Tratado de Fisiologia Médica
O Sistema Renina‑Angiotensina: seu Papel no Controle da Pressão Arterial
letal.
Mais uma vez, nos estágios iniciais desse tipo de hipertensão, o débito
cardíaco está aumentado, mas nos estágios mais avançados fica normal,
enquanto a resistência periférica total é aumentada de forma secundária,
como explicado antes neste Capítulo, em relação à hipertensão primária por
sobrecarga de volume.
O SISTEMA RENINA-ANGIOTENSINA: SEU PAPEL NO
CONTROLE DA PRESSÃO ARTERIAL
Além da capacidade dos rins de controlar a pressão arterial por meio de
alterações do volume do líquido extracelular, os rins têm também outro
potente mecanismo de controle da pressão: o chamado sistema renina-
angio tensina.
A renina é enzima proteica liberada pelos rins quando a pressão arterial
cai para níveis muito baixos. Sua resposta consiste em elevar a pressão
arterial de diversos modos, contribuindo para a correção da queda inicial da
pressão.
Componentes do Sistema Renina-Angiotensina
A Figura 19-10 mostra as etapas funcionais pelas quais o sistema renina-
angiotensina contribui para a regulação da pressão arterial.
A renina é sintetizada e armazenada em forma inativa chamada pró-renina
nas células justaglomerulares (células JG) dos rins. As células JG são
células musculares lisas modificadas, situadas principalmente nas paredes
das arteríolas aferentes imediatamente proximais aos glomérulos. Quando
a pressão arterial cai, reações intrínsecas dos rins fazem com que muitas das
moléculas de pró-renina nas células JG sejam clivadas, liberando renina. A maior parte da renina é liberada no sangue que perfunde os rins para
circular pelo corpo inteiro. Entretanto, pequenas quantidades de renina
permanecem nos líquidos locais dos rins onde exercem diversas funções
intrarrenais.
A renina é enzima, e não substância vasoativa. Como mostrado no
esquema da Figura 19-10, ela age enzimaticamente sobre outra proteína
plasmática, a globulina referida como substrato de renina (ou
angiotensinogênio), liberando peptídeo com 10 aminoácidos, a
angiotensina I. A angiotensina I tem ligeiras propriedades vasoconstritoras,
mas não suficientes para causar alterações significativas na função
circulatória. A renina persiste no sangue por 30 minutos a 1 hora e continua
a causar a formação de angiotensina durante todo esse tempo.
Alguns segundos após a formação de angiotensina I, dois aminoácidos
adicionais são removidos da angiotensina I, formando o peptídeo de oito
aminoácidos angiotensina II. Essa conversão ocorre, em grande parte, nos
pulmões, enquanto o sangue flui por seus pequenos vasos catalisados pela
enzima conversora de angiotensina presente no endotélio dos vasos
pulmonares. Outros tecidos, tais como rins e vasos sanguíneos, também
contêm enzimas conversoras e, portanto, formam localmente angiotensina
II.
A angiotensina II é vasoconstritor extremamente potente, e ela afeta a
função circulatória por outros modos. Entretanto, ela persiste no sangue por
apenas 1 ou 2 minutos por ser rapidamente inativada por múltiplas enzimas
sanguíneas e teciduais, coletivamente chamadas de angiotensinases.
A angiotensina II exerce dois efeitos principais capazes de aumentar a
pressão arterial. O primeiro, a vasoconstrição em muitas áreas do corpo,
ocorre com muita rapidez. A vasoconstrição se dá, de modo muito intenso,
nas arteríolas e com intensidade muito menor nas veias. A constrição das
arteríolas aumenta a resistência periférica total, elevando, dessa forma, a
pressão arterial, como mostrado na parte inferior do esquema da Figura 19-
10. Além disso, a leve constrição das veias promove o aumento do retorno
venoso do sangue para o coração, contribuindo para o maior bombeamento
cardíaco contra a pressão elevada.
O segundo meio principal, pelo qual a angiotensina II eleva a pressão
arterial, é a diminuição da excreção de sal e de água pelos rins. Essa ação
eleva lentamente o volume do líquido extracelular, o que aumenta a pressão
arterial durante as horas e dias subsequentes. Esse efeito a longo prazo,
agindo pelo mecanismo de controle do volume do líquido extracelular, é
ainda mais potente que a vasoconstrição aguda na elevação eventual da
pressão arterial.
