Tratado de Fisiologia Médica
Vias Duplas para a Transmissão dos Sinais Dolorosos ao Sistema Nervoso Central
VIAS DUPLAS PARA A TRANSMISSÃO DOS SINAIS
DOLOROSOS AO SISTEMA NERVOSO CENTRAL
Apesar de todos os receptores para a dor serem terminações nervosas livres,
essas terminações utilizam duas vias separadas para a transmissão de sinais
dolorosos para o sistema nervoso central. As duas vias correspondem
principalmente aos dois tipos de dor — uma via para a dor pontual rápida
e uma via para a dor lenta crônica.
FIBRAS DOLOROSAS PERIFÉRICAS — FIBRAS
“RÁPIDAS” E “LENTAS”
Os sinais dolorosos pontuais rápidos são desencadeados por estímulos
mecânicos ou térmicos. Eles são transmitidos pelos nervos periféricos para
a medula espinal por meio de fibras Ad do tipo pequeno, com velocidade
entre 6 e 30 m/s. Inversamente, o tipo de dor lenta crônica é desencadeado
principalmente por estímulos dolorosos do tipo químico, mas, algumas
vezes, por estímulos mecânicos ou térmicos persistentes. Essa dor lenta
crônica é transmitida para a medula espinal por fibras tipo C, com
velocidades entre 0,5 e 2 m/s.
Devido a este sistema duplo de inervação para a dor, o estímulo doloroso
súbito, em geral, causa sensação dolorosa “dupla”: dor pontual rápida que é
transmitida para o cérebro pela via de fibras A d, seguida, em 1 segundo ou
mais, por uma dor lenta transmitida pela via das fibras C. A dor pontual
avisa a pessoa rapidamente sobre o perigo e, portanto, desempenha papel
importante na reação imediata do indivíduo para se afastar do estímulo
doloroso. A dor lenta tende a aumentar com o passar do tempo. Essa
sensação, por fim, produz dor intolerável e faz com que a pessoa continue
tentando aliviar a causa da dor.
Ao entrarem na medula espinal, vindas pelas raízes espinais dorsais, as
fibras da dor terminam em neurônios-relé nos cornos dorsais. Aí novamente existem dois sistemas para o processamento dos sinais dolorosos em seu
caminho para o encéfalo, como demonstrado nas Figuras 49-2 e 49-3.
Figura 49-2. Transmissão dos sinais dolorosos “pontual rápido” e “crônico lento” para a medula espinal e por ela em direção ao encéfalo. As fibras Ad transmitem a dor rápida aguda, e as fibras C transmitem a dor lenta crônica.
Figura 49-3. A transmissão dos sinais de dor para o tronco cerebral, tálamo e córtex cerebral por meio da via da dor rápida e da via da dor lenta.
VIAS DUPLAS PARA DOR NA MEDULA ESPINAL E NO
TRONCO CEREBRAL — O TRATO
NEOESPINOTALÂMICO E O TRATO
PALEOESPINOTALÂMICO
Ao entrar na medula espinal, os sinais dolorosos tomam duas vias para o
encéfalo, pelo (1) trato neoespinotalâmico; e (2) o trato
paleoespinotalâmico.
Trato Neoespinotalâmico para Dor Rápida. As fibras dolorosas Ad
do tipo rápido transmitem principalmente as dores mecânica e térmica
agudas. Elas terminam, em sua maioria, na lâmina I (lâmina marginal) dos
cornos dorsais, como mostrado na Figura 49-2, e excitam os neurônios de
segunda ordem do trato neoespinotalâmico. Esses neurônios de segunda
ordem dão origem às fibras longas que cruzam imediatamente para o lado
oposto da medula espinal pela comissura anterior e depois ascendem para o
encéfalo nas colunas anterolaterais.
Terminação do Trato Neoespinotalâmico no Tronco Cerebral e
no Tálamo. Algumas fibras do trato neoespinotalâmico terminam nas
áreas reticulares do tronco cerebral, mas a maioria segue até o tálamo sem
interrupção, terminando no complexo ventrobasal com o trato da coluna
dorsal–lemnisco medial para sensações táteis, como discutido no Capítulo
48. Algumas fibras terminam também no grupo nuclear posterior do tálamo.
Dessas áreas talâmicas, os sinais são transmitidos para outras áreas basais
do encéfalo, bem como para o córtex somatos sensorial.
Capacidade do Sistema Nervoso Central em Localizar a Dor
Rápida no Corpo. A dor pontual rápida pode ser localizada com muito
mais precisão nas diferentes partes do corpo do que a dor crônica lenta.
Entretanto, quando somente são estimulados os receptores para dor, sem a
estimulação simultânea dos receptores táteis, mesmo a dor rápida pode ser
mal localizada, em geral, dentro de 10 centímetros da área estimulada.
Quando os receptores táteis que excitam o sistema da coluna dorsal–
lemnisco medial são estimulados simultaneamente, a localização pode ser
quase exata.
Glutamato, o Provável Neurotransmissor das Fibras Dolorosas
Rápidas do Tipo Ad. Acredita-se que o glutamato seja a substância neurotransmissora secretada nas terminações nervosas para a dor do tipo
Ad da medula espinal. O glutamato é um dos transmissores excitatórios
mais amplamente utilizados no sistema nervoso central, em geral com
duração de ação de apenas alguns milis segundos.
