Tratado de Fisiologia Médica
A Insulina e seus Efeitos Metabólicos
A insulina foi isolada pela primeira vez no pâncreas em 1922, por Banting e
Best, e praticamente da noite para o dia a perspectiva para o paciente com
diabetes grave mudou de declínio rápido e morte para a de pessoa
praticamente normal. Historicamente, a insulina foi associada ao “açúcar no
sangue”, mas, na verdade, ela apresenta efeitos profundos no metabolismo
dos carboidratos. Mesmo assim, são as anormalidades do metabolismo das
gorduras que provocam condições, tais como a acidose e arteriosclerose,
causas usuais de morbidade e morte nos pacientes diabéticos. Além disso,
nos pacientes portadores de diabetes prolongado sem tratamento, a redução
da capacidade de sintetizar proteínas leva ao consumo de tecidos, assim
como a muitos distúrbios celulares funcionais. Consequentemente, é claro
que a insulina afeta o metabolismo de lipídios e proteínas quase tanto como
o metabolismo dos carboidratos.
A INSULINA É UM HORMÔNIO ASSOCIADO À
ABUNDÂNCIA DE ENERGIA
À medida que discutirmos a insulina nas próximas poucas páginas, ficará
evidente que a secreção de insulina está associada à abundância de energia,
ou seja, quando existe grande abundância de alimentos muito energéticos na
dieta, em especial quantidades excessivas de carboidratos, a secreção
aumenta. Por sua vez, a insulina desempenha um papel importante no
armazenamento do excesso de energia. No caso de excesso de carboidratos,
a insulina faz com que sejam armazenados sob a forma de glicogênio,
principalmente no fígado e nos músculos. Além disso, todo o excesso de
carboidrato que não pode ser armazenado na forma de glicogênio é
convertido sob o estímulo da insulina em gordura e armazenado no tecido
adiposo. No caso das proteínas, a insulina exerce efeito direto na promoção
da captação de aminoácidos pelas células e na sua conversão em proteína. Além disso, ela inibe o catabolismo das proteínas que já se encontram nas
células.
QUÍMICA E SÍNTESE DA INSULINA
A insulina é uma proteína pequena. A insulina humana, que tem peso
molecular de 5.808, é formada por duas cadeias de aminoácidos, como
vemos na Figura 79-2, conectadas por meio de ligações dissulfeto. Quando
as duas cadeias de aminoácidos se separam, a atividade funcional da
molécula de insulina desaparece.
A insulina é sintetizada nas células beta pelo modo usual como as
proteínas são sintetizadas, como explicado no Capítulo 3, começando com a
tradução do mRNA da insulina por meio dos ribossomos ligados ao retículo
endoplasmático para formar uma pré-proinsulina. Essa pré-proinsulina
inicial apresenta peso molecular em torno de 11.500, sendo então clivada no
retículo endoplasmático, para formar a proinsulina, com peso molecular de
aproximadamente 9.000, e consiste em três cadeias de peptídeos, A, B e C.
A maior parte da proinsulina é novamente clivada no aparelho de Golgi,
para formar insulina composta pelas cadeias A e B, conectadas por ligações
dissulfeto e peptídeo cadeia C, denominado peptídeo conector (peptídeo C).
A insulina e o peptídeo C são revestidos nos grânulos secretores e
secretados em quantidades equimolares. Aproximadamente 5% a 10% do
produto final secretado se encontram ainda sob a forma de proinsulina.
A proinsulina e o peptídeo C não têm, virtualmente, atividade insulínica.
Porém, o peptídeo C se liga à estrutura da membrana, mais provavelmente
um receptor da membrana acoplado à proteína G e elicita a ativação de, ao
menos, dois sistemas enzimáticos, sódio-potássio adenosina trifosfatase e
óxido nítrico sintetase endotelial. Apesar de ambas as enzimas terem
múltiplas funções fisiológicas, a importância do peptídeo C na regulação
dessas enzimas ainda é incerta.
Os níveis de peptídeo C podem ser determinados por radioimunoensaio
nos pacientes diabéticos tratados com insulina, para determinar quanto de
sua insulina natural ainda está sendo produzida. Pacientes com diabetes do
tipo 1, incapazes de produzir insulina, têm normalmente níveis
substancialmente diminuídos de peptídeo C.
Quando a insulina é secretada na corrente sanguínea, ela circula quase
inteiramente em sua forma livre. Uma vez que a sua meia-vida plasmática é
de, aproximadamente, apenas 6 minutos, assim ela é, na sua maior parte,
eliminada da circulação dentro de 10 a 15 minutos. Com exceção da porção
da insulina que se liga aos receptores nas células-alvo, o restante é
degradado pela enzima insulinase, em sua maior parte no fígado e em
menor quantidade nos rins e músculos e, menos ainda, na maioria dos
outros tecidos. Essa rápida remoção do plasma é importante, porque, às
vezes, sua pronta desativação bem como sua ativação são fundamentais para
o controle das funções da insulina.
Figura 79-2. Esquema da molécula de proinsulina humana, que é quebrada no complexo de Golgi das células pancreáticas beta para formar o peptídeo conector (peptídeo C) e insulina, que é composta por cadeias A e B, conectadas por pontes de dissulfeto. O peptídeo C e a insulina são armazenados em grânulos e secretados em quantidades equimolares, com uma pequena quantidade de proinsulina.
ATIVAÇÃO DOS RECEPTORES DAS CÉLULAS-ALVO
PELA INSULINA E OS EFEITOS CELULARES
RESULTANTES
Para começar a exercer seus efeitos nas células-alvo, a insulina, em primeiro
lugar, liga-se e ativa um receptor proteico de membrana, com peso
molecular em torno de 300.000 (Figura 79-3). É o receptor ativado que
causa os efeitos subsequentes.
