso bloqueia a condutância
de potássio pelos canais. O bloqueio pode durar minutos ou até algumas
semanas.
4. A falta de condutância de potássio leva a potencial de ação bastante
prolongado na terminação sináptica, uma vez que a saída íons potássio
do terminal é necessária para a recuperação rápida do potencial de ação.
5. O potencial de ação prolongado leva à ativação prolongada dos canais
de cálcio, permitindo a entrada de grande quantidade de íons cálcio no
terminal sináptico sensorial. Esses íons cálcio levam à liberação muito
aumentada de neurotransmissor pela sinapse, facilitando, dessa forma,
pronunciadamente a transmissão sináptica para o neurônio seguinte.
Assim, de forma muito indireta, o efeito associativo de estimular o
terminal facilitador, no mesmo momento em que o terminal sensorial é
estimulado, leva a um aumento prolongado da sensibilidade excitatória do
terminal sensorial e isso estabelece o traço de memória.
Estudos de Byrne e colaboradores, também no mesmo animal Aplysia,
sugeriram mais outro mecanismo de memória sináptica. Seus estudos
mostraram que estímulos de fontes distintas, agindo em um mesmo
neurônio, se houver condições apropriadas, podem levar a mudanças a
longo prazo nas propriedades de membrana do neurônio pós-sináptico, em
vez de na membrana neuronal pré-sináptica, mas levam essencialmente aos
mesmos efeitos de memória.
MEMÓRIA A LONGO PRAZO
Não existe uma demarcação óbvia entre as formas mais prolongadas da
memória de prazo intermediário e a verdadeira memória a longo prazo.
Entretanto, em geral se acredita que a memória a longo prazo resulte de
alterações estruturais reais, em vez de somente químicas nas sinapses, e
que realcem ou suprimam a condução dos sinais. Mais uma vez vamos
lembrar experimentos em animais primitivos (nos quais os sistemas
nervosos são muito fáceis de estudar) e que ajudaram imensamente a
compreensão de possíveis mecanismos da memória a longo prazo.
Mudanças Estruturais Ocorrem nas Sinapses Durante o
Desenvolvimento da Memória a Longo Prazo
Imagens de microscopia eletrônica, feitas em animais invertebrados,
mostraram múltiplas mudanças da estrutura física em muitas sinapses
durante o desenvolvimento dos traços de memória a longo prazo. As
mudanças estruturais não ocorrerão se forem administrados fármacos. que
bloqueiem a produção de proteína no neurônio pré-sináptico, nem se
desenvolverá o traço de memória permanente. Portanto, parece que o
desenvolvimento da verdadeira memória a longo prazo depende da
reestruturação física das próprias sinapses de forma que mude sua
sensibilidade para transmitir os sinais neurais.
As mudanças estruturais mais importantes que ocorrem são as seguintes:
1. Aumento dos locais onde vesículas liberam a substância
neurotransmissora.
2. Aumento do número de vesículas transmissoras.
3. Aumento do número de terminais pré-sinápticos.
4. Mudanças nas estruturas das espinhas dendríticas que permitem a
transmissão de sinais mais fortes.
Assim, de várias formas diferentes a capacidade estrutural das sinapses de
transmitir sinais parece aumentar, enquanto se estabelecem traços da
verdadeira memória a longo prazo.
O Número de Neurônios e Suas Conectividades Muitas
Vezes Mudam Significativamente durante o Aprendizado
Durante as primeiras poucas semanas, meses e talvez até aproximadamente
o primeiro ano de vida muitas regiões do cérebro produzem grande excesso
de neurônios, e esses neurônios emitem muitas ramificações axônicas para
fazer conexões com outros neurônios. Se os novos axônios não
conseguirem se conectar aos neurônios, às células musculares ou às células
glandulares apropriadas, os novos axônios desaparecerão dentro de poucas
semanas. Dessa forma, o número de conexões neuronais é determinado por
fatores de crescimento neurais específicos liberados retrogradamente pelas
células estimuladas. Além disso, quando não houver conectividade
suficiente, todo o neurônio que está emitindo as ramificações axônicas pode
desaparecer.
