Tratado de Fisiologia Médica
Sentido da Gustação
CAPÍTULO 54
Os Sentidos Químicos — Gustação
e Olfação
Os sentidos da gustação e da olfação permitem que separemos os alimentos
indesejáveis ou mesmo letais dos que nos dão prazer e que são nutritivos.
Além disso, geram respostas fisiológicas que estão envolvidas na digestão e no
uso dos alimentos. O sentido da olfação também permite que os animais
reconheçam a proximidade de outros animais ou mesmo reconheçam certos
indivíduos no grupo de animais. Finalmente, ambos os sentidos estão
fortemente ligados às funções emocionais e comportamentais primitivas do
nosso sistema nervoso. Neste Capítulo, discutiremos como os estímulos da
gustação e da olfação são detectados e como são codificados em sinais neurais
transmitidos para o cérebro.
SENTIDO DA GUSTAÇÃO
A gustação é principalmente função dos botões gustatórios presentes na boca,
mas é comum a experiência de que a olfação também contribui intensamente
para a percepção do paladar. Além disso, a textura do alimento, detectada
pelos sensores de tato da boca, e a presença de substâncias no alimento que
estimulam as terminações dolorosas, tais como a pimenta, alteram
sensivelmente a experiência do paladar. A importância do paladar reside no
fato de que ele permite à pessoa selecionar substâncias específicas, de acordo
com os seus desejos e frequentemente de acordo com as necessidades
metabólicas dos tecidos corporais.
SENSAÇÕES PRIMÁRIAS DA GUSTAÇÃO
As identidades das substâncias químicas específicas, que excitam os diferentes
receptores gustatórios não são completamente conhecidas. Os estudos
psicofisiológicos e neurofisiológicos identificaram pelo menos 13 receptores
químicos prováveis nas células gustatórias, como descrito a seguir: dois
receptores para sódio, dois receptores para potássio, um receptor para cloreto,
um receptor para adenosina, um receptor para inosina, dois receptores para
doce, dois receptores para amargo, um receptor para glutamato e um receptor
para o íon hidrogênio.
Para análise mais prática da gustação, as capacidades dos receptores
gustatórios mencionados foram agrupadas em cinco categorias gerais
chamadas sensações primárias da gustação. São elas: azeda, salgada, doce,
amarga e “umami”.
A pessoa pode perceber centenas de diferentes gostos. Acredita-se que eles
sejam combinações das sensações gustatórias elementares, da mesma forma
como as cores que vemos são combinações das três cores primárias, como
descrito no Capítulo 51.
Gosto Azedo. O gosto azedo é causado pelos ácidos, isto é, pela
concentração do íon hidrogênio, e a intensidade dessa sensação é aproximadamente proporcional ao logaritmo da concentração do íon
hidrogênio (isto é, quanto mais ácido o alimento, mais forte se torna a
sensação de azedo).
Gosto Salgado. O gosto salgado é provocado por sais ionizados,
principalmente pela concentração de íons sódio. A qualidade do gosto varia
ligeiramente de um sal para outro porque alguns sais provocam outras
sensações gustatórias além do salgado. Os cátions dos sais, em especial o
sódio, são os principais responsáveis pelo gosto salgado, mas os ânions
também contribuem, mesmo que em menor grau.
Gosto Doce. O gosto doce não é induzido por categoria única de substâncias
químicas. Alguns tipos de substâncias que provocam este gosto são: açúcares,
glicóis, álcoois, aldeídos, cetonas, amidos, ésteres, alguns aminoácidos,
algumas proteínas pequenas, ácidos sulfônicos, ácidos halogenados, e sais
inorgânicos de chumbo e berílio. Deve-se ressaltar que a maioria das
substâncias que induzem o gosto doce é orgânica. É especialmente interessante
o fato de que pequenas alterações na estrutura química, tais como a adição de
radical simples, podem frequentemente mudar a substância de doce para
amarga.
Gosto Amargo. O gosto amargo, assim como o gosto doce, não é induzido
por tipo único de agente químico. Nesse caso, novamente as substâncias que
provocam o gosto amargo são quase exclusivamente substâncias orgânicas.
Duas classes particulares de substâncias destacam-se como indutoras das
sensações de gosto amargo: (1) substâncias orgânicas de cadeia longa, que
contêm nitrogênio; e (2) alcaloides. Os alcaloides incluem muitos dos
fármacos utilizados como medicamentos, como quinina, cafeína, estricnina e
nicotina.
Algumas substâncias que inicialmente têm gosto doce induzem no final um
gosto amargo. Essa característica ocorre com a sacarina, o que torna o uso
dessa substância questionável para algumas pessoas.