O receptor de insulina é a combinação de quatro subunidades que se
mantêm unidas por meio de ligações dissulfeto: duas subunidades alfa, que
se situam inteiramente do lado externo da membrana celular e duas
subunidades beta, que penetram através da membrana, projetando-se no
citoplasma celular. A insulina se acopla às subunidades alfa do lado externo
da célula, mas, devido às ligações com as subunidades beta, as porções das
subunidades beta que se projetam para o interior da célula são
autofosforiladas. Assim, o receptor de insulina é exemplo de um receptor
ligado à enzima, discutido no Capítulo 75. A autofosforilação das
subunidades beta do receptor ativa uma tirosina cinase local, que, por sua
vez, causa fosforilação de diversas outras enzimas intracelulares, inclusive
do grupo chamado substratos do receptor de insulina (IRS). Tipos diferentes
de IRS (p. ex., IRS-1, IRS-2 e IRS-3) são expressos nos diferentes tecidos.
O efeito global é a ativa ção de algumas enzimas e, ao mesmo tempo, a
inativação de outras. Dessa maneira, a insulina dirige a maquinaria metabó‐
lica intracelular, de modo a produzir os efeitos desejados no metabolismo de
carboidratos, lipídios e proteínas. Os princi pais efeitos finais da estimulação
da insulina são os seguintes:
1. Em segundos depois que a insulina se acopla a seus receptores de
membrana, as membranas de cerca de 80% das células do organismo
aumentam acentuadamente sua captação de glicose. Isso ocorre, de modo
especial, nas células musculares e adiposas, mas não na maioria dos
neurônios do encéfalo. A glicose transportada para as células é
imediatamente fosforilada e se transforma em substrato para todas as
funções metabólicas usuais dos carboidratos. Acredita-se que o
transporte aumentado da glicose resulte da translocação de múltiplas
vesículas intracelulares para as membranas celulares: essas vesículas
contêm múltiplas moléculas de proteínas transportadoras de glicose, que
se acoplam à membrana celular e facilitam a captação da glicose nas
células. Quando a insulina não está mais disponível, essas vesículas se
separam da membrana celular em período de 3 a 5 minutos e retornam
para o interior da célula para serem utilizadas repetidamente, conforme
necessário.
2. A membrana celular fica mais permeável a muitos dos aminoácidos, a
íons potássio e fosfato, levando a aumento do transporte dessas
substâncias para a célula.
3. Efeitos mais lentos ocorrem durante os 10 a 15 minutos seguintes, para
modificar os níveis de atividade de muitas das enzimas metabólicas
intracelulares. Esses efeitos resultam, principalmente, da alteração do
estado de fosforilação das enzimas.
4. Efeitos ainda mais lentos continuam a ocorrer horas e até mesmo dias
depois. Eles resultam da variação da velocidade de tradução dos RNAs
mensageiros nos ribossomos, para formar novas proteínas e de efeitos
ainda mais lentos devido à variação da transcrição do DNA no núcleo
celular. Dessa maneira, a insulina remodela muito da maquinaria
enzimática celular até atingir alguns dos seus efeitos metabólicos.
Figura 79-3. Esquematização do receptor de insulina. A insulina se liga à subunidade a de seu receptor, o que provoca a autofosforilação do receptor da subunidade b, que, por sua vez, induz a atividade da tirosina cinase. A atividade da tirosina cinase do receptor inicia uma cascata de fosforilação celular, que aumenta ou diminui a atividade das enzimas, incluindo os substratos dos receptores de insulina que medeiam os efeitos da insulina em glicose, lipídios e metabolismo proteico. Por exemplo, os transportadores de glicose são translocados para a membrana celular, para facilitar a entrada da glicose na célula.
EFEITO DA INSULINA NO METABOLISMO DOS
CARBOIDRATOS
Imediatamente após uma refeição rica em carboidratos, a glicose absorvida
para o sangue causa secreção rápida de insulina, que é discutida em detalhes
adiante, neste Capítulo. A insulina, por sua vez, faz a pronta captação, armazenamento e utilização da glicose por quase todos os tecidos do
organismo, mas em especial pelos músculos, tecido adiposo e fígado.
A Insulina Promove a Captação e o Metabolismo da
Glicose nos Músculos
Durante grande parte do dia, o tecido muscular depende não somente da
glicose como fonte de energia, mas também dos ácidos graxos. O principal
motivo dessa dependência de ácidos graxos consiste no fato de que a
membrana muscular em repouso só é ligeiramente permeável à glicose,
exceto quando a fibra muscular é estimulada pela insulina; entre as
refeições, a quantidade de insulina secretada é insuficiente para promover a
entrada de quantidades significativas de glicose nas células musculares.
Entretanto, sob duas condições os músculos utilizam gran de quantidade
de glicose. Uma delas é durante a realização de exercícios moderados ou
intensos. Essa utilização de glicose não precisa de grande quantidade de
insulina, porque a contração muscular aumenta a translocação da molécula
transportadora de glicose 4 (GLUT 4) dos depósitos intracelulares para a
membrana celular, o que, por sua vez, facilita a difusão da glicose na célula.
A segunda condição para a utilização muscular de grande quantidade de
glicose ocorre nas poucas horas seguintes à refeição. Nesse período, a
concentração de glicose no sangue fica bastante elevada, e o pâncreas está
secretando grande quantidade de insulina. Essa insulina adicional provoca
transporte rápido da glicose para as células musculares. Por isso, nesse
período, a célula muscular utiliza a glicose preferencialmente aos ácidos
graxos, como discutiremos adiante.