Portanto, logo no primeiro ano de vida, o princípio de “uso ou perda”
regula o número final de neurônios e suas conectividades nas partes
respectivas do sistema nervoso humano. Esse é um tipo de aprendizado. Por
exemplo, se um olho de um animal recém-nascido for coberto durante‐
muitas semanas, após o nascimento, neurônios em faixas alternadas do
córtex cerebral visual — neurônios normalmente conecta dos ao olho
coberto — irão degenerar, e o olho coberto permanecerá parcial ou
totalmente cego pelo resto da vida. Até recentemente, acreditava-se que os
processos de “aprendizado” em humanos e em animais adultos usavam os
mecanis mos da modificação dos números dos neurônios nos circuitos da
memória; entretanto, pesquisas recentes sugerem que mesmo adultos usam
esse mecanismo, pelo menos até certo grau.
CONSOLIDAÇÃO DA MEMÓRIA
Para a conversão da memória a curto prazo para a memória a longo prazo,
que pode ser evocada semanas ou anos depois, ela precisa ser
“consolidada”, isto é, a memória a curto prazo se ativada repetidamente
promoverá mudanças químicas, físicas e anatômicas nas sinapses que são
responsáveis pela memória a longo prazo. Esse processo requer 5 a 10
minutos, para consolidação mínima e 1 hora ou mais, para consolidação
forte. Por exemplo, se forte impressão sensorial é feita no cérebro, mas é
seguida dentro de mais ou menos 1 minuto por convulsão induzida
eletricamente, a experiência sensorial não será lembrada. Da mesma forma,
a concussão cerebral, a aplicação repentina de anestesia geral profunda ou
qualquer outro efeito que bloqueie temporariamente a função cerebral
dinâmica pode impedir a consolidação da memória.
A consolidação e o tempo necessário para ela aconteça podem
provavelmente serem explicados pelo fenômeno de repetição da memória a
curto prazo, tal como explicado na seção seguinte.
A Repetição Aumenta a Transferência da Memória a Curto
Prazo para a Memória a Longo Prazo. Estudos mostraram que a
repetição da mesma informação várias vezes na mente acelera e
potencializa o grau de transferência da memória a curto prazo para a
memória a longo prazo, e assim acelera e aumenta a consolidação. O
cérebro tem tendência natural de repetir as informações novas,
especialmente as que atraiam a atenção. Portanto, ao longo de certo
período, as características importantes das experiências sensoriais ficam,
progressivamente, cada vez mais fixadas nos bancos da memória. Esse
fenômeno explica porque a pessoa pode lembrar pequenas quantidades de
informação, estudadas profundamente, muito melhor do que grande
quantidade de informação estudada superficialmente. Também explica porque a pessoa bem acordada pode consolidar memórias muito melhor do
que a pessoa em estado de fadiga mental.
Novas Memórias São Codificadas durante a Consolidação. Uma
das características mais importantes da consolidação é que novas memórias
são codificadas em diferentes classes de informação. Durante esse processo,
tipos semelhantes de informação são retirados dos arquivos de
armazenagem de memórias e usados para ajudar a processar a nova
informação. O novo e o velho são comparados a respeito de semelhanças e
diferenças, e parte do processo de armazenagem consiste em guardar a
informação sobre essas semelhanças e diferenças, não em guardar a nova
informação não processada. Assim, durante a consolidação, as novas
memórias não são armazenadas aleatoriamente no cérebro, mas sim em
associação direta com outras memórias do mesmo tipo. Esse processo é
necessário para se poder “procurar” posteriormente a informação requerida
na memória armazenada.
O Papel de Regiões Específicas do Cérebro no Processo
de Memorização
O Hipocampo Promove o Armazenamento das Memórias —
Amnésia Anterógrada Ocorre após Lesões de Longa Duração
do Hipocampo. O hipocampo é a porção mais medial do córtex do lobo
temporal, onde ele primeiro se dobra medialmente, sob o hemisfério
cerebral, e depois para cima em direção à superfície inferior e medial do
ventrículo lateral. Em alguns pacientes, os dois hipocampos foram retirados
para o tratamento de epilepsia. Esse procedimento não afetou seriamente a
memória do indivíduo para a informação armazenada antes da retirada dos
hipocampos. Entretanto, depois da retirada, essas pessoas praticamente não
têm mais capacidade de armazenar formas verbais e simbólicas de memórias (formas declarativas de memória) na memória a longo prazo, ou
até na memória intermediária que dure mais do que alguns minutos. Por
isso, essas pessoas ficam incapazes de estabelecer novas memórias a longo
prazo dos tipos de informação que são a base da inteligência. Esse distúrbio
se chama amnésia anterógrada.