O gosto amargo, quando ocorre em alta intensidade, faz com que
frequentemente a pessoa ou o animal rejeite o alimento. Essa reação é, sem
dúvida, função importante da sensação de gosto amargo porque muitas toxinas
letais, encontradas em plantas venenosas são alcaloides, e quase todos esses
alcaloides provocam gosto amargo intenso, não raro, seguido pela rejeição do
alimento.
Gosto Umami. Umami, uma palavra japonesa que significa “delicioso”,
designa a sensação de gosto prazerosa que é qualitativamente diferente do
azedo, do salgado, do doce ou do amargo. Umami é o gosto predominante dos
alimentos que contêm l-glutamato, tais como caldos de carne e queijo
amadurecido, e alguns fisiologistas o consideram como categoria separada, a
quinta categoria de estímulo primário do paladar.
O receptor gustatório para o l-glutamato pode estar relacionado a um dos
receptores sinápticos para o glutamato que também são expressos nas sinapses
neuronais do cérebro. Entretanto, os mecanismos moleculares precisos
responsáveis pelo gosto umami ainda não estão esclarecidos.
LIMIAR PARA O GOSTO
O limiar para a estimulação do gosto azedo pelo ácido clorídrico é de,
aproximadamente, 0,0009 M; para a estimulação do gosto salgado pelo cloreto
de sódio é de 0,01 M; para o gosto doce pela sacarose é de 0,01 M; e para o
gosto amargo pela quinina é de 0,000008 M. Deve-se ressaltar que a
sensibilidade para o gosto amargo é muito maior do que para todos os outros
gostos, o que era esperado, pois essa sensação tem função protetora importante
contra muitas toxinas perigosas presentes nos alimentos.
A Tabela 54-1 mostra os índices relativos dos gostos (o inverso do limiar
para o gosto) de diferentes substâncias. Nessa tabela, as intensidades de quatro
sensações primárias de gosto estão relacionadas, respectivamente, com as intensidades dos gostos de ácido clorídrico, quinina, sacarose e cloreto de
sódio, aos quais foi atribuído arbitrariamente o índice de gosto 1.
Tabela 54-1 Índices Gustatórios Relativos de Diferentes Substâncias
Substâncias Substâncias Substâncias Substâncias Azedas Índice Amargas Índice Doces Índice Salgadas Índice
Ácido 1 Quinina 1 Sacarose 1 NaCl 1
clorídrico
Ácido fórmico 1,1 Brucina 11 1-Propóxi-2- 5.000 NaF 2
amino-4-
nitrobenzeno
Ácido 0,9 Estricnina 3,1 Sacarina 675 CaCl 1 2
cloroacético
Ácido 0,85 Nicotina 1,3 Clorofórmio 40 NaBr 0,4
acetilacético
Ácido lático 0,85 Feniltioureia 0,9 Frutose 1,7 NaI 0,35
Ácido 0,7 Cafeína 0,4 Alanina 1,3 LiCl 0,4
tartárico
Ácido málico 0,6 Veratrina 0,2 Glicose 0,8 NH Cl 2,5 4
Tartarato 0,58 Pilocarpina 0,16 Maltose 0,45 KCl 0,6
ácido de
potássio
Ácido acético 0,55 Atropina 0,13 Galactose 0,32
Ácido cítrico 0,46 Cocaína 0,02 Lactose 0,3
Ácido 0,06 Morfina 0,02
carbônico
CaCl , cloreto de cálcio; KCl, cloreto de potássio; LiCl, cloreto de lítio; NaBr, brometo de sódio; 2
NaCl, cloreto de sódio; NaF, fluoreto de sódio; NaI, iodeto de sódio; NH Cl, cloreto de amônio. 4 Dados de Pfaffman C: Handbook of Phisiology, vol. 1. Baltimore: Williams & Wilkins, 1959, p.
507.
“Cegueira” para o Gosto. Algumas pessoas são “cegas” para o gosto de
certas substâncias, especialmente para diferentes tipos de compostos de
tioureia. Substância usada frequentemente por psicólogos para demonstrar a insensibilidade ao gosto é a feniltiocarbamida, para a qual 15% a 30% da
população exibem “cegueira”; a porcentagem exata depende do método do
teste e da concentração da substância.
BOTÃO GUSTATÓRIO E SUA FUNÇÃO
A Figura 54-1 mostra o botão gustatório que tem diâmetro de
aproximadamente 1/30 milímetro e comprimento de cerca de 1/16 milímetro.