Armazenamento de Glicogênio no Músculo. Se os músculos não
estiverem se exercitando depois da refeição e, ainda assim, a glicose for
transportada abundantemente para as células musculares, então a maior parte da glicose é armazenada sob a forma de glicogênio muscular, em vez
de ser utilizada como energia, até o limite de concentração de 2% a 3%. O
glicogênio pode ser utilizado depois como energia pelo músculo. O
glicogênio é especialmente útil durante períodos curtos de uso energético
extremo pelos músculos e, até mesmo, para fornecer picos de energia
anaeróbica durante alguns minutos, por meio da conversão glicolítica do
glicogênio em ácido lático, o que pode ocorrer até mesmo na ausência de
oxigênio.
Efeito Quantitativo da Insulina para Auxiliar o Transporte
de Glicose Através da Membrana da Célula Muscular
O efeito quantitativo da insulina para facilitar o transporte de glicose através
da membrana da célula muscular é demonstrado pelos resultados
experimentais exibidos na Figura 79-4. A curva inferior rotulada como
“controle” mostra a concentração de glicose livre medida na célula,
demonstrando que a concentração de glicose permaneceu praticamente zero,
apesar do aumento da concentração extracelular de glicose tão grande
quanto 750 mg/100 mL. Em contraste, a curva rotulada de “insulina”
demonstra que a concentração de glicose intracelular aumentou até 400
mg/100 mL, quando a insulina foi adicionada. Assim, fica claro que a
insulina pode elevar o transporte de glicose no músculo em repouso pelo
menos em 15 vezes.
Figura 79-4. Efeito da insulina no aumento da concentração de glicose nas células musculares. Note que, na ausência de insulina (controle), a concentração intracelular de glicose permanece próxima de zero, apesar das elevadas concentrações extracelulares de glicose. (Dados de Eisenstein AB: The Biochemical Aspects of Hormone Action. Boston: Little, Brown, 1964.)
A Insulina Promove a Captação, o Armazenamento e a
Utilização da Glicose pelo Fígado
Um dos mais importantes de todos os efeitos da insulina é fazer com que a
maioria da glicose absorvida após uma refeição seja armazenada
rapidamente no fígado sob a forma de glicogênio. Então, entre as refeições,
quando o alimento não está disponível e a concentração de glicose
sanguínea começa a cair, a secreção de insulina diminui rapidamente, e o
glicogênio hepático é de novo convertido em glicose, que é liberada de volta
ao sangue, para impedir que a concentração de glicose caia a níveis muito
baixos.
O mecanismo pelo qual a insulina provoca a captação e o armazenamento
da glicose no fígado inclui diversas etapas quase simultâneas:
1. A insulina inativa a fosforilase hepática, a principal enzima que leva à
quebra do glicogênio hepático em glicose. Essa inativação impede a
clivagem do glicogênio armazenado nas células hepáticas.
2. A insulina causa aumento da captação de glicose do sangue pelas
células hepáticas mediante aumento da atividade da enzima glicocinase,
uma das enzimas que provocam a fosforilação inicial da glicose, depois
que ela se difunde pelas células hepáticas. Depois de fosforilada, a
glicose é temporariamente retida nas células hepáticas porque a glicose
fosforilada não pode se difundir de volta, através da membrana celular.
3. A insulina também aumenta as atividades das enzimas que promovem a
síntese de glicogênio, inclusive, de modo especial, a glicogênio sintase,
responsável pela polimerização das unidades de monossacarídeos, para
formar as moléculas de glicogênio.
O efeito global de todas essas ações é aumentar a quantidade de glicogênio
no fígado. O glicogênio pode elevar até o total de, aproximadamente, 5% a
6% da massa hepática, o que equivale a quase 100 gramas de glicogênio
armazenado em todo o fígado.
A Glicose É Liberada do Fígado Entre as Refeições. Quando o
nível da glicose no sangue começa a baixar entre as refeições, ocorrem
diversos eventos que fazem com que o fígado libere glicose de volta para o
sangue circulante:
1. A redução da glicose sanguínea faz com que o pâncreas reduza sua
secreção de insulina.
2. A ausência de insulina, então, reverte todos os efeitos relacionados
anteriormente para o armazenamento de glicogênio, interrompendo,
essencialmente, a continuação da síntese de glicogênio no fígado e
impedindo a captação adicional da glicose do sangue pelo fígado.
3. A ausência de insulina (com o aumento do gluca gon, a ser discutido
adiante) ativa a enzima fosfo rila se, que causa a clivagem do glicogênio
em glicose fosfato.
4. A enzima glicose fosfatase, inibida pela insulina, é então ativada pela
ausência de insulina e faz com que o radical fosfato seja retirado da
glicose; isso possibilita a difusão de glicose livre de volta para o sangue.
Assim, o fígado remove a glicose do sangue, quando ela está presente em
quantidade excessiva após uma refeição, e a devolve para o sangue, quando
a concentração da glicose sanguínea diminui entre as refeições. Em geral,
cerca de 60% da glicose da refeição é armazenada, dessa maneira, no fígado
e, então, retorna posteriormente para a corrente sanguínea.
A Insulina Promove a Conversão do Excesso de Glicose em
Ácidos Graxos e Inibe a Gliconeogênese no Fígado. Quando a
quantidade de glicose, que penetra as células hepáticas é maior do que a que
pode ser armazenada sob a forma de glicogênio ou do que pode ser utilizada
para o metabolismo local dos hepatócitos, a insulina promove a conversão
de todo esse excesso de glicose em ácidos graxos. Esses ácidos graxos são
subsequentemente empacotados sob a forma de triglicerídeos em
lipoproteínas de densidade muito baixa e, dessa forma, transportados pelo
sangue para o tecido adiposo, onde são depositados como gordura.