Figura 19-10. Mecanismo vasoconstritor da renina-angiotensina para o controle da pressão arterial.
Rapidez e Intensidade da Resposta Pressórica
Vasoconstritora ao Sistema Renina-Angiotensina
A Figura 19-11 mostra experimento, demonstrando o efeito da hemorragia
sobre a pressão arterial em duas condições distintas: (1) com funcionamento
do sistema renina-angiotensina; e (2) sem seu funcionamento (o sistema foi
interrompido por anticorpo bloqueador de renina). Note que, após a hemorragia — suficiente para causar diminuição da pressão arterial para 50
mmHg —, a pressão arterial se elevou novamente para 83 mmHg, quando o
sistema renina-angiotensina estava funcional. Ao contrário, elevou-se
apenas para 60 mmHg quando o sistema estava bloqueado. Esse fenômeno
mostra que o sistema renina-angiotensina é suficientemente potente para
elevar a pressão arterial, no mínimo, até a metade do normal alguns minutos
após hemorragia intensa. Portanto, em alguns casos, esse pode ser o
mecanismo salvador da vida para o corpo, em especial no choque
circulatório.
Note também que o sistema vasoconstritor renina-angiotensina precisa de
cerca de 20 minutos para ser ativado. Desse modo, seu controle da pressão
arterial é mais lento que os reflexos nervosos e o sistema simpático
norepinefrina-epinefrina.
Figura 19-11. Efeito compensador da pressão do sistema vasoconstritor de renina-angiotensina após hemorragia intensa. (Desenhada de experimentos do Dr. Royce Brough.)
A Angiotensina II Causa Retenção Renal de Sal e Água:
Um Meio Importante para o Controle da Pressão Arterial
a Longo Prazo A angiotensina II faz com que os rins retenham sal e água por dois meios
principais:
1. Atuando diretamente sobre os rins para provocar retenção de sal e de
água.
2. Fazendo com que as glândulas adrenais secretem aldosterona que, por
sua vez, aumenta a reabsorção de sal e de água pelos túbulos renais.
Assim, quando quantidades excessivas de angiotensina II circulam no
sangue, todo o mecanismo renal a longo prazo para o controle dos líquidos
corporais é automaticamente ajustado para manter a pressão arterial acima
da normal.
Mecanismos dos Efeitos Renais Diretos da Angiotensina II
Causadores da Retenção Renal de Sal e de Água. A angiotensina
exerce diversos efeitos diretos, que fazem com que os rins retenham sal e
água. Um deles é a constrição das arteríolas renais, o que diminui o fluxo
sanguíneo pelos rins. O lento fluxo sanguíneo reduz a pressão nos capilares
peritu bulares, provocando a rápida reabsorção de líquido pelos túbulos. A
angiotensina II tem também importantes ações diretas sobre as células
tubulares para aumentar a reabsorção de sal e de água, como discutido
no Capítulo 28. Os efeitos combinados da angiotensina II podem reduzir
por vezes o débito urinário para menos que um quinto do normal.
A Angiotensina II Aumenta a Retenção de Sal e Água pelos Rins
ao Estimular a Aldosterona. A angiotensina II é também um dos mais
potentes estimuladores da secreção de aldosterona pelas glândulas adrenais,
como discutiremos em relação à regulação dos líquidos corporais,
no Capítulo 30, e em relação à função das glândulas adrenais, no Capítulo
78. Assim, quando o sistema renina-angiotensina é ativado, a intensidade da
secreção de aldosterona, em geral, também aumenta; uma importante
função subsequente da aldosterona é a de causar elevação acentuada da reabsorção de sódio pelos túbulos renais, elevando sua concentração no
líquido extracelular. Essa elevação causa a retenção de água, como
explicado antes, aumentando o volume do líquido extracelular e
provocando, de forma secundária, maior elevação da pressão arterial a
longo prazo.
Desse modo, tanto o efeito direto da angiotensina sobre os rins quanto seu
efeito por meio da aldosterona são importantes no controle da pressão
arterial a longo prazo. Entretanto, uma pesquisa em nosso laboratório
sugeriu que o efeito direto da angiotensina sobre os rins seja talvez três ou
mais vezes mais potente que o efeito indireto por meio da aldosterona —
embora este seja o mais conhecido.