Via Paleoespinotalâmica para a Transmissão da Dor Crônica
Lenta. A via paleoespinotalâmica é um sistema muito mais antigo e
transmite dor sobretudo por fibras periféricas crônicas lentas do tipo C,
apesar de transmitir alguns sinais das fibras do tipo Ad também. Nessa via,
as fibras periféricas terminam na medula espinal quase inteiramente nas
lâminas II e III dos cornos dorsais, que, em conjunto, são referidas como
substância gelatinosa, conforme mostrado na Figura 49-2, pelas fibras da
raiz dorsal do tipo C mais laterais. Em seguida, a maior parte dos sinais
passa por um ou mais neurônios de fibra curta, dentro dos cornos dorsais
propriamente ditos, antes de entrar principalmente na lâmina V, também no
corno dorsal. Aí, os últimos neurônios da série dão origem a axônios longos
que se unem, em sua maioria, às fibras da via de dor rápida, passando
primeiro pela comissura anterior para o lado oposto da medula e depois
para cima, em direção do encéfalo, pela via anterolateral.
Substância P, o Provável Neurotransmissor Crônico Lento das
Terminações Nervosas do Tipo C. Pesquisas sugerem que os
terminais de fibras para dor do tipo C que entram na medula espinal liberam
tanto o neurotransmissor glutamato quanto a substância P. O glutamato atua
instantaneamente e persiste apenas por alguns milissegundos. A substância
P é liberada muito mais lentamente, com sua concentração aumentando em
período de segundos ou mesmo minutos. De fato, foi sugerido que a
sensação “dupla” de dor, sentida após agulhada, resulte parcialmente do
fato do neurotransmissor glutamato gerar sensação de dor rápida, enquanto
o neurotransmissor substância P gera sensação mais duradoura. A despeito de detalhes ainda não conhecidos, parece claro que o glutamato é o
neurotransmissor mais envolvido na transmissão da dor rápida para o
sistema nervoso central, e a substância P está relacionada à dor crônica
lenta.
Projeção da Via Paleoespinotalâmica (Sinais Dolorosos
Crônicos Lentos) para o Tronco Cerebral e o Tálamo. A via
paleoespinotalâmica crônica lenta termina, de modo difuso, no tronco
cerebral, na grande área sombreada mostrada na Figura 49-3. Somente
entre um décimo e um quarto das fibras ascende até o tálamo. A maioria das
fibras termina em uma entre três áreas: (1) nos núcleos reticulares do bulbo,
da ponte e do mesencéfalo; (2) na área tectal do mesencéfalo
profundamente até os colículos superior e inferior; ou (3) na região cinzenta
periaquedutal, que circunda o aqueduto de Sylvius. Essas regiões basais do
encéfalo parecem ser importantes para o tipo de sofrimento da dor, pois
animais cujos cérebros foram seccionados acima do mesencéfalo, para
bloquear os sinais de dor que chegam ao cérebro, ainda demonstram
evidências inegáveis de sofrimento quando qualquer parte do corpo é
traumatizada. De áreas do tronco cerebral, vários neurônios de fibras curtas
transmitem sinais ascendentes da dor pelos núcleos intralaminar e
ventrolateral do tálamo e em direção de certas regiões do hipotálamo e
outras regiões basais do encéfalo.
Capacidade Fraca do Sistema Nervoso de Localizar
Precisamente a Fonte de Dor Transmitida pela Via Crônica
Lenta. A localização da dor transmitida pela via paleoespinotalâmica é
imprecisa. Por exemplo, a dor crônica lenta em geral só pode ser localizada
em uma parte principal do corpo, como no braço ou na perna, mas não em
ponto específico do braço ou da perna. Isso se deve à conectividade
multissináptica difusa dessa via. Esse fenômeno explica porque os pacientes, em geral, têm sérias dificuldades em localizar a fonte de alguns
tipos de dor crônica.
Função da Formação Reticular, Tálamo e Córtex Cerebral na
Avaliação da Dor. A remoção completa das áreas somatossensoriais do
córtex cerebral não evita a percepção da dor. Portanto, é provável que os
impulsos dolorosos que cheguem à formação reticular do tronco cerebral,
do tálamo e outras regiões inferiores do encéfalo causem percepção
consciente de dor. Isso não significa que o córtex cerebral não tenha relação
com a avaliação normal da dor; o estímulo elétrico das áreas
somatossensoriais corticais faz com que o ser humano perceba dor leve em
cerca de 3% dos pontos estimulados. Entretanto, acredita-se que o córtex
desempenhe papel especialmente importante na interpretação da qualidade
da dor, mesmo que a percepção da dor seja função principalmente dos
centros inferiores.
Capacidade Especial dos Sinais Dolorosos em Desencadear
uma Excitabilidade Geral do Cérebro. A estimulação elétrica das
áreas reticulares do tronco cerebral e dos núcleos intralaminares do
tálamo, áreas onde terminam os sinais da dor lenta, tem forte efeito de
alerta sobre a atividade neural de todo o encéfalo. De fato, essas duas áreas
constituem parte do principal “sistema de alerta”, que será discutido
no Capítulo 60. Isso explica porque é quase impossível para a pessoa
dormir nos casos de dor grave.
Interrupção Cirúrgica das Vias Dolorosas. Quando a pessoa
apresenta dor grave e intratável (algumas vezes, resultante de câncer de
disseminação rápida), é necessário aliviar a dor. Para proporcionar alívio da
dor, as vias neurais da dor podem ser cortadas em um entre vários pontos.
Se a dor se localizar na parte inferior do corpo, a cordotomia, na região torácica da medula espinal, em geral alivia a dor durante algumas semanas