A insulina também inibe a gliconeogênese. Isso ocorre, em sua maior
parte, por meio da redução das quantidades e atividades que as enzimas
hepáticas precisam para a gliconeogênese. Contudo, esse efeito é, em parte,
causado por ação da insulina, que reduz a liberação de aminoácidos dos
músculos e de outros tecidos extra-hepáticos e, por sua vez, a
disponibilidade desses precursores necessários para a gliconeogênese. Esse
fenômeno é discutido adiante, em relação ao efeito da insulina no
metabolismo das proteínas.
A Falta do Efeito da Insulina na Captação e Utilização da
Glicose pelo Cérebro
O cérebro é bastante diferente da maioria dos outros tecidos do organismo,
em que a insulina apresenta pouco efeito na captação ou utilização da glicose. Ao contrário, a maioria das células neurais é permeável à glicose e
pode utilizá-la sem a intermediação da insulina.
Os neurônios são também bastante diferentes da maioria das outras células
do organismo, no sentido que utilizam, normalmente, apenas glicose como
fonte de energia e só podem empregar outros substratos para obter energia,
tais como as gorduras com dificuldade. Consequentemente, é essencial que
o nível de glicose sanguínea se mantenha sempre acima do nível crítico, o
que é uma das funções mais importantes do sistema de controle da glicose
sérica. Quando o nível da glicose cai muito, na faixa compreendida entre 20
e 50 mg/100 mL, desenvolvem-se os sintomas de choque hipoglicêmico,
caracterizados por irritabilidade nervosa progressiva que leva à perda da
consciência, convulsões ou até mesmo o coma.
O Efeito da Insulina no Metabolismo dos Carboidratos
em Outras Células
A insulina aumenta o transporte e a utilização da glicose pela maioria das
outras células do organismo (com exceção da maior parte dos neurônios,
como mencionado), do mesmo modo como afeta o transporte e a utilização
da glicose nas células musculares. O transporte da glicose para as células
adiposas fornece, principalmente, substrato para a porção glice rol da
molécula de gordura. Consequentemente, desse modo indireto, a insulina
promove a deposição da gordura nessas células.
O EFEITO DA INSULINA NO METABOLISMO DAS
GORDURAS
Apesar de os efeitos da insulina no metabolismo das gorduras não serem tão
visíveis como os efeitos agudos no metabolismo dos carboidratos, eles
apresentam, em longo prazo, importância equivalente. O efeito em longo
prazo da falta de insulina é, especialmente, dramático porque provoca aterosclerose extrema, muitas vezes levando a ataques cardíacos, acidentes
vasculares cerebrais e a outros acidentes vasculares. Contudo, em primeiro
lugar, vamos discutir os efeitos agudos da insulina no metabolismo das
gorduras.
A Insulina Promove a Síntese e o Armazenamento das
Gorduras
A insulina exerce diversos efeitos que levam ao armazenamento das
gorduras no tecido adiposo. Em primeiro lugar, a insulina aumenta a
utilização da glicose pela maioria dos tecidos do corpo, o que
automaticamente reduz a utilização da gordura, funcionando assim como
um poupador de gordura. Entretanto, a insulina também promove a síntese
de ácidos graxos. Isso é de modo especial verdadeiro quando ocorre
ingestão de mais carboidratos do que é possível usar imediatamente como
energia, fornecendo, assim, o substrato necessário para a síntese de gordura.
Quase toda essa síntese ocorre nas células hepáticas, e os ácidos graxos são,
então, transportados do fígado pelas lipoproteínas plasmáticas para serem
armazenados nas células adiposas. Os diferentes fatores, que levam ao
aumento da síntese dos ácidos graxos pelo fígado, incluem os seguintes:
1. A insulina aumenta o transporte da glicose para as células hepáticas.
Depois que a concentração de glicogênio no fígado atinge 5% a 6%, esse
nível, por si só, inibe a síntese posterior de glicogênio. A partir daí, toda
a glicose adicional que penetra as células hepáticas fica disponível sob a
forma de gordura. A glicose é, em primeiro lugar, transformada em
piruva to, na via glicolítica, e o piruvato é, subsequentemente, convertido
em acetilcoenzima A (acetil-CoA), que é o substrato a partir do qual os
ácidos graxos são sintetizados.
2. O ciclo do ácido cítrico produz excesso de íons citrato e de íons
isocitrato, quando quantidades excessivas de glicose estão sendo
utilizadas como fonte de energia. Esses íons, então, apresentam efeito
direto na ativação da acetil-CoA carboxilase, a enzima necessária para
realizar a carboxilação da acetil-CoA, de modo a formar malonil-CoA, o
primeiro estágio da síntese dos ácidos graxos.
3. A maior parte dos ácidos graxos é, então, sintetizada no interior do
fígado e utilizada para formar triglicerídeos, que é a forma usual de
armazenamento da gordura. Eles são liberados das células hepáticas para
o sangue nas lipoproteínas. A insulina ativa a lipoproteína lipase nas
paredes dos capilares do tecido adiposo, que quebra os triglicerídeos,
formando outra vez ácidos graxos, requisito para que possam ser
absorvidos pelas células adiposas, onde voltam a ser convertidos em
triglicerídeos e armazenados.
O Papel da Insulina no Armazenamento de Gordura nas Células
Adiposas. A insulina tem dois outros efeitos essenciais que são requeridos
para o armazenamento de gordura nas células adiposas:
1. A insulina inibe a ação da lipase hormônio-sensível. A lipase é a
enzima que provoca a hidrólise dos trigli ce rídeos previamente
armazenados nas células adipo sas. Consequentemente, a liberação dos
ácidos graxos do tecido adiposo para o sangue circulante é inibida.