Análise Quantitativa das Alterações da Pressão Arterial Causadas pela
Angiotensina II. A Figura 19-12 mostra a análise quantitativa do efeito da
angiotensina sobre o controle da pressão arterial. Essa figura mostra duas curvas
da função renal, bem como a linha representativa no nível normal da ingestão de
sódio. A curva da função renal da esquerda foi obtida em cães, cujo sistema
renina-angiotensina havia sido bloqueado pelo fármaco inibidor da enzima
conversora de angiotensina, que bloqueia a conversão de angiotensina I em
angiotensina II. A curva da direita foi obtida em cães infundidos continuamente
com angiotensina II, em nível cerca de 2,5 vezes maior que o normal de formação
de angiotensina no sangue. Note o desvio da curva de débito renal para níveis
mais elevados de pressão sob a influência da angiotensina II. Esse desvio é
causado pelos efeitos diretos da angiotensina II sobre os rins e pelo efeito indireto
por meio da secreção de aldosterona, conforme já explicado.
Por fim, note os dois pontos de equilíbrio, o primeiro na ausência de
angiotensina, correspondendo à pressão arterial de 75 mmHg, e o segundo, sob
níveis elevados de angiotensina, correspondente à pressão arterial de 115 mmHg.
Como consequência, a retenção de sal e de água, causada pela angiotensina,
pode ter efeito potente de provocar a elevação crônica da pressão arterial.
Figura 19-12. Efeito de dois níveis sanguíneos de angiotensina II sobre a curva do débito renal, mostrando a regulação da pressão arterial no ponto de equilíbrio de 75 mmHg, quando o nível de angiotensina II está baixo, e de 115 mmHg quando o nível de angiotensina II está alto.
O Papel do Sistema Renina-Angiotensina na
Manutenção da Pressão Arterial Normal a Despeito de
Grandes Variações na Ingestão de Sal
Uma das mais importantes funções do sistema renina-angiotensina é a de
permitir que a pessoa ingira quantidades muito pequenas ou muito grandes
de sal, sem apresentar grandes variações do volume do líquido extracelular
ou da pressão arterial. Essa função é explicada pelo esquema da Figura 19-
13, que mostra o efeito inicial do aumento da ingestão de sal como sendo o
de elevar o volume do líquido extracelular que, por sua vez, aumenta a
pressão arterial. Então, a pressão arterial elevada aumenta o fluxo sanguíneo pelos rins, além de outros efeitos, reduz a secreção de renina para
nível muito mais baixo e provoca, sequencialmente, a redução da retenção
renal de sal e água, a quase normalização do volume do líquido extracelular
e, por fim, a quase normalização da pressão arterial. Assim, o sistema
renina-angiotensina é mecanismo de feedback automático, que contribui
para a manutenção da pressão arterial em níveis próximos aos normais,
mesmo quando a ingestão de sal é aumentada. Ao contrário, quando a
ingestão de sal diminui para abaixo da normal ocorrem efeitos opostos.
Para enfatizar a eficácia do sistema renina-angiotensina no controle da
pressão arterial quando o sistema funciona normalmente, a pressão se eleva
por não mais do que 4 a 6 mmHg em resposta ao aumento de 100 vezes na
ingestão de sal (Fig. 19-14). Ao contrário, quando o sistema renina-
angiotensina é bloqueado e impede-se a supressão habitual da formação de
angiotensina, o mesmo aumento da ingestão de sal provoca, às vezes,
elevação de até 10 vezes maior da pressão, até 50 a 60 mmHg. Quando se
reduz a ingestão de sal até apenas 1/10 parte do normal, a pressão arterial
quase não se altera enquanto o sistema renina-angiotensina funciona
normalmente. Entretanto, se a formação de angiotensina II é bloqueada com
um inibidor da enzima conversora da angiotensina, a pressão arterial reduz-
se de forma importante ao diminuir a ingestão de sal (Fig. 19-14). Assim, o
sistema renina-angiotensina é talvez o sistema mais potente do organismo
para acomodar amplas variações na ingestão de sal, com alterações mínimas
na pressão arterial.
Figura 19-13. Eventos sequenciais por meio dos quais a ingestão de sal aumenta a pressão arterial, mas a redução por feedback da atividade do sistema renina-angiotensina praticamente a normaliza.