O botão gustatório é composto por cerca de 50 células epiteliais modificadas,
algumas das quais são células de suporte, chamadas células de sustentação e
outras são células gustatórias. As células gustatórias são continuamente
substituídas pela divisão mitótica das células epiteliais que as envolvem,
assim, algumas células gustatórias são células jovens. Outras são células
maduras, que se encontram próximas ao centro do botão; elas rapidamente se
fragmentam e morrem. A expectativa de vida de cada célula gustativa é de
aproximadamente 10 dias nos mamíferos inferiores, mas é desconhecida em
seres humanos.
As extremidades externas das células gustatórias estão dispostas em torno do
minúsculo poro gustatório, mostrado na Figura 54-1. Do ápice de cada célula
gustatória, muitas microvilosidades, ou pelos gustatórios, projetam-se para
fora, através do poro gustatório, aproximando-se da cavidade da boca. Essas
microvilosidades proveem a superfície receptora para o gosto.
Entrelaçada, em torno dos corpos das células gustatórias, encontra-se uma
rede de ramificações dos terminais das fibras nervosas gustatórias,
estimuladas pelas células receptoras gustatórias. Algumas dessas fibras se
invaginam para dentro das pregas das membranas da célula gustatória. São
encontradas muitas vesículas abaixo da membrana plasmática próxima das
fibras. Acredita-se que essas vesículas contenham a substância
neurotransmissora, que é liberada pela membrana plasmática, excitando as
terminações das fibras nervosas em resposta ao estímulo gustatório.
Figura 54-1. Botão gustatório.
Localização dos Botões Gustatórios. Os botões gustatórios são
encontrados em três tipos de papilas da língua, como descrito a seguir: (1)
grande quantidade de botões gustatórios está localizada nas paredes dos sulcos
que circundam as papilas circunvaladas, que formam uma linha em V na
superfície posterior da língua; (2) uma quantidade moderada de botões
gustatórios se localiza nas papilas fungiformes na superfície plana anterior da
língua; e (3) uma quantidade moderada de botões gustatórios se encontra nas
papilas foliáceas, localizadas nas dobras, ao longo das superfícies laterais da
língua. Botões gustatórios adicionais estão localizados no palato, e alguns
poucos nas papilas tonsilares, na epiglote e até mesmo no esôfago proximal.
Os adultos têm de 3.000 a 10.000 botões gustatórios, e as crianças têm uma
quantidade um pouco maior. Acima de 45 anos de idade, muitos botões
gustatórios degeneram, fazendo com que a sensação gustatória diminua na
idade adulta.
Especificidade dos Botões Gustatórios para um Estímulo
Gustatório Primário. Estudos utilizando microeletródios, colocados em botões gustatórios isolados, mostraram que cada botão gustatório
frequentemente responde, sobretudo, a um dos cinco estímulos gustatórios
primários quando a substância identificada está em baixa concentração.
Entretanto, em altas concentrações, a maioria dos botões pode ser excitada por
dois ou mais dos estímulos gustatórios primários, assim como por outros
poucos estímulos gustatórios que não se encaixam nas categorias “primárias”.
Mecanismo de Estimulação dos Botões Gustatórios
Potencial Receptor. A membrana da célula gustatória, como a maioria das
outras células sensoriais receptoras, tem carga negativa no seu interior em
relação ao exterior. A aplicação de substância nos pelos gustatórios causa
perda parcial desse potencial negativo — isto é, as células gustatórias são
despolarizadas. Na maioria das vezes, a redução do potencial, dentro de faixa
extensa, é aproximadamente proporcional ao logaritmo da concentração da
substância estimulatória. Essa alteração no potencial elétrico da célula
gustatória é chamada potencial receptor para a gustação.
O mecanismo pelo qual a maioria das substâncias estimulatórias interage
com as vilosidades gustatórias, para iniciar o potencial receptor se dá por meio
da ligação da substância à molécula receptora proteica, localizada na superfície
da célula receptora gustatória, próxima da membrana das vilosidades ou sobre
elas. Essa interação resulta na abertura de canais iônicos, que permitem a
entrada de íons sódio e hidrogênio, ambos com carga positiva, despolarizando
a célula, que normalmente tem carga negativa. Então, a substância
estimulatória é deslocada da vilosidade gustatória pela saliva, removendo,
assim, o estímulo.
O tipo do receptor proteico em cada vilosidade gustatória determina o tipo de
gosto que é percebido. Para os íons sódio e hidrogênio, que provocam as
sensações gustatórias salgada e azeda, respectivamente, as proteínas receptoras
abrem canais iônicos específicos, nas membranas apicais das células
gustatórias, ativando, assim, os receptores. Entretanto, para as sensações gustatórias doce e amarga, as porções das moléculas proteicas receptoras, que
se projetam através da membrana apical, ativam substâncias transmissoras
que são segundos mensageiros nas células gustatórias e esses segundos
mensageiros produzem alterações químicas intracelulares, que provocam os
sinais do gosto.