2. A insulina promove o transporte da glicose através da membrana
celular para o interior das células adiposas, do mesmo modo como
promove o transporte da glicose para as células musculares. Parte dessa
glicose é, então, utilizada para sintetizar quantidades mínimas de ácidos
graxos, porém o mais importante é que ela também forma grande
quantidade de a-glicerol fosfato. Essa substância produz o glicerol que se
associa aos ácidos graxos para formar os triglicerídeos, que são a forma
de armazenamento da gordura nas células adiposas. Por conseguinte,
quando a insulina não está disponível, até mesmo as reservas de grandes
quantidades de ácidos graxos transportados do fígado nas lipoproteínas
são praticamente bloqueadas.
A Deficiência de Insulina Aumenta o Uso da Gordura
como Fonte de Energia
Todos os aspectos da lipólise e de seu uso como fonte de energia ficam
muito aumentados na ausência de insulina. Essa potencialização ocorre,
mesmo normalmente entre as refeições, quando a secreção de insulina é
mínima, mas é extrema nos doentes com diabetes melito, quando a secreção
de insulina é quase zero. Os efeitos resultantes são descritos nas seguintes
seções.
A Deficiência de Insulina Causa Lipólise das Gorduras
Armazenadas e Liberação de Ácidos Graxos Livres. Na ausência
de insulina, todos os efeitos da insulina, observados antes que causem o
armazenamento das gorduras, são revertidos. O efeito mais importante é que
a enzima lipase hormônio-sensível nas células adiposas fica intensamente
ativada. Isso leva à hidrólise dos triglicerídeos armazenados, liberando
grande quantidade de ácidos graxos e de glicerol no sangue circulante.
Consequentemente, a concentração plasmática dos ácidos graxos livres
começa a aumentar dentro de minutos. Esses ácidos graxos passam a ser o
principal substrato de energia utilizado, essencialmente, por todos os tecidos
do organismo, com exceção do cérebro.
A Figura 79-5 mostra o efeito da ausência de insulina nas concentrações
plasmáticas dos ácidos graxos livres, glicose e ácido acetoacético. Observe
que, quase imediatamente após a remoção do pâncreas, a concentração de
ácidos graxos livres no plasma começa a aumentar, até mais rapidamente do
que a concentração de glicose.
Figura 79-5. Efeito da remoção do pâncreas na concentração aproximada de glicose sanguínea, ácidos graxos livres no plasma e ácido acetoacético.
A Deficiência de Insulina Aumenta as Concentrações de
Colesterol e de Fosfolipídios Plasmáticos. O excesso de ácidos
graxos no plasma, associado à deficiência de insulina, também promove a
conversão hepática de alguns ácidos graxos em fosfolipídios e colesterol,
dois dos principais produtos do metabolismo da gordura. Essas duas
substâncias, junto com o excesso de triglicerídeos formado ao mesmo tempo
no fígado, são, então, liberadas para o sangue nas lipoproteínas.
Ocasionalmente, as lipoproteínas plasmáticas chegam a aumentar em até
três vezes na ausência de insulina, fazendo com que a concentração total de
lipídios plasmáticos fique maior que a porcentagem normal de 0,6%. Essa
elevada concentração de lipídios — especialmente a elevada concentração
de colesterol — promove o desenvolvimento da aterosclerose nas pessoas
portadoras de diabetes grave.
A Utilização Excessiva das Gorduras durante a Falta de Insulina
Causa Cetose e Acidose. A ausência de insulina também forma quantidades excessivas de ácido acetoacético nas células hepáticas, em
consequência do seguinte efeito: na ausência de insulina, mas, na presença
de grande quantidade de ácidos graxos nas células hepáticas, o mecanismo
de transporte da carnitina, para levar os ácidos graxos para as mitocôndrias,
fica cada vez mais ativado. Nas mitocôndrias, a betaoxidação dos ácidos
graxos ocorre rapidamente, liberando quantidades extremas de acetil-CoA.
Grande parte desse excesso de acetil-CoA é, então, condensada, de modo a
formar o ácido acetoacético que é liberado no sangue circulante. A maior
parte do ácido acetoacético passa para as células periféricas, onde é
novamente convertido em acetil-CoA e utilizado como energia na forma
usual.
Ao mesmo tempo, a ausência de insulina também deprime a utilização de
ácido acetoacético nos tecidos periféricos. Assim, tanto ácido acetoacético é
liberado pelo fígado que não pode ser metabolizado pelos tecidos. Como
mostrado na Figura 79-5, a concentração de ácido acetoacético aumenta nos
dias seguintes à interrupção da secreção de insulina, chegando, às vezes, a
concentrações de 10 mEq/L ou mais, o que é estado grave de acidose.
Como explicado no Capítulo 69, parte do ácido acetoacético também é
convertida em ácido b-hidroxibutírico e acetona. Essas duas substâncias,
junto com o ácido acetoacético, são chamadas corpos cetônicos, e sua
presença, em grande quantidade nos líquidos do corpo, é chamada cetose.
Veremos adiante que, no diabetes grave, o ácido acetoacético e o ácido b-
hidroxibutírico podem causar acidose grave e coma, podendo levar à morte.
O EFEITO DA INSULINA NO METABOLISMO DAS
PROTEÍNAS E NO CRESCIMENTO
A Insulina Promove a Síntese e o Armazenamento de
Proteínas Durante as poucas horas depois da refeição, quando existem quantidades
excessivas de nutrientes no sangue circulante, proteínas, carboidratos e
gorduras são armazenados nos tecidos; há necessidade de insulina para que
esse armazenamento ocorra. O modo pelo qual a insulina realiza o
armazenamento de proteínas não é tão bem compreendido como os
mecanismos do armazenamento da glicose e das gorduras. Alguns dos fatos
são descritos a seguir.