Figura 19-14. Alterações na pressão arterial média durante alterações crônicas na ingestão de sódio em cães normais de controle e em cães tratados com um inibidor da enzima conversora da angiotensina (ACE) para bloquear a formação de angiotensina II (Ang II) ou infundidos com Ang II para evitar a supressão de Ang II. A ingestão de sódio foi aumentada por etapas desde um nível baixo de 5 mmol/dia a 80, 240 e 500 mmol/dia durante 8 dias em cada nível. (Modificada de Hall JE, Guyton AC, Smith MJ Jr, et al: Blood pressure and renal function during chronic changes in sodium intake: role of angiotensin. Am J Physiol 239:F271, 1980.)
Tipos de Hipertensão em que Ocorre Participação da
Angiotensina: Hipertensão Causada por um Tumor
Secretor de Renina ou por Isquemia Renal
Ocasionalmente, ocorre um tumor das células JG secretoras de renina,
secretando enorme quantidade dessa substância; como consequência, é
formada quantidade igualmente grande de angiotensina II. Em todos os
pacientes, nos quais esse fenômeno ocorreu, desenvolveu-se hipertensão grave. Além disso, quando grande quantidade de angiotensina II é infundida
continuamente em animais durante dias ou semanas, também se desenvolve
grave hipertensão a longo prazo.
Já notamos que a angiotensina II pode elevar a pressão arterial por duas
maneiras:
1. Pela constrição das arteríolas em todo o organismo, aumentando, assim,
a resistência periférica total e a pressão arterial; esse efeito ocorre
segundos após o início da infusão de angiotensina.
2. Por meio da retenção renal de sal e água; após alguns dias, essa ação
também provoca hipertensão, sendo essa a principal causa da
continuação da pressão elevada a longo prazo.
Hipertensão de Goldblatt de “Rim Único”. Quando um dos rins é
removido e um constritor é colocado na artéria renal do rim remanescente,
como mostrado na Figura 19-15, o efeito imediato é a pressão muito
diminuída na artéria renal além do constritor, como indicado pela linha
tracejada na figura. Então, após segundos a minutos, a pressão arterial
sistêmica começa a se elevar, o que continua a acontecer durante muitos
dias. A pressão, em geral, aumenta rapidamente na primeira hora mais ou
menos, e esse efeito é seguido por elevação adicional mais lenta durante os
dias seguintes. Quando a pressão arterial sistêmica atinge seu novo nível
estável, a pressão arterial renal (a curva tracejada na figura) estará
praticamente normalizada. A hipertensão provocada por esse meio é
designada como hipertensão de Goldblatt de “rim único”, em homenagem
ao Harry Gold blatt, que foi o primeiro a estudar as características
quantitativas importan tes da hipertensão ocasionada por constrição da
artéria renal.
A elevação inicial da pressão arterial na hipertensão de Goldblatt é
causada pelo mecanismo vasoconstritor da renina- angiotensina, isto é,
devido ao baixo fluxo sanguíneo pelo rim após a constrição aguda da artéria renal, grande quantidade de renina é secretada pelo rim, como mostrado
pela curva mais inferior da Figura 19-14, isto aumenta a angiotensina II e a
aldosterona no sangue. A angiotensina, por sua vez, eleva de forma aguda a
pressão arterial. A secreção de renina aumenta até seu máximo depois de
cerca de 1 hora, mas praticamente se normaliza após 5 a 7 dias, porque a
pressão arterial renal também se elevou até o normal, assim o rim não está
mais isquêmico.
A segunda elevação da pressão arterial é causada pela retenção de sal e de
água pelo rim isquêmico (que também é estimulado pela angiotensina II e
pela aldosterona). Em 5 a 7 dias, o volume do líquido corporal aumenta o
suficiente para elevar a pressão arterial até seu novo nível estável. O valor
quantitativo desse novo nível da pressão é determinado pelo grau de
constrição da artéria renal, isto é, a pressão aórtica deve se elevar até que a
pressão arterial distal ao constritor seja suficiente para provocar débito
urinário normal.
Cenário similar ocorre em pacientes com estenose da artéria renal de
único rim remanescente, como ocorre algumas vezes após a pessoa receber
um rim transplantado. Inclusive, aumentos funcionais ou fisiológicos da
resistência de arteríolas renais, devido à aterosclerose ou aos níveis
excessivos de vasoconstritores, podem provocar hipertensão pelos mesmos
mecanismos da constrição da principal artéria renal.