Mas por que os hipocampos são tão importantes para ajudar no processo
de armazenamento de novas memórias? A resposta mais provável é que os
hipocampos figuram, entre as vias de saída mais importantes, das áreas de
“recompensa” e “punição” do sistema límbico, como explicado no Capítulo
59. Estímulos sensoriais ou pensamentos que causem dor ou aversão
excitam os centros límbicos de punição, e os estímulos que causem prazer,
felicidade ou sensação de recompensa, excitam os centros límbicos de
recompensa. Todos eles juntos fornecem o humor básico e as motivações da
pessoa. Entre essas motivações, está a força motriz do cérebro para lembrar
as experiências e pensamentos que são agradáveis ou desagradáveis.
Especialmente, os hipocampos e, em menor grau, os núcleos mediodorsais
do tálamo, outra estrutura límbica, mostraram-se especialmente importantes
para tomar a decisão de quais dos nossos pensamentos são importantes o
suficiente na base de recompensa ou punição para serem dignos da
memória.
Amnésia Retrógrada — Incapacidade de Recordar Memórias do
Passado. Quando ocorre amnésia retrógrada, o grau de amnésia para
eventos recentes tende a ser muito maior do que para eventos do passado
distante. A razão dessa diferença é provavelmente porque as memórias
distantes foram repetidas tantas vezes que os traços de memória ficaram
profundamente entranhados e elementos dessas memórias estão
armazenados em áreas muito disseminadas do cérebro.
Em algumas pessoas que tiveram lesões hipocampais, algum grau de
amnésia retrógrada ocorre junto com a amnésia anterógrada, o que sugere que esses dois tipos de amnésia sejam, pelo menos em parte, relacionados e
que lesões hipocampais possam causar ambos. Entretanto, danos em
algumas áreas talâmicas podem levar especificamente à amnésia retrógrada,
sem causar amnésia anterógrada significativa. Possível explicação para isso
é que o tálamo pode ter papel em ajudar a pessoa a “procurar” nos armazéns
da memória e assim “ler” as memórias. Isto é, o processo de memória não
só necessita do armazenamento das memórias, mas também de capacidade
de procurar e encontrar posteriormente a memória. A possível função do
tálamo, nesse processo, é discutida mais amplamente no Capítulo 59.
Os Hipocampos não São Importantes para o Aprendizado
Reflexivo. Pessoas com lesões hipocâmpicas geralmente não têm
dificuldades de aprender habilidades motoras que não envolvam
verbalização ou formas simbólicas de inteligência. Por exemplo, essas
pessoas podem ainda aprender as habilidades de agilidade manual e física
necessárias em muitos esportes. Esse tipo de aprendizado se chama
aprendizado de habilidades ou aprendizado reflexivo; depende da repetição
física, por muitas vezes das tarefas necessárias, e não da repetição simbólica
na mente.
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CAPÍTULO 59
Mecanismos Comportamentais e
Motivacionais do Cérebro — o
Sistema Límbico e o Hipotálamo
O controle do comportamento é função de todo o sistema nervoso. Até
mesmo o ciclo de vigília-sono, discutido no Capítulo 60, é um dos nossos
padrões comportamentais mais importantes.
Neste Capítulo, tratamos primeiro dos mecanismos que controlam os
níveis de atividade nas diferentes partes do cérebro. A seguir, discutimos as
causas dos impulsos motivacionais, especialmente o controle motivacional
do processo do aprendizado e os sentimentos de prazer e punição. Essas
funções do sistema nervoso central são desempenhadas principalmente
pelas regiões basais do encéfalo, que, em seu conjunto, são chamadas
vagamente sistema límbico, significando o sistema que “margeia”. SISTEMAS DE ATIVAÇÃO E MOTIVAÇÃO DO CÉREBRO