1. A insulina estimula o transporte de muitos dos aminoácidos para as
células. Entre os aminoácidos mais intensamente transportados,
encontram-se valina, leucina, isoleucina, tirosina e fenilalanina. Assim,
a insulina divide com o hormônio do crescimento a capacidade de
aumentar a captação de aminoácidos nas células. No entanto, os
aminoácidos afetados não são necessariamente os mesmos.
2. A insulina aumenta os processos de tradução do RNA mensageiro,
formando, dessa maneira, novas proteínas. De algum modo ainda
inexplicado, a insulina aciona a maquinaria ribossômica. Na ausência de
insulina, os ribossomos simplesmente param de trabalhar, como se a
insulina, na prática, acionasse o seu mecanismo de “ligar e desligar”.
3. Em intervalo maior de tempo, a insulina também aumenta a transcrição
de sequências genéticas selecionadas de DNA no núcleo celular,
formando, assim, quantidade aumentada de RNA e síntese ainda maior
de proteínas — promovendo, especialmente, grande conjunto de enzimas
envolvidas no armazenamento de carboidratos, gorduras e proteínas.
4. A insulina inibe o catabolismo das proteínas, reduzindo, dessa forma, a
liberação de aminoácidos das células, em especial das células
musculares. Isso resulta, possivelmente, da capacidade de a insulina
reduzir a degradação normal das proteínas pelos lisossomos celulares.
5. No fígado, a insulina deprime a gliconeogênese. Isso ocorre por meio
da redução da atividade das enzimas que promovem a gliconeogênese.
Como os substratos mais utilizados na síntese de glicose pela
gliconeogênese são os aminoácidos plasmáticos, essa supressão da
gliconeogênese conserva os aminoácidos nas reservas de proteínas do
corpo.
Em resumo, a insulina proporciona a formação de proteínas e impede a sua
degradação.
A Deficiência de Insulina Causa Depleção de Proteínas e
Aumento dos Aminoácidos Plasmáticos
Virtualmente, cessa toda a reserva de proteínas quando não há
disponibilidade de insulina. O catabolismo das proteínas aumenta, a síntese
de proteínas cessa e uma grande quantidade de aminoácidos é lançada no
plasma. A concentração de aminoácidos plasmáticos aumenta
consideravelmente e a maior parte do excesso de aminoácidos é utilizada
diretamente como energia e como substratos para a gliconeogênese. Essa
degradação dos aminoácidos também leva ao aumento da excreção da ureia
na urina. O resultante consumo de proteínas é um dos efeitos mais graves do
diabetes melito; pode levar à fraqueza extrema, bem como à alteração de
diversas funções dos órgãos.
A Insulina e o Hormônio do Crescimento Interagem de
Modo Sinérgico para Promover o Crescimento
Como a insulina é necessária para a síntese de proteínas, ela é também
essencial para o crescimento do animal, como o hormônio do crescimento.
Como mostrado na Figura 79-6, um rato pancreatectomizado e
hipofisectomizado, sem tratamento, apresenta um crescimento muito
escasso. Além do mais, a administração de hormônio do crescimento ou de
insulina isoladamente quase não provoca qualquer crescimento. Entretanto,
a combinação desses hormônios provoca dramático crescimento. Assim, parece que os dois hormônios funcionam de modo sinérgico para promover
o crescimento, cada qual executando uma função específica, própria de cada
um. É possível que uma pequena parte dessa necessidade de ambos os
hormônios resulte do fato de que cada um promove a captação celular de
seleção diferente de aminoácidos, todos necessários para que ocorra o
crescimento.
Figura 79-6. Efeito do hormônio do crescimento, da insulina e do hormônio do crescimento com a insulina, no crescimento de um rato pancreatectomizado e hipofisectomizado.
MECANISMOS DA SECREÇÃO DE INSULINA
A Figura 79-7 mostra os mecanismos celulares básicos da secreção de
insulina pelas células betapancreáticas, em resposta ao aumento da
concentração da glicose sanguínea, que é o controlador primário da secreção
de insulina. As células beta contêm um grande número de transportadores
de glicose, que permitem influxo de glicose proporcional à concentração
plasmática na faixa fisiológica. Uma vez nas células, a glicose é fosforilada
pela glicocinase em glicose-6-fosfato. Essa fosforilação parece ser a etapa limitante para o metabolismo da glicose nas células beta e é considerada
como o principal mecanismo sensor de glicose e de ajuste da quantidade de
insulina secretada, em relação aos níveis de glicose plasmática.
A glicose-6-fosfato é, subsequentemente, oxidada, de modo a formar
trifosfato de adenosina (ATP), que inibe os canais de potássio sensíveis ao
ATP da célula. O fechamento dos canais de potássio despolariza a
membrana celular, abrindo consequentemente os canais de cálcio
dependentes de voltagem, que são sensíveis às alterações da voltagem da‐
membrana. Isso produz influxo de cálcio, que estimula a fusão das vesículas
que contêm insulina, com a membrana celular e a secre ção da insulina, no
líquido extracelular por meio de exocitose.
Outros nutrientes, tais como alguns aminoácidos, também podem ser
metabolizados pelas células beta, de modo a aumentar os níveis
intracelulares de ATP e estimular a secreção de insulina. Alguns hormônios,
como o glucagon e o peptídio insulinotrópico dependente de glicose
(peptídio inibidor gástrico) e a acetilcolina, elevam os níveis de cálcio
intracelular por outras vias de sinalização e aumentam o efeito da glicose,
embora eles não apresentem efeitos importantes na secreção da insulina, na
ausência de glicose. Outros hormônios, incluindo a somatostatina e a
norepinefrina (por meio da ativação de receptores a-adrenérgicos), inibem a
exocitose da insulina.