Figura 19-15. Efeito do pinçamento unilateral da artéria renal após a remoção do rim contralateral. Note as alterações da pressão arterial sistêmica, da pressão da artéria renal distal ao pinçamento e a secreção de renina. A hipertensão resultante é chamada hipertensão de “rim único” de Goldblatt.
Hipertensão de Goldblatt de “Dois Rins”. A hipertensão também
pode ocorrer quando a artéria de apenas um rim é comprimida, enquanto a
artéria do outro rim é mantida normal. O rim com constritor secreta renina e
também retém sal e água, devido à diminuição de sua pressão arterial renal.
Então, o rim oposto “normal” retém sal e água devido à renina produzida
pelo rim isquêmico. Essa renina provoca a formação de angiotensina II e de
aldosterona, que circulam para o rim oposto e acarretam retenção de sal e
água. Assim, ambos os rins por diferentes razões passam a ser retentores de
sal e de água, com o consequente desenvolvimento de hipertensão.
A contrapartida clínica da hipertensão de Goldblatt de “dois rins” ocorre
quando existe estenose de uma só artéria renal, por exemplo, causada por
aterosclerose em pessoa que tem dois rins.
Hipertensão Causada por Rins Doentes que Secretam
Cronicamente Renina. Com frequência, áreas focais, em um ou em
ambos os rins, ficam patologicamente isquêmicas devido a constrições
vasculares locais ou infartos, enquanto outras áreas dos rins estão normais.
Quando essa situação ocorre, efeitos quase idênticos aos da hipertensão de
Goldblatt de dois rins se desenvolvem, isto é, o tecido focal isquêmico
secreta renina, que, por sua vez, agindo por meio da formação de
angiotensina II, faz com que a massa renal remanescente retenha sal e água.
De fato, uma das causas mais comuns de hipertensão renal especialmente
em pessoas idosas é essa doença renal isquêmica focal.
Outros Tipos de Hipertensão Causados por Combinações de Sobrecarga de
Volume e de Vasoconstrição
Hipertensão na Parte Superior do Corpo Causada por Coarctação da Aorta.
Um dentre alguns milhares de bebês nasce com constrição ou bloqueio patológico
da aorta em ponto distal aos ramos arteriais aórticos para a cabeça e os braços,
mas proximal às artérias renais, condição chamada coarctação da aorta. Quando
isso ocorre, o fluxo sanguíneo para a parte inferior do corpo é transportado por
múltiplas pequenas artérias colaterais na parede corporal com muita resistência
vascular entre a aorta superior e a inferior. Como consequência, a pressão arterial na parte superior do corpo pode ser 40% a 50% mais alta que na parte inferior.
O mecanismo para essa hipertensão da parte superior do corpo é quase idêntico
ao da hipertensão de Goldblatt de rim único, isto é, quando um constritor é
posicionado na aorta acima das artérias renais, a pressão sanguínea em ambos os rins inicialmente cai, a renina é secretada, a angiotensina e a aldosterona são
formadas e ocorre hipertensão na parte superior do corpo. A pressão arterial na
parte inferior do corpo, no nível dos rins, aumenta aproximadamente até a normal, mas a alta pressão persiste na parte superior. Os rins não estão mais isquêmicos, assim a secreção de renina e a formação de angiotensina e de aldosterona
retornam ao normal. Logo, na coarctação da aorta, a pressão arterial na parte
inferior do corpo é, em geral, quase normal, enquanto a pressão na parte superior é muito mais elevada que o normal.