Geração dos Impulsos Nervosos pelos Botões Gustatórios. Na
primeira aplicação do estímulo gustatório, a frequência de descarga das fibras
nervosas, que se originam nos botões gustatórios, aumenta até atingir o pico
em fração de segundos, mas, então, se adapta nos próximos poucos segundos,
retornando a nível mais baixo, constante e assim permanecendo durante a
vigência do estímulo. Por isso, o nervo gustatório transmite sinal forte e
imediato e sinal contínuo, mais fraco, que permanece durante todo o tempo em
que o botão gustatório está exposto ao estímulo.
TRANSMISSÃO DOS SINAIS GUSTATÓRIOS PARA O
SISTEMA NERVOSO CENTRAL
A Figura 54-2 mostra as vias neuronais para a transmissão dos sinais
gustatórios, da língua e região da faringe, até o sistema nervoso central.
Impulsos gustatórios, oriundos dos dois terços anteriores da língua, passam,
inicialmente, pelo nervo lingual e, então, pelo ramo corda do tímpano do
nervo facial e, por fim, pelo trato solitário, no tronco cerebral. Sensações
gustatórias, que se originam das papilas circunvaladas, na parte posterior da
língua, e de outras regiões posteriores da boca e garganta, são transmitidas
pelo nervo glossofaríngeo para o trato solitário, mas em nível mais posterior.
Por fim, poucos sinais gustatórios são transmitidos da base da língua e de
outras partes da região faríngea pelo nervo vago para o trato solitário.
Todas as fibras gustatórias fazem sinapse nos núcleos do trato solitário no
tronco cerebral. Esses núcleos contêm os neurônios de segunda ordem que se
projetam para pequena área do núcleo ventral posteromedial do tálamo, situada ligeiramente medial às terminações talâmicas das regiões faciais do
sistema da coluna dorsal-lemnisco medial. Do tálamo, neurônios de terceira
ordem se projetam para a extremidade inferior do giro pós-central no córtex
cerebral parietal, onde eles penetram na fissura silviana e na área insular
opercular. Esta área se situa pouco mais lateral, ventral e rostral à área para os
sinais táteis da língua, na área somática cerebral I. Fica evidente, por essa
descrição das vias gustatórias, que elas cursam paralelamente às vias
somatossensoriais da língua.
Figura 54-2. Transmissão dos sinais gustatórios para o sistema nervoso central.
Reflexos Gustatórios São Integrados no Tronco Cerebral. Do trato
solitário, muitos sinais gustatórios são transmitidos pelo interior do tronco
cerebral diretamente para os núcleos salivares superior e inferior e essas áreas
transmitem os sinais para as glândulas submandibular, sublingual e parótidas,
auxiliando no controle da secreção da saliva, durante a ingestão e digestão dos
alimentos.
Rápida Adaptação da Gustação. Todos estão familiarizados com o fato
de que as sensações gustatórias se adaptam rapidamente, em geral de modo
quase completo, em cerca de um minuto de estimulação contínua. É claro
também, pelos estudos eletrofisiológicos das fibras nervosas gustatórias, que a
adaptação dos botões gustatórios é responsável por não mais do que metade
dessa rápida adaptação do gosto. Portanto, o grau final de adaptação, que
ocorre na sensação gustatória, quase com certeza é de responsabilidade do
sistema nervoso central, embora os mecanismos dessa adaptação não sejam
conhecidos. De qualquer maneira, é um mecanismo diferente do da maioria
dos outros sistemas sensoriais, que se adaptam essencialmente em nível dos
receptores.
PREFERÊNCIA DE GOSTO E CONTROLE DA DIETA
Preferência de gosto significa simplesmente que o animal escolherá certos
tipos de alimento de modo preferencial a outros, e que o animal usa de forma
automática essa preferência para auxiliá-lo a controlar a dieta que ingere.
Além disso, as preferências do gosto, em geral, mudam de acordo com as
necessidades corporais para certas substâncias.
Os experimentos, descritos a seguir, demonstram essa capacidade que os
animais têm de escolher o alimento, de acordo com suas necessidades
corporais. Primeiro, animais adrenalectomizados, com depleção de sal,
selecionam automaticamente a ingestão de água com alta concentração de cloreto de sódio em preferência à água pura, e a quantidade de cloreto de sódio