Os fármacos do tipo sulfonilureia estimulam a secreção da insulina por
meio da ligação com os canais de potássio sensíveis ao ATP, bloqueando sua
atividade. Isso resulta em efeito despolarizante que desencadeia a secreção
da insulina, o que torna esses fármacos úteis no estímulo da secreção de
insulina em pacientes portadores de diabetes tipo 2, como discutiremos
adiante. A Tabela 79-1 resume alguns dos fatores que aumentam ou
diminuem a secreção da insulina.
Figura 79-7. Mecanismos básicos do estímulo pela glicose da secreção da insulina pelas células beta do pâncreas. GLUT, molécula transportadora da glicose.
Tabela 79-1 Fatores e Condições que Aumentam ou Diminuem a Secreção da Insulina
Diminuição da Secreção
Aumento da Secreção da Insulina da Insulina
Aumento da glicose sanguínea Diminuição da glicose
Aumento de ácidos graxos livres no sangue sanguínea
Aumento de aminoácidos no sangue Jejum
Hormônios gastrointestinais (gastrina, colecistocinina, Somatostatina
secretina, peptídeo inibidor gástrico) Atividade a-adrenérgica
Glucagon, hormônio do crescimento, cortisol Leptina
Estimulação parassimpática; acetilcolina
Estimulação b-adrenérgica
Resistência insulínica; obesidade
Medicamentos do grupo sulfonilureia (glyburide®,
tolbutamida)
CONTROLE DA SECREÇÃO DE INSULINA
Acreditava-se no passado que a secreção da insulina era contro lada, quase
completamente, pela concentração da glicose no sangue. Entretanto, à
medida que aprendemos mais a respeito das funções metabólicas da insulina
no metabolismo das proteínas e das gorduras, ficou claro que os
aminoácidos e outros fatores plasmáticos também desempenham papéis
importantes no controle da secreção da insulina (Tabela 79-1).
O Aumento da Glicose Sanguínea Estimula a Secreção de
Insulina. Nos níveis normais de glicose sanguínea de jejum, entre 80 e 90
mg/100 mL, a secreção de insulina é mínima — da ordem de 25 ng/min/kg
de peso corporal, nível que apresenta apenas ligeira atividade fisiológica. Se
a concentração de glicose no sangue for subitamente aumentada para um
nível de duas ou três vezes o valor normal e a partir daí se mantiver nesse
nível elevado, a secreção de insulina aumentará acentuadamente em dois
estágios, como mostrado pelas alterações da concentração de insulina
plasmática na Figura 79-8.
1. A concentração de insulina plasmática aumenta quase em 10 vezes,
dentro de 3 a 5 minutos, depois da elevação aguda da glicose no sangue;
isso é consequência da liberação imediata da insulina pré-formada das
células beta das ilhotas de Langerhans. Contudo, a elevada taxa inicial de
secreção não é mantida; pelo contrário, a concentração de insulina
diminui para cerca da metade, no sentido de seu nível normal, depois de
mais 5 a 10 minutos.
2. Iniciando por volta de 15 minutos, a secreção da insulina aumenta pela
segunda vez e atinge novo platô depois de 2 a 3 horas, dessa vez em
geral com secreção ainda mais elevada do que na fase inicial. Essa
secreção resulta da liberação adicional da insulina pré-formada e da
ativação do sistema enzimático, que sintetiza e libera nova insulina das
células.
Figura 79-8. Elevação da concentração de insulina plasmática após aumento súbito da glicose sanguínea em duas a três vezes a faixa normal. Note a elevação inicial rápida na concentração de insulina e, então, um aumento tardio e continuado na concentração, começando de 15 a 20 minutos mais tarde.
Inter-relação de Feedback entre a Concentração de Glicose
Sanguínea e a Taxa de Secreção de Insulina. Com o aumento da
concentração da glicose plasmática acima de 100 mg/100 mL de sangue, a
secreção da insulina aumenta rapidamente, atingindo seu pico entre 10 e 25
vezes o nível basal, com concentrações de glicose entre 400 e 600 mg/100
mL, como mostrado na Figura 79-9. Desse modo, o aumento da secreção da
insulina pelo estímulo da glicose é dramático, tanto na sua velocidade como
no nível elevado de secreção atingido. Além do mais, a interrupção da
secreção de insulina é igualmente muito veloz, com sua redução ocorrendo
entre 3 e 5 minutos, após a diminuição da concentração da glicose
plasmática para o nível de jejum.
Essa resposta da secreção da insulina à concentração elevada de glicose
plasmática forma um mecanismo de feed back extremamente importante
para a regulação da concentração da glicose sanguínea, ou seja, qualquer elevação da glicose sanguínea aumenta a secreção de insulina, e a insulina,
por sua vez, aumenta o transporte da glicose para o fígado, para os músculos
e para outras células, reduzindo, consequentemente, a concentração
plasmática da glicose de volta até o seu valor normal.
Figura 79-9. Secreção de insulina aproximada em diferentes níveis plasmáticos de glicose.
Outros Fatores que Estimulam a Secreção de Insulina
Aminoácidos. Alguns dos aminoácidos apresentam efeito similar ao excesso de
glicose sanguínea na estimulação da secreção de insulina. Os mais potentes entre eles são a arginina e a lisina. Esse efeito difere do estímulo da secreção da
insulina pela glicose da seguinte maneira: os aminoácidos, administrados na
ausência de uma elevação da glicose no sangue, causam apenas pequeno aumento da secreção da insulina. No entanto, quando administrados ao mesmo tempo em que a concentração plasmática da glicose está elevada, a secreção
induzida de insulina pode chegar a duplicar, na presença de quantidade excessiva de aminoácidos. Assim, os aminoácidos potencializam intensamente o estímulo da
glicose na secreção de insulina.