O Papel da Autorregulação na Hipertensão Causada pela Coarctação da
Aorta. Característica significativa da hipertensão causada pela coarctação da aorta é o fato de que o fluxo sanguíneo para os braços, onde a pressão pode ser
40% a 60% acima da normal, é praticamente normal. Além disso, o fluxo
sanguíneo pelas pernas, onde a pressão não está elevada também é quase
exatamente normal. Como isso é possível com a pressão na parte superior do corpo 40% a 60% maior que na parte inferior? A resposta não está em possíveis
diferenças das substâncias vasoconstritoras no sangue das duas partes do corpo,
porque o mesmo sangue flui por ambas as áreas. Da mesma forma, o sistema nervoso inerva as duas áreas da circulação de modo similar, assim não existem razões para se acreditar que ocorram diferenças no controle nervoso dos vasos
sanguíneos. A razão principal é que a autorregulação a longo prazo se
desenvolve de modo tão completo que os mecanismos de controle do fluxo sanguíneo compensam quase 100% das diferenças de pressão. O resultado é que, tanto na área de alta pressão quanto na de baixa pressão, o fluxo sanguíneo
local é controlado quase precisamente, de acordo com as necessidades teciduais e não conforme o nível da pressão
Hipertensão na Pré-eclâmpsia (Toxemia Gravídica). Aproximadamente entre
5% e 10% das mulheres grávidas desenvolvem a síndrome conhecida como pré-
eclâmpsia (chamada também toxemia gravídica). Uma das manifestações da pré-eclâmpsia é a hipertensão que, em geral, desaparece após o parto. Embora as
causas precisas da pré-eclâmpsia não sejam completamente compreendidas,
acredita-se que a isquemia da placenta e a liberação subsequente de fatores tóxicos tenham participação na geração de muitas das manifestações desse distúrbio, incluindo a hipertensão materna. As substâncias liberadas pela placenta
isquêmica, por sua vez, provocam a disfunção de células endoteliais vasculares
em todo o corpo, incluindo os vasos sanguíneos renais. Essa disfunção endotelial
diminui a secreção de óxido nítrico e de outras substâncias vasodilatadoras,
ocasionando vasoconstrição, redução da intensidade de filtração de líquido pelos
glomérulos para os túbulos renais, comprometimento da natriurese renal por
pressão e desenvolvimento de hipertensão.
Outra anormalidade patológica, capaz de contribuir para a hipertensão na pré-
eclâmpsia, é o espessamento das membranas glomerulares renais (talvez
causado por processo autoimune), que também reduz a filtração glomerular de
líquido. Por motivos óbvios, a pressão arterial necessária para a formação normal
de urina fica elevada, e o nível da pressão arterial a longo prazo fica elevado de
forma correspondente. Essas pacientes têm maior tendência a apresentar graus
mais elevados de hipertensão, quando ingerem quantidade excessiva de sal.
Hipertensão Neurogênica. A hipertensão neurogênica aguda pode ser causada
pela forte estimulação do sistema nervoso simpático. Por exemplo, quando a
pessoa se torna excitada por qualquer razão ou durante estados de ansiedade, o
sistema simpático fica excessivamente ativo, resultando em vasoconstrição
periférica generalizada e hipertensão aguda.
Ocorre outro tipo de hipertensão neurogênica aguda, quando os nervos que
partem dos barorreceptores são cortados ou quando o trato solitário no bulbo é
destruído bilateralmente (essa é a área onde os nervos dos barorreceptores
carotídeos e aórticos se conectam com o tronco cerebral). A interrupção súbita
dos sinais nervosos normais, que partem dos barorreceptores, tem o mesmo
efeito sobre os mecanismos nervosos de controle da pressão que a redução
súbita da pressão arterial na aorta e na carótida, isto é, a perda do efeito inibitório
normal sobre o centro vasomotor, causada pelos sinais nervosos normais dos
barorreceptores, permite que o centro vasomotor fique subitamente muito ativo e a
pressão arterial média aumente de 100 mmHg para até 160 mmHg. A pressão se
normaliza após 2 dias, porque a resposta do centro vasomotor à ausência dos
sinais dos barorreceptores se dissipa, o que é chamado de “reajuste” central do
mecanismo de controle barorreceptor da pressão. Assim, a hipertensão
neurogênica causada pela secção dos nervos barorreceptores é, em grande parte,
do tipo agudo e não crônico.
O sistema nervoso simpático desempenha também uma função importante em
algumas formas de hipertensão crônica, em grande parte pela ativação dos
nervos simpáticos renais. Por exemplo, excesso de peso e a obesidade
frequentemente conduzem à ativação do sistema nervoso simpático, o que, por
sua vez, estimula os nervos simpáticos renais, prejudica a natriurese da pressão
renal e provoca hipertensão crônica. Essas anomalias parecem ter uma função importante em uma grande porcentagem de pacientes com hipertensão primária
(essencial), como será exposto mais adiante.
Causas Genéticas da Hipertensão. Observou-se hipertensão hereditária
espontânea em diversos tipos de animais, incluindo diferentes cepas de ratos, coelhos e uma de cães. Na cepa de ratos mais estudada, a cepa Okamoto,
espontaneamente hipertensa, existem evidências de que no desenvolvimento
precoce da hipertensão o sistema nervoso simpático está consideravelmente mais ativo que nos ratos normais. Nos estágios finais desse tipo de hipertensão, foram notadas alterações estruturais nos néfrons dos rins: (1) aumento da resistência
arterial renal pré-glomerular; e (2) redução da permeabilidade das membranas
glomerulares. Essas alterações estruturais também poderiam contribuir para a manutenção da hipertensão a longo prazo. Nas outras cepas de ratos hipertensos, foi observado comprometimento da função renal.
Em humanos, diversas mutações gênicas vêm sendo identificadas como causa
da hipertensão. Essa forma de hipertensão é chamada hipertensão monogênica,
por ser causada pela mutação de gene único. Aspecto interessante dessas
desordens genéticas é que todas causam reabsorção excessiva de sal e de água
pelos túbulos renais. Em alguns casos, a reabsorção elevada é devida às mutações gênicas que aumentam diretamente o transporte de sódio ou de cloreto
nas células epiteliais tubulares renais. Em outros aspectos, as mutações gênicas
causam aumento da síntese ou da atividade hormonal, o que estimula a reabsorção tubular renal de água e sal. Assim, em todos os distúrbios de hipertensão monogênica identificados até agora, a via final comum para a
hipertensão parece ser o aumento da reabsorção de sal e expansão do volume do
líquido extracelular. A hipertensão monogênica, no entanto, é rara e todas as formas conhecidas em conjunto representam menos de 1% da hipertensão humana.
Hipertensão Primária (Essencial)
Cerca de 90% a 95% dos casos de hipertensão são ditos ser hipertensão
primária, também conhecida como hipertensão essencial por muitos
médicos. Essas designações significam simplesmente que a hipertensão é
de origem desconhecida, em contraste com as formas de hipertensão secundárias a causas conhecidas, tais como a estenose de artéria renal ou
formas monogênicas de hipertensão.
Na maioria dos pacientes, o excesso de peso e a vida sedentária parecem
desempenhar papel primordial como causas da hipertensão. A maior parte
dos pacientes com hipertensão apresenta excesso de peso, e estudos de
diferentes populações sugerem que o sobrepeso e a obesidade podem ser
responsáveis por até 65% a 75% do risco de desenvolvimento de
hipertensão primária. Estudos clínicos demonstraram, claramente, a
importância da perda de peso para a redução da pressão sanguínea na
maioria dos pacientes com hipertensão. De fato, os protocolos clínicos, para
o tratamento da hipertensão, recomendam o aumento da atividade física e a
perda de peso como o primeiro passo no tratamento dos pacientes com
hipertensão.
Entre outras, as seguintes características da hipertensão primária são
causadas por sobrepeso e obesidade incluem:
1. Débito cardíaco aumentado, devido, em parte, ao fluxo sanguíneo
adicional necessário para a maior quantidade de tecido adiposo.
Entretanto, o fluxo sanguíneo pelo coração, pelos rins, pelo trato
gastrointestinal e pela musculatura esquelética também aumenta com o
ganho de peso, em função da maior intensidade metabólica e do
crescimento dos órgãos e tecidos, em resposta às suas necessidades
metabólicas aumentadas. Quando a hipertensão é mantida por muitos
meses e anos, a resistência vascular periférica total também pode estar
elevada.
2. A atividade nervosa simpática, especialmente nos rins, está aumentada
nos pacientes com sobrepeso. As causas da elevação da atividade
simpática em pessoas obesas ainda não estão inteiramente esclarecidas,
mas estudos recentes sugerem que hormônios, como a leptina, que são
liberados pelas células adiposas, podem estimular, de forma direta,
múltiplas regiões do hipotálamo, o que, por sua vez, tem influência
excitatória sobre os centros vasomotores do bulbo. Existe também
evidência de uma diminuição da sensibilidade dos barorreceptores
arteriais em amortecer os aumentos na pressão arterial de pessoas
obesas.
3. Os níveis de angiotensina II e de aldosterona estão elevados por duas a
três vezes em muitos pacientes obesos. Esse aumento, em parte, pode ser
causado pela elevação da estimulação nervosa simpática, que aumenta a
liberação de renina pelos rins e, assim, a formação de angiotensina II,
que, por sua vez, estimula as glândulas adrenais a secretarem
aldosterona.