O estímulo da secreção de insulina pelos aminoácidos é importante porque a
insulina, por sua vez, promove o transporte dos aminoácidos para as células teciduais, bem como a formação intracelular de proteínas, ou seja, a insulina é importante para a utilização apropriada da quantidade excessiva de aminoácidos,
do mesmo modo como é importante para a utilização dos carboidratos.
Hormônios Gastrointestinais. Uma mistura de diversos hormônios
gastrointestinais importantes — gastrina, secretina, colecistocinina, o peptídeo
semelhante ao glucagon 1 (GLP-1) e o peptídeo insulinotrópico dependente de
glicose (GIP), podem provocar aumentos moderados na secreção de insulina.
Dois desses hormônios, GLP-1 e GIP, parecem ser os mais potentes e, com
frequência, são chamados incretinas, uma vez que potencializam o ritmo de
liberação de insulina pelas células betapancreáticas, em resposta ao aumento da
glicose plasmática. Eles também inibem a secreção de glucagon pelas células alfa
das ilhotas de Langerhans.
Esses hormônios são liberados no trato gastrointestinal depois que a pessoa
ingere uma refeição. Eles são capazes de causar aumento “antecipatório” da
insulina plasmática, em preparação para a glicose e os aminoácidos que serão
absorvidos na refeição. Esses hormônios gastrointestinais atuam, em geral, do
mesmo modo que os aminoácidos para aumentar a sensibilidade da resposta da
insulina ao aumento da glicose sanguínea, quase duplicando a secreção de
insulina, à medida que o nível da glicose plasmática aumenta. Como exposto mais
adiante no Capítulo, foram desenvolvidos vários fármacos para simular ou
potencializar as ações das incretinas para o tratamento de diabetes melito.
Outros Hormônios e o Sistema Nervoso Autônomo. Outros hormônios que
aumentam diretamente a secreção de insulina ou que potencializam o estímulo da
glicose para a secreção de insulina compreendem o glucagon, o hormônio do
crescimento, o cortisol e, em menor intensidade, a progesterona e o estrogênio. A
importância dos efeitos estimulantes desses hormônios é que a secreção
prolongada de qualquer um deles, em grande quantidade, pode, ocasionalmente,
levar à exaustão das células beta das ilhotas de Langerhans e,
consequentemente, elevar o risco de desenvolvimento de diabetes melito. De fato,
o diabetes ocorre, frequentemente, em pessoas mantidas com níveis
farmacológicos elevados de alguns desses hormônios. O diabetes é
especialmente comum em pessoas acometidas de gigantismo ou acromegalia
com tumores secretores de hormônio do crescimento, ou em pessoas cujas
glândulas adrenais produzam quantidade excessiva de glicocorticoides.
As ilhotas pancreáticas estão ricamente inervadas por nervos simpáticos e
parassimpáticos. A estimulação dos nervos parassimpáticos, que se dirigem ao
pâncreas, é capaz de aumentar a secreção de insulina durante condições de
hipergli cemia, enquanto a estimulação dos nervos simpáticos pode elevar a
secreção de glucagon e diminuir a secreção de insulina durante a hipoglicemia.
Acredita-se que as concentra ções de glicose sejam detectadas por neurônios
especializados do hipotálamo e do tronco cerebral, bem como por células detectoras de glicose em localizações periféricas, como no fígado.
O PAPEL DA INSULINA (E DE OUTROS HORMÔNIOS) NA
“COMUTAÇÃO” ENTRE O METABOLISMO DE
CARBOIDRATOS E O METABOLISMO DE LIPÍDIOS
Com base nas discussões anteriores, deve estar claro que a insulina
proporciona a utilização dos carboidratos para energia, ao mesmo tempo em
que deprime a utilização dos lipídios. Ao contrário, a ausência da insulina
provoca a utilização das gorduras principalmente pela exclusão da utilização
da glicose, sendo exceção o tecido neural. Além disso, o sinal que controla
esse mecanismo de alternância é, em sua maior parte, a concentração da
glicose sanguínea. Quando a concen tração de glicose está baixa, há a
supressão da secreção da insulina, e os lipídios são utilizados, quase exclu‐
sivamente, como fonte generalizada de energia, exceto no encéfalo. Quando
a concentração de glicose está elevada, a secreção de insulina é estimulada,
e os carboidratos são usados no lugar dos lipídios. O excesso de glicose no
sangue é armazenado sob a forma de glicogênio hepático, de lipídios
hepáticos e de glicogênio muscular. Por conseguinte, um dos papéis
funcionais mais importantes da insulina no organismo é controlar qual
desses dois alimentos, a cada instante, vai ser utilizado pelas células como
fonte de energia.
Pelo menos quatro outros hormônios conhecidos também desempenham
papéis importantes nesse mecanismo de alternância metabólica: o hormônio
do crescimento, produzido pela hipófise anterior; o cortisol, pelo córtex
adrenal; a epinefrina, pela medula adrenal; e o glucagon, pelas células alfa
das ilhotas de Langerhans no pâncreas. O glucagon será discutido na
próxima seção deste Capítulo. Tanto o hormônio do crescimento como o
cortisol são secretados em resposta à hipoglicemia, e ambos inibem a
utilização celular da glicose enquanto promovem a utilização dos lipídios. Contudo os efeitos desses dois últimos hormônios se desenvolvem