4. O mecanismo da natriurese por pressão renal está comprometido, e os
rins não excretam a quantidade adequada de sal e de água, a menos que
a pressão arterial esteja alta ou que a função renal melhore de alguma
forma. Se a pressão arterial média no indivíduo com hipertensão
essencial for de 150 mmHg, a redução aguda artificial da pressão arterial
para o valor normal de 100 mmHg (mas sem alterar, de outros modos, a
função renal, exceto pela diminuição da pressão) provocará anúria quase
total, e a pessoa reterá sal e água até que a pressão aumente novamente
para o valor elevado de 150 mmHg. Reduções crônicas da pressão
arterial, com terapias anti-hipertensivas efetivas, entretanto, em geral,
não provocam retenção acentuada de sal e água pelos rins, porque essas
terapias também melhoram a natriurese por pressão renal, como
discutido adiante.
Estudos experimentais em animais e em pacientes obesos sugeriram que o
déficit da natriurese da pressão renal na hipertensão por obesidade é
causado, em sua maioria, por aumento da reabsorção tubular renal de sal e
de água, devido à maior atividade nervosa simpática e aos níveis elevados
de angiotensina II e de aldosterona. Contudo, se a hipertensão não for eficazmente tratada, poderão ocorrer lesões vasculares nos rins, reduzindo a
filtração glomerular e aumentando a severidade da hipertensão. Por fim, a
hipertensão não controlada associada à obesidade pode causar lesões
vasculares graves e perda total da função renal.
Análise Gráfica do Controle da Pressão Arterial na Hipertensão
Essencial. A Figura 19-16 mostra a análise gráfica da hipertensão
essencial. As curvas dessa figura são chamadas curvas de função renal por
sobrecarga de sódio, porque a pressão arterial a cada momento é aumentada
de forma muito lenta ao longo de muitos dias ou semanas pela elevação do
nível da ingestão de sódio. A curva de sobrecarga de sódio pode ser
determinada elevando-se a ingestão de sódio para novo nível a cada poucos
dias e, então, esperando-se que o débito renal de sódio fique balanceado
com a ingestão, ao mesmo tempo em que são registradas as variações da
pressão arterial.
Quando esse procedimento é usado em pacientes com hipertensão
essencial, dois tipos de curva mostrados no lado direito daFigura 19-16,
podem ser registrados, um chamado (1) hipertensão insensível ao sal; e o
outro (2) hipertensão sensível ao sal. Note que nos dois casos as curvas se
deslocam para a direita para níveis maiores que os de pessoas normais. No
caso de pessoa com hipertensão insensível ao sal, a pressão arterial não se
eleva de modo significativo quando a ingestão de sal é aumentada.
Entretanto, em pacientes que tenham hipertensão essencial sensível ao sal, a
ingestão aumentada de sal exacerba, sig ni ficativamente, a hipertensão.
Dois pontos adicionais devem ser enfatizados. Em primeiro lugar, a
sensibilidade da pressão sanguínea ao sal não é característica do tipo “tudo
ou nada” — é característica quantitativa de modo que alguns indivíduos são
mais sensíveis que outros. Em segundo lugar, a sensibilidade da pressão
sanguínea ao sal não é característica fixa; pelo contrário, a pressão, em geral, fica mais sensível ao sal à medida que a pessoa envelhece,
especialmente, após os 50 ou 60 anos de idade.
A diferença entre esses dois tipos de hipertensão essencial supostamente
estaria relacionada às diferenças estruturais ou funcionais nos rins desses
dois tipos de pacientes hipertensos. Por exemplo, a hipertensão sensível ao
sal pode ocorrer em diferentes tipos de doença renal crônica, devido à perda
gradual de unidades funcionais dos rins (os néfrons) ou ao envelhecimento
normal, como discutido no Capítulo 32. A função anormal do sistema
renina-angiotensina pode também tornar a pressão sanguínea sensível ao
sal, como discutido antes neste Capítulo.
Figura 19-16. Análise da regulação da pressão arterial na (1) hipertensão essencial insensível ao sal e (2) hipertensão essencial sensível ao sal. (Modificada de Guyton AC, Coleman TG, Young DB, et al: Salt balance and long-term blood pressure control. Annu Rev Med 31:15, 1980. Com permissão da Annual Review of Medicine, copyright 1980, por Annual Reviews http://www.AnnualReviews.org.)